Primeira Melodia
7 CAPÍTULO VI - Promessa.
Alice não respondeu.
Os longos minutos em silêncio pareceram uma eternidade para Damen.
Os olhos escuros da Darcy encaravam seu rosto fixamente, e embora estivesse acostumado a sempre ter uma noção do que se passava pela mente da pianista, naquele momento, não fazia ideia.
Engoliu em seco, baixando os olhos para encarar as mãos ainda unidas, e apertou os dedos brancos e gélidos da garota. A manhã estava fria, e ela tinha esquecido as luvas.
— Eu... Vou pegar umas luvas para você...
Mas quando ele se levantou, Alice fez o mesmo. Ajeitou a bolsa no ombro e seguiu na direção da porta, sem conseguir olhar para o Lopez.
— Ally!
Ele se apressou para alcançá-la, agarrando seu antebraço.
Os olhos escuros voltaram a encará-lo, ainda mais frios do que antes, e uma onda de nervosismo tomou o estômago de Damen.
Teve certeza de que ela o odiava naquele momento, e aquilo o apavorou.
— Eu sei... Sei que não mereço nenhuma consideração, mas ainda assim... Nós sempre fomos amigos, Ally. Eu não quero...
Alice comprimiu os lábios. Ele pôde vislumbrar um brilho choroso em seus olhos, o que o impediu de continuar. Soltou o aperto, e a viu passar as mãos pelo rosto devagar — uma tentativa frustrada de afastar o choro.
— Como pode dizer isso?
Ela riu sem humor.
— Damen, nós nos conhecemos há anos. Acha mesmo que eu não ia perceber que tem algo errado? Como pode dizer que somos amigos quando você não me diz nada?!... Quando nem mesmo confia em mim?... Só me diz: por que isso agora?
O rapaz estreitou os lábios, incapaz de falar.
O que podia dizer, afinal?... Que não a merecia?
Não, aquilo só a chatearia mais. Ela se preocuparia, choraria e insistiria em uma relação que há meses estava falida, graças aos problemas dele.
Que estava apaixonado?...
Não.
Ainda que sentisse algo por Isabella, tinha plena consciência de que jamais ultrapassariam a linha da amizade. Alice só teria o ego ferido, e não suportaria a ideia de vê-la se ressentir pela amiga apenas porque ele tinha decidido se apaixonar.
Damen não se importava com a maioria das pessoas, mas a ideia de ser odiado por Ally era dolorosa, para dizer o mínimo. Então, simplesmente não conseguiu dizer nada… Embora seu rosto tivesse recuado com mais um espirro.
— Eu–... Eu sinto muito, Ally. Queria ser–... Diferente. — as frases eram pausadas pela sucessão de espirros — Queria ser alguém melhor... Queria ser alguém para você, mas não sou. Acho que, no fundo–... Você também sabe disso, não é?
Alice encarou seu agora ex-namorado, sentindo o peso da incerteza sobre seus ombros. Podia insistir… ou simplesmente deixá-lo em paz. Talvez fosse justamente o que Dam esperava.
Sabia que ele precisava de ajuda.
O rosto de Damen estava abatido, triste e assustado. É claro que algo estava acontecendo em sua vida, mas, se ele não estava disposto a compartilhar, o que mais poderia fazer?
Estava tão cansada, e já tinha tanta coisa na cabeça...
Há uma semana, jamais hesitaria em lutar por Dam — por seu melhor amigo… Por seu amor.
Naquele momento, no entanto, só conseguia lembrar do semblante da mãe após o anúncio do divórcio.
Alice precisava ajudar Eliza. Não só a superar o fim do casamento, como a evitar que caísse em armadilhas por conta do desespero. Precisava de foco, não do desgaste de lutar por um relacionamento que o outro lado não se importava em perder.
— Se é o que diz.
Foi tudo o que conseguiu falar antes de se afastar.
Desta vez, Damen não se moveu.
= ♫ =
— Foi um período em que a França...
