Primeira Canção
8 À família!
Notas iniciais
bom, é isso que eu tenho a dizer. Beijos e boa leitura.
Ao notar que estava escorada no piano preto tropeçou em um copo que estava no canto, provavelmente seu pai o deixara ali, fazendo um barulho enorme. Quase caiu de cara nele enquanto dava um baixo gritinho de susto, conseguiu se recuperar e aos poucos abriu os olhos para dar de cara com o belo instrumento preto. Recompôs-se calmamente tomada por uma onda de pensamentos.
Passeou os olhos pelas teclas e lembrou-se de detalhes que nunca imaginaria poder recordar. A sua primeira audição no teatro municipal de Belo Horizonte aos quatro anos de idade. Seus dedos ainda pequenos tocando a abertura de um show de musica clássica com certa dificuldade, mas com imenso prazer. Lembrou-se dos calorosos aplausos daquele dia, da platéia sorrindo pra ela quanto ficava de pé em cima do acento para todos poderem vê-la melhor, com seu vestidinho branco de chiffon com cetin que sua mãe havia escolhido na noite anterior. Ela foi a estrela daquele dia. Ao sair do teatro, no colo de seu pai, lembrava-se de querer voltar e continuar a tocar infinitamente.
Passou os dedos sobre as teclas querendo, desesperadamente, poder saber de verdade o que havia a levado a desistir. Ao parar da décima tecla lembrou-se de seus dez anos de idade, em mais um show que dera. Tocando uma musica de renome que era sua preferida, Four Elise. Ao acabar de tocar, foi aplaudida com calor. E ao entrar nos bastidores, um homem, que de primeiro momento ela pensou parecer com seu avô, a parabenizou e disse que tinha um talento maravilhoso, ele deu-lhe um beijo na testa e foi conversar com seu pai com um sorriso genuíno, enquanto Bella pensava se um dia poderia ser aplaudida de pé.
E por ultimo, enquanto chegava ao final das teclas, ela se relembrou, com exatidão dolorosa, aquela noite no shopping do Rio de Janeiro onde desistiu de tudo. Tocou por ultimo suas três musicas preferidas: Yanni — One Man´s Dream, Michael Nyman — The Heart Asks Pleasure First e por ultimo Beethoven — Moonlight Sonata. Foi naquele dia que o publico se levantou, realizando seu sonho de infância. Todos sorriam, alguns abobados pelo talento da garota de dezesseis anos que tocava pela ultima vez aquela noite, outros felizes pelo sucesso já conhecido que era aquela garota. No dia seguinte, a nota no jornal, informando o sucesso da apresentação sem fins lucrativos que ela fizera aquele dia, sua foto bem grande no inicio da matéria no lado esquerdo da folha. O titulo a assustara, porque não sabia tamanho era seu talento “a garota que conquistou o Brasil em mais uma apresentação perfeita”. Ainda tinha essa matéria enquadrada no fundo de seu guarda roupas – obras de sua avó, que resplendia o orgulho da neta prodigiosa.
Saiu de seus devaneios quando escutou o barulho de alguém atrás dela. Virou-se, levou um susto ao ver aquela sombra de ombros largos e cabelos desgrenhados. Soltou outro gritinho assustado enquanto o vulto começava a falar.
–Bella? – seu pai perguntou, ela suspirou relaxando com a mão no coração.
–é você. – disse com desdém.
–desculpe ter te assustado. Iria tocar? – ele perguntou e ela o imaginou olhando para o piano.
–não. Apenas beber água.
Chorou aquela noite. Chorou ao ver que sua atitude imatura de querer magoar seu pai a tinha atingido como uma bomba estourada no coração de alguém. Doeu muito mais nela do que em qualquer outra pessoa. Magoou muito mais do que tivera magoado seu pai. Deitada naquela cama ela se perguntou internamente o que ela tinha feito com sua vida.
(*)(*)(*)
Foram três dias sem ver Alice.
Ao acordar no dia seguinte com uma dor de cabeça horrorosa por ter chorando toda a madrugada, viu com desanimo que a chuva caia lá fora, trazendo um brilho cinza ao seu quarto mal iluminado. Levantou-se a contragosto e esfregou os olhos. Viu o celular na mesinha de cabeceira e consultou as horas. Já eram sete e meia. Levantou-se e se vestiu com o celular na mão, esperando a mensagem prometida. Que não veio.
A tarde chuvosa passou-se chata e preocupante. Bella não parava de pensar em Alice. Onde essa menina havia se enfiado?, pensava. Evitou passar pela sala de piano. Mas o barulho era insistente, seu pai não o havia parado de tocar desde o almoço e já era quatro da tarde! Pensou em sair de casa, mas com esse tempo praia não era um lugar muito agradável de ir.
