Notas iniciais
Boa leitura!

Não sabia há quanto tempo andava, mas podia estimar pela ardência em seus pés — as sandálias de couro sempre eram incômodas depois de talvez três ou quatro quilômetros de caminhada. Milo odiava aqueles calçados. Detestava como a areia entrava facilmente pelos dedos e também o atrito e a tensão que eles impunham. No entanto, entre queimar os pés no asfalto e ter que enfrentar um par de bolhas nos calcanhares e nos mindinhos, ficaria com a última opção.

Mirou o céu sem nuvens com um suspiro.

Para seu desespero, a estrada seguia plana e sem perspectiva de fim. Era uma via de mão única (qual a direção certa?) ladeada por uma vegetação crescida, sem paragens ou sinalização. Não havia movimentação de qualquer espécie; ele sequer podia se lembrar de ter visto um carro passar por ali.

Bem, não era como se Milo pudesse confiar em sua memória.

Há pouco mais de meia-hora, ele havia acordado na beira da rodovia, a cabeça vazia de lembranças recentes deitada sobre uma poça sangrenta. Uma de suas têmporas doía e latejava como se seu coração tivesse se instalado ali, e ele mal podia racionalizar como viera parar naquele lugar, daquele jeito.

Passado o susto de despertar numa estrada deserta e com um corte profundo no crânio — quando deveria estar em meio a uma luta -, respirou fundo e tentou colocar os pensamentos em ordem. Examinou seu corpo em busca de outros ferimentos e verificou, com alívio, que as manchas vermelhas em suas roupas de treino tinham a mesma origem que o leito ensanguentado. Já a armadura de Escorpião — onde estava?

Deparou-se com a possibilidade de ter sido derrotado e roubado. Os inimigos teriam pensado que estivesse morto e, não satisfeitos, afanaram a sagrada armadura de Escorpião, somente para abandoná-lo...ali? Milo tinha certeza de que duelavam em outro cenário, só não sabia qual.

Então, se pôs a vagar pelo acostamento em busca de respostas. O problema é que, muitos minutos de avanço depois, não via mudanças na paisagem. Continuavam os mesmos arbustos rasos, a grama alta e o caminho retilíneo, e sua sombra no asfalto não havia se movido um único centímetro; como se estivesse, na verdade, andando em círculos e parado no tempo. Não fazia o menor sentido e tornava tudo ainda mais desesperador.

Seja pragmático – repetia para si mesmo, numa tentativa de manter-se guiado pela razão e não pelo medo. Instintivamente tocou o machucado no couro cabeludo e o sangue seco esfarelou-se em seus dedos. Já não sentia mais nada ali.

Foi quando escutou um ronco ao longe, constante e crescente, como o de um motor velho. Vinha em sua direção aquele som abençoado, e Milo saltou para o meio da estrada, acenando os braços exasperadamente, ao encontro dos contornos vagos de um ônibus que se concretizava no horizonte.

Gritou o mais alto que pôde para que ele parasse, porém, à medida que o veículo se aproximava em velocidade sustentada, se viu obrigado a atirar seu corpo no acostamento para evitar um atropelamento fatal. Só houve tempo de ler o destino estampado no letreiro do ônibus: Lethe. Onde diabos era Lethe?

Estava ainda se recuperando da acrobacia com que se esquivara da colisão, quando o carro emitiu um chiado típico de freada; um pouco tarde, na opinião indignada de Milo. O ônibus de um andar, amarelo e algo antiquado, como os antigos ônibus escolares, havia parado com o motor ligado. Para deixar tudo mais confuso, o cavaleiro de Escorpião viu as portas dianteiras abrirem-se para si. Sim, só podia ser para si, porque não havia nenhuma outra alma ali, naquele fim de mundo.

Milo aproximou-se com desconfiança do veículo que rosnava feito um felino e viu que um homem gordo e uniformizado o esperava no volante. Ele olhou para trás, para onde o loiro vinha praticamente rastejando, e o apressou com um gesto.

– Você estava indo na direção errada — o motorista criticou, aborrecido — Já tem bilhete?

O grego, diante das escadas, respirou fundo — Olhe, eu estou pedindo para você parar há horas e você quase passou com essa lata velha por cima de mim!

– Tem bilhete? — somente repetiu o motorista, estalando os dedos com impaciência.

– Espere um minuto! Aonde vai esse ônibus? Onde fica Lethe?

– Não sou balcão de informações, rapaz. Bilhete, por favor. Não temos tempo.

– Não tenho bilhete, oras.

