Prig Stígur- A Atrevida
12 Faça um favor
Notas iniciais

–Prig- Jack sussurrou olhando para o globo gigante que girava e mostrava vários pontinhos brilhantes, ele ia sair quando alguém tapou sua boca e o arrastou para uma das portas, o albino sacudiu a cabeça e acabou batendo a mesma em um ferro da parede, desmaiou depois de ouvir uma risada zombeteira
Acordou com um assovio baixo, de súbito sentou-se e fechou os olhos com força, sua cabeça doía, colocou a mão na mesma e percebeu que estava enfaixada, abriu os olhos lentamente para se acostumar com a escuridão, o assovio ecoou mais uma vez e ele estendeu bobamente a mão que roçou em algo metálico que por sua vez se afastou, quando seus olhos finalmente se acostumaram ele viu uma gaiola balançando e um pássaro soltando baixos e assustados assovios:
–O que foi pequenino?- Ele sussurrou para o pássaro que pareceu se encolher- Quer que eu te solte?- O pássaro se afastou ainda mais
O albino pareceu finalmente se perguntar onde estava, deu uma olhada rápida no quarto, ele estava sentado em uma cama cheia de farrapos, a própria cama estava em farrapos, o quarto não parecia ter uma lâmpada, ele se levantou e respirou fundo, se arrependeu profundamente disso, um odor não identificado encheu seus pulmões, ele andou a esmo e sacudindo os braços à sua frente, parou de repente e torceu a cara em uma expressão de nojo, havia pisado em algo molhado e gosmento, recomeçou o percurso sacudindo o pé e resmungando, finalmente chegou à porta e abriu, o corredor estava escuro, mas pontos brilhantes deixavam o ambiente discernível:
–Que parte da oficina é essa- Jack sussurrou e continuou andando, uma música clássica começou a tocar em algum lugar mais à frente, algo pingava pelo corredor e finalmente o albino percebeu as mãos vazias- Prig- Concluiu surpreso, logo abriu um sorriso, certamente isso era uma brincadeira da morena, ela deveria estar tentando assustá-lo
Jack teve que piscar repetidas vezes para se acostumar à uma claridade repentina, o corredor acabava em um grande cômodo bem iluminado, a música vinha de um gramofone e preenchia o ambiente, poltronas e mesinhas se espalhavam pelo local, alguns tinham esqueletos com roupas antigas, todos estavam reunidos em pequenos grupos como se conversassem silenciosamente, o albino não queria admitir, mas ele estava assustado, aquela não era a fábrica mágica de Norte, uma movimentação perto do teto chamou sua atenção, só agora notara que haviam andares superiores, cordas amarradas que sumiam na escuridão, era uma construção bem antiga, disso ele tinha certeza, um arrepio percorreu sua coluna, sentia o suor frio escorrer pelas costas, as mãos estavam molhadas e o pé empapado daquela gosma... É mesmo! O que era? Ele virou a sola do pé para verificar e se arrependeu, era sangue:
–O que achou da decoração Frost?- Uma voz que beirava a loucura, mas de entonação melancólica ressoou
–Um pouco trágica- O albino respondeu sorrindo de nervosismo
–Ah não- A voz respondeu soltando uma risada maníaca, uma das cordas se desprendeu e uma Prig super alterada desceu por ela, não era a mesma Prig que estivera provocante antes, uma marca em seu anelar esquerdo parecia brilhar, o albino não entendia nada- Veja Frost, isso não é trágico- Ela atestou- É, não sei ao certo, só sei que não é trágico- Concluiu dando de ombros
–Se você diz... Mas onde...- Ela o interrompeu antes de ele sequer sonhar em terminar a frase
–Um lugar especial- Ela respondeu sentando em uma das poltronas, apontou para a poltrona à sua frente onde um esqueleto de paletó estava- Conhece ele?
–Não
–Então eu tenho que te apresentar!- Ela exclamou abtendo violentamente em sua própria testa- William, esse é o Jack- Ela falou olhando o esqueleto como se ele realmente estivesse vivo e depois olhou o albino- Frost, esse é o William
–Bem, é um prazer te conhecer William- Ele respondeu sorrindo para o esqueleto, não parava de pensar em como escapar dali, a morena o fuzilou com um olhar
–Só tem um jeito- Ela falou por fim, soltou um suspiro triste como se tivesse revelado um segredo e desabou na poltrona como se tivesse levado um soco no estômago
–Hein?
