Primavera Tempestuosa
2 O florescer de uma flor
Notas iniciais
O florescer de uma flor
"A história conta que os Uchihas, antigamente, possuíam uma força descomunal, jamais vista por um homem, jamais presenciada por alguém que ainda estivesse vivo para contar a história. Nas terras mais baixas, onde a escassez é grande e a fome maior, diziam, que uma bruxa casou-se com um camponês Uchiha. A bruxa era formada de uma beleza estonteante, e os murmúrios que ela era uma bruxa, eram apenas isso, murmúrios.
Tiveram um filho, parecia saudável e bonito. Mas com o passar dos anos, tornou-se uma ameaça a medida que descobria seus novos traços. O Sharingan, como o chamavam, era um dos poderes oculares que os Uchihas possuíam. “Soltam fogo!” diziam eles, todos assustados e surpresos com o quanto um Uchiha era diferente. Foram condenados a morte, por bruxaria. Porém alguns escaparam, e a cada dia os Uchihas relembravam os dias sangrentos, onde muitos morriam e poucos nasciam. Onde apenas sobrara um; Sasuke Uchiha.”
Fechou o livro com um sorriso no rosto. Não cansava de ler as páginas que a velha ama escrevia. Infelizmente, ela já não se encontrava viva para lhe contar as histórias antigas, que algumas ela mesma presenciara. Mas tinham alguns papéis e livros escritos por ela.
Passava suas horas na tenda, desfrutando da leitura e cozinhando para os homens de sua tribo.
Sentia mais como um passatempo do que como um dever. Nessas últimas noites, queria apenas manter-se longe, manter a mente ocupada, pois sabia que dentro de um dia e uma noite, chegaria o momento que esperou nunca chegar.
O décimo quinto dia de seu nome, onde um banquete e uma festa seriam preparadas para a comemoração, como ditava a tradição da tribo.
Ficaria feliz com isso, se não soubesse como realmente funcionava.
Os homens disputavam brigas entre si, e o vencedor, escolhido por Sasuke, transformaria Sakura em uma mulher. Achavam que quando esta completava seus quinze anos, tornava-se mulher e não mais uma menina, e para isso precisava desfrutar do sexo, perdendo a virgindade, e só então teria seus quinze anos e seria uma mulher.
Mas esse não era o desejo da garota.
— Estão todos famintos! — exclamou Naruto, adentrando a tenda e aproximando o rosto do aroma que saía do caldeirão.
— A caça foi boa? — perguntou Sakura, sorriu vendo-o apanhar um pano do bolso.
— Abatemos alguns veados. Teremos fartura amanhã a noite! Veja, trouxe-lhe algumas ervas, Ino disse que é um ótimo perfume, creio que ficará mais bela amanhã, e porque também não mais cheirosa? — Naruto era um garoto da sua idade, era belo, com cabelos da cor do ouro, e olhos límpidos e azuis. Um corpo alto e esbelto, um menino com corpo de homem e cabeça de garoto.
Sakura o admirava, era verdadeiro e forte, o segundo melhor caçador da tribo, atrás de Sasuke. Sua admiração diminuía quando lembrava-se que Naruto disputaria por uma noite com Sakura. Mas preferia Naruto, a qualquer homem brutal da tribo.
— Gentileza sua, Naruto. — agradeceu com uma pequena reverencia. Os mais respeitados da tribo eram chamados por seu sobrenome, e Naruto era um deles, mas o mesmo ordenara a Sakura, chamá-lo pelo nome.
— Está sem cor, menina lobo. Precisa sentir o sol em seu rosto, o vento está agradável, e as folhas brincam no ar, creio que adorará senti-las roçar em seu rosto — o menino raposa, como era chamado, dispunha de uma gentileza muito grande, desconhecida por muitos na tribo.
Sakura chegara na tribo com Naruto, no mesmo dia. Tinham a mesma idade, e eram do mesmo feudo, mas não dos mesmos pais. Não eram sangue puros, como as pessoas que nasceram dentro da tribo, por isso eram chamados por pseudônimos cujos seus traços. Era conhecida como menina lobo, por ser branca como a pelagem dos lobos que se encontravam naquela região, também era rápida e ágil, vivia sempre com alguém perto de si, e como o esperado de um lobo, quase não andava sozinha.
— Seria extremamente agradável, Naruto. Mas tenho meus deveres, acredito que tens os teus também — assentiu, saindo da tenda.
