Pretty little liars
34 33. O melhor de Rosewood
"A polícia reabriu o caso DiLaurentis, e estão ouvindo testemunhas", relatou um locutor do jornal das onze. "A família DiLaurentis, agora vivendo em Maryland, terá que encarar algo que tem tentado deixar para trás. Exceto que agora há uma conclusão."
Locutores eram tão dramáticos, pensou Hanna, com raiva, enquanto enfiava outro punhado de cereal Cheez-Its na boca. Só o noticiário achava um jeito de tornar uma história horrível ainda pior. A câmera focalizou no santuário de Ali, como eles o chamavam, nas velas, bonecas, flores murchas que as pessoas, sem dúvida, pegavam nos jardins dos vizinhos, marshmallows Peeps — o doce favorito de Ali — e, claro, fotos.
A câmera voltou-se para a mãe de Alison, que Hanna não via há um tempo. Apesar do rosto cheio de lágrimas, a sra. DiLaurentis parecia bonita — com um corte de cabelo desorde-nado e brincos enormes que balançavam.
— Nós decidimos fazer uma cerimônia religiosa para Alison em Rosewood, que foi o único lar que ela conheceu — a sra. DiLaurentis disse, numa voz controlada. — Nós queremos agradecer todos aqueles que ajudaram na busca por nossa filha três anos atrás, pelo seu apoio permanente.
O apresentador voltou à tela.
— Uma cerimônia acontecerá amanhã na Abadia de Rosewood e será aberta ao público.
Hanna desligou a televisão. Era noite de domingo. Ela sentou no sofá da sala de estar em sua camiseta C&C mais surrada e um par de cuecas samba-canção que tinha surrupiado da gaveta de Sean. Seu cabelo castanho estava uma bagunça, parecendo palha em volta do seu rosto, e ela tinha quase certeza de que tinha uma espinha na testa. Uma enorme tigela de Cheez-Its descansava em seu colo, uma embalagem vazia de chocolate Klondike estava amassada sobre a mesinha de centro e uma garrafa de vinho pinot noir estava confortavelmente aninhada ao seu lado. Ela tinha tentado a noite toda não comer daquela forma, mas, bem, a força de vontade dela simplesmente não estava muito forte naquele dia.
Ela ligou novamente a televisão, desejando ter alguém com quem conversar... sobre a polícia, sobre A e, sobretudo, a respeito de Alison. Sean estava fora de cogitação, por razões óbvias. A mãe dela — que estava num encontro naquele momento — era inútil para essas coisas. Depois da confusão na delegacia, no dia anterior, Wilden disse a Hanna e sua mãe para irem para casa; eles cuidariam daquilo mais tarde, pois a polícia tinha coisas mais importantes para fazer no momento. Nem Hanna, nem a mãe dela sabiam o que estava acontecendo na delegacia, apenas que envolvia um assassinato.
Na volta para casa, em vez de a sra. Marin repreender Hanna por, oh, roubar um carro e dirigir bêbada, disse a Hanna que estava cuidando daquilo. Hanna não tinha noção do que aquilo significava. No ano anterior, um policial tinha falado na reunião do Dia de Rosewood sobre a regra de tolerância zero para condutores bêbados menores de vinte e um anos na Pensilvânia. Naquela época, Hanna havia prestado atenção apenas porque ela tinha achado o policial meio bonito, mas, naquele momento as palavras dele a assombravam.
Hanna também não podia contar com Mona: ela ainda estava num torneio de golfe, na Flórida. Elas tinham conversado rapidamente ao telefone, e Mona tinha admitido que a polícia havia telefonado para ela para falar a respeito do carro de Sean, mas ela havia bancado a boba, dizendo que tinha estado na festa o tempo todo e Hanna também. A filha da mãe era sortuda: eles tinham pegado a parte de trás da cabeça dela na fita de segurança "Wawa", mas não seu rosto, pois ela estava usando aquele boné de entregas horroroso. Isso, entretanto, ocorrera no dia anterior, depois que Hanna tinha voltado da delegacia. Ela e Mona não tinham conversado naquele dia, e elas ainda não tinham discutido sobre Alison.
