Pretty Little Liars
10 Capitulo 10 - UM CERTO PROFESSOR DE LITERATURA É UM NARRADOR TÃO POUCO CONFIÁVEL
Na quinta-feira, Bia hesitou à porta da sala de aula de literatura, quando Milena passou.
— Oi. — disse Milena, e Bia agarrou-lhe o braço.
— Você recebeu alguma... — perguntou Milena, os olhos de Mili moveram-se de um lado para outro, como aqueles grandes lagartos que Bia havia visto em exposição no Zoológico de Paris.
— Bem, não — respondeu Milena — Mas estou realmente atrasada, então... —Ela saiu correndo pelo corredor.
Bia mordeu o lábio com força, ok, alguém pôs a mão em seu ombro. Ela deu um gritinho e derrubou a garrafa de água, que bateu no chão e saiu rolando.
— Opa, só estava tentando passar — disse Eduardo que estava ali de pé, atrás dela. Ele esteve ausente da escola na terça e na quarta-feira, e Bia estava imaginando se ele havia se demitido.
— Desculpe — murmurou ela, as bochechas coradas de um vermelho vivo, Eduardo vestia as mesmas calças de veludo amassadas que havia usado na semana anterior, um paletó de tweed com um pequeno buraco no cotovelo e sapatos de cadarço Merrell. De perto, ele cheirava levemente a "vela masculina" de açafrão e ylang ylang da Seda France, de que Bia se lembrava da sala de estar dele. Ela havia visitado o apartamento dele apenas seis dias antes, mas parecia que duas vidas haviam se passado desde então. Bia entrou pé ante pé na sala de aula, atrás dele. — Então, você estava doente? — perguntou ela.
— Estava — respondeu Eduardo — Estava gripado.
— Sinto muito. — Bia se perguntou se iria ficar gripada também.
Eduardo olhou para a sala de aula vazia e chegou mais perto dela.
— Então, escute. Que tal começar de novo? — A expressão no rosto dele era profissional.
— Bem, está certo — grunhiu Bia.
— Nós temos um ano à nossa frente — completou Eduardo — Então, vamos esquecer o que aconteceu? — Bia engoliu em seco. Ela sabia que o relacionamento deles era errado, mas ainda tinha sentimentos por Eduardo. Ela expusera sua alma para ele e não podia fazer aquilo com qualquer um, e ele era tão diferente.
— É claro — respondeu ela, embora não acreditasse totalmente no que dizia.
Eles tinham tido uma... verdadeira conexão. Eduardo assentiu levemente com a cabeça. Então, bem devagar, ele estendeu a mão e tocou a nuca de Aria. Um arrepio subiu pela espinha dela. Ela prendeu a respiração, até que ele tirou a mão de seu pescoço e se afastou. Bia sentou-se na carteira, a mente trabalhando sem parar. Aquilo seria algum tipo de sinal? Ele havia dito para esquecer, mas não se sentia daquela forma. Antes que ela pudesse decidir se deveria dizer alguma coisa para Eduardo, Janjão Carvalho deslizou para a cadeira ao lado da de Bia, e a cutucou com sua caneta Montblanc.
— Então, fiquei sabendo que você anda me traindo, Chaddad — diz o João brincando e ao mesmo tempo sério.
— O quê? — Bia se sentou direito, em alerta, sua mão voou para o próprio pescoço.
— Juca Chequer estava perguntando por você, você sabe que ele está com a Viviane, não sabe? — perguntou João, Bia tocou as costas dos dentes com a língua.
— Juca... Chequer?
— Ele não está mais com a Viviane — interrompeu Mosca, sentando-se na cadeira à frente da de Bia — a Janu me contou, Viviane deu um fora nele.
— Então, você gosta do Juca? — João perguntou.
— Não — respondeu Bia, automaticamente, embora ela continuasse pensando na conversa que tive com Juca no carro dele, na terça-feira, foi legal falar com alguém sobre as coisas que estavam acontecendo em sua vida.
— Bom — disse João que passou a mão pela testa — Eu estava preocupado — Bia revirou os olhos. Viviane entrou rebolando na sala enquanto o sinal tocava, colocando a enorme bolsa Prada em cima da mesa e caindo dramaticamente na cadeira. Ela lançou a Bia um sorrisinho.
— Oi. — disse Bia, que se sentiu um pouco tímida, na escola, Viviane parecia terrivelmente fechada.
— Ei, Viviane, você não está mais saindo com o Juca Chequer? — perguntou João em voz alta. Viviane olhou fixamente para ele. Suas pálpebras tremiam.
— Não estava dando certo entre a gente. Por quê? — perguntou Viviane.
— Por nada — interrompeu Bia, rapidamente, embora estivesse se perguntando por que Viviane havia terminado com Juca. Eles eram como duas ervilhas em uma típica vagem de Rosewood. Eduardo bateu palmas.
— Muito bem — disse ele. — Além dos livros que estamos lendo para aula, eu quero fazer um pequeno projeto paralelo sobre narradores pouco confiáveis — Felipe (Mosca) levantou a mão.
— O que é que isso significa? — perguntou Felipe (Mosca), Eduardo começou a caminhar pela sala.
