Prig Stígur- A Atrevida
6 A moradia de uma ladra
Notas iniciais

O sol nascia quando Prig abriu os olhos, ela não se lembrava de ter voltado pra casa, mas estava lá, sua casa era uma construção pequena feita de madeira com um aposento, esse aposento era uma espécie de sala, algumas poltronas e cadeiras ficavam espalhadas perto de uma estante cheia de livros, janelas deixavam a claridade entrar em abundância, a casa estava imunda, folhas e penas estavam espalhadas pelo chão, parte da árvore que erguia a "casa" da morena invadia a sala, gansos passeavam pelo cômodo, eles visitavam nossa protagonista de vez em quando, falando nela... Prig estava deitada em uma das poltronas, os olhos ainda se acostumando com a claridade, ela se sentia estranha, tudo que lembrava era ter cortado seu braço...
Falando nisso como estava ele? Ela puxou a manga e viu a mais nova cicatriz, com um suspiro que logo se tornou um bocejo contagiante ela arrumou a manga, sentiu um arrepio na nuca, ela conhecia bem a sensação, estava sendo observada, mexeu levemente o pé e percebeu que sua adaga havia sido retirada, ela estava desarmada... Prig respirou fundo e tentou se acalmar, um rangido no assoalho foi mais eficiente nisso:
–Livros, quantos livros... Cinderela, Bela Adormecida... Hum... Chapeuzinho Vermelho?- A voz era grave e irônica, a morena sorriu e sentou-se arrumando o cabelo
– Breu!- A moça falou abraçando a almofada e tombando levemente a cabeça- Que feio ficar invadindo a casa dos outros...
– Oh minha ladra acordou- Breu disse virando e sorrindo- Esses livros...
–São os que eu te falei- A morena respondeu rindo- Pode pegar, mas devolva depois
–Eu nunca estragaria algo seu- O homem disse se aproximando da moça que permanecia sentada, ele sentou-se ao lado e puxou lentamente a almofada que ela segurava
–Breu- Ela disse soltando a almofada que foi jogada ao léu, o mestre dos pesadelos colocou a mão no rosto da morena, colocando algumas mechas do cabelo dela atrás da orelha
–Prig- Ele sussurrou de volta, seu nariz roçou a bochecha da morena que fechou os olhos
Breu puxou a moça pela nuca e avançou para o pescoço da mesma que soltou um suspiro e revirou os olhos, o mestre dos pesadelos se limitou a sorrir e continuou beijando e mordendo o alvo pescoço de Prig que enterrava seus dedos nos negros cabelos do homem. Talvez fosse a imaginação da menina, ela havia descoberto uma nova marca, a marca da insanidade... Ela empurrou Breu quase que de forma grosseira, o mestre dos pesadelos sorriu e estalou os dedos, com isso ele e alguns livros da estante sumiram em um vapor negro.
A moça se desesperou, a marca da insanidade não estava mais brilhando, então como havia deixado aquilo acontecer? Sentiu o rosto ficar vermelho e sacudiu a cabeça, ela tinha coisas pra fazer, ao contrário dos guardiões ela tinha que se virar sem ajuda, ela era como Breu, machucada demais para continuar vendo o lado positivo, o sarcasmo já tinha a infectado, ela era a cara e a coroa, os dois lados da moeda, a coisa mais imprevisível que alguém pode conhecer.
Seu mindinho direito queimava, ela estava com uma saia verde xadrez, uma blusa branca, um cardigã lilás por cima e um laço vermelho amarrado na gola da blusa, nos pés tinha meias e pequenas botas bege, o cabelo sempre bagunçado estava enfeitado com fitas também erradas e mal colocadas, aquela era sua face de hiena, mais sarcástica e repleta de humor negro? Impossível.
A menina correu para a janela e pulou, segurou um galho, balançou-se e soltou, caiu no chão com um escorregão desajeitado, amassando o braço que agora latejava fervente, mas ela ria, depreciava a si própria, ótimo, um braço machucado, não quebrado, mas talvez torcido e ela sabia quem tinha um remédio pra isso...
Prig andava para o parque em que havia visto Jack Frost, afinal ela precisaria de ajuda para fazer o que tinha de ser feito, logicamente estava comendo um sanduíche, pra quê desperdiçar uma ida à padaria a qual estava tão acostumada a assaltar? Ela já lambia os dedos quando uma brisa gelada começou, ela sorriu e sussurrou:
–Frost
–Sabe, não muito legal roubar e se aproveitar do fato de não ser visível para eles- Lá estava o albino, risonho como sempre, aqueles mesmos cabelos brancos bagunçados e o mesmo sorriso torto e que sorriso- Já superou a desavença de ontem?
–Que desavença?- Ela perguntou sorrindo
–Como assim que desavença? Ontem você quase cortou minha garganta!
–Eu?- Prig sorria docilmente- Eu não, uma parte de mim sim, mas não essa parte de agora
–Ok, vamos com calma, eu to vendo tudo girar- O albino falava segurando a cabeça e fazendo uma cara enjoada
–Eu não vou te explicar, é muito técnico, agora, quer brincar Frost?
–Brincar de que?- Ele perguntou sorrindo de canto
–De caça ao tesouro- Prig respondeu sorrindo somente com os lábios, seus olhos permaneciam frios
–Qual é o tesouro?- Jack estava em pé ao lado da morena e já estava se esquecendo da noite anterior
–Surpresa- Ela respondeu, o albino arqueou a sobrancelha- Vem?
