Pretty Little Liars

12 Capitulo 12 - NÃO É UMA FESTA SEM VIVIANE INHUDES


Assim que o táxi parou no Kingman Hall, Viviane deu vinte pratas para o taxista, um cara velho e careca, que parecia ter um problema com suor.

— Fique com o troco — Ela bateu a porta do carro e correu para a entrada com o estômago embrulhado. Tinha comprado um pacote de Doritos na estação de trem, na Filadélfia, e comido o saquinho todo feito uma desvairada, em cinco minutos. Péssima escolha. À sua direita, estava o balcão de entrada da Foxy. Uma moça magra como um galgo, com cabelos loiros muito curtos e toneladas de delineador, estava pegando os ingressos e verificando os nomes num livro. Viviane hesitou. Ela não tinha ideia de onde colocou seu convite, mas se tentasse negociar sua entrada, iriam mandá-la para casa. Focou os olhos na tenda da Foxy, que brilhou como um bolo de aniversário. De jeito nenhum ela ia deixar Juca se livrar dessa. Ela ia entrar na Foxy, quer a Garota de Delineador gostasse ou não. Respirando fundo para tomar fôlego, Viviane correu em alta velocidade pelo balcão de entrada.

— Ei! — Ela ouviu a moça falar. — Espere! — Viviane se escondeu atrás de uma coluna, o coração batendo acelerado. Um segurança musculoso, vestindo um smoking, passou correndo por ela, depois parou e olhou ao redor. Frustrado e confuso, ele deu de ombros e disse alguma coisa no radiocomunicador. Viviane sentiu certa satisfação. Entrar de penetra causou-lhe a mesma sensação de roubar algo. A Foxy era uma confusão de garotos e garotas. Ela não se lembrava de nenhum ano em que a festa tivesse estado tão 10tada. A maioria das meninas na pista de dança tinha tirado os sapatos, segurando-os no ar enquanto rodopiavam.

Havia uma multidão igualmente enorme no bar, e mais jovens estavam amontoados numa fila do que parecia uma cabine de caraoquê. Pelas mesas arrumadas e vazias, eles ainda não tinham servido o jantar. Viviane agarrou o cotovelo de Amanda Williamson, estudante do ensino médio de Rosewood Day, que sempre tentava lhe dar um oi nas festas. O rosto da menina se iluminou.

— Oiii, Vivi!

—Você viu o Juca? — berrou Viviane. Um olhar de surpresa passou pelo rosto de Amanda; então, ela deu de ombros.

— Não tenho certeza...

Viviane continuou andando, seu coração dando cambalhotas. Talvez ele não estivesse ali. Mudou de direção, quase esbarrando num garçom, que carregava uma enorme bandeja de queijo. Viviane agarrou um pedaço enorme de cheddar e enfiou na boca. Engoliu sem sentir o gosto.

— Viviane ! — gritou Claudia, que usava um vestido dourado apertado e parecia ter acabado de sair de uma câmara de bronzeamento artificial — Que legal! Você está aqui! Eu pensei que você tivesse dito que não vinha!

Viviane franziu a testa. Claudia estava abraçada a Jacob Claireb. Ela apontou para os dois.

— Vocês dois vieram juntos? — Viviane tinha achado que talvez Claudia fosse a acompanhante de Juca. Claudia fez que sim. Então, ela se inclinou para a frente.

— Você está procurando o Juca? — Ela balançou a cabeça, abismada — É que todos têm comentado — Eu, sinceramente, não consigo acreditar nisso. O coração de Viviane bateu mais rápido.

— Então, o Juca está aqui?

— É, está aqui, sim. — Jacob se esquivou, tirou do bolso do blazer uma garrafa de Coca-Cola, cheia de um líquido transparente com aparência suspeita, e o despejou no seu suco de laranja. Ele tomou um gole e sorriu.

— Quer dizer, eles são tão diferentes. — Claudia admirou-se — Você disse que ainda são amigos, certo? Ele contou pra você por que convidou a outra?

— Para com isso — disse Jacob para Claudia.

— Ela é sexy.

— Quem? — berrou Viviane. Por que todo mundo sabia o que estava rolando menos ela?

— Olha eles ali. — Claudia apontou para o outro lado do salão.

Foi como se o mar de jovens se abrisse e um grande holofote os iluminasse do teto. Juca estava no canto perto do aparelho de caraoquê, abraçado a uma moça, com um vestido de bolinhas preto e branco. Ele estava com a cabeça enfiada no pescoço dela, e as mãos dela estavam perigosamente perto do traseiro dele. Então, a moça virou a cabeça, e Viviane viu a elfa que ela conhecia muito bem, as características exóticas, e aquele típico cabelo. Bia. Viviane gritou

— Ai, meu Deus, eu não acredito que você não sabia. — Claudia colocou um dos braços ao redor do ombro de Viviane, para consolá-la. Viviane balançou a cabeça e saiu enfurecida pelo salão, bem na direção de Juca e Bia, que estavam se abraçando. Não dançando, apenas se abraçando. Que gente bizarra. Depois de Viviane ter ficado parada lá por alguns segundos, Bia abriu um dos olhos, depois o outro. E soltou um pequeno suspiro.

— Hum... oi, Vivi.

Viviane ficou lá parada, tremendo de raiva.

— Sua... sua vadia.

