Pride
3 Capítulo 3 - Terceiro Tempo.
Notas iniciais
- Resumindo um pouco a coisa, — falei, com um suspiro. — eu passei no vestibular, consegui a vaga na faculdade, um emprego de meio período e depois de um tempo eu e o Yuu fomos morar juntos, e aí a gente viveu feliz que nem em um conto de fadas. Se vocês realmente acreditaram nisso, vocês entraram muito bem, porque não foi nada disso que aconteceu.
Encaixei os dedos das mãos, estralando-os um por um, péssimo hábito que eu tinha. Não sabia quanto tempo tinha passado, mas mesmo assim continuei falando. Estava sendo bom, até.
- Desde quando minha mãe ou o meu pai sabiam de alguma coisa? Será que eles sempre souberam? Será que eles sabiam que eu me sentia o filho rejeitado? Será que eles sabiam de como tudo que eu queria naquela merda de vida era que eles sorrissem pra mim e me tratassem do mesmo jeito que tratavam meus irmãos? Será que eles sabiam das noites em que eu passava acordado, me culpando por ser um fracasso? Será que eles sabiam como eu agonizava por dentro? Só pra ser um pouco mais maldoso, será que eles não apenas sabiam, mas até se aliviaram quando o psiquiatra me receitou aqueles remédios e eu me aquietei? Pouco importava que eu não fosse motivo de orgulho, que eu fosse mal na escola, que eu estivesse sempre triste, que a cada dia que passasse eu tivesse mais feridas, mais cicatrizes, que eu estivesse me afogando em mim mesmo, me culpando e me odiando mais a cada vez meu coração batia. Não tinha importância, porque eu tinha meu remédio, minhas coisas, eu não incomodava, eu ficava na minha. Eu era um nada naquela família.
Passei a mão no meu cabelo, suspirando fundo.
- Mas afinal de contas, pra quê eles precisavam de mim? Eles já tinham três filhos maravilhosos pra poder se orgulhar. Eles eram tão perfeitos, maravilhosos, incríveis, tão motivo de orgulho de qualquer família, já não era o bastante? Não, eles precisavam de mim, sim. Precisavam de mim pra ser a ovelha negra.
Ri outra vez.
- E então eu fiz a maior burrada do mundo. Contei pra minha mãe que tinha entrado na faculdade de música. Uma partezinha iludida de mim acreditava que ela talvez fosse demonstrar o mesmo entusiasmo que mostrou quando minhas irmãs passaram no vestibular, mas que nada. Ela escutou tudo o que eu disse, mas daquele jeito, doida pra interromper. Sabe quando a pessoa está escutando, mas está dando todos os sinais de que está só esperando o momento certo pra te interromper e detonar tudo? Pois então. Na primeira chance, ela perguntou se eu queria mesmo isso pra mim. Disse que eu não precisava me estressar com isso, que Artes nem ao menos devia ser algo que se ensinasse em faculdade, que talvez eu não estivesse pronto, que estudo era coisa séria.
Ri com desdém.
- Como se alguma vez ela ao menos tivesse mostrado um pingo de interesse pra saber como eu ia nos estudos! Como se alguma vez na vida ela tivesse olhado pro meu boletim direito ou então me elogiado ou ao menos dito que eu devia me esforçar mais! – exclamei, irritado. – Ela disse que eu tinha a minha mesada, que era pra continuar do jeito que estava. Dá pra acreditar nisso? Uma mãe dizendo ao filho uma coisa dessas?
- E se eu quiser sair de casa? Talvez eu tenha encontrado alguém. Talvez eu queira viver com esse alguém.
Foi um balde de água fria nela. Um balde de água fria direto do Pólo Norte. Mas ela só deu um sorriso forçado.
- Você ainda é novo, Kouyou. Precisa pensar bem antes de tomar uma decisão dessas. Além do mais, precisa encontrar uma moça de boa família. É importante ter os sogros apropriados.
Quando ela terminou de falar, eu fiquei com vontade de gritar, chorar, gemer, vomitar, não sei. Sogros apropriados. Eu ouvi minha mãe dizendo isso a vida inteira naquela casa, principalmente pra Sachiko e pra Yuuki. A Yuuki, então, coitada, foi torturada com essa ideia desde que se entende por gente. A minha mãe sempre disse pra ela que com aquela aparência que ela tinha, e que com todo aquele carisma, ela poderia ter nas mãos dela o homem que quisesse. A felicidade era uma coisa secundária, o que realmente importava era casar com alguém que tivesse uma família com status. Era completamente repugnante.