Sakura suspirou e pôs-se a temperar a comida que preparava. Sentia falta de correr pela relva e apreciar o sol batendo em seu rosto, com as árvores corpulentas dançando a cada movimento seu.
Lembrava-se de dançar com elas quando criança, mas isso aconteceu até seus oito anos. Depois aprendera a caçar, a preparar sua própria comida e a se defender, o que todos sabiam na tribo.
Por mais que fossem unidos e protegessem uns aos outros, cada um cuidava de sua sombra, ninguém protegeria ninguém se não fosse realmente necessário, pois todos ali tinham o dever de aprender a se proteger e de atacar, e a menina lobo não era diferente.
* * *
O céu estava acinzentado, e hoje as estrelas não compareceram a festa. O vento parecia descansar, e as árvores estavam silenciosas. As relvas continuavam intactas, e o zumbido de animais era escutado ao longe.
Concentrava-se a observar o nada. O que esperava por ela? Ou nada havia de se esperar? Sentia saudades da velha ama, que lhe cuidava quando criança. A mesma a ajudaria em uma situação como aquela, mas ao invés disso, uma das sete esposas de Uchiha Sasuke estava ali.
Laçando seus longos cabelos róseos, que chegavam a metade de suas cochas, tão grandes e vividos, que Ino brincava, dizendo que um dia eles ganhariam vida.
— Hoje será uma mulher completa, já não és uma menina, agora tens responsabilidades, mas não pense dessa forma. Pense que agora poderá desfrutar o corpo de cada homem da tribo. — ela lhe sorriu, não era um sorriso que passasse conforto.
— Tenho mesmo que me deitar com um? — seus olhos passaram a observar seu reflexo no espelho pequeno a sua frente.
— Quer se deitar com mais de um? — brincou ela, sorria todos os dias, em todos os momentos. Admirava Ino, não só por ser uma das sete esposas de Sasuke, mas sim, por sua sinceridade, força e beleza.
Tinha cabelos louros, confundia-o com o sol, e seus olhos com o céu. Era tão azuis quanto os de Naruto. Diziam, que seus olhos se tornavam violetas quando louca estava pelo desejo. Mas eram apenas murmúrios, o único que se deitara com Ino, fora Sasuke, e ele não era um homem de compartilhar segredos de suas mulheres, ele as guardava dentro de si e as usava quando sentia vontade.
Já escutava as gargalhadas do lado de fora, seu sorriso se desmanchava aos poucos. Estava nervosa.
— Olhe nos olhos do homem que deitará contigo — agachou-se ao seu lado e olhou para seu reflexo no espelho — Verás a chama dentro dele, todos da tribo tem uma chama, e os homens a tem maior. Saberá como agir. Alguns homens preferem fazer o serviço, outros preferem a ousadia de uma mulher bem-feita.
— E como saberei se devo ousar ou não? — perguntou, curiosa.
— Verás nos olhos dele, quando a chama se ascender, saberá como agir. — repetiu ela, a passos lentos saiu da tenda, dando seu último aviso.
— Venha. Tua festa te espera — olhou uma última vez para seu reflexo no espelho. Estava estonteante.
Seus cabelos trançados, jogados para o lado. Seu vestido de seda era verde como seus olhos. Seus olhos pareciam confiantes, mas não podia dizer o mesmo olhando-se por dentro.
* * *
Parecia uma noite como outra, hoje estavam todos alegres, bebendo vinho e cerveja. Gargalhavam e dançavam ao lado da fogueira alta. Era um símbolo das festas.
Algumas mulheres da tribo tinham seu corpo coberto apenas por um leve pano amarrado em suas cinturas e seios. Dançavam como se houvessem nascido para isso. Era a parte que mais gostava das festas, as danças calorosas das mulheres e as gargalhadas incessantes dos homens.
Estava sentada um pouco a baixo na cadeira de pedra. Um pouco acima, um degrau de distância, estava Sasuke. Sentado sobre o trono, este observava as danças. O braço direito apoiado na perna direita, e seu queixo apoiado sobre a mão.
Tinha vinte e cinco anos, mas era tão jovial que a surpreendia. Sua aparência era tão jovial quanto a de Naruto. E Sasuke era mais forte, seus músculos amostra apenas confirmavam. Seus cabelos eram negros e brilhavam, destacando-se da noite escura, assim como seus olhos, julgado por suas esposas, indecifráveis.
