Pretending
1 Convite e Pizza
Notas iniciais
Celeste mal bateu a porta de casa e descalçou o sapato de salto alto. "Essa coisa ainda vai me fazer ter os pés amputados."- Pensou, exagerada. Donny, seu cãozinho, logo apareceu, abanando o rabo e fazendo festa.
— Hey, Don — Ela cumprimentou, cansada. Prendeu os cabelos castanhos e ondulados num coque torcido, tirou o blazer e pegou o cachorro no colo, jogando-se na sua poltrona preferida logo depois. Don deitou-se em seu colo, feliz com a companhia da dona.
Lest permaneceu alí, morgada, curtindo a sensação de não fazer nada e respirar fundo durante alguns segundos. Parecia ter apertado a tecla "pause" no controle da sua vida.
Infelizmente, essa pausa nunca durava muito. Não demorou para que o som da campainha invadisse a sala de estar. Donny pulou de seu colo, latindo animado e Celeste bufou. Contou até dez, tentando manter a raiva sob controle, e levantou-se devagar. A campainha tornou a ser tocada.
— Já vai — Disse, no tom mais hostil que conseguia. Com sorte, a pessoa desistia e ia embora.
Não desistiu. Tocou a campainha mais uma vez, na verdade. O cansaço era tanto que ela nem se deu ao trabalho de checar o olho mágico. Apenas abriu a porta de vez, com sua melhor cara de "sim-você-está-incomodando-agora-saia-daqui".
Mas felizmente (ou não) era só o Killian, com um livro e uma embalagem de pizza em mãos.
— Ah. É você. — Disse, imediatamente dando as costas para o amigo e andando de volta para sua poltrona. O cãozinho pulou animadamente ao ver o loiro.
— A animação em pessoa, como sempre! — Ironizou ele, sorrindo para o pequeno cachorro em seguida. — Hey, Donny!
— Desculpa, Kill, mas sabe o quanto chego exausta. — Ela respondeu ao primeiro comentário.
— Sei sim. Ei, nem vai me dar meu beijo?
Celeste parou, de pé frente a sua poltrona verde-clara. Suspirou e revirou os olhos, dando meia volta em seguida.
— Você é insuportável – Disse, indo em direção ao loiro. Ele inclinou-se um pouco pro lado, oferecendo-lhe a bochecha.
Celeste levou uma das mãos ao queixo do rapaz, na tentativa de segurá-lo, enquanto aproximava os lábios de sua bochecha. Percebeu que falhou miseravelmente quando ele virou, na última hora, quase roubando-lhe um selinho.
— Idiota! – Ela deu-lhe um tapa no braço. Ele praticamente não o sentiu, mas fez cara de sofrimento. Donny latiu.
— O engraçado é que você ainda fica vermelha!
— Fico nada – Ela voltou a ir em direção a poltrona.
— Quase um tomate de tão vermelha. Mas e aí, como foi o trabalho hoje?
— Mhm — Balbuciou, jogada no móvel mais uma vez.
— Vou considerar isso como um "cansativo, Kill. E o seu?" Até que foi bom, Lest.
— Não sei de onde você arranja tanto bom humor. Depois de um dia inteiro de trabalho, chego simplesmente morta em casa.
—É, parece uma velha rabugenta. — Ele riu — Trouxe o livro que me pediu. E uma pizza.
— Velha o caramba. Mas obrigada pelo resto. — Disse, vendo-o pôr o livro na estante e sentindo Don deitar-se aos seus pés.
— Que resto? Rabugenta?
— Você entendeu, engraçadinho.
O loiro colocou a pizza na mesa de centro e tirou o casaco escuro, atirando-o em cima da amiga para perturbá-la. Celeste pegou-o a tempo, com um meio sorriso no rosto que, ele sabia, significava "idiota". Ele deu uma risadinha e começou a xeretar as coisas na estante.
— Ora ora, veja só o que temos aqui! — Ele pegou o envelope de grosso papel cor creme. – Convite de que?
— Nem me fale desse negócio — Respondeu ela, enterrando o rosto no casaco de Killian, que já abria o envelope.
— Opa, parece que alguém tem um casamento pra ir.... E na Austrália!
— É. Inferno — Celeste praguejou.
Ele deu risada.
— Ah, qual foi, você não me disse que tinha uma casa lá?
— E tenho. Quer dizer, a família tem. É tipo uma casa de praia.
— Exatamente. Onde costumavam passar o verão, certo?
— É, íamos quase sempre. Eu adorava.
— E porque não adora mais? — Perguntou o loiro, sentando-se no sofá.
— Continuo amando aquele lugar, Kill. O problema são as pessoas.
— Oh sim, suas “adoráveis” primas... — Ele sorriu. — Mas a que está casando não é a Jewel? Achei que tivesse dito que ela é uma das legais.