Respirei fundo enquanto mordia os lábios com força, tentando me acalmar.
- Vamos ser sinceros. Não foi nenhuma grande injustiça o que fizeram comigo. Digo, de me internarem nas outras duas clínicas. Eu precisava. O que realmente incomoda é o motivo, o modo como a coisa foi feita, o verdadeiro porquê. Eu já estava com 18 anos, estava melhorando, mas não é fácil perder hábitos ruins que foram cultivados durante tanto tempo. O Yuu me ajudava, mas mesmo assim. Aí a Sachiko resolveu aparecer em casa. Ela sempre foi legal comigo, e então eu contei tudo pra ela. O idiota aqui contou do vestibular, da faculdade de artes, da vontade de sair de casa, da vontade de ir embora, contei de tudo que tinha me acontecido, e super feliz, o retardado aqui contou sobre o Yuu.
E aí começou. Minha mãe resolveu que era melhor me internar, não porque eu usava drogas, bebia, tinha tentado me matar mais de dez vezes, tinha cicatrizes de cortes por todo o corpo. Não porque eu me senti sozinho e rejeitado a vida inteira. Não porque nenhum deles tinha feito nada pra me ajudar, e sim porque eu, o pobre garoto fracassado, estava gostando de um outro garoto – pior ainda, de um empregado do meu pai -. Um garoto, e que ainda por cima não tinha a família apropriada. Ninguém perguntou se eu estava feliz ao lado dele e se a gente se gostava. Na primeira clínica, eu estava indo bem apesar dos apesares. O Yuu ia me vistar em todos os horários de visita, e me apoiava, dizendo que ele estaria sempre ali. Que eu ia conseguir. Até mesmo os médicos se surpreenderam, porque eu estava mesmo melhorando. Disseram que tinha chance de eu poder sair dali em 3 meses. Foi por isso que meus pais me mudaram de clínica. Eles não queriam saber se eu ia melhorar ou não. Eles só queriam que eu ficasse longe do Yuu. E foi por isso que não deu certo na segunda clínica. Tudo que o Yuu tanto lutou pra me ajudar a vencer, voltou. E dessa vez eu não tinha mais nada. Eu não tinha o Yuu, eu não tinha como me apagar do mundo. E o que mais me revoltava era que não tinham me internado porque se preocupavam comigo e queriam que eu melhorasse. Eu era um nada, mas eu era um nada que precisava ser escondido em uma gaveta, porque eu ia manchar a imagem da família. Não foi voluntário, não foi algo que eles fizeram porque queriam me ver bem. Eles ainda não se importavam comigo, só se importavam com o fato de que eles precisavam dar um jeito de que eu não manchasse a reputação de família perfeita que eles tanto gostavam de exibir por aí.
Fiz outra pausa. Já deveria estar na hora de ir para os finalmentes.
- No início, na segunda clínica, eu surtei. Eu tinha crises depressivas, eu surtava, e então eles me sedavam. Eu tentei me matar, porque eu estava enlouquecendo lá dentro. Eles tinham me mudado de clínica e nem ao menos consegui avisar o Yuu. Então, demorou mais ou menos seis meses até que ele conseguisse descobrir onde eu estava. Eu ainda não sei como. – sorri. – E eu nunca vou encontrar palavras suficientes pra descrever como eu me senti quando ele me encontrou lá. Quando ele entrou no quarto, eu achei que estava delirando, afinal, eu tinha acordado não havia muito e minha mente gostava de brincar comigo, principalmente quando me sedavam. Eu estava encolhido na cama, e ele abriu a porta devagar.
- Yuu? – perguntei. – Você veio.
Ele sorriu e sentou do meu lado na cama.
- Você não parece muito feliz em me ver aqui.
- É que eu vejo você todos os dias. – respondi. – Todos os dias você vêm, mas você não é de verdade. – murmurei. Eu ainda estava achando que ele não era de verdade. Ainda estava esperando pelo momento em que eu tentaria tocar nele e ele se dissiparia como a ilusão que era. — Você vem todos os dias, mas você some no ar, porque é só a minha mente me torturando.
Ele me abraçou.
- Sente? – perguntou, passando os dedos no meu rosto. – Pode sentir meus dedos no seu rosto? Eu estou aqui.
