Pretending
23 23. Surpresa
Notas iniciais
HARRY
Após as malas serem deixadas de qualquer forma na sala, Harry saiu em disparada para o banheiro. Ele permaneceu num banho relaxante por alguns longos minutos, esperando aliviar todo estresse de uma viagem de volta pra casa. Aquelas duas semanas foram incrivelmente longas, mas foi bom pra que ele pensasse a respeito de sua vida e tomasse algumas decisões – e a primeira delas seria imediatamente posta em prática, por isso ele estava com pressa.
Naquele tempo ele pensou que definitivamente era um cara de muita sorte. Amava sua vida e seu trabalho, tudo isso compensava os milhares de fofocas e rumores que surgiam. E outra conclusão foi a respeito de Isabella – essa viagem o fez perceber o quanto ela realmente era importante pra ele. Harry estava com um sorriso bobo e completamente apaixonado por aquela garota de olhos verdes cinzentos expressivos.
Ele foi terminando de se enxugar e observando o closet. Não havia muitas opções, já estava noite e seu celular tocava em algum lugar no quarto. Ele pegou uma calça jeans limpa, uma camiseta e um suéter preto, e os vestiu rapidamente. E calçou seu novo par de All Star brancos.
Quando encontrou seu celular, havia uma chamada perdida e uma nova mensagem. Era do seu amigo Nick que o perguntava se ele já estava em Londres porque havia uma inauguração de boate que seria uma boa ideia para eles saírem. E realmente seria uma boa sugestão se Harry não tivesse outra ideia melhor.
Ele sorriu para o espelho, arrumou o cabelo pro lado e passou seu perfume. Estava se sentindo ótimo depois de dormir a viagem toda de volta da Irlanda. Harry se sentia capaz de atravessar dez vezes o Rio Tamisa nadando; mas ele guardaria essa energia por um pouco mais de tempo.
Harry pegou as chaves do seu Range Rover e interfonou para o porteiro de seu condomínio.
– Hey, cara! Só quero confirmar se já está tudo certo para aquilo que lhe pedi. – Harry disse.
– Sim, senhor. Tudo foi preparado como pedido. Se quiser se certificar, é só ir até lá! – O porteiro respondeu.
– Confio em você. Hora de agir! Muito obrigado! – Harry falou e desligou.
Ele estava prestes a trancar a porta quando se lembrou de que estava deixando algo muito importante: o seu presente. Harry correu de volta até seu quarto e revirou uma mala até que o encontrasse. Colocou o embrulho pequeno no bolso e saiu disparado em direção à garagem.
Era muito bom estar de volta em casa.
Ele ligou o carro dando partida ao som de The Beatles. A empolgação era tanta que ele se balançava freneticamente cantando I Saw Her Standing There. Harry tomou cuidado para não causar nenhuma tragédia por estar mais ligado a musica do que ao trânsito. Enquanto ele passava pelas ruas e avenidas iluminadas da noite Londrina, percebeu que tudo parecia mais resplandecente, como se as cores brilhassem com mais intensidade, como se as pessoas estivessem mais felizes. O rapaz de covinhas estava com um ótimo humor.
Minutos depois seu carro adentrava a rua calma do prédio em que Isabella morava. Ele estacionou no acostamento e saiu do carro dando um sorriso largo para o porteiro, um homem simpático de meia-idade com alguns fios grisalhos em sua vasta cabeleira.
– Visita para a senhorita Isabella? – o porteiro Franklin.
– Sim, senhor – Harry disse. – Poderia me deixar subir sem anunciar? Quero fazer uma surpresa.
– A senhorita proibiu que qualquer pessoa subisse sem aviso prévio, senhor. – O homem respondeu com um olhar pesaroso.
– Papai! – Uma garotinha morena chamou a alguns metros de distância, ela parecia estar saindo do elevador. – Pai, aqui está o jantar que a mamãe mandou! – a menina veio com passos apressados.
Até que se aproximou o suficiente e gritou. Harry ficou assustado.