— Bem, o narrador nos conta a história em um livro, não é? Mas... e se o narrador não estiver nos dizendo a verdade? Talvez ele esteja nos contando sua própria versão distorcida da história, para fazer com que você vá para o lado dele. Ou para assustar você. Ou, talvez, ele seja louco! — Bia estremeceu, aquilo a fazia pensar em M. — Vou dar um livro a cada um de vocês — disse Eduardo — Em um trabalho de dez páginas, vocês vão argumentar contra ou a favor da confiabilidade do narrador. A turma inteira grunhiu. Bia descansou a cabeça na palma de uma das mãos. Talvez M não fosse inteiramente confiável. Talvez M não soubesse realmente de nada, mas estivesse tentando convencê-los do contrário. Quem era M, afinal? Ela olhou ao redor, pela sala de aula, para Amber Billings, enfiando o dedo em um buraquinho na meia; João, secretamente checando o placar do jogo dos Phillies no telefone celular; e Viviane, anotando o que Eduardo estava dizendo, com a caneta-tinteiro púrpura. Alguma daquelas pessoas poderia ser M? Quem poderia saber sobre Eduardo, seus pais... e A Coisa com Cristina? Um jardineiro passou rapidamente com um cortador de grama John Deere do lado de fora da janela e Bia deu um pulo. Eduardo ainda estava falando sobre narradores mentirosos, fazendo pausas para dar golinhos na xícara de café. Ele lançou um sorrisinho de leve para Bia, fazendo o coração dela acelerar.
Felipe se inclinou, cutucou Viviane e apontou para Eduardo — Então, eu ouvi falar que o Almeida é o maior garanhão — disse ele num sussurro, mas alto o suficiente para que Bia, e o restante da fileira dela, ouvisse. Viviane olhou para Eduardo e franziu o nariz.
— Ele? Eca — disse ela.
— Aparentemente, ele tem uma namorada em Nova York, mas a cada semana está com uma garota diferente em Hollis — continuou Felipe, Bia se endireitou na cadeira. Namorada?
— Onde foi que você ouviu isso? — perguntou João a Felipe. Felipe sorriu.
— Você conhece a srta. Polanski? A monitora de biologia? Ela me contou. Ela fica conversando com a gente no fumódromo, às vezes. — João bateu na palma da mão de Felipe.
— Cara, a srta. Polanski é gata. — disse João
— Falando sério. Você acha que eu poderia levá-la à Foxy? — quis saber Felipe. Bia sentiu como se alguém a tivesse atirado em uma fogueira. Uma namorada. Na sexta à noite, ele tinha dito que não saía com ninguém havia muito tempo. Bia se lembrava de ter percebido os jantares congelados em porção única, típicos de solteiro, no refrigerador dele; seus oito mil livros, mas uma taça de vinho somente; e suas plantas murchas e tristes. Ele não parecia ter uma namorada. Felipe poderia ter se enganado com os fatos, mas ela duvidava disso. Bia estava fervendo de raiva. Anos antes, ela poderia ter pensado que apenas os garotos típicos de Rosewood gostariam de fazer joguinhos, mas havia aprendido muito sobre garotos na Islândia. Às vezes, os garotos aparentemente mais inocentes eram os mais astutos. Nenhuma garota poderia olhar para Eduardo, o sensível, desmantelado, doce, afetuoso Eduardo e desconfiar dele. Ele fazia Bia se lembrar de alguém. Seu pai. Ela se sentiu repentinamente enjoada e então se levantou, pegou o crachá de acesso ao corredor e saiu correndo pela porta.
— Bia? — chamou Eduardo, soando preocupado, ela não parou, no banheiro das meninas, ela correu para a pia, passou sabão cor-de-rosa nas mãos e esfregou o ponto do pescoço em que Eduardo havia tocado. Estava voltando para a sala de aula, quando o telefone celular tocou. Ela o tirou da bolsa e apertou ler.
Bia, safadinha! Você deveria saber melhor do que ninguém que não se deve correr atrás de um professor. São garotas como você que destroem famílias perfeitamente felizes. — M
Bia gelou, estava no meio do corredor principal da escola, que estava vazio., ouviu um barulho e se virou, ela estava de frente para o armário de troféus, de vidro, que tinha sido transformado em um verdadeiro santuário a Marian Gomes. Lá dentro, havia várias fotos de aulas em Rosewood Day, os professores sempre tiravam toneladas de fotografias durante o ano, e a escola normalmente as dava de presente aos pais quando seus filhos se formavam. Lá estava Marian, com um sorriso banguela no jardim de infância, e vestida como peregrina na peça de teatro do quarto ano. Havia até mesmo alguns dos seus trabalhos escolares, como uma maquete representando o fundo do mar, do terceiro ano e uma ilustração do sistema circulatório, do quinto. Um quadradinho rosa-shocking chamou a atenção de Bia. Alguém havia colado um Post-it no vidro do armário. Os olhos dela se arregalaram.
P.S.: Você está se perguntando quem eu sou, não está? Eu estou mais perto do que você imagina. — M
Naquela noite, Bia sentou-se em sua cama, tricotando uma coruja de lã de mohair. O bichinho era marrom e tinha cara de macho; ela tinha começado na semana anterior, pensando em dá-la a Eduardo. Agora que isso realmente não ia acontecer, ela estava pensando... talvez pudesse dá-la ao Juca? Isso não seria esquisito? Antes de Marian desaparecer, ela tinha tentado arranjar uns meninos de Rosewood para Bia, dizendo:
— É só ir lá e falar com ele. Não é difícil.
