Pânico.

Pânico era o que eu estava sentindo. Meu corpo tremia e suava. Eu corria, corria muito, mas parecia que eu continuava no mesmo lugar. Aquele beco escuro me trazia lembranças e sensações horríveis. Eu estava sozinha ali, podia perceber. Mas meu instinto de fugir me dominava. Por mais que eu corresse, de nada adiantava. Eu não saia do beco.

⁃ Mamãe— comecei a escutar uma voz ao fundo — Mamãe, socorro! — o pedido desesperado fazia lágrimas rolarem por meu rosto. Eu tentava sair do lugar, mas não conseguia. Tentava descobrir o local de onde a voz vinha, mas não conseguia.

⁃ Cadê você? — gritei desesperada

⁃ Mamãe— a voz infantil suplicava — Mamãe, ele vai me matar — o soluço do choro saiu arranhando minha garganta — Não deixa ele me matar .

⁃ Eu não vou deixar — garanti entre o choro, eu forçava meu corpo a sair do lugar, mas nada acontecia. — Eu não vou deixar — gritei — Me fala onde você está.

⁃ Socorro! — a voz da criança foi se enfraquecendo — Você me deixou morrer, mamãe, eu não queria morrer— e o silêncio se instalou no beco

⁃ Não! — gritei aos prantos — De novo não! Eu não posso te perder de novo! — solucei — Não! — agora eu sentia braços me prendendo e comecei a me debater, me sentindo sufocada. Eu sabia quem era, era a pessoa responsável pela morte do meu bebê. Eu não ia deixar ele nos machucar de novo. Eu não ia deixar ele matar o meu bebê de novo — Me solta — gritei de novo me debatendo ainda mais, o beco começou a rodar e eu sentia as mãos cada vez mais firmes em meus braços — Você não vai tirar ele de mim de novo! Me solta!

⁃ Felicity— o dono das mãos que me seguravam me chamou — Felicity!— a voz era doce demais para alguém que queria me fazer tão mal.

⁃ Por favor — chorei — Por favor não machuca ele de novo — eu tentava puxar meus braços a todo custo para poder correr para longe do perigo e salvar meu bebê.

Dessa vez eu não ia perdê-lo, eu iria conseguir salvá-lo.

⁃ Amor — a voz chamou — Felicity, abre os olhos. É um pesadelo. Não é real — o beco a minha volta começou a girar ainda mais, apertei meus olhos os fechando para evitar uma queda devido a tontura. Tudo rodava. — Abra os olhos, meu amor. Olha para mim. — a sensação de tontura finalmente havia passado e eu me concentrei na voz a reconhecendo.

⁃ Oliver? — sussurrei ainda de olhos fechamos. Ele não ia me machucar. Ou ia?

⁃ Abra os olhos — e assim eu fiz, aos poucos, me acostumando com a pouca luminosidade ao redor e estudando a feição do homem a minha frente. Me sentei em um rompante sentindo a minha cabeça latejar. As lágrimas ainda rolavam no meu rosto e eu estava ofegante. O sonho a pouco vivido vindo a tona me fazendo tremer — Calma, foi só um pesadelo. — segurou minhas mãos trêmulas me puxando para um abraço. Me deixei ser abraçada.

Só Deus e eu sabemos o quanto que eu quis esse abraço quando perdi o nosso bebê. Só Deus e eu sabemos o quanto eu queria contar tudo para ele. Mas eu não conseguia, eu não ia aguentar o julgamento em seu olhar. A culpa era minha, aquela perda era culpa minha. Eu não queria que o Oliver me odiasse. Eu não iria suportar.

Chorei molhando sua roupa com minhas lágrimas e ele me puxou para o seu colo. Me prendi a ele como se a minha vida dependesse disso.