– O que foi, Louise? – o porteiro perguntou pegando uma sacola das mãos da garota e colocando em cima do balcão.
Louise... Talvez fosse a versão feminina do nome de Louis. Gritos quase similares, Harry pensou. Concluiu que a menina não tinha mais que dez anos de idade.
– Pai, esse é o Harry Styles? – a menina sussurrou com os olhos arregalados de incredulidade.
O porteiro ficou com uma cara de interrogação. Harry pensou que o Franklin não o conhecia, o que era natural.
– Hum, sim, sou eu. – Harry respondeu sorrindo.
A menina se escondeu atrás do pai.
– Você o conhece de onde, minha filha?
– Ele é da One Direction. Você veio visitar sua namorada? – a menina perguntou.
– One Direction? Aqueles meninos da televisão? – o porteiro perguntou e a menina assentiu.
– Eu vim visitar minha, ahm, namorada. Posso subir agora? – Harry pediu. – Por favor, não estrague a minha surpresa.
– Deixa ele subir, papai. Harry é um bom menino. – Louise falou.
Harry se abaixou dando um rápido e apertado abraço na garotinha, agradecendo.
– Pode ir, garoto. – Franklin disse.
Ele agradeceu novamente e correu pra o elevador, impaciente. Harry queria de alguma forma ajudar o elevador a subir mais alto, ele quicava na ponta dos pés. Aquilo era ansiedade. Saudade. E mais um monte de coisas.
Harry saiu do elevador com passos apressados, parou em frente à porta de Isabella, respirou fundo e apertou a campainha. Alguém gritou alguma coisa lá dentro e minutos depois, ela abriu a porta.
Isabella sorria radiante. Estava linda, mais linda que o normal. Seus olhos expressivos cintilavam mais a cada piscada. Seu rosto ganhou um leve rubor e ela parou de respirar por alguns instantes. Seu cabelo castanho refletia um tom acobreado sob as luzes fluorescentes e estava ligeiramente bagunçado em ondas irregulares. Umas mechas mais curtas da frente escapavam sobre seus ombros enquanto o resto estava preso num coque caído. Ela vestia shorts e uma camiseta larga.
Sem trocar nenhuma palavra, Harry se aproximou num abraço apertadamente longo. Sem perceber eles giravam suavemente numa dança sem música. Era tão bom sentir o perfume dela novamente, sentir o calor do seu corpo próximo ao dele, ver o sorriso dela de perto. Harry procurou os lábios dela e os beijou. Um beijo longo, apaixonado. Ele voltou a se sentir vivo novamente, mais que bem. Toda aquela ansiedade incontida se desfez naquele momento.
– Você demorou demais – Isabella confessou enquanto recuperava o fôlego.
– Voltei o mais rápido que pude – Harry respondeu segurando o rosto dela com suas mãos.
Ela sorriu fechando os olhos e Harry a beijou novamente.
Talvez não existisse uma cota de beijos necessários para matar toda saudade de uma vez.
– Vai ficar aqui hoje? – Isabella perguntou passando a mão no cabelo dele.
– Não. – Ele respondeu. O sorriso dela desmoronou. – Vim te buscar pra gente sair. – Harry disse sorrindo.
– Você me assustou. – ela riu, empurrando o peito de Harry levemente. – Hm, vai ter que esperar eu me arrumar. Você poderia ter avisado antes... Pensando bem, o avisei o Franklin pra não deixar ninguém subir! O que você fez com ele?
– Sou totalmente culpado.
– Eu te perdoo. – Ela disse sorrindo. – Mas a onde nós vamos? Tenho que escolher uma roupa. E tomar um banho...
– Faz assim, você vai tomar seu banho enquanto eu escolho a sua roupa.
– Você quer escolher a minha roupa?! – Isabella perguntou assustada.
– Algum problema?
Eles riram e foram na direção do quarto. Isabella pegou sua toalha e fechou a porta na cara de Harry quando ele insinuou que entraria no banheiro junto com ela.