Juca entrou na frente de Bia, para defendê-la.

— Segura a onda... — disse Juca.

— Segura a onda? — A voz de Viviane desafinou por completo. Ela apontou para Juca. Estava tão brava que seu dedo tremia — Você... você disse que não viria porque todos os seus amigos trariam alguma garota, e você não queria vir — Juca deu de ombros.

— As coisas mudaram.

As bochechas de Viviane estavam ardendo, como se ele tivesse dado um tapa nela.

— Mas nós íamos sair para um encontro esta semana!

— Nós vamos jantar juntos esta semana — corrigiu Juca — Como amigos — Ele sorriu para Viviane, como se ela estivesse no jardim da infância — Nós terminamos sexta passada, Viviane, lembra?

Ela piscou

— E aí você fica com ela?.

— Bem.... — Juca olhou para Bia. — Sim.

Viviane abraçou a própria barriga, certa de que iria vomitar. Isso tinha de ser uma piada. Juca e Bia juntos fazia tanto sentido quanto uma garota gorda usar um jeans apertado. Então, ela notou o vestido de Bia. O zíper lateral estava aberto, mostrando metade de seu sutiã de renda tomara que caia.

— Seu peito está escapando do vestido — grunhiu ela, apontando para o zíper. Bia rapidamente olhou para baixo, cruzou os braços sobre o peito e fechou o zíper do vestido — Onde você conseguiu esse vestido, hein? — perguntou Viviane — Na ponta de estoque da Luella? — Bia endireitou as costas.

— Na verdade, foi mesmo. Eu achei uma graça.

— Meu Deus. — Viviane revirou os olhos — Você é uma pobre coitada — Ela olhou para Juca — De fato, eu acho que vocês dois têm isso em comum. Você sabia que o Juca quer ficar virgem até os trinta anos, Bia? Ele deve ter tentado te passar a mão, mas não vai chegar até o fim. Ele fez uma promessa sagrada.

— Vivi... — Juca tentou fazê-la calar a boca.

— Eu, pessoalmente, acho que ele é gay. O que você acha?

— Vivi... — Havia, então, um tom de súplica na voz de Juca.

— O quê? — desafiou-o Viviane — Você é um mentiroso, Juca. E um safado.

Quando Viviane olhou ao redor, um grupo de jovens havia se juntado em torno deles. Aqueles que sempre eram convidados para as festas, aqueles que eram convidados de vez em quando. As garotas que não eram descoladas o suficiente, os garotos com excesso de peso, aceitos apenas por serem engraçados, os garotos riquinhos que gastavam rios de dinheiro com todo mundo, pois eram bonitinhos, interessantes ou manipuladores. Todos estavam devorando avidamente a situação. Os murmúrios já haviam começado. Viviane deu uma última olhada em Juca, mas, em vez de dizer alguma coisa, foi embora. No banheiro feminino, ela encaminhou-se diretamente para a frente da fila. Como se estivesse saindo de uma barraca de feira, Viviane abriu caminho.

— Vagabunda! — gritou alguém, mas Viviane não se importou. Uma vez que a porta se fechou, ela se inclinou e livrou-se do Doritos e de tudo o mais que havia contido aquela noite. Quando terminou, deu um suspiro. A expressão no rosto de todo mundo. De pena. E Viviane tinha chorado na frente das pessoas. Esta era uma das primeiras regras dela e de Janu, depois de terem se reinventado: nunca, de jeito nenhum, deixe alguém ver você chorar. E, mais do que isso, ela sentiu-se tão ingênua. Realmente estava pensando que Juca voltaria para ela. Achou que, indo à clínica para pessoas com queimaduras e ao Clube da Virgindade, estivesse fazendo a diferença, mas o tempo todo... ele estava pensando em outra pessoa. Quando, finalmente, abriu a porta, o banheiro encontrava-se vazio. Estava tão quieto que ela podia ouvir a água pingando no mosaico de azulejos da pia. Viviane olhou-se no espelho, para ver se estava com uma aparência muito ruim. Quando o fez, gritou. Uma Viviane muito diferente a encarou de volta. Essa Viviane era gorducha, com cabelos castanhos, cor de cocô, e uma pele horrível. Ela usava aparelho com elástico cor-de-rosa, e seus olhos estavam semicerrados por tentar focar o que via, pois não quis usar óculos. O casaco marrom estava apertado em seus braços roliços, e a blusa estava enrugada na linha do sutiã. Viviane cobriu os olhos horrorizada. É M, ela pensou. M está fazendo isso comigo. Então, pensou no recado de M: Vá à Foxy agora. Juca está lá, com outra garota. Se M sabia que Juca estava na Foxy com outra garota, então, isso significava que... M estava na Foxy.

— Oi.

Viviane deu um pulo e se virou. Janu estava parada na porta, linda num vestido preto colado que Viviane não reconheceu de nenhuma das expedições de compras que haviam feito juntas. O cabelo claro estava preso pra trás, e sua pele brilhava. Envergonhada, ela provavelmente tinha vômito no rosto, Viviane cambaleou de volta à privada.

— Espere — Janu agarrou o braço dela. Quando Viviane se virou, Janu parecia realmente muito preocupada — Claudia disse que você não viria esta noite — Viviane deu uma olhada no espelho novamente. Seu reflexo mostrou a Viviane do segundo ano do ensino médio, não a do ensino fundamental. Seus olhos estavam um pouco vermelhos, mas, no geral, parecia bem. — É o Juca, não é? — perguntou Janu.