⁃ Me desculpa por isso — falei quando me acalmei

⁃ Você nunca deve se desculpar — secou uma lágrima solitária que ainda rolava pela minha bochecha — Eu estou aqui para cuidar de você. Pra sempre. — beijou minha testa e eu assenti me aconchegando na cama. Oliver me abraçou por trás e ficamos deitados um tempo em silêncio — Quer falar sobre o pesadelo? Quem não podia ser machucado de novo?

⁃ Eu não lembro — menti — Só lembro de ser horrível e escuro — essa última parte não era mentira

⁃ Está tudo bem agora — beijou meus cabelos — Desculpa por te deixar sozinha.

⁃ Sobre isso…

⁃ Dorme, amor — pediu carinhoso — Amanhã conversamos.

(…)

Amanheci mais calma. Dormi tão pesadamente que não escutei quando Oliver levantou e solicitou o café da manhã na cabine. Quando acordei, não sai do quentinho das cobertas de imediato, mas o cheiro de café misturado com ovos mexidos fresquinhos me fizeram pular da cama.

Meu Conde não estava no quarto, mas com certeza estava na ante sala da cabine. Me apressei em me arrumar, tomei um banho e coloquei um vestido junto de um chapéu de lado. O navio atracaria no Porto depois do almoço. Eu ainda teria tempo de explorar mais um pouco do grande barco. Lógico que antes conversaria com Oliver sobre a sua atitude da noite passada.

Passei um pouco de batom e blush e preferi deixar o meu cabelo solto de forma natural. Ele estava um pouco maior desde a última vez que reparei. Havia ficado tentada em corta-lo bem no queixo, como o de Thea e Lyla, era moda e todas as mulheres pareciam gostar. Mas desisti justamente por todas as mulheres terem esse corte. Longos e ondulados estava ótimo para mim.

Abri a porta dupla do quarto que dava para a pequena sala de estar e encontrei Oliver sentado no sofá lendo um jornal. Ele bebia algo que eu deduzi ser café e estava impecável com uma roupa casual e um chapéu charmosamente depositado em sua cabeça. O carrinho com o café da manhã estava a sua frente.

Oliver estava tão lindo. Haviam várias maneiras de aproveitar essas últimas horas no navio, essa últimas horas dentro dessa cabine, as últimas horas na cama… Mas eu precisava de respostas antes de qualquer coisa.

⁃ Bom dia — falei me sentando ao seu lado e me estiquei para beijar sua bochecha, mas ele virou o rosto e acabamos dando um selinho e logo depois voltou a dar atenção ao jornal — Achei que não queria me ver — fui direto ao assunto enfiando um pedaço de pão na boca. Ele abaixou o jornal e me olhou atentamente.

⁃ Eu sempre quero te ver — e voltou a olhar o jornal

⁃ Ontem eu praticamente derrubei a sua porta e você não me atendeu — comecei — Eu não sei o que deu em você ontem…

⁃ Desculpa por isso — jogou o jornal de lado — Mas eu não estava na minha cabine, Felicity — suspirou — Eu fui para o bar, e quando voltei pra cá te encontrei chorando e gritando na cama. Quer conversar sobre isso?

⁃ Não desvia do assunto, por favor, Oliver — pedi e ele suspirou mais uma vez desviando o olhar de mim — Foi só um pesadelo, já passou. A prioridade aqui não é essa — minha barriga roncou tirando qualquer credibilidade que eu teria nessa discussão.

⁃ Se alimenta — me olhou novamente — Eu não vou a lugar nenhum — garantiu — Come e conversamos sobre o que você quiser. Responderei qualquer pergunta que tenha.

Assenti e ele voltou a pegar o jornal. Conclui que ele não estava lendo nada, apenas estava usando o pedaço de papel para evitar um contato visual comigo. Suspirei e me servi de café, colocando um pouco de açúcar e pegando uma porção de ovos, bacon e uma panqueca cheia de melado de chocolate. Um café da manhã bem americano. Sentiria falta disso quando chegasse em casa. Ah, mas com certeza eu faria ter refeições bem americanas naquele casarão.

