Prig Stígur- A Atrevida
5 A aliança ou algo mais...
Notas iniciais

Prig se sentia abalada mesmo que minimamente, Jack ficara preocupado com ela, exatamente como ela pensava que ele ficaria... Ele havia descoberto que ela não era como os outros e isso atrapalhava sua vida, pelo menos ele não havia visto ela sumir na parede, cortesia de seu mais novo conhecido, oh sim, devo ter esquecido de narrar essa parte, pois bem, para isso servem os flashbacks.
+flashback on+
Depois de a ambulância recolher sua mãe, a polícia levou Prig até a casa de sua tia, o policial havia prometido que ela pegaria suas coisas mais tarde, a menina ainda estava em choque pelo que acabara de presenciar, mas mantinha a educação e agradecia sinceramente ao policial atencioso, ela chegou à casa da tia com um sorriso no rosto, o policial foi com ela até a porta e tocou a campainha.
Uma mulher de mais ou menos cinquenta anos atendeu a porta, ela tinha os cabelos castanhos dando espaço à fios brancos deixando um tom prateado ao castanho escuro, a pele tinha algumas rugas e marcas de expressão, os olhos também castanhos mostravam severidade, seus lábios finos e ressecados torceram-se em um sorriso educado, o nariz permanecia levemente arrebitado para ressaltar a arrogância, em outras palavras, ali estava a tia de Prig, o policial adentrou a casa junto com a menina, enquanto Prig explorava a moradia provisória, o policial explicava tudo para a tia que mantinha um terço enrolado na mão, ela balbuciava orações e ficava repetindo o sinal da cruz.
A menina nem estava prestando atenção, já havia saído da sala há tempos, agora explorava a cozinha clara e com uma janela que proporcionava a vista de um belo jardim, Prig abafou um gritinho de felicidade e correu até a porta que levava até ele, a grama era verde e tinha toques coloridos por conta das flores perfumadas que cresciam espalhadas, uma árvore frondosa projetava sua grande sombra no chão, a menina viu o balanço pendurado naqueles galhos grossos e sorriu, ele estava velho, a madeira rachada, a pintura lascada, as cordas gastas... Mesmo assim ela sentou-se no balanço e deu um impulso para trás, as perninhas balançando no ritmo certo e um sorriso vacilante surgindo de seus lábios até então tirstes.
De repente a morena ouve a tia chamá-la da janela da cozinha, a menina correu para a casa imediatamente, ansiosa pela causa do chamado, ao chegar na cozinha, porém, encontrou a tia com uma expressão assustadora, ela apertava o terço em uma das mãos:
–Sua danada! Quem a autorizou a ir ali?- A tia soava furiosa, mas a menina não entendia o motivo- Ande, responda a minha pergunta sua peste
–Tia... -A menina balbulciou, mas a senhora negou com a cabeça
–Não me chame assim, sou Mary Daves para você
–Tudo bem, Mary, aquele é o jardim da sua casa e como eu vou morar aqui pensei que...
–Pois pensou errado, criança- Mary Daves respirou fundo e sorriu levemente- Desculpe Prig, você sumiu, apenas me deixou preocupada
–E com medo?
–Não, meu anjo da guarda me protege, eu não preciso ter medo
–Esse anjo te protege do Bicho Papão?- A menina perguntou arregalando os olhinhos
–Não existe Bicho Papão- A tia disse divertida
–Minha mãe disse que existe e que ele tenta estragar os sonhos do Sandman- A menina explicou tombando a cabeça levemente
–Não existe Bicho Papão, nem Sandman, sua mãe é boba e fica acreditando em histórias, os sonhos são recompensas para boas pessoas e os pesadelos são a punição para os pecados
–Certo...- A menina falou tentando assimilar o que a tia falava- O que são pecados?
–Sua mãe não te ensinou nada sobre religião, pequena?- A menina negou receosa- Cruzes!- Mary Daves falou fazendo o sinal da cruz- Isso é terrível! Amanhã iremos a igreja e você vai ser educada no colégio de freiras de lá, já ouviu falar de conventos?
–Não, é um lugar frio?
–Por que essa pergunta?
–Ora, se é um lugar com ventos...
–Cale a boca menina insolente!- A tia se exaltou por um momento- Não fale assim de uma coisa tão bem intencionada, o convento vai fazer bem pra você, menina curiosa e insolente.
–Mas...
–Sem mais Prig- A senhora disse- Você gosta desse nome? Prig? Devia mudar...
–É o nome que minha mãe me deu...
Agora vocês, meus leitores, perguntam porquê Mary Daves é tão... Chata, sim, essa seria a palavra, bem, acreditem, ela tem seus motivos, Mary Daves é a irmã mais velha da mãe de Prig, ela já teve de abortar duas vezes, não consegue ter filhos por sua idade avançada, seu marido morreu em um acidente de carro e agora ela é uma fanática religiosa, além disso ela não mantém contato com sua irmã (sua única parente viva) já que ela não aplica o devido ensino à sua filha, isto é, a mãe de Prig a ensina em casa e mantém as crenças infantis do Coelho da Páscoa, Papai Noel e outros... Bem, está explicado, por isso nossa Prig não se dá bem com sua tia, um ano se passou, a mãe de Prig continua no hospital, a menina acende uma vela todas as noites além de rezar incessantemente para a melhora de sua mãe, para ir pra casa, esta noite específica não estava deixando-a pegar no sono.
