Pretending
19 Planejamento e Choro
Notas iniciais
Lest e Kill tomavam café e conversavam sobre besteiras quando Ward chegou. Vestia uma calça e uma camisa social, como no dia anterior. O blazer pendurado em um dos braços e o sapato chinelando nos pés.
– Kill, cara, preciso da sua ajuda.
O loiro encarou-o, encarou Lest e voltou a encará-lo. Ok, talvez as coisas não tivessem saído tão bem quanto Celeste dera a entender. Praticamente engoliu o último pedaço de sanduíche de vez e ficou de pé.
– Vou lá viu, meu amor? — Disse, beijando a bochecha da falsa namorada — Se for sair me avisa.
– Certo, mô — Respondeu, com um meio sorriso.
Diante disso, subiram as escadas rapidamente e Killian pôde notar que Ward estava extremamente nervoso, mas apenas o seguiu até o quarto.
– Certo, o que aconteceu? — Perguntou o loiro logo após bater a porta do cômodo.
– Em resumo, as coisas certas acabaram acontecendo do jeito errado, man.
Killian ergueu uma sobrancelha.
– Ta, e a versão não resumida seria...
– Bom... A gente transou ontem.
– Sim, essa parte eu sei, quero saber porque não ta tudo bem então.
– Espera, como assim "eu sei"?
– Lest me contou.
– O que? A Lest também sabe?!
– Achou mesmo que a Lizzie não fosse contar a ninguém?
– Do jeito que ela me odeia e que zoam a gente, achei sim! E ela ainda está no quarto, mal teve tempo de respirar, quem dirá contar pra alguém!
– Cara, você não sabe mesmo nada sobre mulheres...
– Levando em conta meu fracasso de hoje, acho que nem tenho como contestar.
– O que aconteceu finalmente? Quando a Lest me contou, achei que estivessem resolvidos. Ou quase.
– Acredite, eu também pensava assim. — Completou Ward, sentando-se na cama com uma postura abalada e o rosto amargurado. — Mas as coisas não saíram nem um pouco como planejado.
– Que merda aconteceu, Ward?
– Porra, eu não sei. Acho que foi tudo uma coincidência insana e confundi as coisas.
– Isso não me diz nada, cara. Conta a história desde o começo. Vocês dormiram juntos, e aí?
– "E aí" que ela tinha bebido um pouco demais. "E aí" que eu gosto dela, sempre gostei, porra! "E aí" que eu achei que tinha finalmente conseguido conquistá-la. "E aí" que eu estava enganado. Que merda, cara. Eu estava tão abobalhado, tão feliz por finalmente tê-la que me deixei levar. Não devia ter dormido com ela. Achei que ela também sentisse alguma coisa, mas aparentemente eu to sozinho nessa.
– De onde você tirou isso?
– Ela me disse, Kill. Hoje de manhã.
– Certo, calma, como exatamente ela fez isso?
– De manhã, assim que a Liz saiu do banho, ela me mandou vestir a roupa e disse que queria conversar. Então disse que não era pra eu ficar me achando, que ela havia me usado tanto quanto eu a usei, e que pra ela também havia sido só físico, sem sentimento. A merda é que ela não sabe que gosto dela, Killian.
– Então! — Exclamou o loiro, com uma expressão animada no rosto.
– Então o que?
– Cara, você tem razão, depois de hoje está provado que você não entende nada de mulheres. — Ele gargalhava e balançava a cabeça de um lado pro outro. — Você é muito, mas muito burro mesmo. Até uma anta iria se tocar.
Ward apertou os olhos.
– De que porra você está falando?
– Ela disse exatamente desse jeito?
– Praticamente.
– Com todos esses "também" e "tanto quanto"?
– O que isso tem a ver?
– Porra Ward, você é lerdo demais. — Ele ainda ria muito — Acorda, cara. Tenho 90% de certeza de que ela também gosta de você.
– O que?! Que lógica insanamente reversa é essa?
– Lógica feminina, cara. Tenho uma irmã dois anos mais velha, acredite, sei mais do que deveria sobre o universo das mulheres. Mas presta atenção aqui: o tempo todo ela teve a intenção de deixar claro que não foi passada pra trás, Ward. Ela fez questão de dizer isso porque ela achou que você tinha essa intenção. Óbvio que não foi só físico. Se fosse, ela teria dito algo mais do tipo "Queria deixar claro que foi só uma noite e tal, eu tava bêbada e tava a fim de te pegar".