Depois de estar devidamente alimentada, e posso dizer que até empanzinada, eu corri para o banheiro onde fiz minha higiene bucal. Reforcei meu batom e voltei para a sala. Oliver estava na mesma posição. Durante o tempo em que eu fazia minha refeição, ele havia ficado com a cara enfiada naquele jornal.

⁃ Pronto — falei puxando o jornal da sua mão e o jogando no chão

⁃ Hey — protestou — Eu realmente estava lendo sobre a bolsa de valores.

⁃ A bolsa de valores pode esperar — sorri sem humor — Eu não — apontei para mim mesma

⁃ Okay, amor — suspirou. Ele estava suspirando demais hoje. — O que você quer saber?

⁃ O que eu quero saber, Oliver? Você sumiu ontem depois de confirmar se eu realmente era filha do meu pai. Você tem alguma desavença com meu pai? Nossas famílias são inimigas e eu não sei? — ele meneava a cabeça com o olhar cheio de culpa — Eu preciso saber o que está acontecendo, pois eu já estava mais do que disposta a chegar em Londres e gritar aos quatro ventos que eu te amo, que eu quero passar a minha vida inteira com você. Mas por um momento eu senti que você não partilha da mesma vontade que eu. Então eu preciso saber, Oliver.

⁃ Viver a minha vida inteira com você é o que eu mais quero nesse mundo — sorriu segurando as minhas mãos — Gritar aos quatros ventos que é com você que eu quero me casar é tudo que mais desejo. Eu te amo. Por favor, nunca duvide disso. Eu te amo. — seus olhos marejaram e meu coração acelerou — Eu te amo tanto que dói. Mas existem situações, pessoas acima de mim. Você foi criada no mesmo mundo caótico que eu, com todas as exigências e limitações — suspirou e eu assenti. Ele estava falando sobre ser filho de um nobre. — Obrigações… Eu não tenho escolha. Eu não tive escolha.

⁃ Escolha sobre o que? — falei com a voz embargada e lá no fundo, lá no fundo do meu coração eu sentia o que ele estava prestes a dizer. Minhas mãos tremeram e ele sentiu e então as apertou um pouco mais.

⁃ Eu te falei que eu sempre faria de tudo pela minha família. Lembra? — assenti me arrepiando. Eu sabia o que ele ia falar. Eu sentia. Como eu pude ser tão tola? As lágrimas já se acumulavam no canto dos meus olhos — Minha família precisa de mim, Felicity, meu pai se afundou com jogos clandestinos, ele viciou durante a guerra — apertou ainda mais minhas mãos — Ele quase perdeu nossa fortuna na mesa de jogo. — seu olhar voou longe, como se estivesse lembrando, revivendo alguma situação — A uns meses ele apostou as ações de uma das empresas que mais rendia dinheiro, com a ajuda de um advogado mamãe conseguiu bloquear o poder de papai com todo o resto da fortuna. Mas sem essas ações em questão, minha família está com dificuldades. Minha mãe só disponibiliza o valor suficiente para manter a casa e os empregados. Se gastar demais, vamos falir. Mas meu pai já havia perdido uma boa parte do dinheiro. Não temos mais regalias. Eu só tenho dinheiro, pois recebi uma grande gratificação do exército pelo meu serviço. Mas eu precisei aceitar me sacrificar pela minha família.

⁃ Sacrificar?

⁃ Meu pai perdeu as ações da empresa para o seu pai na mesa de jogo, Felicity. Ele perdeu bastante dinheiro e mais as ações para o seu pai. — suspirou e eu assenti entendendo tudo, o meu mundo desmoronou no momento em que ele falou sobre meu pai — Minha mãe tentou intervir com esse advogado, e então seu pai propôs um acordo… Assim, ele devolveria as ações da empresa e a grande quantia em dinheiro.

Era ele.

Ele era o noivo da minha irmã.