Isabella espirrou mais uma vez.
Devia ser o vigésimo espirro nos últimos dez minutos, então o professor de história parou de ler, apoiando-se na mesa e fazendo um esforço para se acalmar.
Ele respirou fundo antes de voltar para a loira, que apertava o nariz com um lenço, em uma tentativa desesperada de evitar que o vigésimo primeiro espirro saísse.
— Senhorita Seymour... Talvez seja melhor ir buscar ajuda na enfermaria.
Apoiando a cabeça na mão, Alice observou a Seymour fungar, espirrar mais uma vez e concordar — cheia de constrangimento. Levantou-se com um semblante exausto, tentando reunir de forma apressada o material sobre a mesa.
— Desculpe, professor...
O senhor Smell dispensou o pedido de desculpas com um aceno, e voltou a falar quando a garota deixou a sala de aula, muito mais ameno.
Minutos depois, já na enfermaria, Isabella aceitou o lenço que o médico estendeu em sua direção.
O Doutor Henry Bedwyn era quase um evento para as garotas na British: um homem alto, com um bom corpo, olhos profundamente azuis e que ficava muito bem de jaleco.
Como se a beleza não fosse o bastante, ainda tinha uma personalidade gentil e um humor ácido, que o fazia colecionar admiradoras — e admiradores — pelos corredores British. Mas para Isabella, que tinha crescido entre os Darcy, pensar em Henry como qualquer coisa que não fosse uma espécie de parente era meio nojento.
— Está com febre. —Observou ele, após checar o termômetro.
Sua cabeça balançava em reprovação.
— Não devia nem ter vindo para a aula, Bella... Pelo menos tomou alguma coisa de manhã? Falou com seus pais?
Bells sequer tinha passado na casa dos Seymour antes de ir para o colégio.
— Acordei atrasada. — Mentiu. — Então só corri...
Um espirro escandaloso a interrompeu, e Henry se afastou para buscar a medicação.
— Vou te dar um antigripal que vai fazer você sentir um sono desgraçado. Talvez seja melhor ligar para seus pais...
— Não precisa!... Eles estão viajando.
Não era verdade, mas podia ser.
Lucca sempre estava viajando, e nunca se importou em avisar a família.
— Não posso ficar aqui? Prometo que vou ficar quietinha, me fingindo de morta. Não vou atrapalhar suas paqueras.
Ele voltou com a sobrancelha arqueada, estendendo um comprimido minúsculo cor de rosa que a garota engoliu.
— Eu não tenho paqueras na escola... Sabe que não é essa a minha preocupação. Também sei que não vai atrapalhar: você vai entrar em coma por conta do comprimido. Mas talvez...
— Se eu for pra casa só vou ficar sozinha de molho na cama. Prefiro ficar aqui, pelo menos você vai estar por perto se eu ficar pior... Por favor?
Henry estreitou os lábios e apoiou-se na parede, mas não demorou a concordar.
— Tudo bem, desde que deite e descanse. Se ficar muito tarde, eu tento te acordar.
Ela sentiu o corpo amolecer de alívio.
Aceitou uma manta reserva, que tinha cheiro de guardado, e afundou na maca, ouvindo o barulho da cortina se fechando ao seu redor, enquanto o doutor Bedwyn voltava aos seus deveres.
♪
Dylan fez uma careta enquanto movia lentamente o braço de trás para frente.
Durante o treino matinal, uma cãibra infernal tinha começado a fazer seu braço latejar, então o treinador o tinha despachado para conseguir uma compressa com o doutor Bedwyn.
Apesar de achar a ideia dispensável, o homem foi irredutível.
Ao identificar Alice se esticando para espiar o que quer que fosse pela pequena janela da porta da enfermaria, deixou de se importar tanto com a interrupção do exercício da manhã — o Montgomery se aproximou, sem que ela percebesse.