E então... havia A ou se A era Alison, teria A ido embora agora? Mas a polícia declarou que Alison estava morta há anos...
Enquanto Hanna percorria o guia de programação de tevê para ver o que mais estava passando, com as pálpebras inchadas de tanto chorar, considerou telefonar para seu pai — a história deveria estar no noticiário de Annapolis também. Ou talvez ele telefonasse para ela.
Hanna ergueu o telefone silencioso para ter certeza de que ele ainda estava funcionando.
Ela suspirou.
O problema em ser a melhor amiga de Mona é que elas não tinham outras amigas. Assistir a toda aquela cena com Ali a fez pensar no seu velho grupo de amigas. Elas tinham tido seus momentos difíceis, horríveis, juntas, mas costumavam se divertir também. Num universo paralelo, estariam todas juntas agora, lembrando de Ali e rindo, ainda que também estivessem chorando. Mas, nessa dimensão, elas tinham ficado muito distantes umas das outras.
Elas tinham rompido por razões válidas, claro — as coisas tinham começado a se deteriorar bem antes de Ali desaparecer. No começo, quando elas estavam fazendo aquele negócio de caridade, era maravilhoso. Mas, então, depois que A Coisa de Jenna aconteceu, as coisas ficaram tensas. Elas estavam todas com muito medo de que o que acontecera a Jenna pudesse ser ligado a elas. Hanna se lembrava de ficar sobressaltada até se estava n? ônibus e um carro de polícia passava por ela, seguindo em outra direção. Então, no inverno seguinte e na primavera, vários assuntos estavam proibidos. Alguém estava sempre dizendo "Shhh!" e então, todas caíam num silêncio desconfortável.
Os apresentadores do jornal das onze desejaram boa-noite e começou Os Simpsons. Hanna pegou seu BlackBerry. Ela ainda sabia o número de Spencer de cor e, provavelmente, não seria tarde demais para ligar. Quando digitou o segundo número, levantou a orelha e seus brincos Tiffany's tilintaram. Havia um barulho de algo raspando na porta.
Dot, que estava deitado aos seus pés, levantou a cabeça e rosnou. Hanna tirou a tigela de Cheez-It do colo e se levantou.
Era... A?
Com os joelhos tremendo, Hanna arrastou-se pela entrada. Havia sombras longas e escuras vindas detrás da porta e o barulho ficou mais alto.
— Oh meu Deus! — Hanna sussurrou com o queixo tremendo. Alguém está tentando entrar!
Hanna olhou ao redor. Havia um peso de papel redondo, de jade, na pequena mesa da entrada. Ele devia pesar pelo menos nove quilos. Ela o levantou e deu três passos inseguros para a porta da cozinha.
De repente, a porta se escancarou. Hanna pulou para trás. Uma mulher cambaleou pelo batente para dentro. Sua saia cinza de pregas, elegante, estava levantada em volta da cintura dela. Hanna segurou o peso de papel, pronta para jogá-lo.
Então, percebeu. Era a mãe dela.
A sra. Marin tropeçou na mesa do telefone, lânguida. Um sujeito estava atrás dela, tentando abrir o zíper da saia e beijá-la ao mesmo tempo. Os olhos de Hanna se arregalaram.
Darren Wilden. O sr. Abril.
Então, aquilo era o que sua mãe queria dizer com cuidar de tudo?
O estômago de Hanna se contraiu. Sem dúvida, ela parecia um pouco louca, persistentemente agarrando o peso de papel. A sra. Marin lançou um olhar demorado para Hanna, nem mesmo se dando o trabalho de se afastar de Wilden.
Os olhos da mãe diziam:
Estou fazendo isso por você.
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