Notas iniciais
estou escutando Beethoven - Fur Elise. Aquela musiquinha que toca em alguns porta-joias quando vc os abre. e sinceramente, é uma otima múscia.
beijinhos, e boa leitura!

Quando terminou o curativo, Bella achou melhor levar Alice, com medo de que um dos rapazes a cercassem em casa. Pegou o carro do pai, a chave sempre ficava no chaveiro na cozinha bem perto do telefone. Saíram juntas ainda pela porta dos fundos. Ambas abriram as portas na mesma hora e se acomodaram no carro de couro preto. Foi um caminho silencioso, interrompidos apenas quando a baixinha ditava as coordenadas para chegar a sua casa. Ela parecia que iria explodir de tanta raiva a qualquer momento. A certa altura, em uma curva acentuada para a esquerda, o celular de Alice tocou, mas não foi atendido, causando certa intriga na outra garota, que não se opôs.

–sabe, eu só escutei sua voz duas vezes. Você não é o que podemos chamar de falante, não é? – ela deu um sorrisinho amargo enquanto continuava – Bom... – ela viu que Bella havia parado em sua casa, então prosseguiu rapidamente – poderíamos sair amanhã. O que acha? Para eu conhecer minha salvadora – ela falou tudo vagarosamente, medindo as palavras – toma, – estendeu um papelzinho – esses são os meus números de telefone. Se quiser me liga. – ela já ia descer do carro enquanto Bella analisava o bilhetinho. –e... Bella? – chamou, já do lado de fora, mas com a porta aberta. – Muito obrigada pelo que fez comigo essa noite. – e saiu, sem mais delongas.

Fez todo o caminho de volta pensando no que havia acabado de acontecer. Isabella nunca havia feito nada que se comparasse a isso: intrometer-se na briga de dois marmanjos para tirar uma garota que nem conhecia do meio da discussão, colocá-la dentro de sua própria casa e a cuidar com tanto amor. Também se pegou fazendo-se a seguinte pergunta: o que foi aquilo na cozinha quando a musica começou a tocar? Ela não se importava com sua atitude, que seria totalmente esperada, já que a vontade dela era de quebrar aquele piano para nunca mais poder ouvir qualquer nota, mas Alice apenas a confortou, não exigindo qualquer informação ou causa de toda aquela fúria.

Andando pelo caminho estreito e curto de pedras da varanda de sua casa ela se deu conta de que aquele seria uma garota que ainda marcaria muito sua vida. Perguntou-se o que teria acontecido com os dois garotos do beco. Se tivessem se matado tudo bem pra ela, não faria a menor diferença. Mas ela tinha perfeita consciência que, internamente, não era aquilo que ela queria que acontecesse.

Entrou em casa pela porta da frente dessa vez. Mais hora ou menos hora teria que encarar seu pai, com todo aquele rancor e raiva que sua mãe sempre tinha quando ela fazia algo errado. Suspirou antes de girar a maçaneta e dar o primeiro passo, tomando cuidado para colocar o pé direito primeiro. Seu pai estava assistindo TV, deitado calmamente no sofá, com uma expressão de pura paz. Olhou de esguelha para Bella, que apenas revirou os olhos e recomeçou a andar.

Colocou na cabeça de que nada que ele dissesse iria a atingir já que ela não fizera nada de errado. Foi em direção ao quarto e abriu a porta devagar com medo que Felipe acordasse a qualquer momento. Isso não aconteceu. Pegou uma muda de roupas e foi para o banheiro tomando um banho demorado, sentindo o efeito da água gélida ao chocar-se com sua pele suada e quente. Fez sua higiene habitual e saiu, tendo que passar pela sala antes de chegar ao seu refugio.

Viu que seu pai havia se virado no sofá para melhor observá-la e murmurou para si mesma “e que comece o pesadelo”.

– então... Quem era aquela garota? – introduziu.

–Alice. – respondeu indiferente. – eu já vou logo avisando se for para me recriminar, vou dormir agora para poupar seus esforços. Eu não fiz nada de errado. Iria chegar até em um horário adequado em casa. – ela jogou as mãos para o alto como se aquilo fosse motivos de aplausos – por favor, não venha dizer o que não sabe. E jogar na minha cara como mamãe sempre faz. Porque...

–ei! Calma, garota – me interrompeu. – eu só queria te dize que... Foi muito nobre o que fez. – ela fez cara de confusa – com Alice eu quero dizer. Nunca pensei que você viria a fazer algo do tipo. Estou muito orgulhoso.

