Pretending
8 Vergonha Alheia e Pizza Mais Uma Vez
Notas iniciais
Quando Lest saiu do banheiro, já enrolada na toalha após tomar banho, deparou-se com Kill cochilando na cama, sem camisa. Ok, talvez ela tivesse demorado um pouquinho demais no banho. A morena abriu sua mala e pegou uma muda de roupa (mais especificamente uma blusa azul e uma calça jeans qualquer). Voltou para o banheiro, vestiu-se e, mais uma vez, encarou o loiro dorminhoco. Foi impossível não sorrir com a cena. Killian dormia como uma criança, porém, por estar sem camisa, os músculos saltando de seus braços chamavam bastante atenção, fazendo um contraste muito engraçado.
Caminhou até o amigo e sentou-se na beira da cama, ao seu lado. Hesitou por um momento, mas não podia deixa-lo dormir pra sempre. Levou uma das mãos ao braço nu do loiro e o acariciou de leve, chamando seu nome. Ele acordou rápido, porém, meio atordoado. Lest explicou-lhe que ele devia tomar um banho – ou pelo menos trocar de roupa – para que descessem pro jantar. Ele obedeceu e, em pouco tempo, já tomara banho e estava pronto. Ás 8:26 eles desceram as escadas da casa, de mãos dadas.
O jantar só seria servido quando todos estivessem na sala, o que, obviamente, não era o caso. Meredith e Lois, pra variar, estavam atrasadas. O resto da família, porém, estava reunida na sala de estar conversando. Celeste apresentou Kill a todos que faltavam e se deu início, então, ao questionário com o mais novo casal da família.
– Como vocês se conheceram? – Perguntou Lizzie, empolgada.
– Essa é até uma história engraçada – Disse Kill, sorrindo com a lembrança – Bom, estava numa festa da faculdade e eu estava muito interessado em uma garota da minha classe, na época, mas não sabia como mostrar isso a ela. Até que uma amiga minha me disse que ela também estava interessada em mim e me instruiu da seguinte maneira: “Não precisa dizer nada, só chegue lá e a beije. Ela adora surpresas”.
– Enquanto isso – Emendou Lest – Eu estava na mesma festa, pedindo uma bebida no balcão, comentando com uma amiga que tinha uma garota exatamente com o mesmo vestido que eu.
– Acho que vocês já podem deduzir o que acabou acontecendo. Beijei a “garota errada”: A Lest. Irônico que a garota errada tenha tornado-se a certa anos depois – Ele disse, rindo um pouco.
– E, bom, como eu não estava esperando por aquilo e nem sequer conhecia o Killian, dei um tapa na cara do coitado. — Todos na sala riram
– E eu, quando vi que era outra garota, simplesmente fiquei paralisado, sem reação alguma.
– E eu fiquei tão chateada que nem sequer deixei que ele se explicasse. Dei meia volta e fui pra casa, morrendo de raiva.
– Isso é a sua cara — Comentou May.
– Não é? — O loiro comentou — A minha sorte foi que a amiga dela não a seguiu a tempo. Consegui para-la e explicar pra ela a situação. Ela achou engraçado e disse que não era pra eu me preocupar, que aquelas coisas aconteciam com todo mundo. Mas eu quis me desculpar direito com a pobre garota inocente que eu tinha beijado "sem motivo", então, após insistir bastante, consegui o nome da Lest.
– E no dia seguinte, qual não foi minha surpresa ao chegar em casa e encontrar um buquê de flores e um pequeno cartão, explicando-me o ocorrido?
– E aí, uns dia depois, nos esbarramos por acaso, indo pra mesma aula. Como vocês sabem, qualquer aluno é obrigado a fazer uma aula extra que não tenha a ver com seu curso. Ambos optamos pela aula de música, mas não conhecíamos nenhum outro colega. E, bem, já tínhamos um assunto pra quebrar o gelo.
– Em resumo: ele puxou conversa. Daí acabamos virando amigos.
– E como vocês começaram a namorar? — Dessa vez Tia Phoebe fez a pergunta.
– Ah, a amizade foi crescendo Tia Phoebs. Viramos melhores amigos e, com o tempo, passamos a nos ver como mais que isso. Começou a rolar um clima e, no meu último aniversário, ele ficou doente, bem no dia. Acabamos então marcando de nos ver no dia seguinte, pra comemorar, só os dois. Jantamos, ele me beijou e me pediu em namoro.
– Foi isso mesmo, Kill?
– Bom, mais ou menos... — Ele pegou a outra mão de Celeste e ficou bem de frente pra amiga. — Na verdade, eu sou louco por ela desde o primeiro dia, mas demorei um pouco pra perceber. Falha minha.