— Eu acabei de chegar e o vi com aquela garota — Ela abaixou a cabeça.

— Sinto muito, Vi.

Viviane fechou os olhos.

— Eu me sinto uma grande idiota — admitiu ela.

Não. Ele é que é. Elas se entreolharam. Viviane sentiu uma ponta de arrependimento. A amizade da Janu significava muito para ela, e ela estava deixando todo o restante entrar no caminho. Nem conseguia lembrar por que haviam brigado.

— Eu sinto muito, Janu. Por tudo.

—Me desculpe — disse Janu.

E elas se abraçaram, bem forte. Milena sapateou no piso de mármore do banheiro e puxou Viviane do abraço.

— Eu preciso falar com você.

Viviane se desvencilhou, incomodada.

— O quê? Por quê?

Milena deu uma olhada de través para Janu.

— Não posso contar aqui.Você precisa vir comigo.

— A Viviane não precisa ir a lugar nenhum — Janu pegou no braço dela e a puxou para mais perto.

— Desta vez, precisa sim — disse Milena, aumentando o tom da voz — É uma emergência.

Janu segurou firmemente o braço da Viviane. Ela tinha a mesma expressão de proibição do outro dia, no shopping, o olhar que dizia: se você esconder mais um segredo de mim, eu juro que nossa amizade estará acabada. Mas Milena parecia apavorada. Alguma coisa parecia errada. Muito errada.

— Desculpa — disse Viviane, tocando a mão de Janu. — Eu já volto — Janu largou o braço dela.

— Tudo bem. — Brava, ela foi em direção ao espelho para verificar a maquiagem. — Sem pressa.

Sem pronunciar uma única palavra, Milena guiou Viviane para fora do banheiro, passando por um amontoado de jovens. Então, ela notou Bia parada perto do bar, sozinha.

— Você vem também.

Viviane largou a mão de Milena.

— Eu não vou a lugar nenhum com ela.

— Viviane você disse para todo mundo que terminou com o Juca — reclamou Bia — Preciso ser mais clara?

Viviane cruzou os braços sobre o peito — Não significa que era para você vir aqui com ele. Não significa que eu queria que você o roubasse de mim.

— Eu não estou roubando nada! — gritou Bia, levantando o punho. Por um segundo, Milena ficou preocupada com a possibilidade de Bia tentar bater em Viviane e enfiou seu corpo entre as duas.

— Chega — disse ela, e Viviane saiu pisando forte, Milena tentou alcançar-la puxando a Bia junto, mas foi em vão, tinha bastantes pessoas ali, acabaram encontrando a Patricia — Você vem, temos que achar a Viviane — disse Milena, ela as arrastou pelas esculturas de gelo, pela fila do caraoquê e pela mesa do leilão de joias. Viviane ela havia desaparecido. Ela tinha passado por João, que estava sentado a uma mesa longa, iluminada por candelabros, junto com seus amigos. Ele a viu e, então, se virou rapidamente de costas para o pessoal que o acompanhava e se esgoelou bem alto, dando uma risada falsa, obviamente fazendo alguma piadinha a respeito dela. Milena sentiu uma ponta de remorso. Mas não podia lidar com João naquele momento. Apertando mais as mãos das meninas, ela andou a passos largos, passando pelas mesas, em direção ao terraço. Jovens estavam reunidos ao redor da fonte, molhando os pés descalços, mas nem sinal de Viviane. Na estátua gigante de Pan, Bia começou a gemer;

— Eu preciso voltar.

—Você não pode voltar ainda. — Milena empurrou-as de volta à sala de jantar — Isso é importante para todas nós. Temos que encontrar a Viviane.

— Por que isso é tão importante? — perguntou Patricia.

— Quem liga para onde ela está?

— Porque sim. — Milena fez uma pausa. — o Rubens está aqui...

— E? — perguntou Bia.

Milena respirou bem fundo.

— Eu acho que Rubens pode tentar machucá-la, eu o vi observando a Viviane desde a hora que ela chegou, acho que ele quer machucar todas nós — As meninas ficaram chocadas.

— Por quê? — insistiu Bia, com as mãos nos quadris.

Milena olhou para o chão. Seu estômago se apertou.

— Eu acho que Rubens é M.

— O que a faz pensar isso? — Bia parecia zangada.

M me enviou uma mensagem — admitiu ela — Dizendo que todas nós estávamos em perigo.

—Você recebeu uma mensagem? — esganiçou Patricia — Eu pensei que íamos contar tudo umas para as outras!

— Eu sei. — Milena encarou os sapatos Louboutins pontudos, de salto. Dentro da tenda, alguns garotos estavam dançando break num concurso. Felipe Santana estava tentando fazer um passo de dança chamado Jason, e Juca estava dando rodopiando sobre o traseiro. Aquela não deveria ser uma festa civilizada? — Eu não sabia o que fazer. Eu... na verdade recebi duas mensagens. A primeira dizia que seria melhor se eu não contasse pra vocês. Mas a segunda realmente soou como se fosse o Rubens... e agora o ele está aqui, e...

— Espere, o primeiro recado dizia que nós estávamos encrencadas, e você não fez nada? — perguntou Patricia. Ela não parecia exatamente zangada, apenas confusa.