– Não tem? Procura no seu bolso! Só passo aqui uma vez por dia, hein?

Ultrajado, o grego tateou os bolsos à procura de qualquer coisa que pudesse servir como pagamento e encontrou no fundo deles algo pesado. Perplexo, tirou de lá uma moeda cunhada em ouro, como jamais antes vira em sua humilde vida de cavaleiro de Atena.

– Aqui está! — o homem gordo apanhou a moeda de sua mão sem que pudesse protestar — Essas belezinhas estão sempre bem escondidas. Já se foi o tempo em que a gente fazia os passageiros cuspirem o bilhete.

E com uma risadinha que mais parecia um guincho, liberou a catraca para que o loiro pudesse entrar. Milo deslocou-se atordoado pelo corredor surpreendentemente longo e recheado com bancos duplos, tentando esconder com os braços as manchas de sangue em suas roupas. Foi aí que notou, com susto, que elas haviam sumido. Depressa, escolheu um dos vários assentos vazios — o único ocupado sustentava um outro homem que cochilava — e buscou afoitamente o ferimento na têmpora. Estava fechado, numa única linha cicatricial abaixo dos cabelos loiros e limpos.

Mesmo com o poder de seu cosmo, não seria capaz de recuperar-se com tanta rapidez.

Algo estava muito errado: o corte cicatrizado, a estrada abandonada, o ônibus de linha misteriosa, a moeda dourada...Encostou-se no banco e apertou os olhos com os dedos, decidido a lembrar-se. Que lugar era aquele e como tinha-

– Hey - virou-se em direção ao chamado e deu de cara com o moço ruivo. Ele tinha mudado de lugar e agora estava bem atrás de Escorpião, tão perto que o grego podia contar as sardas em seu nariz e os cílios acobreados em suas pálpebras.

Quando fitou seus olhos castanhos — um sopro suave, um calafrio.

– Você nem me disse oi! — ele não parecia zangado, nem triste. Seu semblante era frio e indecifrável.

O loiro ajeitou-se melhor no banco para analisá-lo. Devia ter seus vinte e poucos anos, assim como si próprio, e possuía uma estrutura tão forte quanto a sua. Usavam roupas semelhantes e as mesmas sandálias desconfortáveis. Não o reconhecia, entretanto, não lhe soava como um completo estranho.

O jovem, então, veio sentar-se ao seu lado com uma discreta ruga de preocupação. Era bonito e elegante não só na aparência, como também nos modos.

– Desculpe, mas a gente se conhece? — Milo disparou por fim, desistindo de tentar adivinhar.

O ruivo encurtou o vale entre suas sobrancelhas tão peculiares — Milo, o que há de errado com você?

Aquela pergunta atingiu Escorpião com força. Era como se já houvesse escutado aquilo centenas de vezes antes. E, mesmo aquele sendo supostamente um desconhecido, decidiu dividir com ele suas angústias. Já que o homem sabia seu nome, talvez tivesse algum conhecimento sobre o que faziam ali.

– Eu...eu não sei! Eu acordei sozinho na estrada, no meio de uma poça de sangue e aí... — no que apontou para a janela a fim de ilustrar o que dizia, sobressaltou-se com o que viu. Milhares de pessoas circulavam às margens do asfalto: homens, mulheres, crianças e idosos de todas as raças e formas. Perambulavam como se não vissem umas às outras, sem jamais se encontrarem. E o motorista as ignorava solenemente.

– Imagino como tenha sido difícil encontrar você no meio de toda essa multidão. Também não foi tão simples me apanhar, mesmo eu já tendo alguma experiência nesse tipo de viagem — o seu companheiro inclinou-se para a janela com um olhar vago. Ele era tão dolorosamente familiar, que seu corpo todo estremeceu com a proximidade.

– Eu não entendo o que diz. Quem é você, afinal? — rendeu-se, segurando os ombros do ruivo para que pudessem se encarar abertamente. O outro era todo placidez e impassibilidade. Engoliu em seco. Um mero olhar trocado era suficiente para que sentisse uma estranha vontade de abraçá-lo.

Por um segundo, percebeu apreensão nos olhos castanhos e imperturbáveis. Eis que, para suplício do cavaleiro da oitava casa, a palma de uma mão fria veio pousar numa de suas bochechas, desencadeando um misto de sensações conhecidas, acompanhadas da resposta que tanto procurava:

– Sou eu, Milo. Sou Aquário.

E tudo fez sentido.