Lest deu um sorrisinho tímido e Tia Phoebes, sem noção como sempre, pediu:
– Dá um beijinho aí pra a gente ver! — Sendo imediatamente apoiada pela maioria. O falso-casal deu um selinho, mas isso só fez o pessoal reclamar mais.
– Não, tem que ser beijo de verdade!
– A gente teve que beijar na frente de todo mundo quando começamos o namoro, Lest! E quando ficamos noivos também! Você não vai escapar dessa! — Disse Jewel, animada (e vingativa!).
Tentaram protestar e alegar ser vergonhoso demais, mas foi em vão. Lest engoliu seco, olhando nos olhos do loiro em sua frente. Ele deu de ombros e sorriu de lado, como se dissesse "por mim tudo bem". Ela hesitou por um instante, mas depois pensou direito. Não é como se eles nunca tivessem se beijado antes, afinal. Não poderia ser tão ruim, só um pouco constrangedor, mas o que mais ela poderia fazer?
Um leve aceno de cabeça e ele entendeu o recado. Se aproximou devagar e delicadamente colou os lábios nos dela, roubando-lhe mais um beijo, anos depois do primeiro.
Ainda que por alguns segundos, Celeste esqueceu de onde estava e o motivo daquele beijo. Esqueceu do tempo, do falso namoro e da sua relação de amizade com o loiro. Ainda que por uma fração de segundo, sentiu que a língua que explorava sua boca delicadamente, quase como se pedisse passagem, era do cara lindo e gostoso que todas as outras mulheres enxergavam no Kill, não simplesmente de seu melhor amigo bobo.
Aquilo fez suas pernas tremerem e seu coração acelerar, mas ela conseguiu manter o controle. A medida que encerravam o beijo, os gritos e zoações da família iam ficando cada vez mais claros e altos em sua cabeça.
Estava de volta ao mundo real.
Kill a encarou e ela mordeu o lábio inferior, por reflexo. Ambos sorriram, meio sem graça.
– Quero uma foto com o casal 20! — Anunciou a noiva, posicionando-se ao lado de Lest.
– Eu também quero! — Disse Lizzie, pulando da cadeira animada e correndo em direção aos três.
Em menos de dois minutos a ruiva já havia tirado algumas "selfies" dos quatro, até Maybelle se oferecer para "tirar uma foto decente". Thorn logo chegou, abraçando Jewel por trás e sorrindo pra camera do celular. Lizzie então teve uma ideia: abriu o aplicativo do celular que mostrava uma vela na tela e posicionou-se entre os casais, sorrindo.
As fotos ficaram bem engraçadas, Lest tinha que admitir. Quando estavam olhando-as no celular (sempre com aqueles comentarios de "estou horrivel nessa" ou "naquela"), Lois e Meredith desceram as escadas, lançando-lhes um olhas de desprezo.
– E então, vamos jantar ou o que? — Perguntou Meri, impaciente como sempre.
Em pouco tempo, todos já haviam comido o suficiente e ainda haviam restado 4 pedaços de pizza. As pessoas logo começaram a espalhar-se pela casa, conversando e distraindo um ao outro. Com medo de que o amigo ficasse meio deslocado, Lest chamou-o para dar uma volta.
Começaram então a andar pela varanda, calmamente.
– Não saia da varanda — Avisou ao loiro — Os cães de guarda são soltos a partir das 7 e eles atacam qualquer um que não esteja na varanda, a não ser que seja o Johnny ou meu pai.
– Então ninguém chega depois das 7?
– Se chegar, vai ter que buzinar para abrirmos a porta, daí meu pai prende as duas feras — Ela deu de ombros.
– 15 cachorros e só dois são de guarda?
– É — Ela sorriu de lado e ele deu uma risadinha meio fofa.
– A cada minuto que passa, entendo menos sua família... — Ele olhou-a nos olhos — ... Mas gosto ainda mais dela. E desse lugar.
– To achando que você vai se mudar pra Austrália desse jeito — ela brincou.
– Nunca pensou nisso? Em vir morar aqui?
– Já. Quando eu era pequena, tinha certeza que me casaria com um Australiano e moraria numa casa como essa. Bom, talvez um pouco menor — Ambos sorriram — Mas não sei. Depois que eu e o Arwin terminamos, vir pra cá já não era tão legal quanto antes. E minha família só fazia me cobrar e dizer o quanto eu fui uma pessoa horrível e tinha partido o coração do menino. Essas coisas. Passei então a fugir desse lugar e essa vontade de morar aqui acabou sendo enterrada e esquecida.
– É uma pena — Disse o loiro — Como seu namorado, posso dizer que eu toparia numa boa casar e vir morar aqui com você.
– Engraçadinho — Ela o empurrou de leve e ele deu risada, encostando-se na pequena grade da varanda.