Harry soltou uma gargalhada baixa e entrou no quarto de Isabella. Foi aí que ele se deu conta de que nunca havia estado lá antes.
Observou as paredes de um tom de verde claro, um quadro pendurado com uma foto de um casal que ele não conhecia – mas logo concluiu que eram seus pais, eles tinham alguma coisa que lembrava a garota – um mural grande com várias fotos pequenas de pessoas, e a única que ele reconheceu foi Thalia. Ele esperava ver algum pôster da One Direction na parede, mas não havia nenhum.
Uma cama de casal, um guarda-roupa grande, uma mesinha ao lado da cama, uma poltrona perto da janela e só. Não era muito grande, mas era arrumado, e tinha o cheiro dela ali dentro. Harry sorriu e foi em direção ao guarda-roupa.
Abriu uma porta e umas gavetas, procurando o que seria mais adequado. Descartou a possibilidade de camiseta e short porque ela certamente sentiria frio, então pegou uma jaqueta de lã fofinha, uma blusa de algodão vermelha... e até que encontrou uma calça de brim cinza que era macia. Aquilo parecia estar bom.
Ele abriu outra porta do guarda-roupa e pegou um susto quando viu cinco rostos sorridentes o encarando encantadoramente. Ali estava o pôster. Mais casacos e blusas penduradas e bem no fundo mais um monte de papel dobrado em cima de uns lençóis de cama. Ele se atreveu a abrir, mas aquele pôster era grande demais, então resolveu fechá-lo e colocá-lo onde estava.
Pelo menos agora ele estava mais contente em descobrir aqueles pôsteres, mas pensou no porque deles estarem escondidos. Será que ela estava cansada de acordar e se deparar com aqueles sorrisos congelados? Harry pensou na possibilidade. Ele provavelmente enjoaria também.
O garoto espalhou as peças escolhidas sobre a cama e ficou ali sentado, admirando as coisas. E pensando em como aquilo estava sendo estranhamente legal. E normal. Ali estava Harry, esperando a garota mais incrível do mundo se arrumar para sair com ele. Mas aquela noite não seria como as outras, esta ficaria eternamente na mente deles.
– Voltei. – Isabella anunciou enrolada na toalha. Aquilo era uma tentação das grandes.
– Escolhi isso aqui – Harry apontou para as roupas – Espero que não esteja tão ruim.
– Blusa vermelha, calça cinza, casaco preto. Meio rock ‘n’ roll. Ficou legal! – Isabella disse. – Ainda adianta perguntar pra onde nós estamos indo?
– Não. Olha, se você está com vergonha de sair com essas roupas aí, eu te deixo escolher outras! – Harry meio que riu.
– Okay, vai lá pra sala que eu me visto num piscar de olhos.
– Por que você quer que eu saia?
– É mais fácil de se concentrar em fazer as coisas certas sem você aqui. – Isabella disse com um sorriso no canto dos lábios.
Harry se levantou e Isabella se aproximou para um selinho.
– Depois quero saber por que os pôsteres estão dentro do guarda-roupa. – Harry riu.
– Eu não acredito que você estava mexendo nisso! – Isabella disse o empurrando pra fora do quarto.
Harry se jogou no sofá sorrindo como um idiota. O embrulho em seu bolso pareceu mais pesado, mas ele tinha certeza que estava fazendo a coisa certa. Ele não acreditava que poderia estar mais feliz do que como se sentia naquele momento... Harry se sentia naqueles filmes de romance clichê em que os céticos dormem nos primeiros minutos – mesmo que achasse que o papel de mocinho não lhe cairia bem – mas da forma boba e apaixonada em que ele sorria só por estar com sua garota, ele poderia ser muito bem um deles.
E riu de si mesmo. Harry era um cara muito intenso – seus relacionamentos quase sempre eram conturbados, e ele não tinha medo – era tudo de corpo e alma. Tudo bem, alguns foi mais corpo do que alma. Mas nada daquela forma como ele estava se sentindo com Isabella – era como se já a conhecesse há anos, mas de alguma forma ela sempre o surpreendia. Sempre parecia mais bonita a cada vez que se encontravam, por dentro e por fora.