–Só porquê eu não tenho mais nada pra fazer- Ele respondeu sorrindo
Prig não o esperou, continuou andando, Frost a acompanhava imaginando várias situações e frases para falar à morena, mas nenhuma ousava deixar seus lábios, a moça andou e andou, chegou na entrada de uma caverna e virou-se para Jack:
–Vai desistir Frost?- A pergunta desafiava a honra do rapaz, é claro, ele sorriu e negou com a cabeça- Ótimo
Ela avançou pela caverna escura, seu indicador direito começou a brilhar, agora ela era uma gata, com suas típicas orelhas felpudas e a cauda comprida, Jack arregalou os olhos e soltou um arquejo de susto, Prig agora trajava um vestido preto rendado assim como luvas, pequenas botas e uma fita de cetim amarrada na garganta, quase como uma coleira... O albino corou levemente:
–Algum problema Frost?
–Tirando que você acabou de criar orelhas peludas e uma cauda, mudou de roupa magicamente e agora parece mais fofinha? Nenhum
–Eu sempre fui fofinha- Ela respondeu ofendida
–V-v-vamos logo prosseguir
–Ok- Prig se divertia horrores ao irritar o albino, mas ela ainda precisava roubar aquilo
Os dois andaram no escuro por um tempo, a morena se orientava bem, mas Jack ficava tropeçando toda hora a ponto da moça ter que segurar sua mão para guiá-lo, coisa que o albino nem ligou obviamente. O corredor foi ficando mais claro de repente, ele acabou desembocando em uma grande clareira subterrânea, pedras em forma de ovo, cheias de musgos e com faces desenhadas estavam espalhadas pelo local:
–Nós estamos na...- Jack começou largando a mão de Prig
–Na toca do Coelho da Páscoa? Ah sim, estamos, não é legal?- Prig sorria amigável
–Não! Ele me odeia!
–Eu sei
–Não você... Peraí, você sabe? Então por quê...?
–Você é útil- A morena disse dando de ombros, ela ajoelhou ao lado de um lago e sorriu- Sabe o que é isso?
–Um lago?
–Sua genialidade sempre é impressionante Frost- Ela disse carrancuda- Isso é a melhor coisa de todas, uma espécie de água curativa
–Ah, legal, pera, isso que você queria pegar? Não, isso é errado
–Fala isso para eles- A morena falou apontando as pedras que agora giravam e estavam avançando para eles
–Vamos embora!- Jack disse aflito, a morena sorriu e negou com a cabeça enquanto se levantava
–Congele-os, isso vai para-los
–Mas eu não posso, isso é errado
–Faça logo e cale a boca, não tem problema nenhum, eu só vou pegar um pouco pra curar meu braço
–Seu braço?
–Eu o machuquei sua besta, agora congele-os!- Ela gritou, o albino fez o que lhe foi pedido e as pedras pararam, não se mexeriam tão cedo- Obrigada
–Prig, suas orelhas- Jack falou, a morena percebeu que elas e a cauda haviam desaparecido, ela estava novamente com sua roupa habitual de frio
–Isso acontece ás vezes, essa sou eu sem nenhuma marca me influenciando- A morena explicou forçando um sorriso- Agora, com a sua licença- Prig falou tirando o casaco
–O que você vai fazer?
–Você tem que entrar para se curar e eu não quero molhar minhas roupas- A moça explicou com um tom natural enquanto tirava as luvas, cachecol e gorro
–Não acha melhor eu ir embora?
–Não- Isso fez o albino adquirir um tom vermelho- Caso essas pedras voltem a funcionar
–Ah, claro...- Jack olhava para o chão encabulado
–Vire de costas Frost, não olhe!- O albino se limitou a concordar com a cabeça o que deixou a morena sorrindo, ela tirou a blusa, a calça e as roupas íntimas, entrou no lago que estava com a água aquecida e deliciosa, mas aquilo não a deixou satisfeita- JACK!
–O que... Ah desculpe, eu iria virar...
–Pode virar- Ela respondeu, o albino a obedeceu e arregalou os olhos- Que foi? Eu estou com água até o pescoço!
–Mas mesmo assim...
–Você é ridículo, venha dar um mergulhinho
–O QUE?!- Jack parecia que ia desmaiar
–Por favor, eu juro que não vou fazer nada que você não goste
–Ta bem, mas não olhe
–Já estou mergulhando
Jack se despiu e entrou na água, deixando seu cajado ao lado de suas roupas na margem, ele permaneceu bem afastado da moça que logo apareceu na superfície com um sorriso estampado no rosto:
–Não dá pra ver nada embaixo d'água, juro, experimente, olhe bem!- Ele a obedeceu, realmente, não dava pra ver nada, ele permaneceu mergulhado tentando enxergar até sentir um cutucão no ombro, logo subiu para a superfície espantado- O que? Eu disse que não faria nada que você não gostasse!
–Mas eu...- Ele tentou falar, mas a morena juntou seus lábios em um selinho rápido- Por quê fez isso?!
–Você não gostou?
–Eu... Er... Gostei, mas...
–Então não estou quebrando minha promessa- Ela responde sacana- Então Frost, quer jogar um joguinho?
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