–De sair, só tem um jeito- Ela murmurou encarando uma das paredes acinzentadas, começou a soluçar e se encolheu na poltrona tentando respirar fundo, Jack estava confuso, se aproximou da morena e colocou a mão no ombro trêmulo dela, a cabeça estava escondida pelos cabelos desordenados e pelas mãos que a cobriam
–Prig- Ele sussurrou, ela soluçava e arquejava por oxigênio
De repente ela se levantou num pulo e ficou de frente para ele, os olhos castanhos estavam vermelhos por conta do choro, as lágrimas ainda escorriam pelo rosto alvo, o nariz estava rosado na ponta e ela fungava de tempos em tempos, os soluços saíam quase tímidos de sua boca, ela sorriu fracamente e com os olhos arregaldos parecia louca, mal sabia ele que era exatamente como ela estava, ele meneou a cabeça sem reação ao vê-la daquele jeito, era como se algo rasgasse seu peito, não sabendo exatamente de onde saíra essa vontade ele avançou e abraçou a moça que soluçou mais alto e retribuiu com força ferrenha, agarrou o agasalho do albino e enterrou a face molhada no tecido azul escuro.Veja bem, tempo não é uma coisa que dê para perceber em um lugar como aquele, não, aquele era um lugar esquecido pelo tempo.
Aos poucos Prig parou com os soluços e se afastou minimamente, Jack era mais alto que ela o que a obrigava a levantar um pouco a cabeça, ele encarou a moça que tinha a tristeza e o desamparo estampados nos olhos arregalados e brilhantes, ele a apertou em um abraço e beijou o topo de sua cabeça, ela soltou uma risada fraca e colocou as mãos dentro do bolso do casaco dele que abriu um sorriso:
–Quer dançar?- Ele perguntou para ela que gargalhou e o empurrou correndo para o esqueleto chamado William- Vai me trocar pelo William?!
–Vou- Ela falou com a voz vacilante e sorridente, segurou William e se balançou no ritmo da música clássica que ecoava deprimente no cômodo, Jack ficou parado a olhando sorrir, deixou um sorriso invadir seus lábios finos que logo gargalharam quando ela tropeçou e caiu em cima do esqueleto, logo se aproximou para ajudá-la
–William- Ela balbuciou encarando os ossos espalhados
–Stígur- Jack a puxou e a levantou, ela estava atônita, sacudiu a cabeça e sorriu se soltando do garoto
–Bem, ele era um ótimo ouvinte- Ela se consolou dando de ombros, voltou a dançar sozinha, balançava a capa e a cabeleira castanha, dançava e gargalhava com o pensamento de morte no coração
No entanto ela parou abrupta, ajoelhou e juntou a pilha de ossos que um dia foi William, olhou de relance para o albino e meneou a cabeça, ele se ajoelhou ao lado dela e passou um dos braços no ombro da mesma:
–Ele era legal comigo, conversávamos e dançávamos quando não nos sedavam- Ela falou em um fio de voz, o garoto percebeu que ela engolia o choro e com um baque ele tornou a notar Prig, ela não era só uma ladra atrevida e com língua ferina, tinha muito mais por baixo e ele começava a ver isso agora
–Onde eu acordei?- Ele perguntou sério, ela o encarou por um tempo e suspirou sacudindo a cabeça em sinal afirmativo, levantou, correu até um candeeiro onde agarrou uma vela, a cera caiu em sua mão, mas ela não pareceu notar, só fez um sinal para que ele a seguisse, o corredor parecia ainda menos cativante com a luz trêmula da vela, ele se manteve próximo a ela, mas não soube ao certo se isso protegia ela ou ele
–São vários, mas tem um diferente- Ela falou como se desse detalhes de uma história que já havia contado
–Eu acordei no diferente?- Ela afirmou com a cabeça e parou diante de uma porta entreaberta, impediu o albino de passar enquanto o encarava- O que?
–Não vai contar pra ninguém- Ela falou séria, ele assentiu- Bem, já que eu não poderei ter mais chances...- Sua voz pareceu minguar como se ouvisse murmúrios, olhou o garoto longamente e seus lábios pareceram tremer puxou-o pelo colarinho e selou seus lábios, ele a deixou aprofundar o beijo e agarrou sua cintura enquanto ela o empurrou na parede e agarrou os fios brancos, se separaram para tomar fôlego, ela parecia ainda mais abatida
–Eu...- Jack tentou, mas ela pousou um dedo nos lábios do albino e sacudiu a cabeça
–Vou sentir falta disso- Disse com os olhos brilhando, deu as costas e abriu a porta do quarto- Só tem um jeito de sair daqui- Explicou apontando para a parede que tinha uma frase rabiscada em um tom vermelho desbotado pelo tempo, a frase dizia "huc una ex via"
–Er...- Jack começou tentando formular algo
–Em latim, está em latim- Ela falou encarando a face do albino com curiosidade- Você se considera digno de confiança não?
–Sim- Ele respondeu prontamente, a morena pareceu ficar ainda mais triste e sacudiu a cabeça em reprovação à resposta dele- O que?
–Você ainda vai ver que está errado- Ela respondeu soprando a vela- Não vou te mostrar nada Frost- Ela terminou e o cômodo ficou escuro e silencioso, ele conseguia ouvir o coração batendo acelerado, as sombras pareciam dançar mesmo sem uma luz
–Prig?- Formulou por fim
–Pergunta errada- Uma voz se pronunciou como se fosse vinda da parede, não era a moça, não poderia, estava... Abatida? Como à beira da morte...