Ele mentiu para mim da pior forma que alguém poderia mentir. Eu conseguia sentir o nojo crescendo em mim, a náusea vindo com tudo.

⁃ E então você precisa se casar com a filha do meio dele. Não é? — falei com certa dificuldade, fazendo de tudo para segurar o choro — Esse é o acordo.

⁃ Como…? — aquilo fora o suficiente para mim. Como se Oliver fosse um ser tóxico eu puxei minhas mãos abruptamente das dele e me levantei indo para o outro lado da sala.

⁃ Como eu sei? — fui ríspida — Eu não sou burra, Oliver — funguei segurando o choro, meu corpo todo tremia — EU NÃO SOU BURRA!

⁃ Felicity… — se levantou vindo na minha direção

⁃ NÃO! — berrei — Não chega perto de mim. — abracei meu corpo na tentativa de parar de tremer — Eu sou o que pra você? Sua despedida de solteiro? Seu adeus a vida de cafajestes para logo depois se casar com a MINHA IRMÃ?

⁃ Eu não sabia que ela era sua irmã. — falou baixo olhando para o chão

⁃ Você mentiu pra mim, Oliver. Ela sendo a minha irmã ou não — tentei recompor meu tom de voz — Você passou todos esses dias fingindo que me amava, me enchendo de esperanças, enquanto está de casamento marcado.

⁃ O casamento não está marcado — passou as mãos pela cabeça em desespero — Eu queria te contar, mas eu não consegui. — as lágrimas dele já eram evidentes. Falso.

⁃ Não queria perder o sexo fácil?

⁃ Você não é um sexo fácil, Felicity, você é a mulher da minha…

⁃ Não termina essa frase — rosnei — Sai daqui — pedi permitindo que as lágrimas escorressem pelo meu rosto.

⁃ Felicity — ele chorou também dando mais um passo na minha direção.

⁃ NÃO CHEGA PERTO DE MIM — berrei aos prantos — SAI DAQUI! — ele não se moveu e continuou parado soluçando — Sai daqui, Oliver, por favor. — Ele assentiu secando suas lágrimas e me deu as costas saindo da cabine.

Fui até a porta a batendo com força e trocando, corri para o quarto e tratei de arrumar todas as minhas coisas deixando apenas as dele lá.

Como eu pude ser tão tola? Como eu pude acreditar que Oliver me amava na mesma proporção que eu o amava? Quando tivemos a nossa primeira vez em Nova York eu não me importei com sentimentos, eu queria me divertir e ele me proporcionava isso. Nunca trocamos juras de amor. Mas quando chegamos no navio ele se declarou, ele dizia que me amava todos os dias. Por 10 dias agimos como um casal e isso era apenas um teatro da parte dele. Porque ele fizera isso comigo? Logo comigo. Que mal eu fiz a ele? Oliver teve diversas oportunidades de me contar. Ele poderia ter me dito que sua família estava com dificuldades financeiras assim que nos vimos no primeiro dia de embarcação. Eu teria ajudado, eu teria dado a quantidade que fosse preciso. Eu o amava, eu amava Thea. Eu teria os ajudado.

Depois de ter arrumado tudo meu, guardado cada peça minha nas malas e caixas. Deitei na cama me cobrindo totalmente. Eu estava trêmula, minha cabeça latejava e o choro não parava. O sonho de mais cedo veio como uma lembrança assustadora. Seria isso um castigo? Um castigo por ter sido tão imprudente e perdido meu bebê? Um castigo por não ter mandado uma carta para Oliver dizendo que ele seria pai mesmo sabendo que a carta poderia nunca chegar até ele? E depois de termos nos encontrado eu continuei omitindo. Eu merecia um castigo dessa proporção? Eu ia contar para ele, quando estivéssemos em terra firme eu iria contar, eu só não estava pronta ainda e não queria estragar a viajem com um assunto tão delicado.

Ah, eu sou tão burra.

