Prezado Senhor Medeiros (Entre Aspas e Indiretas)

1 Capítulo 1: O Perigo Mora no Perfil ao Lado


Bia sempre se considerou uma sommelier de clichês. Ela sabia identificar um "bad boy de bom coração" a quilômetros de distância e conseguia prever o "quase-beijo na chuva" três capítulos antes dele acontecer. Por isso, quando o algoritmo do aplicativo de leitura empurrou em sua tela uma história intitulada Apenas um Capítulo Nosso, ela revirou os olhos com tamanha força que quase viu o próprio cérebro.

— Mais um CEO possessivo ou um jogador de hóquei com passado sombrio? — murmurou ela, ajeitando os óculos de descanso enquanto rolava o feed. — Me poupe, internet. Eu sou uma mulher de clássicos. Eu li Jane Austen, pelo amor de Deus.

Mas o tédio de uma noite de terça-feira, onde a única outra opção era lavar a louça acumulada ou assistir a um documentário sobre fungos, venceu a batalha. Ela clicou. O autor se chamava apenas "Vini_Escritor". Sem foto, apenas um avatar padrão de uma silhueta cinza.

— Baixo orçamento, hein, Vini? — debochou Bia, ajeitando-se entre as almofadas.

Ela começou a ler o primeiro capítulo apenas para confirmar sua teoria de que seria "mais do mesmo". Mas, conforme os parágrafos avançavam, o deboche de Bia foi sendo substituído por um silêncio atento. A escrita dele não era das melhores; era audacioso. Ele descrevia sentimentos com uma precisão que parecia um soco no estômago, mas um soco dado com uma luva de veludo.

A história narrava o encontro de dois estranhos em uma livraria de sebo — clichê, sim, mas escrito com uma delicadeza que fez Bia esquecer de respirar. No final do capítulo 3, ela já estava devidamente "fisgada". No capítulo 10, ela já tinha chorado escondida no banheiro do trabalho.

A grande virada, porém, não aconteceu no enredo do livro, mas no perfil do autor.

Naquela noite, após terminar o capítulo 14, Bia foi atualizar a página e o avatar cinza sumiu. Em seu lugar, surgiu a foto de um homem real. E não era qualquer homem. Era um moreno de barba escura, com uma expressão entre o tímido e o ordinário, segurando uma caneca que dizia "Cuidado: Autor em Crise". O cabelo era uma bagunça milimetricamente desalinhada e o olhar... o olhar parecia atravessar a tela do celular e ler a alma de Bia.

Bia quase deixou o celular cair na própria cara.

— Ah, não. Não, não, não. O autor é um gato? Isso devia ser ilegal! — ela exclamou, sentindo um calor súbito. — Como eu vou ler as cenas de romance agora sem projetar esse rosto em cada linha?

A partir daquele momento, a experiência de leitura de Bia mudou drasticamente. Ela não era mais apenas uma espectadora; ela se sentia a própria protagonista. Quando o personagem principal descrevia o cheiro de café, ela jurava sentir o aroma vindo da foto de perfil de Vini. Quando havia uma cena de tensão, ela se imaginava ali, naquela página, desafiando o autor a escrever o que ela queria.

Foi então que o jogo dos comentários começou. Bia decidiu que, se Vini era real, as reações dela também seriam. Ela parou de comentar sobre a "capitulo envolvente" e passou a flertar com a perigosa linha do duplo sentido.

O capítulo 15, "O Encontro no Metrô", foi o estopim. A cena era carregada de uma tensão estática que fazia os pelos do braço de Bia arrepiarem. O protagonista, Leo, estava tão perto da mocinha que ela podia sentir o calor do seu corpo. Bia terminou a leitura em transe. O desejo de ser tocada daquela forma — por aquele autor — transbordou.

Ela abriu a caixa de comentários. Seus dedos voaram, impulsionados por uma mistura de cafeína e audácia:

"Pelo visto, não sou eu quem está atrasada com a leitura, mas sim o senhor com a atualização, rsrs! Quem nunca teve um amorzinho que deu vontade de guardar num potinho? Esse casal é muito fofo. Durante a cena do metrô, fiquei na expectativa de um beijo inocente na bochecha, na testa ou na mão. Que delícia de capítulo!"

Ela hesitou. O coração batia na garganta. Ela olhou para a foto de Vini novamente. Aqueles óculos... aquele sorriso de lado...

"Uma pequena observação indiscreta: o senhor Vini parece ser um gato. Agora tenho um motivo a mais para acompanhar sua história!"

Publicar.

Bia jogou o celular longe, como se fosse uma granada prestes a explodir. Ela se enterrou debaixo das cobertas, o rosto pegando fogo.

— Parabéns, Beatriz. Você acabou de assediar literariamente um estranho. Amanhã ele deleta o livro e a culpa é sua.

Enquanto Bia sofria de um colapso de vergonha em sua cama, a quilômetros dali, Vinícius estava prestes a fechar o notebook para dormir. Ele era um homem de hábitos simples: escrevia, revisava e evitava o espelho o máximo possível. A foto de perfil tinha sido postada por insistência dos seus pensamentos, que dizia que "leitores gostam de ver quem está por trás das palavras".

Vini achava que ninguém ligaria. Até que a notificação de @Bia_Books apareceu.

Ele leu o comentário. Uma vez. Duas vezes. O trecho sobre o "beijo na mão" o fez arquear uma sobrancelha. Mas foi o "senhor Vini parece ser um gato" que o fez engasgar com o próprio ar.

Vini não se achava um gato. Ele se achava um rascunho que poderia ser melhorado. Mas o tom de Bia — aquela mistura de provocação e doçura — o atingiu em cheio. Ele clicou no perfil dela e viu a foto de uma garota que parecia o tipo de pessoa que ri de piadas ruins e lê livros até as quatro da manhã.

Ele sentiu um impulso súbito. Ele era um homem educado, mas o que aquela leitora não sabia era que ele também era um mestre em dar o troco. Ele não queria apenas dizer "obrigado". Ele queria ver até onde aquela ousadia dela ia.

Vini sorriu, um sorriso que Bia adoraria (ou morreria de pavor) ver. Ele se inclinou sobre o teclado e digitou uma resposta curta, mas que carregava todo o peso de uma promessa silenciosa:

"Obrigado pelo carinho, Bia. Fico feliz que o capítulo tenha despertado tantas... expectativas. Sobre o beijo na mão, talvez eu devesse ter escrito. Sabe o que dizem: o autor é quem manda, mas é a leitora quem inspira. Nos vemos no próximo capítulo? Prometo não atrasar tanto desta vez... já que agora tenho um motivo a mais para me apressar."

Ele clicou em responder e fechou o notebook, o coração disparado.

No dia seguinte, o mundo de Bia ia tremer. Ela achava que era apenas uma leitora deixando um comentário indiscreto, mas acabava de se tornar a musa inspiradora de um escritor que, pelo visto, não era tão inocente quanto o sua timidez fazia parecer.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.