— Ela é. Esse é o problema.
Ele franziu o cenho.
— Como assim?
— A Jewel é uma das pessoas mais fofas que conheço e esse é, tipo, o dia mais importante da vida dela. Ela mandou passagens e o vestido de madrinha é por conta dela. Sim, serei madrinha, pra piorar ainda mais a situação. O pai dela é amigo do prefeito e fez ele conversar com meu chefe: ele me deu uma semana de folga. Em resumo: Nada de desculpas, eu vou ter que ir.
— Porra, que chato. Uma viagem paga pra um lugar paradisíaco e uma semana sem trabalhar. Realmente, Lest, quase uma tortura... – Ironizou.
Ela jogou uma almofada no amigo, que riu.
— Você não conhece minha família, é sério.
— Você mesma disse que tem duas primas que são incríveis.
— Sim, e duas demônias pra acompanhar.
— Qual foi, velha? Elas podem até ser chatas, mas vocês são adultas. Não vão roubar as bonecas uma da outra, sair puxando os cabelos ou seja lá o que garotas fazem quando brigam. É só evitar as duas cobras e pronto – Ele deu de ombros – Não entendo porque tanto estardalhaço. Você que é dramática.
— Tirou o dia pra me encher a paciência, né? – Celeste revirou os olhos – Vocês, homens, fazem tudo parecer tão simples... Quem dera fosse mesmo assim.
— Em que eu errei então? – Disse, pegando um pedaço de pizza e estendendo outro à amiga.
— Elas não são mulheres do tipo “mexa comigo e você vai se arrepender”. Quer dizer, a Lois até que sim, mas não a Meredith.
— Meredith. Todas as “Meredith”s que conheço são frescas.
— Bom, ela faz jus ao nome. Só que ela não é só fresca, Kill. E ela é o tipo de mulher que vai atrás de quem não gosta pra encher o saco. E demonstrar que é superior. Acho que o maior prazer dessa vadia é esfregar na cara dos outros que ela está muito acima deles. De qualquer um.
— Existem muitas mulheres assim. – O loiro deu de ombros mais uma vez.
— De acordo. Mas ela é cruel. Argh, não quero nem pensar. Isso sem falar nas tias indiscretas...
— “E os namoradinhos?”. Acertei?
Lest riu.
— É um pouco pior que isso.
— Como assim?
— Tirando a víbora, acho que essa é a pior parte. É que... O único namorado que apresentei pra família era nosso vizinho de porta e terminamos aos 16 anos. Não durou nem seis meses.
— Wow, sério?
— Sério. A Meredith vivia dando em cima dele, tenho certeza que rolou alguma coisa.
— Na verdade, o “wow” foi pro fato dele ter sido o único que você apresentou. Isso já tem tipo... praticamente dez anos.
— Ah, é. Depois disso eu nunca tive nada muito sério com ninguém. Você lembra a época da faculdade.
— Lembro. Os caras querendo casar contigo e você nem passava do quinto encontro.
— Exagerado. – Disse, abocanhando um pedaço de pizza em seguida.
— Estou falando sério!
— Aham, tá. – Disse, só pra fazê-lo ficar quieto — Como eu ia dizendo: Toda vez que tenho algum evento de família, ouço um enorme discurso sobre como tenho que arrumar alguém logo ou vou ficar pra titia e blá blá blá. Enquanto isso a Meredith ri da minha cara, com 20 homens lindos aos pés dela e sabendo que foi ela o motivo do meu primeiro término.
— Ela também não leva ninguém? – Perguntou o loiro, já avançando em direção ao seu segundo pedaço.
— Ela troca de namorado como troca de roupa, Kill. Quando não leva ninguém, acabou de terminar e está pensando em começar com outro.
— Uau.
— É. É um inferno. Por essas e outras odeio esses eventos, e sempre que dá arrumo uma desculpa pra não ir. Principalmente casamentos, em que 60% das conversas tem como tema “quem será a próxima”.
— Ta, talvez seja um pouco chato.
— Muito. E, dessa vez, não tenho escapatória.
— Que dia você vai?
— Depois de amanhã.
— Já?! E nem tinha me dito nada!
— Estava empurrando com a barriga. Quanto menos falo sobre o assunto, mais me esqueço da sua existência. Ia te contar amanhã.
— Hm. Ei, tá passando um filme massa de suspense no 38.
— Policial?
— Aham, to doido pra ver.
— Tá esperando o que? Liga logo a TV, cabeção.
— Calma rapaz, to ligando.
— Todo lerdo.
— Ta, já sei que você é louca por mim, não precisa disso não. – Disse o loiro.
— Besta – retrucou ela, encerrando a conversa para prestar atenção no filme.
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