Conseguiu identificar o doutor Bedwyn, irmão de Hunter, enfaixando o tornozelo de uma aluna que não conhecia, parecendo tão simpático quanto todos o faziam parecer.
— Por que estamos espiando a enfermaria?
Ele sussurrou ao seu lado.
Alice deu um salto assustado que o fez sorrir.
Gostava de pensar que o fato de ela enrubescer daquela forma quando estavam perto era um sinal de que seu pulso, assim como o dele, começava a acelerar.
Dylan voltou a espiar a janela, embora não se importasse com a cena lá dentro.
— Eu não esperava que você fosse uma das seguidoras do irmão do Hunt, Ally.
Ele estalou a língua na boca, recostando na parede e fingindo decepção. O rosto de Alice, para seu prazer, ficou ainda mais vermelho.
— Claro que não sou. — Resmungou, voltando-se para a janela. — Ele é meu tio.
Aquilo o surpreendeu.
— Seu tio?... Então, Hunter...
— Eu tenho uma família complicada. — Alice suspirou exausta, voltando sua atenção para o amigo, finalmente percebendo os cabelos molhados. — Se machucou na natação?
— É só uma cãibra. — Ele balançou a cabeça para despreocupá-la — Vim buscar uma compressa… Mas vamos voltar, por favor. Como assim, Hunter é seu tio?
Os olhos de Dylan ainda estavam ligeiramente arregalados, o que a fez achar graça.
— Primeiro as prioridades. — Ela deu os ombros, abrindo a porta antes que ele pudesse insistir naquele assunto.
Os olhos azuis do doutor Bedwyn eram exatamente iguais aos de Hunter, e se voltaram na direção de Alice e Dylan quando a porta se abriu de repente.
— Desculpem... Incomodar. — Alice começou, voltando a sentir o rosto esquentar.
Ela conhecia Yanna Jones, a veterana que Henry estava tratando.
Era uma das garotas populares da escola, e apesar de ser uma das gentis, nunca tinham trocado mais do que meia dúzia de palavras nos corredores.
Alice a cumprimentou com um aceno envergonhado — que Yanna retribuiu com um de seus sorrisos brilhantes.
— Vim saber da Bells e encontrei o Dylan no caminho... Ele precisa de uma compressa.
Aquilo pareceu aliviar o médico, que concordou com a cabeça.
— Eu sou Dylan, a propósito. — O Montgomery se aproximou, estendendo a mão para o doutor e sorrindo ao cumprimentá-lo. — Hunter e eu temos algumas aulas juntos, ele falou muito do senhor.
— Pode me chamar de Henry.
O médico piscou o olho para o rapaz e se afastou para buscar a compressa.
— Bella está dormindo em um dos leitos, Ally. Está meio resfriada, então é melhor deixá-la descansar... Os pais dela estão mesmo viajando?
Alice não fazia ideia, mas deu os ombros.
— Sempre estão.
Henry voltou, estendendo uma bolsa morna na direção do Montgomery.
— Dylan, você parece um cara legal. Yanna aqui torceu o pé num treino das líderes de torcida... Pode ser gentil levá-la de volta?
— Claro, senhor-... Henry. — Ele se corrigiu quando viu o franzir das sobrancelhas do mais velho, e ofereceu o braço à Yanna Jones, como um cavalheiro.
Alice acenou quando a garota se despediu, e os observou seguirem para fora da sala com uma sensação esquisita no peito — que preferiu ignorar.
— Como está sua mãe?
Henry pousou uma mão em suas costas e a guiou para sentar-se no banco que a veterana tinha ocupado um minuto antes, distraindo sua atenção. Alice percebeu, pelo tom preocupado, que a notícia do divórcio dos Darcy já chegara aos ouvidos dos Bedwyn.
— Ela vai ficar bem.
Deu os ombros, voltando a sentir o cansaço da noite mal dormida.
O médico observou a sobrinha por um momento antes de se aproximar, ocupando a cadeira à frente e puxando suas mãos. Ele afagou os dedos duros e calejados, esfregando com carinho para aquecê-los.