— Eu não estava certa de que era verdade — explicou Milena, ela passou uma das mãos pelos cabelos.

— Quer dizer, se eu soubesse...

— Sabe... eu também recebi uma mensagem — confessou Bia, calmamente.

Milena piscou.

— Recebeu? Era sobre o quê?

— Não... — Bia parecia estar medindo as palavras. — Milena, por que você estava na academia de ioga na sexta-feira?

— Academia de ioga? — Milena cerrou os olhos — O que é que isso tem a ver com...?

— É um pouco mais do que uma coincidência — continuou Bia.

— Do que você está falando? — gritou Milena.

— Esquece, mas então, isso significa... — Bia apontou para a festa. — Se o seu recado de M dizia que estávamos em perigo na Foxy, quer dizer que M nos viu. O que quer dizer...

— Que M está na Foxy, eu sei — terminou Patricia.

O coração de Milena deu um pulo. Estava mesmo acontecendo. M estava ali... e M era Rubens.

— Vamos. — Milena as encaminhou para o longo e estreito corredor que levava à sala de leilões. Durante o dia, a sala era entulhada, decorada à maneira típica da Filadélfia, com toneladas de mesinhas baixas, retratos a óleo de homens ricos e mal-humorados, e o comum assoalho barulhento de madeira, mas, à noite, em cada mesa havia uma vela de aromoterapia, e os painéis das paredes estavam decorados com luzes multicoloridas. Quando pararam embaixo de uma luz azul, as garotas ficaram parecendo cadáveres.

— Recapitule tudo para mim, Milena — pediu Bia, lentamente — Sua primeira mensagem dizia que você não devia contar para nós. Mas não devia nos contar o quê? Que você recebeu a mensagem? Que M é Rubens?

— Não... — Milena virou-se para encará-las de frente — Eu não deveria contar para vocês o que eu sabia. Sobre A Coisa com Cristina — O terror apareceu nos rostos das meninas. Lá vamos nós, pensou Milena, ela respirou fundo. —A verdade é que... Rubens viu quando Marian acendeu os fogos de artifício. Ele sabe de tudo — Bia deu um passo para trás e trombou com a mesa. Uma peça de porcelana balançou e, então, caiu, despedaçando-se por todo o chão. Ninguém se mexeu para limpar.

—Você está mentindo — sussurrou Patricia.

— Antes fosse.

— O que você quer dizer? Rubens viu? — A voz de Bia estava trêmula — Marian disse que ele não tinha visto — Milena apertou as mãos.

— Ele me disse que viu. Para mim e para Marian — As amigas piscaram para ela, embasbacadas — Na noite em que Cristina se machucou, quando eu corri para fora para ver o que estava acontecendo, Rubens veio até mim e Marian. Ele disse que viu Marian... acendendo. — A voz de Milena estava trêmula, ela teve tantos pesadelos com aquele momento; era surreal estar revivendo aquilo — Marian resolveu tomar uma atitude — continuou Milena — Ela disse ao Rubens que o havia visto fazendo algo... horrível.. e que ia contar para todo mundo. A única maneira de evitar isso seria Rubens concordar em levar a culpa. Antes de fugir, ele falou: Eu vou pegar você. Mas, no dia seguinte, ele contou à polícia que havia acendido os fogos — Milena passou a mão na nuca. Falar aquilo em voz alta a transportou diretamente para a noite da Coisa com Cristina. Ela podia sentir o cheiro de enxofre do rojão estourado e o odor da grama recém-aparada. Ela podia ver Marian, seu cabelo loiro preso em um rabo de cavalo, usando os brincos de pérola em formato de gota que ganhou de aniversário. Ficou com lágrimas nos olhos. Ela engoliu em seco e prosseguiu — A segunda mensagem que M me mandou dizia: Você me magoou, então, eu vou magoar você também, e que iria aparecer quando nós menos esperássemos. Um policial foi até a minha casa esta manhã e perguntou sobre Marian mais uma vez, e me ameaçou, agindo como se eu soubesse de alguma coisa que .não deveria. Eu achei que Rubens estava por trás disso. Agora ele está aqui. Estou com medo de que possa machucá-la. — Demorou um tempão para Bia e Patricia responderem. Finalmente, as mãos de Bia começaram a tremer. Uma mancha vermelha subiu por seu pescoço até as bochechas.

— Por que você não nos contou antes? — gritou ela, incerta, para Milena, procurando pelas palavras — Quer dizer, teve aquela vez, no sétimo ano, quando eu estive sozinha com o Rubens, naquele lance de teatro! Ele podia ter me machucado... ou a todas nós... e se ele realmente machucou Marian, nós poderíamos ter ajudado a salvá-la!

— Eu estou enjoada — gemeu Patricia, baixinho.

Lágrimas desceram pelo rosto de Milena.

— Eu queria contar a vocês, gente, mas estava apavorada.

— O que Marian disse para chantagear Rubens, para que ele não contasse o que viu? — perguntou Bia.

— Marian não me falou — mentiu Milena. Ela se sentia meio supersticiosa quanto a confessar o segredo de Rubens, como se assim que contasse, um monte de raios fossem descer pelos céus... ou Rubens aparecesse, de modo sobrenatural, depois de ouvir tudo. Bia olhou para as próprias mãos.