– Até que não ficou tão ruim – a voz de Isabella surgiu, aproximando-se de Harry. – O que você acha? – ela parou na frente dele.
Harry se levantou do sofá num pulo. Ela estava lá com as roupas que ele escolhera e mais uma sapatilha; com o cabelo solto caindo sobre os ombros e com os lábios se fechando num sorriso ligeiro.
– Maravilhosa. – ele disse.
Isabella sorriu desviando o olhar dele, envergonhada.
– Acho que podemos ir. Não aguento mais ficar nessa expectativa!
– Então vamos lá para a super surpresa de Harry! Como foi mesmo que você me chamou naquele dia?
– Eduardo? – Isabella perguntou.
Ela apagou as luzes e eles saíram trancando a porta.
– É a versão brasileira de Edward? – Harry perguntou.
– Hmm, não só brasileira, mas a latina. Acho que é isso... – Isabella respondeu enquanto eles chegavam ao elevador.
– Você é nerd às vezes, é engraçado.
– Eu só respondi a pergunta. Assim como faço todas as vezes! E isso nem é grande coisa, Harry. Não vou mais falar sobre nada brasileiro pra você, pronto.
– Não! Eu gosto de ouvir! – ele disse. – É como se você tivesse vindo de outro planeta.
– Você tá me chamando de alienígena?
– Até combina com todo aquele verde da bandeira do Brasil.
– Muito obrigada, senhor puramente britânico. – Isabella fingiu irritação. Harry percebeu que ela franziu os lábios tentando não rir.
– Agora vai ser minha alien. – Harry provocou roubando um selinho.
– Hum, vou pensar num apelido pra você. Bem pior que alien. – Isabella deu um meio-sorriso e devolveu o beijo.
– Faltou o “minha”. O completo é “minha alien”.
Eles riram e se beijaram novamente enquanto a porta do elevador se abria revelando o saguão iluminado e alguns metros à frente estava o porteiro. Harry e Isabella caminharam em silêncio e cumprimentaram Franklin antes que passassem pelo portão da calçada.
Harry percebeu que Isabella parou procurando o carro. Ela levou alguns segundos a mais até processar que Harry destravou o Range Rover e abriu a porta do carona para ela.
– Obrigada. – Isabella agradeceu.
Harry entrou no carro e deu partida em direção à sua surpresa. Ele estava um pouco nervoso também, mas estava muito feliz. E dava pra ver nos olhos dela que Isabella também estava feliz. Eles conversaram durante a viagem toda, Harry contou as coisas que haviam acontecido durante aquelas semanas de viagem e eles riam daquelas loucuras de fãs e deles mesmos. Isabella falou que sua vida continuava a mesma coisa – ela sempre dizia que era quase tudo um tédio perto da vida de Harry – faculdade, trabalhos, casa, comer, dormir e isso novamente. Tirando algumas exceções. Mas ele sabia que tudo aquilo era exagero de Isabella.
Ele às vezes sentia falta daquela regularidade da rotina. Era tudo muito normal, mas o normal de Harry era outro ritmo bem diferente.
Até que ele parou o carro em frente do seu condomínio. E com uma buzinada o portão da garagem se abriu.
– Você fez esse mistério todo pra me trazer pra sua casa? – Isabella perguntou incrédula.
– Ah, não se decepcione antes do tempo. Você mal espera pra ver!
Harry deu uma piscadela e sorriu. Isabella riu dele e parecia mais aliviada por não estar indo a um local público.
E era isso que Harry queria – um lugar só para eles. E como aquilo era um pouco complicado em Londres numa noite perfeitamente agradável, Harry resolveu que era melhor aproveitar seu território. Harry saiu do carro e foi abrir a porta de Isabella. Eles trocaram um sorriso e um beijo.
E naquela noite ele queria esquecer-se de todo resto e aproveitar cada instante com ela.
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