— Sei que é difícil para você também, mas não deixe isso machucar mais do que o necessário, sim? Foi uma decisão dos seus pais... Você não podia fazer nada a respeito.
Alice acenou devagar, encarando as mãos unidas.
— Minha mãe te contou?
Era estranho pensar em Eliza compartilhando algo tão pessoal com Henry, considerando que nunca foram próximos.
— Clark.
Isso fez mais sentido.
Tio Clark era o irmão mais velho dos Bowman, e sempre tinha sido o coração mais mole da família.
Como gêmeo de Eliza, estava especialmente sensibilizado pelo divórcio dos Darcy, então não era de se surpreender que compartilhasse a informação com o restante da prole Bowman — que por bem ou por mal, incluíam os Bedwyn.
— Se puder ajudar em qualquer coisa, não hesite em me chamar, ok?
Alice sorriu sem jeito e acenou.
— Obrigada, Henry.
Ele apertou as mãos da garota.
— Seus pais tinham um relacionamento complicado, com muitas cicatrizes. Eles passaram por muita coisa, e talvez... — Hesitou. — Talvez precisassem se afastar para continuar se respeitando, entende?
Não, ela não entendia.
Também não queria falar daquilo, já que a ideia de separação agora a fazia pensar em sua situação com Damen.
— Às vezes, colocar um ponto final é a melhor coisa que um casal pode fazer pela sua relação. E se afastar... Pode ser a melhor coisa que você faz por alguém que você ama.
Alice apertou os olhos, porque aquela conversa definitivamente soava como a postura de Dam naquela manhã. Não queria chorar, então respirou fundo, devagar... E apertou a mão do tio com carinho, esperando que ele já tivesse terminado com o discurso.
— Posso ficar com a Isabella? Até ela acordar.
— Claro, querida…
O médico levantou, beijou a cabeça da sobrinha, e a deixou se afastar com a cadeira.
Quando Isabella abriu os olhos, já tinha anoitecido.
Henry a tranquilizara sobre a febre, mas Alice duvidava que ela estivesse bem.
Bells nunca ficava bem quando adoecia.
De repente, interrogá-la pareceu tão idiota e sem sentido que ela se sentiu mal quando a loira sorriu ao reconhecê-la.
— Hey, estranha...
— Está se sentindo melhor?
Alice ajeitou a manta verde sobre a amiga, tentando ignorar a culpa que estava começando a consumi-la. — Henry falou que estava com enxaqueca mais cedo... Aqui, tome um pouco de água.
Isabella sentou devagar, sentindo suas juntas doloridas com o processo.
— Não precisava ficar de guarda...
Aceitou a garrafa de água e deu goles pequenos, aproveitando a sensação de ser cuidada.
Não era um sentimento muito comum na vida de Isabella, mas impressionantemente, a maior parte de suas lembranças sendo cuidada eram ligadas aos Darcy.
Às vezes, sentia falta daquilo.
Mesmo assim, quando sentiu que estava com voz, falou:
— Você não devia estar aqui. Damen deve estar resfriado também... Ele caiu na piscina ontem, em uma festa da universidade.
Os ombros de Ally se aprumaram, e ela pareceu surpresa.
— Vocês... estavam juntos?
Isabella conhecia Alice bem o suficiente para entender o tom de desconfiança implícito na voz tímida, e também a conhecia o suficiente para saber que não confiava plenamente nela...
Não mais.
Ainda assim, aquilo doeu.
— Eu fui buscar a Maya. — Explicou devagar. — Precisei ajudar ele a sair da água.
Talvez ela estivesse certa em desconfiar.
— Ele rompeu comigo.
As palavras fizeram Isabella esquecer seus devaneios, e os olhos claros se ergueram lentamente na direção da amiga, surpresos.