— Rubens sabe de tudo — repetiu ela.

— E, agora, ele... está aqui — falou Milena.

— Ele está aqui. E ele é M — disse Patricia e Bia agarrou o braço dela.

— Vamos — disse Bia.

—Aonde você vai? — perguntou Milena, nervosamente. Ela não queria Bia fora de sua vista. Bia virou de volta.

— Nós temos que encontrar a Viviane — disse, amarga. Ela levantou a barra do vestido e começou a correr.

Viviane tinha se enfiado num quartinho, no fundo do terraço do Kingman Hall, e estava calada, observando todos os fumantes da Foxy. As garotas nos vestidos claros bufantes; os garotos em seus ternos elegantes. Mas quem ela estava observando com mais atenção? Ela não estava certa. Cerrou os olhos com força, então, os abriu bem rápido, e a primeira pessoa que notou foi Ori Case, o jogador de futebol gostosão. Viviane sentiu o cheiro do perfume de Michael Kors, ela nunca tinha sentido nada tão delicioso em sua vida. Com exceção de chiclete de banana.

— O que você está fazendo? — Rubens estava parado, olhando para ela.

— Eu... — gaguejou Viviane.

— Você está bem? — Ela olhou para Rubens. Queria explicar o que lhe vinha acontecendo.

— Sim, você se importa se eu te pedir para que me leve até minha casa? — perguntou Viviane, Rubens sorriu, ele puxou Viviane pelos pulsos. No caminho para a saída, Viviane notou Milena parada na beira da pista de dança. Milena estava de costas para Viviane, que pensou em ir até ela e dizer oi. Então, Rubens puxou sua mão, e ela decidiu não ir. Milena poderia perguntar alguma coisa sobre M, e ela não estava a fim de falar nada sobre esse assunto naquele momento. Quando o carro deixou o estacionamento, Viviane abaixou o vidro da janela. A noite cheirava deliciosamente. A lua estava enorme e cheia, e algumas nuvens começavam a chegar. Estava tão quieto lá fora, Viviane podia ouvir os pneus do carro rolando no asfalto.

— Você está bem mesmo? — perguntou Rubens, Viviane deu um pulinho.

— Sim, estou bem. — Ela deu uma olhada em Rubens — Desculpa, a noite foi uma porcaria.

— Não tem problema — balbuciou Rubens. Viviane virou a pequena caixa da Tiffany que estava no seu colo. Ela pegou uma da mesa, antes de sair da tenda, pensando que também podia ter uma lembrancinha da festa.

— Então, tem certeza de que não aconteceu nada? — perguntou Rubens —Você está tão quieta.

Viviane assoprou. Ela viu passarem três plantações de milho antes de responder.

— Uma cartomante veio falar comigo, alguns minutos depois de eu ter me separado das minhas amigas...

Rubens franziu as sobrancelhas, sem entender nada.

— Ela só disse que alguma coisa ia me acontecer esta noite — Viviane tentou simular uma risada. Rubens abriu a boca para falar alguma coisa, mas logo a fechou.

Eles dirigiram até uma placa que indicava "pare", numa via de mão dupla, deserta. Em vez de parar e depois continuar, Rubens desligou o carro. Viviane estava intrigada.

— O que nós vamos fazer?

Rubens tirou as mãos da direção e encarou Viviane por um longo tempo. Tão longo que ela começou a se sentir esquisita. Ele parecia chateado. Ela pôs a mão na nuca, então, se virou e olhou pela janela. A rua estava silenciosa e morta, e, do outro lado, havia outra plantação de milho, uma das maiores de Rosewood. A chuva caía forte agora, e Rubens não tinha ligado o limpador de para-brisa, então tudo estava borrado. Ela desejou, inesperadamente, ver um pouco de civilização. Um carro que passasse. Uma casa. Um posto de gasolina. Alguma coisa.

— Eu vi uma de suas antigas amigas lá. Milena Grigio — Um relâmpago caiu de novo, fazendo Viviane pular. Rubens deu um sorriso malévolo —Vocês eram uma turma e tanto, antigamente. Aprontavam com todo mundo. Comigo... com minha irmã...

— Não era de propósito — disse Viviane, por instinto.

— Vivi — Rubens deu de ombros. — Por que não? Vocês eram as garotas mais populares da escola. Vocês podiam. — A voz dele era extremamente sarcástica.

Viviane tentou sorrir, com esperança de que aquilo fosse uma brincadeira. Mas Rubens não sorriu de volta. Por que estavam falando sobre esse assunto?

— Desculpe. Nós apenas... éramos tão idiotas. Fazíamos o que Marian queria que fizéssemos. Quer dizer, eu achei que você tivesse superado isso, já que você e Marian ficaram juntos no ano seguinte.

— O quê? — interrompeu-a Rubens de imediato.

Viviane encostou-se na janela. Seu peito queimava de tanta adrenalina.

—Você... você não estava saindo com a Marian no, hum, sétimo ano?

Rubens olhou para Viviane, horrorizado.

— Era difícil para mim até olhar para ela — confessou Rubens baixinho — Agora é difícil até mesmo ouvir o nome dela. Ele colocou as mãos na testa e expirou longamente. Quando se virou para Viviane novamente, seus olhos estavam escuros. — Especialmente depois... depois do que ela fez.