Prig morava com a tia e sua ditadura religiosa, sempre com aquele cheiro horrível de bolor, a menina era obrigada a ir na missa todo dia, usar roupas compridas já que a carne é pecadora, além de ter que ouvir que suas crenças infantis eram obras do demônio, não, elas não eram, Jack Frost havia aparecido para ela, todos existiam.
A casa de sua tia tinha tres andares, a morena habitava o terceiro, não era exatamente um quarto, era um sótão modificado, com uma janela dando acesso ao telhado, Prig estava lá sentada, abraçando as pernas e com a cabeça apoiada nos joelhos, um dos braços tremia, a manga do casaco que deveria estar cobrindo esse braço estava arregaçada revelando um corte, a menina tinha os olhos vermelhos pelo choro, ali no telhdo ela podia ser ela mesma, respirar ar fresco... Sem se importar com a tia que dormia no térreo já que tinha medo de altura, Prig amava altura, sua mãe também gostava...
O céu estava escuro, não haviam estrelas, nem mesmo a Lua se fazia presente, de repente a morena sentiu um calafrio na espinha, um vulto alto e negro como o petróleo surgiu ao seu lado, aos poucos o vulto foi tornando-se um homem com os cabelos da cor do piche e a pele cinzenta, usava um sobretudo também preto, ele sentou-se ao lado da menina:
–O que uma garotinha como você faz fora da cama?- Ele perguntou sorrindo de canto
–Não consigo dormir- Ela respondeu abaixando a cabeça- Quem é você?
–Essa resposta não darei agora, nos encontraremos mais vezes, lhe prometo, agora... Por quê não tentar dormir de novo?
–Não dá, não consigo, tem muita dor...
–Mas eu já ouço o suplicar de um corpo cansado- O homem coçou o queixo pensativo e sorriu novamente- Dor não é? Isso tem algo a ver com esse machucado, imagino... Foi você, não foi?
–Melhorou muito depois de me cortar- A menina virou a cara para não olhar nos olhos frios daquele estranho que ela sentia conhecer tão bem...
–Você não faz ideia do que ainda vai fazer- Ele disse tocando levemente o corte no braço de Prig, instantaneamente uma areia negra o cobriu e o fez desaperecer- Para dar mais espaço aos futuros cortes- Ele explicou quando a menina pareceu perceber- E agora um presente
–Que presente?
–Um presente ruim- Ele disse beijando o topo da cabeça da menina e fazendo-a desmaiar na mesma hora, ele colocou-a de volta na cama e foi embora
+flashback off+
As lágrimas já caíam há tempos quando Prig finalmente encontrou quem a havia ajudado, ele estava sentado na mesma cadeira de sempre, a almofadada e com cara de ser importante, algo nele estava mais sombrio que o normal, talvez fossem as sobrancelhas expressando repulsa, ele encarava um pedaço de papel e fazia caretas a medida que o lia, a morena sorriu tenramente:
–Sabe Breu, você já conseguiu parecer mais ameaçador...
–Bem- Ele disse levantando a cabeça e a encarando com aqueles mesmos olhos frios- Eu nem sempre faço meu melhor...
–Não me diga- A menina falou sentando na cadeira na frente de Breu, uma mesa de madeira escura separava os dois- O que está te incomodando tanto?- Ela perguntou puxando o papel que se revelou um livro fino- Hum... Cinderela, sério?- Prig segurava o riso- Você estava lendo Cinderela?
–Tentei entender a tal magia dessas hitoriazinhas sem graça- Ele respondeu resmungando
–Não tem magia- Ela falou ficando séria e largando o livro- O original seria mais adequado para você
–A ladra está muito sem graça hoje- Breu falou abrindo ainda mais o sorriso, por cima da mesa ele puxou o braço da menina e arregaçou a manga da mesma, várias cicratizes de linhas retas estavam lá- Por que eu iria preferir os originais?- Ele perguntou enquanto contornava as cicatrizes da morena com a ponta do indicador
–Tem a sua cara- Ela respondeu virando a cara como sempre fazia para não encará-lo, ela puxou o braço e arrumou a manga- Morte, desespero, medo...
–Realmente a minha cara- Ele concordou se levantando- Agora me diga uma coisa ladrazinha pequena, como foi fugir de Jack Frost?
–Foi... Inesperado- Ela falou se encolhendo na cadeira, sentiu os ombros sendo tocados, os mesmos agressivos e raros toques do mestre dos pesadelos- Pensei que ele...
–Você não é burra Prig, você sabia que ele iria te seguir, sabe que os guardiões não ligam pra ele, talvez se você pudesse traze-lo para o nosso lado...- Ele a puxou, obrigando-a a levantar-se, ficou cara a cara com o interlocutor, aquelas orbes frias a analisavam
–Ele não vai querer- Ela respondeu baixo, Breu levantou sua cabeça quase que delicadamente
–Discutimos depois, pode buscar os livros que falou amanhã?- Aquilo era gentileza vinda dele? Justo dele? Ela concordou com a cabeça e ele soltou-a, a morena saiu andando, as cicatrizes coçavam
Andou e andou, saiu do covil, chegou em uma ponte, uma garoa começava fina, será que naquele lugar só chovia? Sério! Que marcação é essa? Prig sentou no asfalto molhado, ela estava tomando chuva e sim, ela estava odiando cada segundo, sua mão alcançou a adaga que ficava em sua cintura, ela se movia automaticamente, seu outro braço esticou enquanto ela usava a mesma mão da adaga para arregaçar a manga, a adaga rasgou brevemente sua pele, ela tombou a cabeça para trás e sorriu, ouso dizer que gargalhou.
Prig Stígur tinha seu anelar esquerdo brilhando. Insanidade. Prig Stígur tinha insanidade.
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