Alice encarava as próprias mãos, e Bella percebeu que seus olhos estavam ligeiramente inchados. Ela coçou o nariz, tentando engolir o próprio choro, e... Para ser sincera, Isabella não soube ao certo como reagir àquela informação.
— Ele não me explicou o motivo, mas eu tenho algumas teorias.
— Damen nunca faria isso com você, Ally... — A loira puxou as mãos da Darcy, apertando com carinho. — Não fique pensando demais, você sempre faz isso. Ele não estava com ninguém. Ontem... Eram só ele e a Maya.
— Eu sei que ela é sua amiga. — Alice franziu os lábios, dando os ombros. — Mas Maya é “alguém”, Bella. Ele se afastou desde o dia da formatura. Nem fala comigo, mas continua saindo com ela. Não me viu na apresentação, mas foi comemorar com ela, então, talvez...
Era difícil de contra-argumentar.
— Não quero pensar nisso... Não mais. Passei a manhã inteira me perguntando o que eu podia fazer. — Ela balançou a cabeça. — Mas tenho um problema tão maior que me preocupar com um cara que nem pensa em mim beira a estupidez.
— Eu não acho que ele...
Alice balançou a cabeça, dispensando o que quer que ela tivesse a dizer.
— Esquece, por favor. Não quero pensar nisso agora... Preciso te perguntar algo. Sobre seu pai, e espero que seja sincera.
Encarou a loira com seriedade.
— Meus pais estão se divorciando.
A outra entreabriu os lábios, chocada.
— Eu quero saber se Lucca já partiu para cima da minha mãe.
Um suspiro longo escapou dos lábios dela, que sentiu a cabeça voltar a doer.
♫
A primeira lembrança viva de Isabella era de uma tarde de inverno, quando foi entregue por uma mulher à Lucca Seymour.
Não sabia se era parte de um orfanato ou se a mulher era sua mãe, mas lembrava-se de ser levada até uma loja cara pelo homem. De ser colocada em um vestido dourado muito bonito, que a fez sentir-se uma boneca quando olhou no espelho.
O senhor Seymour sorriu diante da visão e a rodopiou. Depois a puxou para o colo, ajeitou os cabelos loiros parecendo muito orgulhoso e a chamou de tesouro.
— Agora vamos para sua nova casa.
Parecia o início de um conto de fadas, mas foi o começo de um pesadelo.
Margareth Seymour era oficialmente esposa de Lucca, mas eles já estavam separados muito antes de Isabella chegar à família. É claro que isso não a impediu de odiá-la, imaginando que fosse fruto de algum caso extraconjugal do marido.
Para os irmãos, Joshua e Zachary, a menina não era nada além de um incômodo.
Alguém a mais para a divisão da herança algum dia, alguém a mais para distrair a atenção do pai, que nunca tinha se importado com nenhum dos filhos — e que também jamais se importaria com ela.
A esperança de conquistar as graças da nova família se esgotou rapidamente.
Mesmo tão jovem, Isabella conhecia o bastante da vida para saber que às vezes, você precisa ficar fora do caminho das pessoas, especialmente adultos — e foi exatamente isso o que fez desde o começo.
Em setembro do ano seguinte, em seu primeiro dia de aula, Lucca voltou a vesti-la como uma boneca e a levou para a British em seu carro particular. Segurou sua mão e a guiou até uma mulher que ajeitava o uniforme de uma garotinha.
Eram Eliza e Alice Darcy.
— Então você deve ser a famosa Isabella.
A senhora Darcy era linda: tinha cabelos castanhos longos e ondulados, que ficavam perfeitos até mesmo na confusão das ondas.
— Esta é Alice.
Eliza se agachou e chamou Isabella com a mão, indicando que se aproximasse. Como o senhor Seymour acenou em aprovação, ela obedeceu.
— Vocês têm a mesma idade, não é legal? Podem ser amigas, como eu e o papai.
Isabella não tinha amigos, então lançou um olhar ansioso para a outra garota. Esperava que, diferente dos irmãos, ela pelo menos não a desprezasse logo de início.