Viviane o encarou. Um relâmpago rasgou o céu mais uma vez e o vento ficou mais forte, fazendo a plantação de milho balançar. As folhas pareciam mãos, tentando desesperadamente alcançar alguma coisa.

— Espera aí, o quê? — Ela riu, na expectativa, rezando para que tivesse entendido tudo errado. Apostando que, se ela piscasse, a noite ia se endireitar e voltar ao normal.

— Acho que você me ouviu — disse Rubens, num tom seco, sem emoção — Eu sei que vocês eram amigas, mas, pessoalmente, estou feliz que aquela vagabunda esteja morta.

Viviane sentiu como se algo tivesse sugado todo o oxigênio de seu corpo.

Alguma coisa vai acontecer com você esta noite.

Vocês aprontavam com todo mundo. Comigo... com minha irmã... É difícil para mim até mesmo ouvir o nome dela. Especialmente depois do que ela fez... DEPOIS DO QUE ELA FEZ. Estou feliz que aquela vagabunda esteja morta. Uma ideia começava a se formar no cérebro de Viviane, Rubens realmente sabia. Ela estava certa disso, mais certa do que jamais estivera em toda sua vida. Rubens sabia o que elas tinham feito com Cristina, mas M não tinha contado para ele. Rubens já sabia havia muito tempo. E ele devia ter odiado Marian por causa disso. E teria odiado todas elas se soubesse que estavam envolvidas.

— Ai, meu Deus — sussurrou Viviane. Ela puxou a maçaneta da porta, segurando a saia com as mãos, ao sair do carro. A chuva a pegou imediatamente e os pingos pareciam agulhas. Claro que havia alguma coisa suspeita sobre Rubens sendo tão amistoso com ela. Ele queria arruinar a vida de Viviane.

— Vivi? — Rubens desatou o cinto de segurança. — Onde você... — Então, ela ouviu o motor rugir. Rubens estava dirigindo estrada abaixo, na sua direção, com a porta do passageiro aberta. Ela olhou para a direita e para a esquerda, e, então, esperando que soubesse onde estava, entrou na plantação de milho, não se importando de estar ensopada. — Vivi — chamou Rubens de novo. Mas Viviane continuou correndo. Rubens tinha matado Marian. Rubens era M.

Patricia abriu caminho pela multidão de jovens, na esperança de ver os conhecidos de Viviane. Ela achou Milena e Bia perto das janelas enormes, conversando com Amanda.

— Ela estava com aquele cara da Tate, não é? — perguntou Milena

Amanda mordeu o lábio e tentou pensar — Tenho quase certeza de que os vi saindo.

Patricia trocou olhares nervosos com as amigas.

— O que nós vamos fazer? — sussurrou Milena.

— Não temos a menor ideia de para onde eles foram — disse Patricia

— Eu tentei ligar para ela — informou Bia — Mas o celular só chama e ninguém atende.

— Ai, meu Deus. — Os olhos de Milena começavam a se encher de lágrimas.

— Bem, o que você esperava? — falou Bia, por entre os dentes — Foi você quem deixou isso acontecer.

— Eu sei — repetiu Milena — Desculpem. Um estrondo as interrompeu. Todos olharam para fora, para ver as árvores balançando de lado e a chuva torrencial caindo.

— Droga. — Patricia ouviu uma menina perto dela xingando.

— Vai estragar todo o meu vestido.

Bia encarou as amigas.

— Eu sei de alguém que pode nos ajudar. Um policial.

Ela olhou em volta, meio que esperando ver o policial Wilden, o cara que tinha prendido a Viviane por roubar uma pulseira da Tiffany e o carro do sr. Ackard, e que a livrava dessas encrencas. Mas os caras de guarda nas saídas e no leilão de joias eram da equipe de seguranças particulares da Liga de Caça à Raposa, só no caso de alguma coisa devastadora acontecer, eles chamariam a polícia. No ano anterior, um aluno do ensino médio bebeu demais e fugiu com um David Yurman que estava para ser leiloado, e, mesmo assim, tudo o que tinham feito foi deixar uma mensagem discreta na secretária eletrônica da família do garoto, dizendo que gostariam de ter o item de volta no dia seguinte.

— Nós não podemos ir até a polícia — gritou Milena — Do jeito que aquele policial agiu comigo esta manhã, eu não me surpreenderia se eles achassem que nós matamos a Marian.

Patricia olhou para o lustre de cristal no teto. Uma dupla de garotos estava jogando guardanapos nele, tentando fazer os cristais balançarem.

— Mas, quer dizer, sua mensagem dizia basicamente: Eu vou magoar você, certo? Isso não é suficiente?

— Está assinado M. E diz que nós o magoamos. Como vamos explicar isso?

— Mas como faremos para ter certeza de que Viviane está bem? — perguntou Bia, puxando para cima seu vestido de bolinhas.

— Talvez devêssemos ir até a casa dela — sugeriu Milena.

— Juca e eu poderíamos ir agora mesmo — ofereceu-se Bia.

—Você vai contar para ele? — perguntou Patricia

— Não — gritou Bia, por cima dos berros de Amanda e da chuva torrencial — Eu não vou contar nada a ele. Nem sei como explicar isso. Mas ele não vai saber.

— Você dá uma olhada na casa da Viviane — falou Milena para Bia — E eu vou continuar ligando pra ela.