Solucei com o pensamento de que isso ainda não tinha acabado. Eu iria encontrar Oliver assim que chegasse em casa. Ele estava indo para Wiltshire, ele iria passar uma temporada na minha casa. Noivo de Laurel. Eu conviveria com ele cortejando a minha irmã.

Eu não merecia tal castigo.

Eu preferia nunca te-lo encontrado nesse navio a viver tal desgosto. Tal desapontamento. Minha vontade era de pegar minhas coisas e voltar correndo para Nova York, voltar para a segurança do meu apartamento.

Aos poucos eu fui sentindo o amor que eu sentia ser soterrado pelo rancor, pela amargura e pela raiva. Eu queria nunca mais ver Oliver na minha frente, eu queria nunca mais ter que tolerar aquele olhar em cima de mim. Meus soluços se intensificaram. Eu teria que suportar ele por dias. Teria que sorrir em seu noivado, teria que fingir felicidade com a felicidade da minha irmã. Teria que reprimir o sentimento, o ciúme.

Eu deveria deixar de amar Oliver. Eu deveria esquecer ele para sempre. Soterrar tudo que vivemos. Jurei a mim mesma construiria um muro, um muro que seria impenetrável para Oliver Queen.

(…)

Um lacaio do navio solicitado por mim me ajudou quando atracamos no Porto. Ele pegou todas as minhas malas e colocou tudo em um táxi que me levaria a estação de trem.

⁃ Apenas, senhorita Smoak? — ele perguntou quando voltou para ver se toda a bagagem fora levada da cabine.

⁃ Sim, obrigada — sorri fraquinho assentindo e ajeitando o chapéu na minha cabeça. O mesmo retribuiu o sorriso e saiu corredor a dentro carregando o restante das minhas coisas.

Eu passei o resto da manhã deitada na cama. Eu jurava ter ouvido Lyla e John chamando na porta, mas eu ignorei. Eu também jurava ter ouvido Oliver chamar, mas eu ignorei. Minha dor e rancor se estendeu aos Diggle, pela reação do casal na noite passada, eles sabiam de tudo. Sabiam que Oliver estava noivo, e quando eu disse para eles minhas origens, eles souberam que eu era irmã da noiva dele. E foram incapazes de me dizer. Incapazes de me alertar. Lyla podia ter me dito no dia em que fomos apresentadas em um baile oferecido pela tripulação do navio.

Foram falsos comigo.

Não me consideravam como eu os considerava.

Tranquei a porta da minha cabine e quando estava tomando impulso para ir embora eu escutei a porta dele ser aberta. Meu coração gelou. O sangue escapuliu do meu corpo. Minha vontade era de virar para ele e gritar novamente, gritar tudo que estava guardado no meu peito. Mas não o fiz. Me controlei com lágrimas nos olhos e respirei fundo. Eu não ia desmoronar. Oliver não merecia que eu desmoronasse.

Eu tinha que manter o muro erguido.

⁃ Felicity… — ele começou, mas eu ignorei guardando a minha chave na bolsa e andando pelo hall. — A gente precisa conversar, por favor — insistiu andando atrás de mim — Por favor, me deixa explicar tudo — segurou meu braço me puxando para ficar de frente para ele, a puxão foi tão brusco que meu corpo chocou contra o dele e todo o meu sistema ficou em alerta. Eu tinha que manter o muro erguido, essa frase ficava rondando a minha mente — Por favor — pediu mais uma vez, seu perfume empregou minhas narinas me deixando tonteada e com vontade de beija-lo. Reprimi a vontade com um suspiro

Eu tinha que manter o muro erguido.

Mas aquela proximidade era perigosa demais.

⁃ Me solta — falei tirando sua mão de mim — Eu não tenho nada para falar com você, Conde — ironizei a última parte — Não se atreva a dirigir a palavra a mim, perdeu o direito quando agiu como um cafajestes comigo.