– E não foi basicamente isso que ela disse? Só que com outras palavras?
– Esse é o problema. Essas "outras palavras" sempre tem algum significado pra as mulheres, Ward. Elas quase nunca empregam as palavras a toa. E eu aposto que ela gosta de você, só disse aquilo por medo de você ser um idiota que só queria dormir com ela. Na intenção de não deixar você achar que ela era uma menininha ingênua, ela tentou se colocar exatamente onde achou que você estava. O detalhe é que você não estava lá, mas onde ela queria estar.
– Pera, isso é sério?
– Eu ia fazer psicologia, cara. Entendo um pouco dessas coisas. Mas... Essa é uma das opções.
– Quais as outras?
– Bom, só acredito que possa ser uma outra, se não essa: ela ainda está é fase de negação. É uma merda.
– Como assim?
– Ela ainda não se tocou que gosta de você. Não caiu a ficha ainda, sacou?
– Está me dizendo que praticamente 15 anos, quase duas décadas de convivência, não foram suficientes pra ela perceber que gosta de mim, mesmo gostando? Do que ela precisa, um cara sapateando na frente dela com uma plaquinha "pense com carinho, você gosta do ward" no pescoço?
– Não, man. Na verdade, ela precisa de algo mais do tipo um Ward sapateando com uma plaquinha "eu te amo" no pescoço.
– Você não pode estar falando sério.
– Talvez não literalmente, mas algo tão explícito quanto. A boa notícia é que ela precisa disso nos dois casos.
– Então acho que é hora da fase dois. Se é que ainda da pra consertar essa merda toda.
– Da sim. — Disse o loiro, pegando um caderno que estava em cima da cômoda e uma caneta. — Ward, eu preciso que me diga o que sente pela Lizzie.
– Eu gosto dela.
– Certo, eu preciso de um pouco mais de especificidade.
– Tipo...
– Tipo... Tipo o mais meloso, piegas e gay possível. Quero que finja que isso aqui é uma daquela comédias românticas bem água com açucar. Daquelas que fazem as mulheres suspirarem e os caras querem vomitar.
– Eu... Sei la, man. Não sei fazer isso não.
– Vai tentando. Quando você se tocou?
– Que gostava dela?
– É.
– Eu meio que sou a fim da Lizzie desde sempre, pô. É meio estranho porque ela só me irritava, e achava que eu quem implicava com ela. — ele deu de ombros — Admito que fiquei mais calmo com o tempo, mas não resolveu muita coisa. É como se a gente brincasse de se provocar: sempre que eu baixava a guarda, ela vinha com tudo pra cima de mim. E quando ela dava uma trégua, eu acabava fazendo merda. Sendo que eu não tenho a menor idéia do porque a gente briga tanto.
– Nenhuma ideia? — Perguntou o loiro, fazendo algumas anotações no caderno.
– Sei lá. Eu era meio egoísta e orgulhoso pra caralho. Ela também, sempre teve um temperamento difícil. Acho que juntou tudo.
– Hm. Mas você não a odiava como ela pensava.
– Olha, a verdade é que eu tomei raiva dela por um tempo sim. Mas não era só raiva. Nunca era só raiva. Eu era imaturo pra porra, então eu odiava ela por me fazer gostar dela. Sem nem ter a intenção de fazer isso. Me dava um ódio que você não tem ideia. E eu jogava a culpa toda nela, então não da pra dizer que eu não a odiava. Só não do jeito que ela acha. E eu até tento entender o jeito dela, mas é impossível.
– Bom. E o que você gosta nela?
– Como assim "o que eu gosto nela"?
– Fisicamente, sei la.
– Tudo?
– Lembra do que te falei, Ward? Meloso. Quero você falando todas aquelas viadagens estilo Romeu e Julieta.
– Man, eu não sei fazer isso. Sei lá, o que você quer que eu diga, exatamente? Coisas tipo.. Os olhos? O sorriso?
– Isso, coisas assim.
– Ta, tem esses dois... A boca dela também, é bonita. O rosto dela no geral, parece uma das bonecas de porcelana da minha mãe. Ah, e o cabelo, claro.