Por sorte, Alice retribuiu seu olhar com um sorriso igualmente ansioso, e dali para frente, duas garotas solitárias tinham uma a outra — e tornaram-se inseparáveis pelos próximos nove anos.
Elas compartilhavam brinquedos, lanches, roupas e curiosamente, até mesmo o aniversário, em 14 de fevereiro.
O aniversário de Alice nunca era realmente comemorado pelos Darcy, no entanto. Isabella, por outro lado, era sempre a protagonista de bailes gloriosos onde o pai gostava de exibi-la como troféu.
Na maioria dos anos, Eliza pedia permissão a Lucca para que a garota passasse a noite pós-festa na casa dos Darcy, onde as meninas sempre ganhavam um pedaço de bolo (ou um brownie, ou muffins, ou panquecas) com uma vela acesa no topo antes de irem para a cama.
— Não se esqueçam do desejo. — Aconselhava antes das meninas assoprarem.
Isabella sempre soprava antes de Ally, porque só tinha um desejo na vida: “que no próximo ano eu também esteja aqui”.
Não tão inesperadamente, com o passar do tempo, ela começou a se sentir muito mais confortável entre Eliza e Alice do que com qualquer membro de sua própria família.
Ally era sua melhor amiga, e por mais que a senhora Darcy fosse ocupada, sempre a recebia com sorrisos calorosos que eram opostos ao clima gélido e hostil de sua família.
Tudo ficou mais complicado no verão de seus doze anos.
Àquela altura, Isabella já tinha entendido que devia ser mesmo filha de Lucca, e embora o homem fosse o mais próximo de um “cúmplice” entre os Seymour, a verdade é que ele era tão indiferente a ela quanto a qualquer um.
Não era um pai.
Então, quando Isabella sofreu uma queda na aula de ballet que a fez parar no hospital, não foi nenhuma surpresa que Lucca, ao invés de voltar da viagem de negócios para cuidar da filha, enviasse o motorista da família para levá-la para casa.
— Isso é terrível, papai. — Alice argumentou com o senhor Darcy na época. — Se não cuidarem bem dela, o pé não vai melhorar e ela não vai mais conseguir dançar. Ela adora dançar... Não podemos levá-la para casa?
Foi a primeira vez que Robert Darcy encarou seus olhos.
Todos sabiam que o senhor Darcy não gostava do pai dela, assim como todos sabiam que Margareth não gostava da senhora Darcy. E embora o pai de Ally nunca tivesse sido particularmente próximo à Isabella, acabou aceitando o pedido da filha.
Ela passou dois meses como hóspede dos Darcy, e foram os melhores de sua vida.
Como estava voltando de uma temporada, Robert tinha muito tempo vago em casa, e gostava de ficar com as meninas.
A ajudava a colocar a matéria em dia e no tempo que Alice passava na escola, tentava ensiná-la a tocar alguma coisa — apenas para não deixá-la sozinha.
Ele falhou miseravelmente, é claro: Bella não tinha nenhum talento ou paciência para lidar com instrumentos, mas tinha uma voz doce e melódica, que o senhor Darcy ficou decidido a ensiná-la a usar.
Foi também o senhor Darcy que a ensinou a amar o cinema e o teatro.
Durante aqueles saudosos meses, passaram inúmeras madrugadas assistindo clássicos enquanto Alice dormia entre os dois, diversas manhãs compartilhando opiniões e julgamentos sobre esses mesmos filmes — ou peças — e tardes cantando duetos escandalosos, que frequentemente irritavam a Darcy mais jovem, apesar de divertirem à mãe dela.
Naquele curto período, Robert Darcy se tornou seu adulto favorito no universo.
— Queria que seus pais tivessem me adotado.
Ela confessou à amiga em sua última noite, enquanto compartilhavam a cama no quarto de hóspedes que Isabella ocupara desde o acidente. Alice não respondeu com nada além de um sorriso sem jeito, mas ela a ouviu chorar naquela noite, quando achou que Bella estivesse dormindo.