— E se nós formos de carro até a casa da Viviane e o Rubens estiver com ela? — perguntou Bia.

— Nós o confrontamos? Quer dizer... se ele for M...? — perguntou Patricia e trocou olhares apreensivos com as outras. Ela queria dar um pé na bunda do Rubens, como ele tinha descoberto sobre a Kate meia-irmã da Vivi? Sobre seu pai, Bia? Sobre as prisões da Vivi? Que Juca tinha terminado com ela e que ela enfiava o dedo na garganta para vomitar? Como é que ele se atrevia a tentar a acabar com elas?! Mas ela também estava com medo. Se Rubens era M — se ele sabia — então realmente ia querer machucá-las. Fazia... sentido.

— Nós deveríamos nos concentrar apenas em ter certeza de que Viviane está bem — falou Milena — O que vocês acham de, caso não tenhamos notícias dela logo, ligarmos pra polícia e fazer uma denúncia anônima? Poderíamos dizer que vimos o Rubens machucando Viviane. Nós não teríamos que dar detalhes.

— Se o policial vier procurar por Rubens, ele saberá que fomos nós — argumentou Patricia — Além do mais, e se ele contar sobre a Cristina? — Ela podia as verem numa instituição para menores infratores, usando um macacão laranja e conversando com os seus pais através de uma parede de vidro.

— Ou o que faremos se ele vier atrás da gente? — quis saber Bia.

— Vamos ter que achá-la antes que isso aconteça — interrompeu Milena.

Patricia olhou o relógio. Dez e meia — Estou fora pessoal, tenho que ir pra casa — Ela marchou em direção à porta. — Eu ligo pra você, Mili. — Não disse nada a Bia.

Viviane suspirou aliviada quando descobriu que a porta lateral de sua casa estava aberta. Jogou o corpo encharcado dentro da lavanderia, quase se debulhando em lágrimas pela isolada e descomplicada domesticidade de tudo: a bagunça abençoada de sua mãe! Ponto cruz em cima da lavadora; a fila bem-organizada de sabão em pó, alvejante e amaciante na prateleira.

O telefone tocou, soando como um grito. Viviane apanhou uma toalha da pilha de roupa suja, enrolou-a em volta dos ombros e, cedendo à tentação, pegou a extensão sem fio do tele-fone.

—Alô? — Até o som de sua própria voz pareceu assustador.

— Viviane? — Era uma voz séria e familiar do outro lado da linha.

Viviane franziu as sobrancelhas.

— Mili?

— Ai, meu Deus — sussurrou Milena. — Nós estávamos procurando por você. Você está bem?

— Eu... eu não sei — respondeu Viviane, tremendo.

Ela havia corrido loucamente pela plantação de milho. A chuva tinha feito rios de lama entre as fileiras. Um de seus sapatos havia saído do pé, mas ela continuou andando e, naquele momento, a parte de trás do vestido e suas pernas estavam imundas. O fundo da plantação dava no bosque atrás de sua casa, e ela também tinha atravessado a pequena extensão de floresta. Escorregou duas vezes na grama molhada, ralando o cotovelo e o quadril e, em algum momento, um raio caiu numa árvore a seis metros dela, jogando galhos no chão com violência. Ela sabia que era perigoso ficar ali fora no meio de uma tempestade, mas não podia parar, com medo de que Rubens estivesse bem atrás dela.

— Vivi, fique onde está — instruiu Milena — E fique longe do Rubens. Eu explico tudo depois, mas, por agora, apenas tranque a porta e...

— Eu acho que o Rubens é M — interrompeu Viviane, sua voz, um sussurro arranhado e trêmulo. — E acho que ele matou a Marian — Houve uma pausa.

— Eu sei. Eu também acho.

— O quê? — gritou Viviane.

Um clarão de relâmpago iluminou o céu, fazendo Viviane encolher-se. Milena não respondeu. A linha estava muda. Viviane colocou o telefone em cima da secadora. Milena sabia? Isso fez a revelação de Viviane ainda mais real e muito, muito mais assustadora.

Então, ela ouviu uma voz:

— Vivi! Vivi?

Ela congelou. Soava como se estivesse vindo da cozinha. Ela voou pra lá e viu Rubens olhando pra dentro, as mãos contra a porta de vidro. A chuva havia encharcado seu terno e emplastrado seu cabelo, e ele estava tremendo. Seu rosto estava na sombra.

Viviane gritou.

— Vivi! — chamou Rubens novamente. Ele virou a maçaneta, mas Viviane rapidamente trancou-a.

—Vá embora! — gritou ela. Ele podia... podia queimar a casa toda. Entrar. Sufocar Viviane enquanto ela dormia. Se ele pôde matar Marian, era capaz de qualquer coisa.

— Estou todo ensopado — falou Rubens. — Me deixa entrar.

— Eu... Eu não posso falar com você. Por favor, Rubens, por favor. Apenas me deixe em paz.

— Por que você fugiu de mim? — Rubens olhava para dentro da casa, confuso. Ele também estava gritando, pois a chuva estava muito forte. — Eu não estou certo do que aconteceu lá no carro. Eu fiquei apenas... simplesmente fiquei meio confuso ao ver toda aquela gente. Mas isso foi há muitos anos. Desculpe.

A suavidade da voz dele tornou tudo muito pior. Ele tentou a maçaneta de novo, e Viviane gritou:

— Não!

