Prig Stígur- A Atrevida
7 O que de fato aconteceu
Notas iniciais

–Então Frost, quer jogar um joguinho?
–Do que você tá falando? Escuta Prig, nós já ficamos tempo demais aqui- Jack falava apreenssivo e se afastava da morena
–Ah que pena, eu estava me divertindo- A morena sorria de forma anormal, como se fosse forçada- Sabe, eu conheço um certo Coelho que talvez esteja chegando...
–O QUE?- Jack ficou desesperado
–Calma, que stress desnecessário, é só se dissolver em fumaça- Prig disse sorrindo de forma maligna
–Pensei que você...
–Fica mais fácil quando você é uma miragem- Ela disse dando de ombros
–Miragem...- O albino repetiu abobalhado
–Melhor se vestir Frost- A morena disse rindo- Ele está chegando- Ela falou desvanecendo em poeira negra
Jack estava sem entender, Prig havia acabado de sumir em poeira e ele estava nu em um lago cujo o dono estava chegando... Ele correu para a margem e se vestiu rapidamente, os olhos arregalados e o coração batendo acelerado, saiu voando pela caverna bem a tempo de ouvir ao longe:
–FROST!!!!!!!!!- O albino empalideceu ainda mais e voou de volta para o parque, aquele dia não poderia ser mais confuso, ou poderia?
Enquanto isso nossa ladra ria, vocês devem estar levemente atônitos com o que acabou de acontecer, pois bem, vou explicar, Prig nunca entrou na toca de fato, lembran-se que a entrada estava escura, certo? Quando ela entrou na escuridão, Breu a trocou por uma miragem feita por ele, deixando a verdadeira Prig segura em seu esconderijo, onde agora ela e seu aliado riam:
–Você viu a cara dele?- Breu perguntou para a menina que rolava pelo chão e gargalhava- Os guardiões idiotas não vão nem considerá-lo
–E isso fará ele trabalhar conosco- A morena falou parando de rolar e, ainda deitada, encarar seu mestre dos pesadelos- Simplesmente genial
–Genialidade é tudo o que eu tenho minha pequena- Ele disse ajudando a moça a se levantar, ela sorriu de canto e roçou seus lábios no pescoço do mestre dos pesadelos- Ah Prig, você me mima demais
A morena não respondeu, apenas se afastou de Breu e sorriu, ela fez uma breve reverência e saiu do esconderijo, estava de volta ao beco em que havia despistado Jack na noite passada, o plano havia sido bem sucedido, mas a melancolia a tomava novamente, ela continuou andando, vagando no fim de tarde, estava ao lado de uma estação de trem quando ouviu um apito agudo de trem, Prig não pensou duas vezes e se jogou no trilho, ficou deitada lá esperando o trem passar pela sua cintura, não era a primeira vez que tentava o suicídio e nem seria a última.
O alívio, se é que pode ser chamado assim, veio rápido demais, a moça suspirou cansada e se apoiou nos cotovelos quando o trem foi embora, ela olhou para o trilho agora coberto de sangue, bufando pegou a parte que se separou dela e puxou, calculou que havia quebrado algumas costelas, a metade da coluna, além de separar seu corpo em dois... Ok, essa tentativa foi quase eficiente, ela já havia tido ideias melhores, estava tentando juntar as duas partes quando ouviu uma risada audível:
–Você não tem jeito- Ela suspirou, Breu estava em pé ao seu lado, rindo dela e de suas tentativas estúpidas- Fique quieta- Ela obedeceu, o mestre dos pesadelos colocou as duas partes unidas com ajuda daquela areia negra tão estranha- Prontinho, inteira outra vez
–Obrigada- Ela falou se levantando com a ajuda dele que a puxou pela cintura e colou suas bocas, um beijo de verdade, as mãos dele apertavam a cintura da morena que enterrava os dedos naqueles cabelos negros tão arrumados, o fôlego se tornou necessário e eles se separaram- Eu vou embora- Breu deu de ombros e sumiu em uma sombra enquanto a morena voltava a andar sem rumo
Talvez fosse o destino falando, talvez fosse só a vontade da narradora, o fato é que Prig acabou parando em frente à padaria que geralmente assaltava, ela entrou e pegou uma Coca Cola (seria o começo de um vício?) e uma fatia do bolo de prestígio que ela tanto amava, saiu andando com os itens em uma sacola, evitando o parque e voltando para sua própria casa, quem sabe seus amigos gansos não estariam lá e ela poderia dar pão para eles... Só faltava o pão.
Deu meia volta e pegou um saco cheio de pães da padaria, agora ela não estava esquecendo nada, sentia-se estranha consigo mesma, queria se jogar de uma ponte, levar mil facadas, se enforcar, afogar, queimar, cem formas diferentes de morrer surgiram do nada na sua cabeça, sentia-se impotente, inútil, sem auto estima, a runa de seu dedo médio da mão esquerda brilhou, ela estava descobrindo seus defeitos rápido demais... Aquela pelo jeito era a frustração.
Pois bem, ela estava frustrada, todo ladrão já deve ter tido isso em abundância, ela chegou ao pé da árvore que erguia sua casa e sorriu, lar doce lar, colocou as sacolas em uma pequena caixa de madeira ao seu lado e começou a subir a árvore, era doloroso e complicado, mas valia a pena, escorregou em alguns pontos, demorou mais do que esperava, finalmente conseguiu, foi até uma corda embolada no canto e a puxou, conforme puxava, a caixa com suas sacolas lá embaixo começava a subir, terminou rapidamente e colocou um pouco de sua Coca Cola na xícara de chá que havia separado, ela iria fazer um chá á lá Prig, com chá de Coca Cola e pão e bolo só pra ela, seria perfeito.