– O que tem o cabelo?
– Sério? Man, eu sou louco por aquele cabelo desde moleque. Foi a primeira coisa que me chamou atenção na Lizzie. Mas não é só aparência. Eu gosto mesmo da ruivinha.
– Algo mais sobre ela que queria falar?
– Hmm. A risada dela, quando ela está com vergonha ou sem jeito. Ah, As vezes ela me olha de um jeito que me deixa viajando. E gosto do jeito como ela fala, parece uma criança de quatro anos. E... Fico sorrindo que nem um retardado mental perto dela. Todas as vezes que a gente conversou, sem brigar, a gente se provocou e pa, mas sabe quando você nem sente o tempo passar, de tão distraído que ta? Então. De algum jeito muito louco, ela me faz bem pra porra, Kill.
– Sei como é, sim. E muito bem — Killian assentiu com a cabeça, enquanto escrevia no caderno.
– É foda. Ou melhor, pra mim é foda. Pra você é muito mais fácil.
– Que? Não é não.
– Claro que é. A Lest já é sua namorada.
Ele hesitou por um segundo.
– Certo. Mas era bem foda antes disso.
Ward deu de ombros.
– Pelo menos você já resolveu sua vida. Foi homem o suficiente pra fazer alguma coisa ao invés de desperdiçar muito mais de dez anos.
Certo, não havia "muito mais de 10 anos", mas ainda assim Kill se sentia meio culpado em ouvir aquilo. Talvez porque Ward fosse legal demais pra ficar se colocando pra baixo baseado numa mentira. Ou talvez porque realmente devesse "ser homem o suficiente e fazer alguma coisa" em relação a Lest.
De um jeito ou de outro, tentou não demonstrar.
– Eu também demorei. E a gente era amigo, a coisas eram mais fáceis.
– Claro, você não fez merda que nem eu.
– Certo, nesse ponto não posso discordar. Eu soube me controlar.
– O que?
– O que o que?
– Como assim? Já passou por essa situação?
– Bom... Mais ou menos. Mas não dormi com a Lest. — Ele parou de repente — Quer dizer, não antes de ficarmos juntos mesmo.
– Como assim, man?
– Eu... É uma história meio complicada Ward, e esse não é o foco, certo? Acho que você já disse tudo, então me espere aqui. Vou buscar o ipod da Lest.
– Vai o que?
– Aguarde e confie. Não saia daí. — Disse o loiro, batendo a porta do quarto.
Enquanto isso, um andar abaixo, Lizzie entrava na cozinha, onde encontrou Lest terminando seu iogurte. A ruiva evitou encará-la e andou até a geladeira a passos largos.
– Liz.
– Sim?
– Certo, o que aconteceu?
– Pode ser um pouco mais específica?
– Quer mesmo que eu seja mais específica?
– Não sei, porque não ia querer?
Lest revirou os olhos.
– JEWEL, VEM AQUI NA COZINHA, AGORA! URSULA!
Jew apareceu na porta em questão de instantes, correndo. Era um código que fizeram quando eram pequenas. Cada uma delas era uma princesa: Lest era a Bella, Jew a Branca de Neve e Lizzie, obviamente, a Ariel. Quando algo dava errado com uma das três e precisavam reunir todas elas, gritavam o nome do vilão das respectivas histórias, Gaston, a Madrasta ou Ursula.
– O que houve? — Perguntou a noiva. Lizzie deu de ombros.
– Não fui eu quem chamou.
Jewel arqueou as sobrancelhas.
– Ah, droga, o que você fez, Lizzie?
– Nada.
– Conta logo como foi a conversa! O que você falou, finalmente?
– O óbvio, ué.
– Seu conceito de "óbvio" quanto a essa história é completamente diferente do nosso então vá direto ao ponto por favor — Pediu Lest.
– Eu disse a ele a verdade. Que era só físico. Que havia sido só uma noite e pra ele não achar que tinha se aproveitado de mim, pois eu tinha feito o mesmo com ele.
Lest enterrou o rosto nas mãos balançando a cabeça de um lado pro outro em uma mistura de desespero e desapontamento. Jew ficara boquiaberta por uns belos 15 segundos, até levar as duas mãos a boca, totalmente incrédula.