Sakura voltou sua atenção para o motivo principal dos olhares. O homem mais velho, com cabelos grisalhos e barba para fazer, levantou-se e com um impulso atacou o segundo, que estava gargalhando com uma mulher em seu colo.
Sakura soube que as lutas haviam começado.
O segundo homem desviou rapidamente do soco. A mulher que antes sentava em seu colo, agora correra para os braços do próximo homem.
Os socos logo foram substituídos por espadas e punhais, parecia uma briga sem fim, até um terceiro adentrar a luta, e logo um quarto também.
As mulheres gritavam e lhe lançavam olhares sujos. Quantos mais homens lutavam por Sakura, mais desejada ela era, e assim ficava conhecida como a mulher mais desejada, porém, esse título era de Ino, quatorze homens lutaram por ela. E Sasuke ganhou, matando os outros treze.
O sangue já misturava-se com as chamas da fogueira. A terra tornava-se vermelha. Dois homens já estavam mortos. Restava uma luta de dois, mas mais três interferiram.
Já eram sete, e as mulheres gritavam ainda mais alto. Os homens gargalhavam a cada gotícula de sangue espirrada. Cerveja misturava-se com sangue e terra.
Sakura não queria e nem conseguia mais manter seus olhos fixos, os desviou para cima, vendo os olhos negros fixos nas lutas que se concentravam ao centro.
A tribo dizia que suas terras só eram férteis, porque sangue de seus homens eram derramados, como um pagamento que exigia sua troca.
Os finos sons que eram ouvidos, quando as espadas se chocavam, causavam arrepios em sua pele.
— Muitos lutam por sua beleza, menina lobo. — sua atenção rapidamente atraída, já não estava há alguns degraus, e sim ao seu lado.
— Qual homem deseja que ganhe? — perguntou-lhe o eterno príncipe Uchiha.
— Nenhum — sussurrou.
Tinha medo, medo de coisas as quais nunca experimentara. Medo de uma luta e um vencedor, pois sabia que ao amanhecer uma nova vida seria lhe dada, e ela não é tão boa quanto a passada. Não sabia, mas sentia.
Sentiu os olhos negros lhe observarem, estava sendo fraca, e não merecia homem algum.
— A fraqueza é uma virtude necessária — seus olhos caíram nos negros, e não pode abrir a boca para lhe dar uma resposta, ele já não estava ao seu lado e sim a sua frente.
Com sutileza descia os degraus, chegou ao centro, onde a fogueira continuava alta e apenas quatro homens lutavam por ela, dentre eles, Naruto.
A poeira levantava e contornava o corpo do príncipe, o vento pareceu acordar, e sutilmente batia nos cabelos brilhantes de Sasuke.
— Serei seu oponente. Se me vencerem terão minhas sete esposas, e a menina lobo. Se desejam desistir, deem uma passo para trás — gritou o líder.
Os homens encontravam-se surpresos, seus olhos confirmavam.
O homem mais velho deu um passo para trás. Largou sua espada e seu punhal, assim como o segundo.
Um homem não foge a luta, mas um homem inteligente, sabe que perderá a cabeça se lutar contra o Uchiha, preferem a honra a suas cabeças.
Restara um terceiro e Naruto, que estavam tão determinados quanto confiantes.
— Que comece a luta — sussurrou alguém atrás de Sakura.
Tinha os olhos assustados, perdidos, confusos. Poderia imaginar situações diferentes com todos os homens que lutara por ela, mas com Sasuke? O que deveria fazer?
Procurou os olhos azuis que lhe ajudaram mais cedo, mas eles estavam concentrados na luta que se iniciara. Ino pareceu perceber o olhar pesado, avistou Sakura e lhe sorriu. Mas um sorriso não foi o suficiente para acalmá-la.
Queria sentir o vento bater em seu rosto e deixar de escutar as gargalhadas e os uivos.
Soltou um gemido de desespero quando viu Naruto ser atingido no braço esquerdo, seu desespero aumentou.
Desejava ter alguém ao seu lado, segurando sua mão e lhe sussurrando: “Tenha calma, criança. Logo tudo acabará”, mas não havia ninguém. Ninguém entendia sua chama, pois eram todos diferentes, por isso, mais uma vez, estava sozinha.
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