Mais tarde, o senhor Seymour apareceu para buscá-la.
Rob — era como Bella passou a chamar o senhor Darcy durante aqueles dias — tinha saído com Alice para a escola, então coube a Eliza entregar a menina ao pai.
Isabella ainda não podia andar com muita liberdade, e muito menos carregar peso, mas mesmo assim arrastou sua bagagem para a sala de estar naquela manhã.
Foi quando flagrou Lucca Seymour roubar um beijo longo da mãe da amiga bem no meio de sua sala, às vistas de qualquer um que estivesse em casa, ou que espiasse pelas janelas enquanto andava pela rua.
— O que está fazendo?
Apesar de se esquivar, a senhora Darcy não pareceu muito surpresa.
— Eu senti sua falta, oras.
Como percebeu a presença da garota nas escadas, Eliza o ignorou.
— Bells!... Meu bem, você não devia pegar peso.
Ela foi até a garota, afastou a mala de suas mãos e a ajudou a descer os degraus.
— Bella precisa fazer os exercícios pelo menos três vezes por dia, entendeu?... Religiosamente. O fisioterapeuta disse que ela está indo muito bem, mas não podemos descuidar agora…
Observando o rosto de Lucca, a garota soube que ele não se importava nem um pouco com os avanços em sua fisioterapia…, mas pela primeira vez em anos, notou algo que parecia se importar: a opinião de Eliza Darcy.
Ele fingiu entender e se preocupar, e antes de partir, puxou a filha para o colo e agradeceu à hospitalidade.
Isabella não contou aquilo à Alice.
Dois anos depois, durante a madrugada de 14 de fevereiro, em sua fase mais rebelde, a amiga de quatorze anos invadiu a sua casa.
Alice nunca tinha se importado com festas, mas naquele ano estava especialmente chateada com os pais por não ter uma.
— Não entendo por que me adotaram.
Bells ergueu o rosto e encarou a Darcy encolhida na cama, abraçando as próprias pernas enquanto escondia o rosto nos joelhos.
— Seus pais te adoram, Ally.
A morena negou com a cabeça, engolindo o próprio choro.
— Às vezes acho que eles gostam mais de você do que de mim... Devíamos mesmo ter trocado, eles te adotavam e eu ficava com os Seymour. Vocês iam ser mais felizes, e não ia fazer muita diferença pra mim.
A loira soltou uma risada sem humor.
— Às vezes você fala muita besteira, francamente... — Ela se aproximou, puxando o rosto da amiga para obrigar a olhá-la. — Não teria graça nenhuma ser filha dos Darcy se você não estivesse lá para ser minha irmã, ouviu?
Os orbes chorosos de Ally se cerraram, emotivos.
— Além disso, se não tivesse conhecido Rob, nunca teria aprendido a tocar. Já parou para pensar na sua vida sem um piano?... Não seja boba, Ally. Você tem muita sorte por seus pais, então não pense besteira só por causa de uma festa idiota. Acredite em mim: elas não são nada em comparação às nossas noites das meninas.
Ally respirou fundo, tentando se recuperar — e concordou, por fim.
— Tem razão... É nosso aniversário e estamos juntas, então vamos fugir, comprar bolinhos e ter uma noite das meninas.
— Fugir às uma da manhã?
Isabella riu com a ideia, mas quando Alice deu os ombros, ela simplesmente levantou.
— Acho que vamos ter que nos contentar em assaltar a geladeira.
Enlaçando seus braços, ela arrastou a amiga para fora da cama e a guiou silenciosamente pelos corredores da mansão Seymour.
Elas estavam andando de fininho pelos corredores do lugar, como era costume ao longo das raras visitas da Darcy, quando escutaram um som choroso e abafado vindo de dentro do escritório de Lucca — que coincidentemente tinha a porta entreaberta.
Isabella não gostou daquilo.