– Então, ainda tem alguém da sua família que não conheço e ainda vai aparecer?
– Bom, tem o Ward, mas ele não é exatamente da família. Quer dizer, é, mas... Ah, é complicado.
– Quem é Ward?
– Ward é... Como posso explicar? Quando a Phoebe e meu tio, pai da Jewel, se conheceram, ele não era o único que já havia sido casado. Ward é filho da Tia Phoebs.
– Sério?
– Sério. Ele virou tipo... Meio irmão de consideração das meninas. Mas nem sempre estava com a gente, já que os pais dele são separados. Teoricamente ele seria meu primo de consideração, mas o vejo mais como um amigo chato e meio afastado.
– Entendi.
– É. Ele e a Lizzie se odeiam, a propósito.
– O que? A Lizzie? — Perguntou, incrédulo.
– A própria.
– Tem alguém no mundo que ela odeie? É sério?
Celeste deu risada, mas Kill estava genuinamente surpreso. Desde que chegaram, Lizzie não havia sequer parado de sorrir uma só vez. Parecia impossível diminuir a alegria da ruiva, quem dirá despertar seu ódio.
– Estou falando sério. Também não faço a menor ideia de como ele conseguiu isso... Acho que foram as brincadeiras com o cabelo dela. Ele vivia fazendo aquelas piadinhas idiotas do tipo "tá de cabeça quente" e chamando-a de palito de fósforo. Essas coisas.
– Uau.
– Pois é, uau. Até hoje ele se desentendem. Jewel me disse que ele chega amanhã.
– Onde ele mora?
– Londres.
– Adoro Londres.
– Sempre quis conhecer — Comentou Lest.
– Um dia, quem sabe, a gente vai lá e eu te mostro a cidade. Só não é mais bonita que Paris.
– Desculpa, não sou tão viajada quanto você — Ela riu. — Mas quem sabe um dia ne...
Eles se encararam por um segundo ou dois, até que ela cruzou os braços.
– Kill, está frio e estou morrendo de sono. Acho que já vou dormir. E você devia fazer o mesmo.
– Claro, tem razão — Ele segurou a mão dela — Vamos?
– Vamos — Respondeu Lest, puxando-o em direção a porta de entrada. Deram boa noite a todos, alegando cansaço devido a viagem e subiram as escadas rumo ao quarto.
– É bom descansar mesmo — Ressaltara Jewel — Amanhã ás 8 temos a prova dos vestidos!
– Estarei pronta, não se preocupe — Lest gritou de volta, já chegando no segundo andar.
Já no quarto, Celeste pegara um velho colchonete que guardava enrolado debaixo da cama e estendera no chão, juntamente com algumas almofadas, um travesseiro e um cobertor para que Kill dormisse. A melhor cama improvisada na qual conseguiu pensar.
Não que isso significasse um mínimo de conforto, mas ela não dormiria na mesma cama que ele.
Na verdade, o maior problema da morena era outro: Não havia se preparado para dormir no mesmo quarto que o Killian. Achava que ele ficaria no de hóspedes, naturalmente, por isso trouxera apenas uma camisola. "Merda" pensou, mas não havia jeito. Disse a ele que se trocasse primeiro, dando a desculpa de que ainda precisava arrumar algumas coisas. Ele não demorou: Em menos de dez minutos já havia saído do banheiro, vestindo apenas um short de dormir. Mais uma vez, Celeste deixou-se levar pelo físico e esqueceu, por alguns segundos, de evitar sentir-se atraída pelo melhor amigo. Os músculos extremamente definidos do loiro falaram mais alto e ela teve que piscar os olhos repetidamente até acordar daquele devaneio.
– O que foi? — Ele perguntou, aparentemente inocente.
– Nada — Respondeu ela, talvez rápido demais — Vou me trocar.
– Estava admirando meus músculos foi? — Ele provocou, rindo. Ela atirou-lhe uma das almofadas.
– Em seus sonhos, só se for — Retrucou Lest, já voltando a si. Entrou no banheiro e, ao olhar-se no espelho, constatou que estava bem vermelha. "Tenho que parar com isso" Disse a si mesma. Arrumou-se e, meio tímida, saiu do banheiro.
Kill já estava deitado na cama improvisada, a cabeça de costas para a porta. Ela caminhou rápido até a cama, rezando pra que ele não virasse para olhá-la. Quando enfiou-se debaixo das cobertas e estava prestes a agradecer a Deus por ele aparentemente não tê-la viso, o loiro comentou:
– Gostei do modelito — E deu risada. Celeste sentiu o rosto queimar.
– Idiota. Boa noite — Disse, apagando a luz.
– Também gosto de você — Ela tinha certeza que ele sorria — Boa noite.
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