Pretty Little Liars
1 Capítulo 1 - COMO TUDO COMEÇOU
Notas iniciais
Milena soprou o ar através dos dentes, Viviane e Beatriz trocaram um olhar, Marian sempre vinha com uma novidade — no verão anterior, foi fumar sementes de dentes-de-leão para ver se eram alucinógenas, e, no último outono, tinham ido nadar no lago Pecks, apesar de terem achado um corpo lá uma vez — mas a verdade era que elas, muitas vezes, não queriam fazer as coisas a que Marian as obrigava, todas amavam Marian, mas algumas vezes também tinham ódio dela — por controlá-las de todas as formas em nome do feitiço que tinha espalhado sobre elas. Às vezes, na presença de Marian, não se sentiam exatamente verdadeiras, elas meio que se sentiam como bonecas, com Marian controlando cada movimento que faziam, cada uma delas já desejara, pelo menos uma vez, ter coragem de dizer não a Marian.
- Por favoooooooooooooor? — perguntou Marian, irritada. — Mili, você quer fazer isso, certo?
- Hum... — a voz de Milena tremeu. — Bem...
- Eu farei — intrometeu-se Viviane.
- Eu também — disse Patricia, rapidamente.
Beatriz e Milena concordaram com a cabeça, de má vontade, satisfeita, Marian apagou todas as luzes, com um movimento, e acendeu várias velas com perfume de baunilha, na mesinha de centro. Então, se afastou das meninas e sussurrou.
- Certo, pessoal, apenas relaxem — Marian cantarolou, e as meninas se arrumaram num círculo sobre o tapete. — Seus batimentos cardíacos estão mais lentos. Tenham pensamentos calmos. Eu vou contar de trás para a frente a partir de cem e, assim que eu tocar cada uma, vocês estarão sob meu poder.
- Assustador — diz Viviane rindo, e se sacudindo.
Marian começou ;
- Cem... noventa e nove... noventa e oito... Vinte e dois... Onze... Cinco... Quatro... Três...
Ela tocou a testa de Bia com a parte mais carnuda do polegar. Milena descruzou as pernas. Bia moveu o pé esquerdo.
- Dois... — Ela tocou Viviane vagarosamente, depois Patricia, e então caminhou em direção a Milena. — Um.
Os olhos de Milena se abriram de repente, antes que Marian pudesse alcançá-la, ela ficou em pé, num pulo, e correu para a janela.
- O que está fazendo? — sussurrou Marian — Você está estragando o clima.
- Está muito escuro aqui. — Milena alcançou a janela e abriu as cortinas.
- Não. — Marian relaxou os ombros. — Tem que estar escuro, é assim que funciona.
- Ah, vamos lá, não é assim. — A cortina prendeu e Milena deu um gemido junto com o puxão para soltá-la.
- Não. É assim — diz Marian.
Milena colocou as mãos nos quadris.
- Eu quero que fique mais claro. Talvez todo mundo queira — diz Milena.
Marian olhou para as outras. Elas ainda tinham os olhos fechados.
Milena não ia desistir.
- Não tem sempre que ser como você quer, sabe, Marian? — diz Milena.
Marian soltou uma risada aguda.
- Feche as cortinas! — ordenou Marian.
Milena revirou os olhos.
- Por Deus, tome um calmante — diz Milena.
- Você acha que eu deveria tomar um calmante? — perguntou Marian.
Milena e Marian se encararam por alguns momentos. Era uma daquelas brigas ridículas que podia ser sobre quem viu primeiro o novo vestido polo da Lacoste na Neiman Marcus, ou se as luzes cor de mel no cabelo de alguma menina eram ousadas demais, mas, na verdade, a briga tinha a ver mesmo com outra coisa. Algo muito maior.
Finalmente, Milena apontou para a porta.
- Saia — diz Milena.
- Está bem. — diz Marian, caminhou para fora.
- Que bom! — Mas, depois de alguns segundos, Milena foi atrás dela. O ar da noite azulada estava parado, e ainda não havia nenhuma luz acesa na casa principal, tudo estava quieto demais, até mesmo os grilos estavam calados, e Milena podia ouvir a própria respiração - Espere um segundo! — gritou ela, depois de um momento, batendo a porta atrás dela. — Marian!
Mas Marian havia partido.
Quando ouviu a porta bater, Bia abriu os olhos.
- Marian? — chamou ela. — Meninas? — não houve reposta.
Beatriz olhou ao redor, Viviane e Patricia estavam jogadas no carpete, e a porta estava aberta, Bia foi até a varanda, não havia ninguém lá, ela andou na ponta dos pés até os limites da pro-priedade de Marian, os bosques se espalhavam à frente, e tudo estava silencioso.
- Marian? — murmurou. Nada. — Mili?
Do lado de dentro, Vivi e Pata esfregavam os olhos.
- Eu tive o sonho mais estranho da minha vida — declarou Patricia. — Quer dizer, acho que foi um sonho, foi muito rápido, Marian caiu num poço muito fundo, e tinha umas plantas gigantes.
- Eu também tive esse sonho! — disse Viviane.
- Sério? — perguntou Patricia.
Vivi fez que sim com a cabeça.
- Bem, mais ou menos, havia uma planta gigante nele, e acho que vi Marian também, podia ser sua sombra... mas, definitivamente, era ela.