– Camus? — murmurou tão baixo, que mal passou de um sussurro. O ruivo assentiu. — Camus, eu...eu nem posso acreditar que eu não o reconheci! Ajude-me, por favor! Eu quase esqueci mesmo de quem eu era! Como isso é possível?

O cavaleiro de Aquário calou-o ao deslizar o polegar sobre seus lábios.

– É cedo demais para esquecer de tudo. Você machucou a cabeça quando enfrentamos o Muro das Lamentações?

Concordando, Escorpião buscou outra vez o ferimento na têmpora e Aquário levou para junto dele a mão que estava em seu rosto. Entretanto, não encontraram sequer marca do trauma.

– Os mortos não tem cicatrizes — Camus sorriu aquele seu sorriso comedido que Milo tanto amava, trazendo todas as lembranças à tona.

O grego tremeu um lábio, entrelaçando seus dedos nos dele com força, num pedido mudo de apoio.

– Então nós morremos — afirmou mais para si mesmo, em tom conclusivo.

– Sim. E desta vez é definitivo — Camus retrucou algo aliviado.

Nisso, ficaram em silêncio a mirar pesadamente a paisagem monótona e as almas lá fora. Nada mais realmente precisava ser dito, aquele era o final deles. Mas Milo não era do tipo que se aquietava com facilidade. Tinha tanto represado em si a ser despejado; passara tanto tempo sozinho, à espera do dia em que ele e Camus se reencontrariam...um dia que foi eclipsado com o estopim da guerra santa.

– Amor, — chamou-o outra vez para si — eu sinto tanto por tê-lo estrangulado...Eu deveria saber que você jamais se voltaria contra Atena!

– Não se preocupe. Deixemos isso na vida que ficou para trás — Camus tentou segurar a enxurrada que vinha com a realização de Milo, mesmo sabendo ser impossível.

– Eu senti tanto a sua falta depois que você partiu! Primeiro tive muita raiva de Hyoga e de você, depois me afoguei em tristeza e, quando eu já estava conformado, você reapareceu vestindo uma sapuris. Foi injusto demais! Eu o amava — o amo – tanto!

Parecia infantil rogar por justiça àquela altura. E, também, não era como se Camus não soubesse nada daquilo. Tinha plena consciência do estado em que deixaria seu melhor amigo e amante ao perecer na batalha das doze casas. Além disso, viveu uma pequena eternidade no submundo sofrendo com seus próprios arrependimentos e saudades. Porque já havia penado demasiadamente, preferia omitir tais lamentos.

Ao invés de fomentar os remorsos, decidiu aproveitar o pouco tempo que tinham e acolheu-o em seu peito. Abraçaram-se longamente e Milo irrompeu num choro manso, que Camus acalentou com doces afagos em seus cabelos. Aquário também continha suas próprias lágrimas, seu olhar mais brilhante do que o habitual.

– E agora? Eu não quero me separar de você outra vez... — o loiro fungou contra o ombro estrelado de sardas. Camus ergueu seu queixo entre mãos delicadas e enxugou as lágrimas dele, enquanto deixava as suas próprias rolarem.

– Vamos ao Rio Lethe — disse com a voz partida, tentando manter o controle — Beberemos de sua água e nossas almas esquecerão tudo o que aconteceu até aqui. Depois, voltaremos à Terra no nosso ciclo eterno.

Camus olhou para trás e Milo seguiu-o. Agora o grego podia ver: o ônibus estava lotado de cavaleiros de Escorpião e de Aquário de outras eras. Dégel e Kardia, seus antecessores, sentavam-se no banco do outro lado do corredor e fitavam o casal com piedade.

– Achei que iríamos de barco até o inferno — Milo soltou um riso amargo pelo nariz.

– Não vamos a inferno algum. Não desta vez — Camus encostou sua testa gelada na de seu amado e beijou-o perto do nariz — Seremos para sempre Aquário e Escorpião. Não vê que estamos predestinados um ao outro?

– Tudo de novo? — Milo sorriu para os olhos que lhe transmitiam carinho, finalmente sentindo-se em paz. — Acho que vale a pena.

Notas finais
Lethe é o nome de um rio mitológico, de cujas águas os mortos deveriam beber para esquecer seu passado antes de passarem definitivamente à outra vida. Em algumas referências, está localizado no submundo de Hades, e em outras, nos Campos Elíseos. O motorista de ônibus é uma alusão a Caronte, o barqueiro que cobrava moedas de ouro para transportar os mortos através do rio Aqueronte, no submundo. Espero que tenham gostado! Até a próxima!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!