E novamente se virou para ver o jogo de basquete depois de dar de ombros. Bella ainda ficou ali, parada, olhando estática para a cabeleira negra do pai. Pensou um pouco sobre isso e chegou a conclusão de que ele estava louco. Era bem provável que isso acontecesse. Foi para seu quarto a passos lentos, esperando que a qualquer momento seu pai fosse cair na real e dizer que cometeu um erro ou qualquer do tipo.

Caiu na cama desesperada por uma explicação obvia por aquilo ter acontecido. Levantou-se para arrumar sua cama e poder dormir de uma vez. Enrolou-se na colcha leve e ficou como um bola, passando a mão pelos joelhos e apoiando sua cabeça entre o vão de seus joelhos.

Dormiu pensando em Alice aquela noite.

Levantou cedo aquele dia. Antes mesmo de seu pai estar de pé. Fez seu próprio café da manha e saiu antes que alguma alma viva começasse a rondar aqueles corredores vazios. Não viu para onde estava indo. Apenas vagava, andava sem ter a mínima idéia de quando iria parar. Apenas queria espairecer a cabeça.

Ela sentia falta da pacata cidade de São Joaquim e seus turistas de todas as partes do mundo para curtir o friozinho e torcer para que a neve caísse naquelas férias . Sentia falta da única amiga que tinha lá. Ângela. Sem duvida era a pessoa que mais sentia falta. Era a única pessoa que não precisava fingir ser quem não é para chamar a atenção de alguém. Não se escondia em mascaras, era apenas ela, a menininha doce de sempre. Ângela sempre fora sua melhor amiga, e Bella, sinceramente, esperava que isso nunca mudasse. Ambas eram tímidas, mas encontraram uma na outra o apoio que encontraram para crescer.

Entretanto sentia que não era hora de importunar Ângela com suas babaquices, problemas comuns. O que ela diria à amiga? “então Ângela, meu pai me elogiou essa noite depois de eu ter pegado o carro dele sem ele saber, chegar tarde a casa e levar uma desconhecida que havia acabado de sair de uma briga para ser cuidada por mim. Legal, né?”. Sem duvida alguma sua amiga iria se perguntar de onde viria tanta vontade de falar ao invés de aconselhá-la.

Se sentou na areia da praia de uma praia já lotada e ficou observando algumas crianças que brincavam de castelinho de areia e outros pais que os vigiavam com veneração, como se seus filhos fossem a coisa mais linda do mundo. O sol estava forte essa manha e as crianças chegavam a estar brancas de tanto protetor solar, o que fez Bella colocar os óculos de sol, em uma tentativa inútil de tentar se proteger um pouco.

Algumas garotas que aparentavam ser patricinhas chegavam à praia com ar de superior, olhando diretamente para Bella. Essa por sua vez apenas revirou os olhos e se virou para voltar a encarar o mar. Uma delas era loira, com um corpo escultural, e fazia as pessoas ao seu redor serem eleitas as pessoas mais feias do mundo, seus olhos eram em um estranho tom de topázio. Havia outra também loira e igualmente bonita, os cabelos se estendiam até a cintura em um dourado perfeito, seu corpo magro e estrutural vestida apenas por um biquíni pequeno e uma mini-saia jeans. A outra tinha belos cabelos pretos e lisos, com grandes olhos verdes bem abertos e espertos.

Não viu o tempo passar. Ficou ali por horas achando que eram minutos. Quando notou já eram na hora do almoço e só percebeu quando sua barriga roncou altamente, forçando-a a levantar e procurar algo para comer. Pensou na proposta de Alice enquanto limpava sua calça. Pegou seu celular no bolso e enquanto caminhava e considerou essa hipótese. Algo a se considerar. Não havia ninguém com quem pudesse conversar aqui mesmo!

Pegou o cartão dentro do bolso e discou o numero com espantosa agilidade.

– Alice? – perguntou quando uma vizinha fina a atendeu. –é a Bella. Será que aquele almoço ainda está de pé?

– você ainda tem duvidas? – ela disse muito feliz. – e... é muito bom saber seu nome finalmente! – ela observou.

Ela indicou o local onde elas se encontrariam. Um restaurante de comida mineira ao sul do centro da cidade daqui vinte minutos.

(*) (*) (*)

Alguns minutos ali parada e Alice pareceu com se vestidinho verde musgo cheio de babados e uma bolsa grande demais pendurada em seu antebraço. Bella nunca tinha reparado o quanto ela era baixinha, um metro e cinquenta nove talvez? Caminhou em passos firmes na sua sapatilha cor de rosa até a mesa onde a garota estava e se sentou com um enorme sorriso no rosto.