Quando era menor e vinha passar os fins de semana na casa de praia lembrava que nos dias de chuva ela e seu pai se sentavam para conversar sobre partituras, bebiam chocolate quente e assistiam televisão. Agora, ela estava sentada na cama terminando de ler Kim Edwards em seu quarto. Um vendo frio invadiu o cômodo de repente, ela ficou de quatro em cima da cama e fechou a janela com uma mão enquanto a outra puxava as cortinas amareladas de seu quarto. Sentou-se novamente sem paciência para ler a ultima página. Forçou-se mais um parágrafo, mas não resistiu e colocou o livro no pé da cama. Suspirou. Deitou-se com impaciência, e cobriu os ouvidos com o travesseiro para parar de alguma forma a musica. Acabou dormindo às quatro e meia da tarde aninhada pela sua canção de ninar favorita tocando ao piano.
Dizem que quando você sonha com uma pessoa é porque ela dormiu pensando em você. Bella se animou ao pensar nisso. Edward Cullen havia dormido pensando nela. Sonhou com ele essa noite. Era confuso, ele estava desfigurado, caracterizado apenas por aqueles belos cabelos acobreados balançando ao vendo. Ele nunca ficava perto dela, por mais que Bella corresse, ele estava sempre se distanciando, e isso a estava deixando-a agonizada. Não pode dizer que foi realmente um sonho, parecia mais um pesadelo horrível, estar sem ele gerou uma fadiga tão grande que nunca pensou em experimentar. Balançou a cabeça tentando não se lembrar disso.
Ao colocar o pé direito no chão notou que aquela massa cinzenta não havia saído de orbita durante a noite. A chuva caia fina e insistente, demonstrando que ficaria nesse não-vai-nem-racha o dia inteiro. Trocou de roupa e desceu para fazer o café da manhã. Estava decidida a ser mais legal com Felipe. Já seu pai... bem, era outra história, que ela estava afim de evitar agora. Fez o café da manhã, usando uma receita de panquecas que não sabia que ainda se lembrava. A ultima vez que havia feito-as era quando Ângela havia terminada com o namorado e ela foi consolar a amiga. Suspirou. Ângela… havia se esquecido da amiga, decidiu ligar pra ela hoje.
Fez um suco de algumas laranjas que estava na fruteira da cozinha pequena, era o preferido de Felipe, ele iria gostar. Sentou-se na mesa e aguardou os dois descerem. Mas quando percebeu que já eram oito da manha, viu que eles não chegariam. Já haviam saído, ela não tinha cordado cedo o suficiente aquele dia. Tomou café da manha sozinha. Escutando o barulho das ondas quebrando bem perto de sua casa, elas, agora, eram sua única companhia.
Não havia muito que fazer, era uma manhã chata, onde a garoa fina caia insistente e ininterrupta. Sozinha em casa a tentação de tocar era ainda maior. Em uma certa hora ela chegou a se sentar em frente ao piano. Analisou cada tecla e se imaginou tocando novamente, como viera fazendo tantas vezes. Saiu dali exasperada, jogou-se na cama e pensou, novamente, como andava sua vida – isso já estava virando um habito incomodo.
Pegou o celular na mesinha de cabeceira e acionou o numero 2 de discagem rápida. Ela atendeu na terceira chamada.
“Oi, Bella! Achei que tivesse se esquecido de mim, demorou a me dar noticias.”
“desculpe, mas é que tudo aqui está tão complicado”
“tudo bem, eu te perdôo. E então, o que há de errado?”
“tudo me trás lembranças. E minha relação com meu pai, você sabe, não é das melhores”
“deixa de teimosia Bella. Conversa com ele, deixa de ser turrona. E o Felipe está bem?”
“muito feliz com minha mudança de humor recente.”
“mudança de humor?”
“sim, eu… resolvi que está na hora de fazer as coisas serem diferentes. E eu vou sim, Ang, entrar na faculdade.”
“nossa! Mas é muita informação para apenas uma pessoa em um dia! Quem foi a pessoa maravilhosa que te fez mudar? Algum garoto em questão?”
“não, nem quero saber disso agora. Uma garota, Alice. Por falar nela, estou ficando preocupada, ela não deu as caras hoje, nem um telefonema, e ela teve um comportamento estranho antes de ontem na praia.”
“já tentou ligar pra ela?”
“claro, de meia em meia hora, mas ninguém atende. Agora só dá fora de área ou desligado, o que acha que eu deva fazer?”