⁃ Amor… — ouvir aquela palavra doía, doía muito. Tanto que eu nem senti que comecei a chorar. Não queria parecer fraca na frente dele. Mas tenho certeza que a minha cara pálida e o rosto inchado do choro de mais cedo não demostrava força alguma.

⁃ Não me chama assim — chorei — Me deixa em paz, por favor.

⁃ Não chora — pediu limpando as lágrimas do meu rosto e vi que seus olhos marejados — Isso acaba comigo.

⁃ Quando chegar em Wiltshire finja que nunca me viu, que não me conhece — funguei

⁃ Você não pode me pedir isso — uma lágrima solitária escorreu dos olhos dele — Eu vou falar com seu pai que não… Eu não vou me casar com Laurel. Eu amo você!

⁃ Oliver — dei um passo pra trás me recompondo do choro recente — Você não me ama. Quem ama não mente assim. Não engana.

⁃ Escuta o que eu tenho para lhe falar — pediu — Por favor.

⁃ Acabou, Oliver. Não temos nada para falar. Acabou — falava mais pra convencer a mim mesma do que ele. Dei as costas e o olhei por sobre o ombro — E por favor, não vem atrás de mim. Eu não quero.

O ouvi suspirar pesadamente e depois reprimir um soluço do choro. Choro esse que eu não conseguia acreditar que era verdadeiro. Andei sem olhar para trás. Eu sabia que isso ainda não tinha acabado. Que esse drama ainda iria nos rondar até eu ir embora para Nova York.

Na carta de mamãe dizia que o noivo de Laurel ficaria em nossa casa hospedado para o aniversário de papai, e depois para o Natal — onde o noivado seria anunciado, eu acho — com toda a família do noivo presente para as festividades de fim de ano. Donna deixou bem claro que toda a família do noivo passaria as festas de fim de ano conosco. Ao menos eu teria Thea comigo.

Eu sei que ambos Natal e Ano Novo seriam grandiosos, quando os Smoak não davam festas grandiosas? Ainda mais sendo a primeira após o pesadelo da guerra. E eu teria que sorrir, teria que cumprimentar os noivos no dia da festa de noivado, teria que voltar para o dia do casamento e ver o homem que eu amo, o pai do meu anjinho, o homem que eu cheguei a pensar que me amava tanto quanto eu o amava, se casando com a minha irmã.

Desci as escadas para o salão principal e peguei o caminho do escritório, onde eu deveria deixar a minha chave e pagar minhas contas extras. Era engraçado o olhar torto que eu recebia de algumas pessoas, algumas pessoas não, dos homens. Haviam vários homens bem arrumados fazendo exatamente o que eu vim fazer, pagar consumos extras e entregar chaves. Na América chamávamos de Check-out. Era normal de qualquer hospedagem, não seria diferente em um navio. Mas normalmente o homem resolvia questões financeiras, para eles eu era uma estranha ali.

Quando chegou minha vez um rapaz muito simpático pegou as chaves e deu anotou algo. Provavelmente dando baixa na minha entrega, após, começou a olhar cada comanda designada ao número da minha cabine. Ele franziu o cenho e me encarou confuso.

⁃ Algum problema? — perguntei preocupada

⁃ Não, senhora — sorriu sem jeito — É que as suas comandas já foram pagas pelo seu marido.

⁃ Meu marido?

⁃ Sim, senhora — ele mexeu em alguns papéis e pegou um que listava tudo que eu havia colocado no número da minha cabine e no fim dela a assinatura.

Oliver Jonas Queen

Eu não acredito nisso!

⁃ O meu… — sorri forçado — O meu marido deve ter esquecido de me avisar.

⁃ Sem problemas, senhora Queen — me lançou mais um sorriso simpático e meu coração acelerou um pouco quando ele me chamou pelo sobrenome de Oliver — Acontece.