– Porra, Lizzie! — Exclamou Celeste, ainda revoltada.
– É a mais pura verdade, Lest. Não havia outra coisa a ser dita.
– Você nem sequer esperou ver como ele te trataria?!
– Não, era óbvio. Ele ia tirar uma com a minha cara. Talvez não de imediato, mas logo. Preferi ser mais rápida e resolver logo as coisas sem sair como a babaca da história.
Jewel finalmente se pronunciou, tirando as mãos da boca.
– Eu não acredito que você fez isso.
– Você é uma pessoa horrível, Elizabeth — Disse Lest, jogando o potinho do iogurte no lixo.
– O que? Por quê? Você fala como se eu tivesse partido o coração dele ou algo do tipo!
– Provavelmente foi EXATAMENTE o que você fez!
– Claro que não!
– Claro que sim! — Disseram as duas, em coro.
– Ele não liga! Nunca ligou! Só fiz o que era melhor pra todo mundo! — Liz estava gritando agora, vermelha de raiva.
– Você fez o melhor pra você porque estava com medo! — Exclamou Lest.
– Você não tinha COMO ter certeza de que ele não tinha se importado. — Atacou Jewel.
– TINHA SIM! Sou eu! Ele nunca se importou comigo, não ia ser diferente só por causa de ontem. E eu aposto que hoje, na despedida de solteiro do Thorn, ele vai agarrar alguma stripper e voltar pra casa com ela. Ele vai fazer merda como em todas a outras vezes. E quem fica aqui com cara de taxo e sofrendo sou eu! Então parem de falar como se soubessem como é, porque vocês não fazem ideia! Paren de insistir em algo que nunca vai dar certo e só vai me machucar, pelo amor de Deus! Eu não aguento mais! — Gritou e desabou em um dos bancos logo depois, curvando-se sob a mesa e caindo no choro.
Lest e Jew se entreolharam e se aproximaram da caçula, acariciando seus longos cabelos ruivos espalhados como um leque na superfície de vidro. Só então repararam Kill na porta da cozinha, imóvel, sem saber se entrava ou se ia embora. Celeste dirigiu-lhe um olhar de interrogação e ele moveu os lábios formando a palavra "ipod", sem deixar nenhum som sair de sua boca. Ela foi até ele e lhe entregou o aparelho, voltando para perto da prima em seguida. Jewel já falava docemente com a ruiva, tentando acalmá-la.
– Vamos dar uma volta de carro — sugeriu Lest — Respirar um pouco de ar puro e esfriar a cabeça. O que acham?
– Ótima ideia. — Concordou Jew. Lizzie apenas deu de ombros, engolindo o choro.
– Vou pegar as chaves e avisar ao Kill. — Disse, saindo da cozinha em seguida. O loiro a esperava ao lado da escada.
– Oi.
– Oi. — Respondeu ela, passando uma das mãos entre os fios castanhos. — Que confusão, hein?
– Nem me fale. Está tudo bem?
– Vamos dar um jeito. Você ouviu o que ela disse, não ouviu?
– Ouvi.
– Pois é. Espero que saiba o que está fazendo.
– Eu sei. Fica tranquila — Ele a envolveu com os braços fortes e beijou sua testa.
Ela o abraçou de volta e ficaram alí durante cerca de um minuto, calados.
– Kill?
– Oi?
– Não quero que me conte nada sobre Ward, os segredos que ele confiou a você ou qualquer coisa do tipo. — Ela o encarou — Mas, antes de eu passar a manhã inteira com a Lizzie dizendo coisas pra deixá-la melhor, tenho que saber se digo que ele não a merece ou se digo que ela se precipitou e entendeu tudo errado.
– Certo. E como posso ajudar nisso?
– Só me diz uma coisa — Ela o soltou e cruzou os braços — Ele se importa com ela de verdade, não se importa?
– Muito mais do que ela pensa, Lest. Confie em mim.
– Você sabe que confio — Ela beijou-lhe a bochecha — Não sei que horas volto, mas a gente se fala, certo?
– Certo. — Ele deu um meio sorriso — Boa sorte.
– Obrigada. Acho que vou precisar — Concluiu, subindo a escada para pegar a bolsa e as chaves.
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