Prig Stígur- A Atrevida
16 Bonequinha de luxo
Notas iniciais
O corredor fora da Toca do Corvo era aterrador, o cinza fazia seus olhos se apertarem, era escuro demais para uma visão acostumada com o branco, não usava mais a camisa de força há um tempo, um enfermeiro a puxava brutalmente, Prig passou pelo hall com os olhos fechados, a claridade se infiltrava pelos olhos cerrados da menina, eles ardiam e ela continuava a ser arrastada, agora subia uma escada, ou melhor, era puxada pelos degraus, seu "passeio" acabou com uma porta sendo aberta e ela sendo jogada aos pés de um conhecido:
–Veja só quem veio me visitar- O conhecido se vangloriou- Minha bonequinha de luxo...
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Prig estava sentada em uma das poltronas do hall, William estava ao seu lado conversando sobre as particularidades dos quartos, ah sim, a morena ganharia um quarto, o menino dava sugestões sem fim sobre o que colocar no quarto, como limpá-lo, organizá-lo, a jovem bufou e se levantou:
–Cale a boca William- Ela falou sorrindo
–Corvo, você está ficando muito atrevido- Ele respondeu mostrando a língua
–Você fala como se eu fosse um menino- Ela retrucou emburrada
–Não estou negando- Ele resmungou cínico recebendo um tapa na cabeça- Ai! De feminina não tem nada
–Obrigada pela parte que me toca- Ela terminou a conversa indo em direção ao jardim
William não podia negar que ela parecia um menino, era normal alguém a confundir com um garoto, ela usava calças largas, um casaco gigante, galochas e uma boina por onde enfiava todo o cabelo, idêntica à um garoto... Ele revirou os olhos e a seguiu calmamente, era sempre assim, ela eufórica e ele calmo, algumas vezes os papeis se invertiam, claro, mas nunca os dois estavam iguais:
–Olhe as petúnias!- A morena exclamava transbordando felicidade, sorria verdadeiramente o que se era raro, William retribuiu o sorriso e concordou com a cabeça, se inclinou e cheirou as flores- Eu disse olhe as petúnias, não cheire as coitadas!
–Mil desculpas- Ele entoou sorrindo de forma brincalhona- Corvo- Acrescentou e saiu correndo de uma Prig enfurecida, ela nunca o alcançava, pois as calças escorregavam e ela tinha que as arumar sempre
–Não vale!
–Vale sim! Quem se veste assim é você- Os dois prosseguiram com a perseguição, dois marmanjos, ela com quatorze, ele com quinze, ambos correndo bobos como crianças de cinco anos, presos em uma fantasia de eterno verão, realmente uma pena... O inverno se aproximava
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O dia seguinte seria sexta de panquecas! A morena sentia a alegria a inundar enquanto era arrastada novamente pelas escadas, para o mesmo cômodo, para o mesmo conhecido:
–Bonequinha...- Ele começou chamando-a com o indicador
–Você me acha parecida com um garoto?- Ela perguntou com a voz baixa
–Não, você é parecida com um trapo- Ele respondeu, estava sentado atrás de um gabinete, Prig se ajoelhou a seu lado
–Preciso de roupas novas- Ela soltou em um suspiro lamentoso e inclinou a cabeça para frente
–Tudo pela minha bonequinha de luxo- Ele respondeu em um fôlego só, logo após refrear um gemido nada bem vindo
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Era uma eventual sexta de panquecas, o albino esperava o corvo chegar ao hall, finalmente ouviu um grito esganiçado, virou a cabeça e sentiu seu queixo cair, Prig... Desde quando usava roupas daquele jeito? Ela trajava um short jeans que beirava o meio de suas coxas bem torneadas, uma regata justa cinza e um casaco largo por cima, a touca do casaco estava na cabeça da morena, emoldurando seu rosto e seus cabelos que caíam desordenadamente pelos ombros, escapando do casaco, nas mãos usava luvas que não cobriam seus dedos, joelheiras e nos pés coturnos pretos:
–Pensei que você iria me esperar no jardim- Ela soltou entediada e o puxando para fora
–Pensei que queria sentir o cheiro de panquecas hoje- Ele respondeu depois de sacudir a cabeça, era a primeira vez que realmente absorvia o fato de Prig ser uma garota
–Está com calor hoje? O sol está tão forte que vai acabar matando as petúnias!- Ela exclamou soltando o garoto e correndo para as flores, a menina era obcecada pelas malditas petúnias
William parou para pensar, realmente fazia muito calor naquela sexta, ele mesmo havia deixado o suéter de lado e escolhido vestir uma regata branca, ainda sim, vestia uma calça preta repleta de bolsos e um coturno de mesma cor, ele via ao longe a morena conversando com as flores idiotas:
–Branquelo!- Prig chamou em um berro, ele logo se adiantou
–Fala corvo, que mandas hoje?- Perguntou sorrindo e abaixando o capuz da menina que bufou
–Vamos pegar maçãs de novo?- Ela questionou com os olhos brilhando, ele negou com a cabeça- Ah, por favor- Ela insistiu com uma voz manhosa típica, ele revirou os olhos e concordou- Eu sabia que você iria deixar
–Está achando que me conhece?- Ele perguntou levantando uma sobrancelha
–Não estou achando nada- Ela respondeu rapidamente- Estou tendo certeza- Completou sorrindo
Os dois correram ao lado do muro do manicômio, até chegarem em uma parte de onde se viam galhos carregados de maçãs vermelhas como sangue, se bem que sangue é meio vinho... De qualquer forma, maçãs, ele juntou as mãos formando um apoio, ela posicionou um pé nesse apoio e, com o impulso dos braços dele, pulou alcançando o topo do muro, se contorceu para conseguir subir por completo no muro, estendeu a mão para o amigo que tomou distância e pisou no muro agarrando a mão da menina em seguida, ela o balançou fazendo com que o mesmo conseguisse chegar ao topo.
Ela subiu em seus ombros para chegar à um dos galhos da macieira, ele se arrepiou, segurava firmemente as coxas da menina, desta vez de shorts, proporcionando um contato inédito para o jovem, ela pegou duas maçãs suculentas e desceu das costas do menino, ele desceu primeiro, o impacto fazendo as pernas arderem, Prig desceu em seguida e, com a dor nas pernas, caiu por cima do amigo, sentou na barriga do mesmo e ali ficou:
–O corvo está confortável?- Ele perguntou tentando se levantar
–Muito- Ela respondeu mordendo a fruta recém colhida, pegou a maçã da mão de William e sorriu travessa- Tá uma delícia, deveria provar a sua...- Provocou e em seguida saiu correndo, com o jovem em seu encalço
–Devolva isso sua hiena maligna!- Ele gritou enquanto tentava alcançar a garota que estancou e virou-se para ele
–Do que você me chamou?
–De hiena maligna
–Pensei que fosse um corvo
–Nada impede um segundo apelido- Ele se explicou dando de ombros
–Albino idiota- Ela soltou jogando a maçã para ele e andando para o jardim, "mais petúnias", pensou William enquanto olhava a pernas da moça se distanciarem, seus dedos formigavam quando lembravam do contato- E não ouse se esquecer do meu aniversário!- Ela berrou sem parar de andar
–Claro, como eu poderia? Você me lembra a cada cinco minutos- Ele respondeu resmungando, mal podia esperar o aniversário daquela pequena
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