⁃ Obrigada — me levantei e sai

Oliver não poderia ter feito isso. Ele não tinha o direito. Quem ele pensava que era? Meu marido? Ele ainda não entendeu que nunca assumiria tal posto? Que ele acabou com qualquer chance que tínhamos de sermos felizes? Qualquer chance que tínhamos de sermos marido e mulher? Ele queria provar o que? Que mesmo assim cuidaria de mim? Eu não queria os cuidados dele. Eu queria ele longe.

E de novo aquela onda de choro tomou conta de mim. Mas eu segurei, eu não podia desmoronar toda vez que pensasse em Oliver, ou toda vez que pensasse no futuro que poderíamos ter tido se ele não fosse um bastardo mentiroso.

Meu coração dizia que se ele tivesse me contado tudo assim que nos vimos, seria diferente. Eu teria entendido. Eu teria arrumado uma forma de ajudá-lo. Mas não, ele escolheu o pior caminho que alguém poderia tomar, um caminho sem volta. A mentira. E uma pessoa que mente por algo tão sério, poderia mentir por qualquer mísero motivo.

Inclusive amar alguém.

Mas eu tinha tanta moral assim para julgar ele? Será que eu não estava sendo hipocrita? Eu escondi dele um filho. Tudo bem que quando eu descobri o meu anjinho, Oliver estava na frente de combate defendendo nosso país. E a existência do bebê não durou até que ele voltasse a ficar comunicável. Mas mesmo assim, eu não contei. Eu escondi. De todos.

Eu era tão mentirosa quanto ele.

Mas esconder um noivado… Algo dentro de mim dizia que ele não pretendia me contar. Ele só contou pela pressão e por ter descoberto que a noiva era minha irmã. Deus! Eu não poderia imaginar qual seria minha reação ao chegar em casa e ver Oliver me ser apresentado como o pretende de Laurel.

Ele seria canalha a esse ponto. Se eu não tivesse falado que eu era filha do Conde de Wiltshire, Oliver não me contaria. Eu seria pega de surpresa, e com toda certeza ele também.

Ele merecia todo o meu julgamento. Tudo o meu rancor.

Uma grande rampa fora posta na lateral do navio que nos levava a terra firme. Não havia muitas pessoas ali, o que me fez pensar que a maioria já tinha descido. Caminhei pela proa até chegar na rampa, mas fui interceptada por uma mão quente e pequena segurando meu braço.

⁃ Felicity, — Lyla me parou e eu a encarei sem emoção alguma. — eu sinto muito.

⁃ Sente? — perguntei seca

⁃ Eu queria te contar — começou tirando a mão do meu braço e as passando pelo vestido nervosamente — Mas John disse que era melhor eu não me envolver, não era o meu segredo e eu ainda iria perder a sua amizade e a dele.

⁃ Lyla, eu confiei em você — respirei fundo tentando não ser ignorante — Além de mim e do meu médico você é a única que sabe sobre o meu bebê. Eu confiei em você.

⁃ Me desculpa — os olhos dela se encheram de lágrimas, provavelmente pelos hormônios da gravidez — Eu errei com você. Só não era o meu segredo, assim como não cabe a mim contar ao Oliver que ele é pai de um anjinho.

⁃ Você não teria coragem — eu quase gritei

⁃ Eu não estou te ameaçando — arregalou os olhos com a possibilidade — Pelo amor de Deus, eu não estou te ameaçando — as lágrimas que ela devia estar segurando escorreram

⁃ Lyla, não chora — me senti um pouco culpada

⁃ Droga! — pragrejou limpando as lágrimas — São esses hormônios de grávida — fungou e eu ri de leve, eu não queria sentir raiva dela. Mas a decepção era grande — Eu não te ameacei, é o seu segredo, eu não tenho direito de contar para ninguém. Você que deve contar a ele.

⁃ Assim como o noivado era um segredo dele — ela assuntiu e eu entendi seu ponto — Ele devia ter me contado.