–fico feliz que tenha aceitado meu convite. – ela disse no lugar de um simples “oi”

– não havia como recusar, Alice. – Bella falou gentilmente.

– eu já te agradeci pelo que aconteceu ontem? – Alice disse enquanto pegava o cardápio da mão de um belo homem que as atendia.

– claro. – Bella também fez o mesmo, ainda encarando a garota. – umas boas duas ou três vezes, não tenho certeza.

– então... eu nunca te vi na cidade. É nova aqui? – a baixinha disse puxando assunto.

–sim, e vou embora ao final das férias.

–pena... – ela disse mal escondendo seu descontentamento nos olhos – gostando de Angra?

– não vi muitas coisas para dizer que amei. Mas me parece ser um lugar bom. Ensolarado demais, mas ainda assim, bom.

– não gosta de sol? – ela disse parecendo ofendida – você é a primeira garota que me diz isso. Mas eu já devia saber. – Bella levantou uma sobrancelha delicadamente – suas roupas. Não são muito convencionais para alguém que gostasse do sol. – explicou-se.

Fizeram os pedidos. Conversaram amenidades por um tempo. Coisas banais, até o final do almoço. Foi uma hora prazerosa para ambas as garotas. Alice tinha tendência a falar demais. Bella, constantemente a lembrava que, para humanos, respirar era algo indispensável. Ficaram sabendo que tinham mais em comum do que Bella tinha com Ângela, entretanto Alice era tudo que faltava em Bella. Ela era espontânea, esperta, linda... Enquanto a outra era apenas... Normal, como ela mesma gostava de dizer. Alice ainda tinha que trabalhar então foi logo se apressando para pagar a conta. Bella se ofereceu para deixá-la lá já que não tinha mais nada pra fazer.

Descobriu que Alice era órfã de mãe, que havia morrido no parto, agora ela vivia com seu pai e a madrasta. Ela nunca reclamou. Esmeralda, como ela havia chamado sua mãe postiça, era um amor de pessoa. Tinha um irmão também, mas de coração. Que veio junto com o pacote com sua nova mãe.

– Edward Cullen, – ela disse com adoração enquanto caminhava para a lanchonete. – ele é um doce de pessoa. Mas... De uns tempos pra cá... Ele vem se comportando... anormalmente.

– algum motivo a ser considerado importante ou apenas crise adolescente? – Bella perguntou. Seu tom fez parecer como se Edward fosse um jovenzinho de apenas 15 anos de idade.

– nada. Nenhum indicio. Nenhuma pista. Ele apenas está agindo rudemente estes últimos meses. Tia Esme me disse que vai passar. Que é dor de amor, mas que vai levar algum tempinho. – ela fez um bico, – mas eu quero meu irmão de volta. E rápido. Eu sinto falta dele.

Esse assunto a deixava deprimida então Bella resolveu mudar para outro tópico totalmente diferente. Escola. Descobriu que Alice queria fazer arquitetura, estava fazendo cursinho pré vestibular para se preparar melhor antes de finalmente ingressar na faculdade. Seu pai era medico. A mãe era decoradora, o que a fez se interessar mais ainda por essa área. Mas quando foi perguntada o que queria de seu futuro, Bella disse que não sabia, que não fazia idéia do que queria. Que estava perdida em tantas escolhas. Alice a propôs um teste vocacional, mas a resposta foi apenas um “é, pode ser”.

Já haviam chegado à lanchonete neste ponto. Se despediram com um beijo na bochecha, prometendo se encontrarem novamente. Bella se sentia viva novamente, com uma enorme vontade de ajudar, ou pelo menos fazer algo de útil enquanto estivesse naquela cidade. Voltou pra casa pensando o que poderia ter desencadeado tal alegria. Seria apenas o prazeroso almoço que tivera com uma quase desconhecida agora há pouco? Podia ser que sim. E se fosse iria repetir a dose mais vezes. A sensação de estar boa novamente era quase indescritível.

Abriu a porta com um sorrisinho tímido. Não havia ninguém em casa. Então ela se viu segura para ir fazer o bolo preferido de Felipe. Iogurte. Subiu para trocar de roupa, colocando um short jeans e regata cinza. Andou descalça pelos corredores e começou a cantarolar enquanto preparava os ingredientes.

Notas finais
e aí gostaram?