Os gansos não estavam lá, geralmente no inverno eles voavam para longe, mas ela não ligava, ainda tinha seus livros, tomou seu "chá" e comeu seu bolo, guardou os pães para o dia seguinte caso tivesse preguiça de sair de casa. Limpou a bagunça e pegou um cobertor grosso e se acomodou no sofá, mal havia recostado no travesseiro quando dormiu. Sonhou com sua ida ao convento.
+flashback on+
A pequena Prig de nove anos estava cansada de viver com aquelas regras estúpidas, estava indo visitar sua mãe no hospital junto com sua tia, o hospital era triste, depressivo, fazia a menina querer chorar encolhida em um canto daquelas paredes brancas e melancólicas, as enfermeiras sorriam quase que macanincamente e isso a assustava, Mary Daves não ajudava, as duas foram guiadas por uma das enfermeiras assustadoras até um quarto onde o silêncio era palpável, o frio também havia aumentado, tudo que se conseguia ouvir eram os "bips" de alguns aparelhos, mas esses barulhos eram sufocados pelo silêncio.
A morena foi a primeira a entrar, quase caiu ao ver o que tinha ali dentro, sua mãe estava deitada em uma cama, ela tinha tantos aparelhos acoplados nela que parecia acabar de ter sido abduzida e que estava sendo usada para experiências malucas, não era a primeira vez que a menina visitava a mãe, mas era sempre desconcertante como ela era abalada enquanto a tia parecia aprovar o que estava acontecendo com a irmã:
–Vamos pequena?- Mary Daves perguntou em um tom autoritário, Prig negou com a cabeça
–Deixe-me ficar um pouco sozinha com ela, afinal é minha mãe- A tia saiu junto com a enfermeira, a menina suspirou e olhou para o teto- Deus pai todo poderoso, sou pecadora e pecarei mais uma vez, uma dos grandes dessa vez...
A morena segurou a mão da mãe, estava gelada como um cadáver, ela vinha planejando isso a algum tempo sem a tia saber, a menina sabia que iria ser encarada como louca, mas era necessário, não voltaria atrás nesse momento, ela estendeu o braço infantil e puxou o tubo que mantinha sua mãe respirando, ouviu o bip da máquina ficar histérico até se estabilizar em um biiiiiiip longo e nauseante, imediatamente vários enfermeiros entraram e empurraram a menina, tentaram salvar sua mãe, mas ela já havia partido, Prig até viu sua mãe sair de mãos dadas com seu pai, ela ouviu o agradecimento dos dois, ela havia salvado sua mãe e por isso sorria, pelo menos até receber um murro no meio da cara, Mary Daves estava fora de si:
–Como ousa?!- Outro murro foi desferido, o nariz da menina começou a sangrar, mas ela abriu o sorriso novamente, iria enfrentar sua tia asquerosa se preciso
–Eu salvei minha mãe de todo esse sofrimento
–Calúnia! Pecadora!- Ela faava enquanto desferia tapas no rosto e braços da menina, ela não se importava, estava adorando- Assassina! Bruxa!
–Esqueceu do possuída pelo mal, demônio ou seja lá que merda quer culpar dessa vez oh santíssima Mary Daves- A menina estava cheia, o ódio pingava de cada palavra desferida, a tia não parava- Vamos! Quero confessar minhas maldades desse corpo pecador tomado pelo mal
–Insolente!- A tia continuava, subitamente parou e uma luz pareceu piscar nela- Eu sei o que farei com você sua diaba- Ela disse arrastando a menina, Mary Daves assinou o obituário, Prig viu que na ficha estava escrito assassinato, ela sorriu e fez questão de mostrar essa felicidade para a tia que a bateu ainda mais, as duas foram para o carro- Você vai pagar sua nojentinha, você vai para o convento!- A menina sorriu ainda mais e se acomodou
–Vamos passar em casa antes de irmos para o inferno? Sabe como é, acho que minhas roupas não estão compridas o suficiente para aquelas freiras exigentes e...- Prig foi interrompida quando a tia puxou seu cabelo violentamente
–Cale a boca! Cale a merdinha da sua boca!
A menina teve que arrumar sua mala, escondeu vários pertences no forro e debaixo da roupas, livros que as freiras mandavam não ler, CD's, uma lanterna, roupas, itens de higiene pessoal, uma corda e uma faca. A tia a deixou no convento, cuspiu na sua cara e disse que ela iria aprender sua lição, Prig era toda sorrisos, ela chamou a tia e mostrou seu dedo do meio para ela que saiu fazendo o sinal da cruz.
As freiras estavam horrorizadas com a ficha da menina que supostamente havia matado a própria mãe, as outras crianças nem olhavam para ela, ela só era punida com tapas na bunda e confessionários intermináveis, era sempre a escolhida para lavar a Igreja, era chamada de satanista, sempre recebia a pior porção de comida, de forma que acabou emagrecendo bruscamente, mas achou bonito, continuava se cortando escondida, acabava sendo mandanda para o quarto mais cedo por simplesmente existir, falando nisso seu quarto era mais uma cela, um quarto com um banheiro merreca, a cama dura e o lençol fino recebiam a luz do lua que vinha da janela minúscula e alta, uma porta grossa de madeira a separava daquela lavagem católica, a raiva fluía orgulhosamente pelas suas veias, mas ela se tornou lasciva e manipuladora, culpa deles, eles tranformaram Prig Stígur...
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