Mas, para Bia, era difícil. Quando ela chegava perto de um menino de Rosewood, congelava e falava a primeira coisa idiota que viesse à sua mente que, por alguma razão, era frequentemente algo sobre matemática. E ela odiava matemática. Até acabar o sétimo ano, apenas um cara tinha falado com ela fora da sala de aula: Rubens. E havia sido assustador. Acontecera apenas algumas semanas antes de Marian desaparecer; Bia tinha se inscrito num acampamento de artes, no final de semana, e quem apareceu logo no primeiro workshop foi ninguém mais, ninguém menos que Rubens. Bia ficou abismada, ele não deveria estar num colégio interno... para sempre? Mas, aparentemente, a escola dele começara as férias de verão antes de Rosewood Day e lá estava ele. Ele sentou-se num canto, com o cabelo no rosto, mexendo num elástico em seu pulso. A professora de teatro, uma mulher magricela, de cabelo arrepiado, que usava um monte de roupas hippies manchadas, pediu para todos fazerem um exercício: eles deveriam formar pares e gritar uma frase para o outro continuamente, até entrar num ritmo. A frase deveria ser dita naturalmente. Eles deveriam andar pela sala, se encontrando uns com os outros, e Bia rapidamente se viu em frente a Rubens. A frase desse dia era:
Nunca neva no verão.
— Nunca neva no verão — disse Rubens.
— Nunca neva no verão — rebateu Bia.
— Nunca neva no verão — repetiu Rubens. Os olhos dele estavam fundos e as unhas, roídas até o toco. Bia sentiu arrepios por estar tão perto dele. Ela não conseguia parar de pensar no rosto macabro na janela da Marian, pouco antes de elas ferirem Cristina. E em como os paramédicos puxaram Cristina da casa da árvore escada abaixo, quase a derrubando. E como, poucos dias depois, quando elas estavam na apresentação beneficente de fogos de artifício, ela escutou a sua professora de programas de saúde, sra. Iverson, dizer:
— Se eu fosse o pai daquele garoto, não o mandaria apenas para o colégio interno, eu o mandaria para a cadeia.
E aí, a frase mudou. Tornou-se:
— Eu sei o que você fez no verão passado. Rubens deveria falar primeiro, mas Bia gritou a frase algumas vezes antes de se dar conta do que ela realmente significava.
— Ah, como o filme! — gritou a professora, batendo palmas.
— Sim — concordou Rubens, e sorriu para Bia. Um sorriso de verdade, também, não um sorriso sinistro, o que a fez sentir-se pior. Quando ela contou a Marian o que havia acontecido, Marian suspirou e disse;
— Bia, o Rubens é, tipo, doente da cabeça, eu fiquei sabendo que ele quase se afogou no Maine, nadando num riacho gelado, enquanto tentava fotografar um alce.
Mas Aria nunca mais voltou para as aulas de teatro. Ela pensou novamente sobre o recadinho de M.
Você está imaginando quem eu sou, não está? Eu estou mais perto do que você pensa.
Poderia M ser Rubens? Ele teria se infiltrado em Rosewood Day e colocado o recado no memorial de Marian? Alguma de suas amigas o teria visto? Ou talvez M frequentasse alguma aula junto com ela. A turma de literatura faria mais sentido os horários em que havia recebido os recados batiam com o do pessoal que assistia a essa matéria. Mas quem? Felipe? João? Viviane? Quem? Bia se concentrou em Viviane. Havia pensado sobre ela anteriormente, Marian poderia ter contado a Viviane sobre seus pais. E Viviane fazia parte de A Coisa com Cristina. Mas por quê? Ela folheou o livro de fotos da Rosewood Day, a lista de todos os nomes de seus colegas de classe e seus telefones havia saído naquele dia, e achou a foto do Juca. O cabelo dele tinha um corte esportivo, curto, e ele estava bronzeado como se tivesse passado o verão no iate do pai. Os meninos com quem Bia havia saído na Islândia eram branquinhos e de cabelo lambido, e, se tivessem barcos, seriam os caiaques que usavam para ir à geleira Snaefellsjökull. Ela discou o número de Juca, mas caiu na caixa postal.
— Oi, Juca — disse ela, na esperança de que sua voz não estivesse muito cantada. — É a Bia Chaddad. Eu, hum, eu só liguei para dizer oi, e, hum, eu tenho uma recomendação de uma filósofa para você. É a Ayn Rand. Ela é, tipo, supercomplexa, mas legível, dá uma conferida — Ela deixou seu número do celular e seu nick no Messenger, desligou e logo pensou em apagar a mensagem. Juca provavelmente tinha toneladas de meninas não esquisitas de Rosewood ligando para ele.
— Bia! — chamou sua mãe lá de baixo, da beirada da escada. — Venha jantar!