- Uau! — sussurrou Patricia, elas se encararam com os olhos arregalados.
- Meninas? — Bia voltara, estava muito pálida.
-Você está bem? — quis saber Patricia.
- Onde está Marian? — Bia franziu a testa. — E a Mili?
- Não sabemos — respondeu Viviane.
Bem nesse momento, Milena abriu a porta com violência e entrou de volta na casa, todas as meninas deram um pulo.
- O que foi? — perguntou Milena.
- Onde está a Marian? — sussurrou Viviane.
- Eu não sei. — Milena murmurou de volta. — Pensei... Eu não sei.
As meninas ficaram em silêncio, tudo o que podiam ouvir eram os galhos das árvores se movendo além das janelas, parecia o som de alguém raspando unhas longas contra um prato.
- Quero ir para casa — falou Patricia.
Na manhã seguinte, elas não tinham nenhuma notícia de Marian, as garotas se telefonaram para conversar, uma conversa a quatro desta vez, em vez de cinco.
- Vocês acham que ela está brava com a gente? — perguntou Viviane. — Ela estava estranha a noite toda.
- Provavelmente está na casa da Katy — cogitou Milena. Katy era uma das amigas de Marian, do time de hóquei sobre a grama.
- Ou talvez ela esteja com Janu... aquela garota do acampamento — propôs Bia.
- Eu tenho certeza de que ela está em algum lugar se divertindo — disse Patricia, calmamente.
Uma a uma, as meninas receberam ligações da sra. Gomes, perguntando se tinham notícias de Marian, no começo, todas as meninas deram cobertura a ela, era uma regra delas: tinham dado cobertura a Patricia quando ela perdeu a hora num fim de semana e não voltou para casa às onze da noite; tinham acobertado Milena quando ela pegou emprestado o casaco Ralph Lauren da Elisa e depois o esqueceu, acidentalmente, no banco do trem; e assim por diante. Mas quando cada uma desligava depois de falar com a sra. Gomes, um sentimento amargo crescia em seu estômago, alguma coisa parecia terrivelmente errada.
Naquela tarde, a sra. Gomes ligou novamente, desta vez em pânico. À noite, os Gomes chamaram a polícia, e na manhã seguinte, havia carros de polícia e vans das equipes da imprensa acampados no normalmente imaculado jardim dos Gomes. Era o sonho de qualquer noticiário local: uma garota rica e bonita, perdida numa das cidades de classe alta mais seguras do país.
Viviane telefonou para Patricia, depois de assistir às primeiras notícias sobre Marian.
- A polícia entrevistou você hoje? — perguntou Viviane
- Sim — sussurrou Patricia.
- Eu também dei entrevista, você não falou a eles sobre...- Ela fez uma pausa. — Sobre A Parada da Cristina, falou?
- Não! — ofegou Patricia. — Por quê? Você acha que eles sabem de alguma coisa?
- Eu... eles não poderiam! — sussurrou Viviane, depois de um segundo. — Nós somos as únicas que sabemos, nós quatro e... Marian.
A polícia interrogou as meninas, assim como praticamente todo mundo de Rosewood, do instrutor de ginástica de Marian no segundo ano ao cara que uma vez vendeu Marlboros a ela no Wawa. Era o verão antes do oitavo ano, e as meninas deveriam estar paquerando garotos mais velhos em festas à beira da piscina, comendo espiga de milho nos quintais umas das outras e fazendo compras o dia inteiro no Shopping Center King James. Em vez disso, estavam chorando sozinhas em suas camas de dossel, ou olhando para o nada, encarando as paredes cobertas de fotos. Milena entrou numa de arrumar o quarto, revendo sobre o que realmente havia sido sua briga com Marian e pensando no que poderia saber a respeito dela que nenhuma das outras sabia. Viviane passou horas no chão do quarto, escondendo pacotes de Cheetos vazios embaixo do colchão. Bia sentou-se em sua escrivaninha com Pigtunia, lentamente, as meninas começaram a telefonar umas para as outras com menos frequência, o mesmo pensamento assombrava as quatro, mas não havia nada mais a ser dito entre elas.
O verão acabou, e veio outro ano escolar, que foi seguido pelo começo de outro verão, e nada de Marian. A polícia continuou com as buscas, mas sem alarde, a mídia perdeu o interesse e se voltou para a obsessão que rondava um triplo homicídio ocorrido no centro da cidade, até mesmo os Gomes se mudaram de Rosewood, mais ou menos dois anos e meio depois que Marian desapareceu, no que diz respeito a Milena, Beatriz, Viviane e Patricia, algo nelas também mudou, agora, se elas passavam pela velha rua de Marian e davam uma olhada para a casa dela, não entravam mais no modo "choro instantâneo", em vez disso, começaram a sentir algo mais, alivio.
Claro, Marian era Marian, ela era o ombro onde chorar as mágoas, a única que você gostaria de ver ligando para o seu pretê para saber como ele se sentia sobre você, assim como também era dela a palavra final sobre se o seu novo jeans fazia sua bunda parecer maior, mas as meninas também tinham medo dela, Marian sabia mais sobre elas do que qualquer outra pessoa, incluindo as coisas ruins que queriam enterrar — como um corpo. Era horrível pensar que Marian podia estar morta, mas... se estava, pelo menos seus segredos estariam seguros.
E estavam, pelo menos, por três anos.
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