Rubens parou, e Viviane começou a procurar por algo que pudesse usar como arma. Um prato de frango pesado de cerâmica. Uma faca de cozinha cega.Talvez ela pudesse caçar a chapa dentro do armário...

— Por favor.

Viviane estava tremendo muito, suas pernas estavam bambas.

— Apenas vá embora.

— Pelo menos me deixe entregar sua bolsa. Está no meu carro.

— Pode pôr na caixa do correio.

— Viviane, não seja ridícula. — Rubens começou a bater na porta, nervosamente. —Venha aqui agora e me deixe entrar!

Viviane pegou a pesada travessa de frango da mesa da cozinha. Ela a segurou diante de si como um escudo.

—Vá embora!

Rubens tirou o cabelo molhado do rosto.

—As coisas que eu disse no carro... saiu tudo errado. Desculpe se falei algo que...

—Tarde demais — interrompeu-o Viviane. Ela fechou os olhos, apertando-os bem. Tudo que queria era abri-los novamente e que tudo fosse apenas um sonho — Eu sei o que você fez com ela.

Rubens endureceu.

— Espere aí. O quê?

—Você me ouviu — disse Viviane — Eu... sei... o... que... você... fez... com... ela.

Rubens ficou boquiaberto. A chuva caía mais forte, fazendo com que os olhos dele parecessem buracos vazios.

— Como você poderia saber disso? — Sua voz trêmula. —Ninguém... ninguém sabia. Foi... foi há muito tempo, Viviane.

Viviane ficou boquiaberta. Como assim? Ele pensava que era tão esperto que sairia ileso daquela?

— Acho que seu segredo vazou.

Rubens começou a andar para lá e para cá do lado de fora da casa de Viviane, passando os dedos pelo cabelo.

— Mas, Vivi, você não entende, eu era muito jovem. E... e confuso. Eu gostaria de não ter feito aquilo...

Viviane sentiu um enorme remorso. Ela não queria que Rubens fosse o assassino de Marian. O jeito meigo com que ele a havia ajudado a sair do carro, quão perdido e vulnerável ele tinha parecido quando ela botou os olhos nele, parado sozinho na pista de dança da Foxy. Talvez ele realmente estivesse arrependido do que fez. Talvez estivesse apenas confuso.

Mas aí Viviane se lembrou da noite em que Marian desapareceu. Estava tão bonito lá fora, o início perfeito para o que seria um verão perfeito. Elas tinham planejado ir pra Jersey Shore no final de semana seguinte, tinham ingressos para ir ao show do No Doubt em julho, e Marian ia dar uma enorme festa para comemorar seus quatorze anos em agosto. Foi tudo por água abaixo no instante em que Marian entrou no celeiro da família de Milena.

Rubens deve ter entrado por trás. Talvez tenha batido nela com alguma coisa. Talvez tenha dito coisas para ela. Quando ele a jogou no buraco, ele deve ter... coberto Marian com terra para que ninguém a encontrasse. Será que foi assim que aconteceu? E depois que Rubens a machucou, teria pego sua bicicleta, pedalado para casa e se escondido? Ele teria assistido a todo o mundo lendo o jornal, com um balde de pipoca de micro-ondas no colo, como se fosse um filme da HBO?

Estou feliz que aquela vagabunda esteja morta.

Viviane nunca tinha ouvido nada tão horrível em sua vida.

— Por favor! — gritou Rubens — Eu não consigo passar por tudo isso de novo. E nem a... — Ele nem sequer conseguiu terminar a frase. Então, de repente, cobriu o rosto com as mãos e correu para ir embora, de volta ao bosque, no quintal da casa dela. Tudo ficou quieto. Viviane olhou ao redor. A cozinha estava impecável, sua mãe tinha ido passar o final de semana em Pittsburgh para visitar a avó.

Viviane estava completamente sozinha.

Ela correu para a porta da frente. Estava trancada, mas ela passou o trinco para se sentir mais protegida. Torceu o cadeado para checar se estava de fato fechado. Então, se lembrou da porta da garagem: o controle estava quebrado, e a sua mãe ainda não tinha consertado. Alguém forte o suficiente poderia levantar a porta da garagem sozinho. E aí ela se deu conta. Rubens estava com sua bolsa. O que significava que... ele estava com suas chaves. Ela pegou o telefone na sala e ligou para a polícia. Mas não ouviu nenhum ruído no fone. Ela desligou e esperou pelo sinal, mas não havia nenhum. Viviane sentiu os joelhos amolecerem. A tempestade devia ter danificado as linhas telefônicas.

Ela ficou congelada no corredor por alguns instantes, com o queixo tremendo. Será que Rubens arrastou Marian pelos cabelos? Será que ela estava viva quando ele a jogou naquele buraco? Ela correu para a garagem e olhou ao redor. No canto, estava seu velho taco de beisebol. Pareceu muito forte e pesado em suas mãos. Satisfeita, deslizou para fora, na varanda da frente, trancou a porta atrás de si com as chaves reserva da cozinha, e sentou gentilmente no balanço da varanda, na sombra, com o taco no colo. Estava muito frio lá fora, e ela podia ver uma aranha gigantesca fazendo uma teia no outro canto da varanda. Aranhas sempre a haviam apavorado, mas tinha de ser forte. Não deixaria Rubens machucá-la também.