Ela jogou o celular na cama e desceu a escadaria lentamente. Seus ouvidos captaram um estranho bipe vindo da cozinha. Seria o... alarme do forno? Mas isso seria impossível. A cozinha deles era em estilo anos cinquenta retrô, e o fogão era um Magic Chef autêntico, de 1956. sua mãe raramente o usava, pois era tão velho que poderia atear fogo na casa. Mas para surpresa de Bia, tinha alguma coisa no forno, e o irmão e o pai estavam à mesa. Era a primeira vez, depois do final de semana, que a família toda estava reunida. Thiago tinha passado as últimas três noites na casa de vários meninos do lacrosse, e o pai, bem, ele estivera muito ocupado "dando aula". Um frango assado, uma tigela de purê de batatas e um prato de vagem ocupavam o meio da mesa. Todos os pratos e talheres combinavam e havia até jogos americanos. Bia ficou nervosa. Parecia muito normal... ainda mais quando se pensava que quem estava ali era a sua família. Alguma coisa tinha de estar errada. Alguém tinha morrido? M tinha contado tudo? Mas seus pais pareciam tranquilos. A mãe tirou uma assadeira de pães de dentro do forno — que, por um milagre, não estava em chamas — e o pai estava quieto, sentado, folheando o NewYork Times. Ele estava sempre lendo: à mesa, nos eventos esportivos de Thiago, e até mesmo enquanto dirigia. Bia virou-se para o pai, que ela pouco tinha visto desde a segunda-feira, no bar Victory.
— Oi, Geraldo — cumprimentou-o ela. O pai deu a Bia um sorriso sincero.
— Olá, Macaquinha. — Ele às vezes chamava Bia de Macaquinha. Sempre parecia que ele acabara de sair da cama: usava camiseta furada de uma loja barata, calção dos Philadelphia 76 ou uma calça lisa de pijama, e um velho chinelo, forrado de pele de carneiro. Aria achava que ele se parecia com um coala.
— E oi, Thiago! — cumprimentou Bia, alegremente o irmão, bagunçando o cabelo dele. Thiago se encolheu.
— Não encosta em mim! — Thiago. — Leandra mãe deles apontou para ele com um dos palitinhos que usava para fazer o coque em seu cabelo castanho. — Eu só estava brincando. — disse Thiago sorrindo, Bia se segurou para não dar uma resposta daquelas a Thiago, em vez disso, sentou-se, desdobrou o guardanapo florido bordado em seu colo e pegou um garfo com cabo de baquelita.
— O frango está com um cheiro ótimo — disse Bia e Leandra colocou batatas no prato de todos.
— É só uma dessas comidas prontas de rotisseria — disse Leandra.
— Desde quando você acha que frango cheira bem? — rosnou Thiago —Você não come frango! — Era verdade, Bia tinha se tornado vegetariana em sua segunda semana da viagem à Islândia, quando Hallbjorn, seu primeiro namorado, comprou um lanche de um vendedor ambulante que ela pensou ser cachorro-quente. Era uma delícia, mas, depois de comê-lo, ele contou a ela que era carne de papagaio-do-mar. Desde então, toda vez que tinha carne na frente dela, ela imaginava a carinha de um bebê papagaio-do-mar.
— Bem, ainda assim, eu como batatas. — Bia enfiou uma garfada fumegante na boca — E estas estão maravilhosas — Leandra franziu o cenho.
— São pré-cozidas, você sabe que eu não sei cozinhar — disse Leandra, Bia sabia que estava se esforçando demais, mas se fosse uma filha modelo em vez de uma sarcástica e reclamona, Geraldo ia se dar conta do que estava perdendo. Ela se virou para Geraldo novamente. Bia não queria odiar o pai. Havia toneladas de coisas boas nele sempre ouvia seus problemas, era inteligente, fazia brownies fique-boa-logo com calda quando ela ficava gripada. Bia havia tentado achar uma razão lógica, não romântica para o motivo pelo qual o lance da Meredith havia acontecido. Ela não queria achar que o pai amava outra pessoa, ou que ele estava tentando separar a família. Entretanto, era difícil não levar para o lado pessoal. Ao comer uma garfada cheia de vagem, o telefone de Leandra, que estava apoiado na bancada da cozinha, começou a tocar. Leandra olhou para Geraldo.
— Devo atender? — perguntou Leandra e Geraldo franziu a testa.
— Alguém ligando para você na hora do jantar? — perguntou Geraldo.
— Talvez seja o Oliver, da galeria — disse Leandra, de repente, Bia sentiu um nó na garganta, e se fosse M? O telefone tocou de novo. Bia se levantou.
— Eu atendo — disse Bia, Leandra limpou a boca e empurrou a própria cadeira.
— Não, eu atendo — disse Leandra
— Não — disse Bia e correu para a bancada, o telefone tocou a terceira vez. — Eu... hum... é... — Ela balançou os braços loucamente, tentando pensar, sem ideias, pegou o telefone e o arremessou para a sala de estar, ele derrapou pelo chão, freou no sofá e parou de tocar. O gato dos Montgomery, Polo, veio sorrateiro e deu uns tapinhas no celular com uma das patas listradas. Quando Bia virou-se de volta, sua família estava olhando para ela.
— O que deu em você? — perguntou Leandra.
— Eu só... — Bia estava encharcada em suor, e todo o seu corpo vibrava com as batidas do seu coração. Thiago cruzou as mãos atrás da cabeça.