–Vá embora daqui!- Prig gritou e empurrou o garoto para fora do cômodo, ele caiu sentado e sentiu um peso em seu bolso, quando colocou a mão dentro percebeu que era um dos globos de Norte, ela havia dado uma maneira de ele sair dali...
–Só tem uma maneira- Ele sussurrou olhando a porta e o peso das palavras finalmente pareceu atingí-lo, se levantou e correu pelo corredor, começou a examinar todas as portas, feitas de ferro, com uma pequena portinhola para passar a comida, os quartos era fechados e cinzentos, tinham a mesma disposição, alguns organizados, outros parecendo que iriam desmoronar
O albino voltou para o salão amplo e examinou mais atentamente os esqueletos, depois andou até o gramofone, nada... Correu por outros corredores até finalmente achar o que estava procurando, uma placa se erguia à sua frente indicando o caminho para o gabinete principal, ele avançou e achou o local que era levemente maior que os quartos, tinha uma mesa e duas cadeiras, alguns armários e o que chamou a atenção do garoto, um arquivo. Ele andou até o mesmo e procurou a letra "P", não demorou a achar uma pasta intitulada "Prig Stígur", guardou-a no casaco, não no bolso, ele literalmente enfiou-a no casaco, sentia a pasta roçar em sua pele e isso o causava arrepios, lembrou-se de outra coisa e voltou para o quarto de onde Prig o havia enxotado, bateu duas vezes na porta, dessa vez ele segurava uma vela em um suporte, já que não gostava de cera quente na mão.
Não obteve resposta então abriu a porta, a vela tremulou e ele respirou fundo, reviu a frase pintada na parede e explorou o cômodo, descobriu que seu cajado estava ao lado da cabeceira da cama, segurou-o firme e continuou, manchas de sangue seco enchiam o chão, as paredes, o teto e os móveis, mas nada havia além disso, ele suspirou e saiu do cômodo mal cheiroso, já havia jogado o globo no chão quando um grito furioso vem de um dos corredores além do salão, Jack pulou no portal apressado e viu-se na fábrica de Norte, respirou fundo uma, duas vezes, suava frio e estava com o coração a mil, descobriu que não queria Prig como inimiga, subitamente pensou que ela poderia alcançá-lo e exasperou-se mais uma vez, isso até ver uma areia dourada invadir a janela, Sandy chegou sorrindo e calmamente meneou a cabeça em direção ao albino:
–SANDY! Graças à Lua!- Jack berrou e arregalou os olhos ao perceber tal coisa, Sandman arregalou os olhos- Desculpe, eu... Preciso que me ajude, a Prig... Ela...- Como falar? "Ela me sequestrou e eu descobri que ela é potencialmente problemática"? Não...- Sandy, ela...
O guardião dos sonhos sacudiu a cabeça e ergueu a mão pedindo silêncio, Jack calou-se e o dourado formou uma imagem no topo de sua cabeça, era o próprio Sandy só que ele observava uma menina inquieta no sono, mas um cara alto cobriu a menina e os dois desapareceram nas areias douradas que moldavam a figura:
–Pera- Jack falou coçando o queixo- A menina é a Prig- Ele começou recebendo um sinal afirmativo de Sandman- E o cara alto é o Breu?- Outro sinal afirmativo- Mas o que ele iria querer com ela?- Sandy negou triste com a cabeça, uma imagem de cofre se formou- Hum, você não sabe?- O guardião confirmou e apontou para algo atrás das costas do albino- O que?- Ele se virou e viu a morena
Prig estava com a roupa esfarrapada, as mãos pingando de sangue, não, o sangue estava escorrendo, mas de onde? Espere, um único jeito de sair... Esqueletos... Ah não, Jack respirou fundo e deu um passo de cada vez, a moça avançou vacilante, não conseguiu dar mais de um passo antes de cair direto nos braços do albino que finalmente descobriu de onde o sangue vinha, Prig havia cortado os pulsos, só havia um jeito de sair de lá. Ela sorriu e encarou o albino:
–Eu saí de lá- Ela falou aumentando o sorriso, ele soluçou e a abraçou
–Você não pode estar falando sério Prig!- Ele fingiu estar bravo e ela gargalhou
–Eu não falo sério, você me conhece- Ela respondeu fechando os olhos- Eu quero dormir
–Por quê tão cansada?- Ele perguntou e percebeu ao mesmo tempo, os pulsos!
–Eu sei, mas não precisa, eu só quero dormir
–Você é muito irritante, sabia?- Ele falou mais aliviado, Prig Stígur não morria de suicídio, isso era conhecido por todos, ela abriu um dos olhos e sorriu se entregando
–E mesmo assim você me ama- Ela falou, gargalhando logo em seguida e contagiando o albino
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