“ela deve estar precisando de um tempo, ninguém consegue te aguentar por mais de quinze dias sem precisar de um tempo sozinha.”
“engraçadinha. E você, com esse bom humor tudo, algo deve estar acontecendo. Alguma novidade?”
“já que perguntou. Ben me pediu em namoro semana passada!”
E continuou a discursar sobre seu atual namorado. Àquelas horas sentada na cama sozinha em casa a fez bem. Conversar com Ang mais ainda, a fez perceber que ela tem, sim, alguém na sua vida. As duas ficaram jogando conversa fora por mais de duas horas quando finalmente os meninos chegaram. Ela tinha que começar a fazer o almoço, então, relutantemente, ela se levantou da sua zona de conforto e desceu as escadas arrastando os pés.
Depois de um demorado e silencioso almoço, Bella juntou toda a louça e as lavou em menos de vinte minutos, partindo para o fogão logo em seguida. Terminou tudo em uma hora, mas assim que se viu livre desejou ter mais um pia de intermináveis panelas para lustrar no cômodo de baixo. E mais uma vez ela esta estava sem nada para fazer naquela casa. Após trinta minutos decidiu que já era hora de uma faxina no seu quarto. Começou pelo seu guarda roupas, estava lotado de coisas sem importância, papeis de compras, balas, embalagem de chicletes, toda aquela parafernália que quando um adulto vê se pergunta de onde é que um adolescente consegue tirar tudo aquilo e enfiar dentro de sua gaveta com tanta naturalidade.
Jogou tudo em cima da cama. Dobrou novamente cada peça de roupa e recolocou-as no cabide, uma por uma. Jogou fora todos os papéis deixando os comprovantes esticados bem cima da cômoda, para depois grampeá-los e guardá-los em local separado. Ajeitou os sapatos na cômoda e os perfumes e cremes em cima da mesma. Trocou sua roupa de cama, e o carpete no chão. Varreu o piso e limpou as janelas com álcool. Passou lustra-móveis em toda a madeira do quarto e deitou-se exausta na cama, olhando para o céu através de sua janela. Suspirou.
O papo com Ang realmente a havia aliviado, viu em diversas vezes que a amiga se sentia um pouco enciumada por Bella ter, finalmente, trocado de personalidade por uma estranha, coisa que Bella não conseguiu fazer mesmo estando com ela nos momentos mais difíceis da sua vida. Mas Bella sabia reconhecer que a única coisa que Ang queria era apoiá-la. Levantou-se pensando nela e foi tomar um demorado banho.
Sentou-se na cama e começou as ligações intermináveis para Alice. Depois da décima quinta resolveu que era hora de deixá-la em paz um pouco. Passou a ligar e mandar mensagens em intervalos regulares, de meia em meia hora. Quando achou que era importuno demais enterrou o celular no fundo de uma bolsa qualquer para que não corresse o risco de tentar ligar novamente.
Sentiu o cheiro de comida na cozinha, parecia sopa ou algo assim. Desceu cuidadosamente a escada, e espiou Felipe deitado no sofá folheando uma revista. Ela se sentou ao pé da escada e ficou a admirá-lo até ver seu pai entrar na sala com um prato de sopa nas mãos.
–será que a Bella vai querer? – Felipe perguntou enquanto soprava a primeira colherada.
–por que não pergunta a ela?
–estou comendo, papai. Será que...
–claro, claro. Eu vou lá, querido.
Ele se levantou do sofá enquanto Bella fazia uma corridinha silenciosa até o quarto e se acomodava em sua cama com um livro que não sabia o titulo nas mãos. Viu seu pai hesitar na estrada e dar o primeiro passo cambaleante. Isso era, de acordo com um livrinho de psicologia barata, uma atitude que quem tem medo da outra pessoa. Será que meu pai tem medo de mim?, pensou de repente e teve um arrepio ao responder àquela pergunta. Sim, ele tinha, do modo errado, mas tinha!
–posso entrar? – por um segundo ela pensou em dizer “já entrou!” , mas se recompôs a tempo de dizer um:
–fique a vontade. – seu pai arregalou os olhos como se estivesse ouvido a coisa mais anormal do mundo.
–quer jantar conosco? Fiz aquela sopa que você gosta. – ele disse calmamente, escolhendo as palavras com cuidado, para não tropeçar ou gaguejar.
–sim, eu quero. Já está pronta? – se fez de desentendida.
–sim, vamos descer.
Notas finais
Então o que acharam? Eu disse que não iriamos ter Cellens dessa vez! o proximo cap tem beijo, dessa vez eu juro de pé junto.
beijinhos pro cês, e espero um Review seu!!
Fale com o autor