— Doi-DINHA — falou ele.
Leandra passou por ela para ir até a sala e agachou-se para ver a tela do celular. Sua saia plissada roçou no chão, pegando poeira.
— Era o Oliver — diz Leandra, ao mesmo tempo, Geraldo se levantou.
— Eu tenho que ir.
— Ir? — A voz de Leandra estava engasgada — Mas nós começamos a comer agora — Geraldo levou seu prato vazio para a pia, ele sempre tinha sido o mais rápido do planeta a comer, mais rápido ainda que Thiago.
— Eu tenho coisas pra fazer no escritório. — disse Geraldo.
— Mas... — Leandra pôs as mãos em sua pequena cintura. Todos olharam, sem poder fazer nada, enquanto Geraldo desaparecia escada acima e voltava meio minuto depois vestindo calças cinza de pregas e uma camisa azul. Seu cabelo ainda estava completamente despenteado. Ele pegou sua maleta e as chaves.
— Vejo vocês daqui a pouco. — disse Geraldo.
— Você pode trazer suco de laranja? — gritou Leandra, mas Geraldo fechou a porta da frente sem responder. Um segundo depois, Thiago saiu correndo da cozinha, sem colocar o prato na pia. Ele pegou sua jaqueta e o taco de lacrosse, e calçou os tênis sem desamarrá-los. — Agora, aonde você vai? — perguntou Leandra.
— Treinar — respondeu Thiago rapidamente. Ele estava com a cabeça baixa e mordendo o lábio, como se estivesse tentando segurar o choro. Bia queria correr até o irmão, abraçá-lo e tentar pensar no que fazer naquela situação, mas congelou, como se estivesse grudada aos azulejos xadrez do chão da cozinha. Thiago bateu a porta, fazendo a casa toda tremer. Alguns segundos depois, Leandra ergueu seu olhos até Bia.
— Todos estão nos deixando.
— Não, não estão — corrigiu Bia, depressa.
A mãe voltou à mesa e encarou o resto de frango em seu prato. Depois de alguns segundos ponderando, colocou um guardanapo sobre ele e voltou-se para Bia.
— Você achou seu pai estranho? — perguntou Leandra, Bia sentiu a boca secar.
— Estranho como?
— Eu não sei. — Leandra passou o dedo na beirada do prato de porcelana — Parece que alguma coisa o está incomodando, talvez seja algo relacionado às aulas? Ele parece estar tão atarefado... — Bia sabia que ela ia dizer algo, mas as palavras pareciam presas em sua boca, como se ela precisasse de um desentupidor ou de um aspirador para sugá-las.
— Ele não me disse nada sobre isso — Leandra encarou-a.
— Você me falaria se ele tivesse dito, certo? — Bia inclinou a cabeça para baixo, fingindo que tinha alguma coisa nos olhos.
— Claro. — Leandra se levantou e tirou o resto das coisas da mesa, Bia ficou ali, sentindo-se inútil. Aquela era a sua chance... e ela estava ali, parada. Como um saco de batatas. Ela andou de volta ao seu quarto e sentou-se em frente ao computador, sem ter certeza do que fazer consigo mesma. Lá embaixo, podia ouvir a musiquinha do começo de Jeopardy!. Talvez ela devesse voltar pra lá e ficar com Leandra. Mas o que realmente queria fazer era chorar. O Messenger fez aquele som que lembrava o barulho de uma bexiga sendo estourada, o que indicava que havia uma mensagem instantânea nova. Bia foi verificar, pensando se seria, talvez, Juca. Mas... não era ;
Duas alternativas: fazer com que tudo isso desapareça ou contar à sua mãe. Eu te dou até a última badalada da meia-noite de sábado, Cinderela. Senão, você já sabe. — M
Um rangido a fez pular. Bia se virou e viu que o gato havia aberto a porta do quarto com o focinho. Ela o acariciou sem pensar em nada, lendo a mensagem de novo. E de novo. E de novo. Senão, você já sabe? E fazer com que tudo isso desapareça? Como ela poderia fazer isso? O computador fez outro bipe, a janela de mensagem instantânea piscou.
Não sabe como? Aqui vai uma dica: academia de Ioga Montanha dos Morangos. 7:30. Amanhã. Esteja lá.
Viviane parou a quinze centímetros do espelho do seu quarto, se auto-inspecionando de perto. Devia ter sido um reflexo esquisito no shopping, ali, ela parecia normal e magra. Embora... Os seus poros pareciam um pouco dilatados? Ela estava meio vesga? Nervosa, abriu a gaveta da cômoda e pegou um pacote gigante de batatas fritas sabor sal e pimenta-do-reino. Ela colocou um punhado de batatas na boca, mastigou, e depois parou. Na semana anterior, as mensagens misteriosas a haviam levado a esse ciclo horroroso de comer muito/se livrar de tudo mesmo ela tendo parado com esse hábito há muitos anos, não ia começar com aquilo de novo, ainda mais na frente do seu pai, ela fechou o pacote e olhou pela janela. Onde ele estaria? Haviam se passado quase duas horas desde que sua mãe a tinha chamado no shopping. Então, ela viu um Range Rover virar na entrada da sua casa — um caminho sinuoso de quatrocentos metros, cheio de árvores. O carro manobrou facilmente pelas curvas da entrada, de uma forma que só alguém que já tivesse morado lá conseguiria. Quando Viviane era mais nova, ela e o pai costumavam descer até o portão de carrinho de rolimã. Ele a ensinara a se inclinar nas curvas para não cair. Quando a campainha soou, ela pulou. Seu pinscher miniatura, Dot, começou a latir, então, a campainha tocou de novo. O latido de Dot ficou ainda mais agudo e enlouquecido, e a campainha tocou pela terceira vez.