⁃ Isso — assentiu — Eu passei todos esses dias pedindo que ele te contasse, mesmo não sabendo que você e ela eram irmãs. Johnny encontrou ele no bar ontem a noite e eles conversaram. Ele sabia que a conversa de vocês não ia ser fácil. Na hora do almoço nos encontramos e ele nos contou como foi. Ele está arrasado, Felicity — ela segurou minhas mãos — Eu sinto muito — fungou mais uma vez — Eu não quero perder sua amizade. Eu queria que fosse madrinha do bebê. Eu sei que não nos conhecemos a muito tempo… Mas eu não tenho muitas amigas e você foi a primeira pessoa que eu contei, assim como você confiou em mim para contar do bebê e…

⁃ Ah, Lyla… — a puxei para um abraço apertado — Eu não consigo sentir raiva de você, por mais que eu tenha tentado. Admito.

⁃ No seu lugar eu também ficaria. Eu quero que você seja feliz — ela disse apertando o abraço — E eu sei que essa felicidade é com o Oliver. Escuta o que ele tem para te falar.

⁃ Não — nos afastamos — Eu não quero mais ficar perto dele.

⁃ Tudo bem — acariciou meu rosto — Só fica bem, Felicity. Você tem a mim e ao Johnny e recue em nós chamar se precisar.

⁃ Okay. Obrigada. — assenti com meus olhos marejando — Eu espero vocês na festa de fim de ano.

⁃ Achei que o convite estava desfeito. — sorriu sem jeito

⁃ Nada disso — beijei sua bochecha — Espero vocês dois lá. Tenho que ir, um lacaio está segurando o táxi para mim.

⁃ Até o Ano Novo! — ela gritou quando eu me distanciei

⁃ Até! — joguei um beijo pro alto e acenei, ela retribuiu, antes de descer a rampa eu vi John de relance, ele sorria satisfeito. Acho que por saber que eu não o odiava.

(…)

Quando cheguei na estação de trem o taxista me ajudou a descarregar minhas malas e entregou ao despachante. Paguei uma gorjeta gorda pela ajuda e ele foi embora sorrindo agradecido. Entrei no trem procurando minha poltrona e admirei a beleza e sofisticação que era o local onde ficavam as poltronas. Grandes janelas com cortinas floridas, mesas entre as poltronas e algumas eram como “canto alemão”. A cada metro do teto havia um lustre.

Olhei o bilhete em minhas mãos e procurei a minha poltrona. Segurei firme no peito o livro que havia trazido para passar as três horas de viajem entretida. Me acomodei no meu lugar e depositei a bolsa e o livro na mesa a minha frente. Uns dez minutos se passaram e o trem encheu. Eu sabia que haviam duas paradas antes de Wiltshire, uma em Yorkshire e outra em Norfolk. Provavelmente a maioria dessas pessoas ficaram lá, Wiltshire não era tão procurada assim.

Um tempo passou e o famoso “piuííí!” ecoou pelo ambiente. Um funcionário já havia passado para validar e verificar o meu bilhete, e uma outra passou me entregando o cardápio. Meu estômago roncou quando vi as opções no Menu, eu não havia almoçado e já eram três da tarde. Quando a minha refeição chegou, o trem deu a partida.

Seria uma viajem tranquila, pensei.

Doce engano.

⁃ Lady Felicity? — a voz dele ecoou pelo recinto e eu estagnei — É assim que devo te chamar na Inglaterra, não é? Devemos parar de nos encontrar nos meios de transporte.

Notas finais
Então?????? O que acharam? Já deu pra perceber que ele não vai deixar ela em paz né? Adoro! Felicity sente muito a perda desse neném, tadinha. Eu não queria criar inimizade com Lyla e John. Amo a amizade dos 4 na série, recentemente vi um episódio em Arrow que os 4 trabalhavam juntos. TUDO PRA MIM! Comentem muito!!!! No próximo capítulo tem Tommy, tem Donna, Laurel, Noah… E mais personagens surpresas kkkkkk Se eu contar perde a graça. Comentem!!!!!!!