Àquela altura eu estava chorando do jeito que só ele tinha visto. Eu me agarrava nele como se ele fosse sumir – e eu estava com medo de que a ilusão dessa vez fosse mais forte do que as outras.
— Você é de verdade?
Ele riu enquanto beijava o topo da minha cabeça.
- Sou.
E então as coisas melhoraram outra vez. O Yuu vinha me visitar sempre que podia, e meus pais não sabiam disso. Foi assim por uns dois meses, até que um dia eles vieram ver como o fracassado aqui estava. Por ironia do destino, foi exatamente no horário em que o Yuu estava saindo. Minha mãe acreditava que me manter interno ia fazer com que eu esquecesse aquela bobagem, que era como ela classificava o que eu sentia pelo Yuu. – ri com desdem. – Até parece. Quando eu completei 20 anos, eles desistiram. Não porque perceberam que eu era feliz ao lado do Yuu, nem pensar. Eles desistiram porque eu não valia tanto estresse, eu que passasse bem com quem eu quisesse, eu que arruinasse a minha vida ficando com ele.
Sorri.
- É engraçado, porque o Yuu fez qualquer coisa, menos arruinar a minha vida. Na verdade, eu nem ao menos tinha uma vida até conhecer ele. Eu só estava lá. O Yuu foi a única pessoa disposta a me estender a mão, disposta a perder seu precioso tempo com um garoto babaca, fracassado, sem nada de especial, depressivo e viciado. O único que realmente se importou em saber como eu me sentia. O único que me abraçava e dizia que me amava. Ele foi o único que dizia que eu era bom, que eu podia. Que eu era capaz. Ele foi a única pessoa no mundo que alguma vez disse que sentia orgulho de mim.
Comecei a rir, outra vez.
- Lembram que eu disse que o amor é loucura? Pois então. Você enlouquece sem ele, você enlouquece com ele. Faz você dizer as maiores idiotices, faz você cometer as maiores insanidades. Faz com que você resolva que vai dedicar o seu tempo livre ajudando e amando um garoto problemático. Faz com que você resolva mudar a sua vida. É por isso que eu estou aqui. Porque eu quero mudar. Porque eu não quero mais ser um menininho tolo.
Olhei para o relógio na parede. Já tinha falado o bastante.
- Eu já sou maior de idade. Já poderia ter saído daqui, se quisesse. Mas eu decidi que ia melhorar. Eu decidi que eu ia viver. Por ele. Com ele.
Tomei um pouco de fôlego.
-– E eu espero que vocês possam descobrir isso, um dia. Eu espero que um dia apareça alguém que nem o Yuu e pinte o mundo cinza de vocês com toda a paciência e amor do mundo. Alguém que faça que nem ele fez comigo. O Yuu me mostrou que eu era especial do meu jeito. Que eu não precisava me punir por algo que não era minha culpa. Que eu não tinha que me comparar com meus irmãos. O Yuu me fez ver que tinha um Sol pra mim, também.
Parei de falar e passei a olhar pela primeira vez para pessoas que ali estavam. O rapaz com um monte de piercings no rosto, o outro com os cabelos coloridos, a moça de moicano, os gêmeos identicos, a moça toda de preto. Yutaka me encarava com uma expressão chocada e um sorriso satisfeito.
- Obrigado por me escutarem. – falei, corando um pouco. Eu estava me sentindo bem mais leve, e mal podia esperar pra que um certo alguém ficasse sabendo que eu tinha decidido participar completamente das terapias de grupo – que era a única coisa que eu não fazia, não importava onde. Eu nunca tinha coragem de falar em público. Mas ali era bom, porque era como se eu estivesse falando com um monte de Yuus. Nenhum deles me interrompia, me julgava ou dizia nada. Eles só escutavam o que eu tinha a dizer.
O sinal tocou, anunciando que a sessão terminara. A sala se esvaziou, mas eu continuei ali, sentado, pensando.
Eu mal podia esperar pra poder sair daquela clínica e viver o resto da minha vida com ele nos meus braços.
Sorri.
Até que pro filho do meio sem nenhum destaque, rejeitado pelos pais, depressivo, com tendencias suicidas, viciado e considerado a ovelha negra da família, eu tinha me dado muito bem na vida.
Notas finais
Pois bem, aqui está o final. Não sei se atingiu as expectativas ou agradou, mas eu sinceramente gosto.
Obrigada por lerem, e pelos reviews. ;u;
See ya~
Fale com o autor