— Já vou! — grunhiu Viviane.
— Ei — falou o pai, quando ela escancarou a porta. Dot começou a dar pulinhos em volta das pernas dele. — Olá, menino. — Ele se abaixou para pegar o cãozinho.
— Dot, não! — falou Viviane. — Não, deixa ele. — O sr. Cicero acariciou o nariz do pinscher miniatura. Viviane o havia comprado logo depois que o pai fora embora.
— Então. — O pai esperou na varanda, parecendo desconfortável. Ele vestia um terno de trabalho cinza-escuro e uma gravata cinza e vermelha. Ele parecia um executivo que tinha acabado se sair de uma reunião. Viviane imaginou se ele queria entrar. Ela achou estranho convidá-lo para entrar em sua própria casa. — Posso... — começou ele.
—Você gostaria de...? — disse Viviane, ao mesmo tempo. O pai riu de nervosismo. Viviane não tinha certeza se queria abraçá-lo. O pai deu um passo em direção a ela, e Viviane deu um passo para trás, batendo de encontro à porta. Ela tentou disfarçar, como se tivesse feito de propósito. — Vamos, entra logo. — A voz de Viviane soou perturbada. Eles pararam no vestíbulo. Viviane sentiu o olhar do pai sobre ela.
— É muito bom ver você — disse ele. Viviane deu de ombros. Ela queira ter um cigarro nas mãos, ou alguma coisa para fazer com elas.
O pai sempre fora um bom ouvinte, desde que soubesse que ela não diria coisas maldosas na cara das pessoas. O que fizera com ele, uns dias depois do acidente de Cristina, quando estavam indo de carro para a loja, era muito mais devastador. Ele tinha se virado para ela e dito, assim, do nada: "Espera aí. Aquela menina que ficou cega... ela é aquela que canta feito uma vaca, certo?" Ele olhou como se tivesse feito a ligação. Viviane, com muito medo de responder, fingiu um acesso de tosse e mudou de assunto. O pai levantou e dirigiu-se ao pequeno piano de cauda da sala. Ele levantou a tampa, e a poeira voou. Quando apertou uma tecla, saiu um sonzinho. — Eu imagino que sua mãe tenha contado que Isabel e eu vamos nos casar. O coração de Viviane bateu forte.
— Sim, ela disse algo a respeito.
— Nós estamos pensando em realizar a cerimônia no próximo verão, mas Kate não pode ir. Ela vai fazer um curso de verão na Espanha. Viviane se eriçou ao ouvir o nome de Kate. Pobrezinha da nenezinha, tem que ir pra Espanha. — Nós gostaríamos que você fosse ao casamento também — acrescentou o pai. Como ela não respondeu, ele continuou falando. — Se você puder. Eu sei que é um pouco esquisito. Se for, acho que deveríamos conversar a respeito. Eu prefiro que você fale comigo em vez de roubar carros. Viviane fungou. Como o pai se atreve a pensar que o fato de ela ter roubado um carro possa ter alguma coisa a ver com ele e seu estúpido casamento! Mas, aí, ela parou. Tinha a ver?
— Vou pensar no assunto — disse ela. Seu pai passou as mãos na beirada do piano.
—Vou ficar na Filadélfia o fim de semana todo, e fiz reserva para jantarmos no Le BecFin no próximo sábado.
— Mesmo? — gritou Viviane, sem perceber. Le Bec-Fin era um famoso restaurante francês, no centro da cidade, ao qual ela queria ir havia muito tempo.
As famílias de Milena e Marian costumavam arrastá-los para lá, e eles reclamavam. Era esnobe, o cardápio não era nem em inglês, e era cheio de velhinhas com casacos de pele horrorosos que, às vezes, ostentavam também a cabeça do animal. Mas, para Viviane, Le Bec-Fin soava totalmente charmoso.
— E reservei uma suíte para você no Four Seasons — continuou o pai. — Sei que você deveria estar de castigo, mas sua mãe disse que tudo bem.
— Mesmo? — Viviane bateu palmas. Ela adorava ficar em hotéis chiques.
— Tem piscina. — Ele sorriu, envergonhado. Viviane costumava ficar muito animada quando eles se hospedavam em hotéis com piscina. —Você poderia vir cedo no sábado, para dar uma nadada. De repente, Viviane ficou de queixo caído. Sábado era a... Foxy.
— Pode ser no domingo?
— Bem, não. Tem que ser sábado — disse Cicero e Viviane mordeu o lábio.
— Então eu não posso.
— Por quê?
— É só que... tem esse lance do baile. É tipo... importante. — disse Viviane. O pai cruzou os dedos das mãos.