Tentou puxar a amiga, mas Alice reconheceu o som — e foi atraída pela fresta da porta como uma mariposa pela luz.
A aproximação apavorou Isabella.
— Alice!
Ela exclamou alto mesmo, muito assustada para conseguir se conter.
Nunca soube ao certo o que a amiga tinha flagrado naquela sala, mas Ally empurrou a porta com tanta força que a madeira fez um estrondo ao bater na parede.
Encarou a cena do escritório com raiva palpável, e lançou um olhar de decepção à Isabella antes de se afastar, correndo para as escadas.
Em menos de um minuto, Eliza corria atrás dela.
Isabella não conseguiu se mover, mas quando o pai se aproximou, minutos depois daquilo, afagou os cabelos dourados com certo orgulho. Beijou o topo de sua testa e a parabenizou, como se não tivesse acabado de estragar a única parte boa de sua vida.
Aquele foi o início do fim da amizade das duas.
♫
— Como assim, divórcio?
Isabella estava realmente confusa.
Nunca pensou que os Darcy fossem se divorciar, apesar de toda a droga com Lucca.
— Meu pai pediu o divórcio. Não acho que seja por causa do senhor Seymour, mas quero saber se minha mãe e ele... — Ela apertou os olhos, como se tentasse afastar alguma imagem de sua cabeça. — Por isso quero que seja sincera: eles estão se encontrando?
— Por que eu não seria sincera?
A loira soltou um suspiro exausto e pressionou a fronte.
— Não sei porque age como se eu gostasse disso. Não tenho culpa do caso deles.
As palavras simplesmente saíram de sua boca sem pensar.
O remédio, percebeu, a deixava lenta, confusa e falante.
— Ou o quê? Você acha que entrei em um complô com Lucca para roubar sua mãe do seu pai?... Acredite: sou a última pessoa que gostaria de ver qualquer um metido com aquelas pessoas.
Alice continuava firme no banquinho da enfermaria, a encarando com tanta seriedade que esgotou a pouca energia que sobrara à amiga. De repente, se esconder embaixo da manta parecia a melhor ideia do mundo.
— Se vai me irritar, só vá embora.
Voltou a se acomodar na maca.
A morena engoliu em seco e aprumou os ombros, como costumava fazer quando estava nervosa. Então baixou os olhos para as próprias mãos e balançou a cabeça, pensando muito antes de voltar a falar.
— Preciso saber se eles estão se vendo porque se estão, preciso da sua ajuda para mantê-lo longe dela.
Isabella voltou a olhá-la, ainda mais confusa.
— Ally... Não temos mais essa idade. Eles são adultos. Não vamos poder fazer nada caso se gostem. Você devia cuidar da sua vida, ir atrás do seu namorado, isso sim. Damen não está bem, eu acho... Talvez, se você insistisse...
— Insistir não é resposta com Damen, Bells.
A pianista voltou a se levantar. Cruzou os braços e começou a dar voltas na enfermaria, refletindo sobre a confusão dos últimos dias.
— Não posso fazer nada se ele não confiar em mim... Mas minha mãe? Lucca é um homem esperto, e nós duas sabemos que é... Estranho. Obcecado quando se trata dela. E agora ela está–...
Balançou a cabeça, sem conseguir expressar com palavras.
— Sei que aquele homem vai se aproveitar disso. Você também sabe, não? O conhece melhor do que ninguém. Então, dessa vez…
Alice respirou fundo.
— Por favor, me conte se souber de algo.
Isabella sentiu o nó na garganta a impedir de falar, mas acenou em concordância.
Alice se aproximou, estendendo o dedo mindinho em sua direção.
— Promete?
Respirando fundo, a loira esticou a mão, enlaçando os dedos mindinhos.
— Eu prometo que vou contar... Mas não acho que vamos poder fazer nada, se eles decidirem ficar juntos.
— Isso fica por minha conta.
Alice decidiu por fim.
~ ♫ ~
Fale com o autor