— Sua mãe deixará você ir a um baile depois... depois do que você fez? Eu achei que você estivesse de castigo. — disse Cicero e Viviane estremeceu. — Eu comprei os ingressos há muito tempo. Foram caros. — Significaria muito pra mim se você fosse — sussurrou ele. — Eu adoraria passar o final de semana com você. Ele parecia realmente chateado. Parecia que ia chorar. Ela também queria passar o fim de semana com ele. Ele tinha se lembrado do seu chão de lava derretida, de como ela costumava falar do Le Bec-Fin e do quanto adorava hotéis luxuosos com piscina. Ela imaginou se ele também tinha esse tipo de brincadeira com Kate. Não queria que ele tivesse. Queria ser especial.
— Eu acho que posso deixar a festa para lá — respondeu ela afinal.
— Ótimo. — O pai voltou a sorrir.
— Pelo bem de Cornelius Maximilian — adicionou ela, lançando-lhe uma olhadela tímida. — Viviane observou o pai entrar no carro e seguir lentamente pela saída da garagem. Um sentimento cálido e eletrizante tomou conta dela. Estava tão feliz que nem pensou em pegar o saco de batatas fritas que havia jogado na despensa. Em vez disso, teve vontade de dançar pela casa. Quando ouviu o BlackBerry tocando no andar de cima, voltou à realidade. Ela tinha de fazer tanta coisa. Tinha de dizer ao Juca que não iria à Foxy. Tinha de ligar pra Janu, também. Precisava arranjar um vestido fabuloso pra usar no Le Bec-Fin, talvez aquele curtinho, com cinto, que ainda não tinha tido oportunidade de usar? Ela correu escada acima, desbloqueou a tela de seu celular e franziu as sobrancelhas. Era uma mensagem.
Quatro palavras simples: Viviane. Inhudes. Cegou. Jenna. O que o papai pensaria disso se soubesse? Eu estou de olho em você, Viviane, e é melhor você fazer o que eu digo. — M
No dia seguinte...
O Estúdio de ioga Montanhas de Morango ficava num celeiro adaptado, do outro lado de Rosewood. Na sua ida até lá, de bicicleta, Bia passou por uma ponte coberta, cor de tabaco, e pela fileira de casas do departamento de artes de Holli. Eram casinhas decrépitas, em estilo colonial, estavam salpicadas com tinta de vários tons de roxo, rosa e azul. Ela colocou a bicicleta no suporte, que já estava quase lotado, em frente ao estúdio de ioga; todas as bicicletas ostentavam adesivos nos quais se lia CARNE É ASSASSINATO e PETA colados em seus quadros. Ela parou no saguão de entrada do estúdio de ioga e olhou para as meninas desarrumadas, sem maquiagem, e para os meninos peludos e flexíveis. Ela seria louca de seguir as instruções de M, Estúdio de ioga Montanhas dos Morangos. Esteja lá literalmente? E estaria pronta pra ver Meredith? Talvez M a estivesse fazendo de isca. Talvez M estivesse ali. Bia tinha visto Meredith apenas três vezes: primeiro, quando Meredith foi ao coquetel de professores e alunos de seu pai; depois, quando pegou Meredith e o pai juntos no carro; e, finalmente, no outro dia, na Victory. Mas ela a reconheceria em qualquer lugar. Naquele exato momento, Meredith estava parada em frente ao armário do estúdio, arrastando colchões, cobertores, blocos e fitas. Seu cabelo castanho estava preso num rabo de cavalo bagunçado, e havia aquela teia de aranha tatuada do lado de dentro do pulso. Meredith notou a presença de Bia e sorriu.
— Você é nova, certo? — Ela olhou nos olhos de Bia e, por um terrível momento, Bia teve certeza de que Meredith sabia quem ela era. Mas aí ela desviou o olhar, debruçando-se para pegar um CD dentro de um aparelho de som portátil. O som de uma cítara indiana tomou conta do lugar. —Você já fez Ashtanga antes?
— Hum, sim — respondeu Bia. Ela notou uma grande placa na mesa, que dizia: AULA INDIVIDUAL US$15, e pegou uma nota de dez e uma de cinco, e as colocou em cima da mesa, pensando em como M poderia saber que Meredith estaria lá, e se M realmente estaria lá.
— E eu acho que você já conhece o segredo, hein? — Meredith sorriu.
— Co... como é? — sussurrou Bia, seu coração disparado — Segredo?
— Você trouxe seu próprio colchão. — Meredith apontou para o colchão vermelho debaixo do braço de Bia — Muitas pessoas usam os colchões do estúdio. Eu não digo nada, mas você pode raspar os fungos de pé dos nossos colchões e fazer queijo. Bia tentou sorrir. Ela tinha trazido seu próprio colchão para as aulas de ioga desde que tinha ido pela primeira vez a uma com a Marian, no sétimo ano. Marian dizia que você corria o risco de pegar uma DST nos colchões das comunidades de ioga. Meredith olhou para ela com mais atenção.
— Você é da minha turma de desenho? — Bia fez que não, percebendo, repentinamente, que o lugar cheirava a uma mistura de chulé e incenso. Este era o tipo de estúdio a que Leandra iria, de fato, talvez Leandra já tivesse ido — Qual é o seu nome?
— É... Marian — disse Bia depressa, ela não tinha o nome mais comum do mundo e ficou com medo de Geraldo já tê-lo mencionado para Meredith. Esse pensamento a fez parar. Será que Geraldo falava dela para Meredith?
— Você se parece com uma menina da minha turma de desenho — disse Meredith. — Mas as aulas mal começaram e eu confundo todo mundo — Bia pegou um panfleto do seminário "Conheça seus chacras".
— Então, você faz faculdade? Meredith confirmou
— Estou fazendo MBA.
— Qual é a sua, hum, área?
— Bem, eu faço todo tipo de coisa. Pintura, desenho. — Meredith olhou para alguém entrando atrás da Bia e acenou. — Mas, recentemente, comecei a trabalhar com marcação.
— O quê?
— Marcação. Eu soldo dois ferros de marcação, feitos sob encomenda para formar palavras, aí eu os aqueço e queimo as palavras em grandes blocos de madeira.
— Como se fossem marcas de gado? — Meredith abaixou a cabeça.
— Eu tento explicar isso, mas a maioria das pessoas acha que sou louca.
— Não — disse Bia, rapidamente — É muito legal — Meredith deu uma olhada no relógio da parede.
— Nós temos alguns minutos. Eu posso te mostrar umas fotos. — Ela pegou uma bolsa de pano listrada, que estava perto dela, e tirou seu telefone celular de dentro. —Vai olhando estão aqui... — As fotos eram de blocos de madeira clara. Alguns com apenas algumas letras e outros com coisas curtas escritas, tais como vem me pegar e manipulador. As letras tinham um formato um pouco estranho, mas ficavam muito legais queimadas na madeira. Bia mudou para a foto seguinte. Era um bloco mais longo que dizia: Errar é humano, mas parece divino. Bia olhou para cima e disse: — Mae West. Meredith pareceu animar-se: Uma das minhas frases favoritas.
— Uma das minhas também. — Bia devolveu o celular dela. — São muito legais. Meredith sorriu.
— Fico feliz que tenha gostado. Eu devo fazer uma exposição em alguns meses.
— Eu est... —Bia fechou a boca. Ela ia dizer: estou admirada. Ela não esperava que Meredith fosse assim. Quando Bia imaginava Meredith, apenas atributos ruins vinham a sua cabeça. A Meredith imaginária número um estudava história da arte e trabalhava em uma galeria abarrotada e sem graça, em algum lugar da Main Line, vendendo paisagens da Escola Hudson River para senhoras ricas. A Meredith imaginária número dois ouvia Kelly Clarkson, amava Laguna Beach e, se a incentivassem, levantaria a camiseta para ficar como uma das Garotas Selvagens. Bia nunca pensaria que ela fosse do campo das artes. Por que Geraldo precisaria de uma artista? Ele tinha Leandra. Quando Meredith cumprimentou outro aluno de ioga, Bia foi para a sala principal do estúdio, que tinha teto alto, deixando expostas as vigas de madeira do celeiro, tinha piso de madeira caramelo brilhante e grandes tecidos com estampas indianas pendurados por todo lado. A maioria das pessoas já tinha sentado em seus colchões e estava se deitando de costas. Estava estranhamente silencioso. Bia olhou em volta. Uma garota de rabo de cavalo e coxas grandes estava se dobrando para trás. Um cara esguio mudou da pose do cachorro para a pose da criança, respirando com dificuldade pelo nariz. No canto, uma garota fazia uma torção sentada. Quando ela olhou para a frente, seu queixo caiu.
— Milena? — perguntou Bia. Milena empalideceu e ajoelhou-se.
— Ah — disse ela — Bia. Oi. — Bia engoliu em seco.
— O que você está fazendo aqui? — perguntou Bia, Milena olhou para ela confusa.
— Ioga?
— Não, eu sei disso, mas... — Bia balançou a cabeça. — Quer dizer, alguém falou pra você vir aqui, ou...?
— Não... — Milena estreitou os olhos, como quem suspeitava de algo — Espera aí. a que você quer dizer? — Bia piscou. Imaginando Quem sou eu? Estou mais perto do que imagina. Ela olhou de Milena para Meredith, que estava conversando com alguém no saguão, depois de volta para Milena. Sua cabeça começou a funcionar, rodando. Alguma coisa naquela história estava muito, muito errada. Seu coração disparava enquanto ela saía da sala principal. Ela correu para a porta, trombando com um cara alto, barbudo, que usava um macacão. Do lado de fora, o mundo não estava nem aí para o seu pânico, os passarinhos cantavam, os pinheiros balançavam, uma mulher caminhava com um carrinho de bebê, falando ao celular. Quando Bia correu em direção ao suporte onde estava sua bicicleta e a destravou, sentiu a mão de alguém apertar seu braço com força. Meredith estava parada perto dela, lançando-lhe um olhar penetrante. Bia ficou boquiaberta. Ela engoliu em seco.
— Você não vai ficar? — perguntou Meredith. Bia fez que não com a cabeça.
— Eu... hum... emergência familiar. — Ela chacoalhou a bicicleta para soltá-la e pedalou em direção a sua casa.
— Espere! — gritou Meredith — Deixe-me devolver o seu dinheiro! — Mas Bia já estava na metade do quarteirão.
Fale com o autor