Pressura

11 Soberania


Passara-se uma hora desde que Liz desistiu de esperar em pé e se sentou na calçada, de frente para a Casa 22. Deixara Jason dormindo no hotel, confiante de que ele leria o bilhete no criado-mudo. Uma menina empurrava uma carreta com flores em sua direção. “Até que enfim”, pensou ao se levantar.

– Com licença, você sabe me informar quem morava nessa casa aqui? – Liz abordou a menina, apontando para a Casa 22, que caía aos pedaços.

– Não sei, estou aqui de passagem. Sinto muito. – Liz passou a mão na testa, sinal nítido de desânimo: não havia mais nada a ser feito, afinal. Antes que pudesse se virar para ir embora, a menina voltou a falar. – Mas eu conheço alguém que deve saber.

Os olhos castanho-mel de Liz brilharam tanto que pareciam prestes a se liquefazer. Ela sorriu e perguntou onde encontraria esse alguém.

– É o meu tio-avô Peter Jeremy. Ele mora na penúltima casa desse quarteirão. Diga que me conheceu: meu nome é Caroline.

– Obrigada! – Liz agradeceu ao abraçar brevemente a menina e apertou os passos em direção à casa de Peter Jeremy. Parou diante da penúltima casa e bateu à porta três vezes.

– Pode entrar. – Bradou uma voz grave e rouca. Liz Daisy girou a maçaneta destrancada e acenou para Peter. O velho estava sentado numa gasta poltrona vermelha, fumando um cachimbo, e a convidou com um gesto para se sentar também. Ela puxou uma cadeira.

– O que faz em Abyss? – Perguntou Jeremy, rompendo o breve silêncio.

– Perdão?

– Ah, Abyss... – Houve uma pausa para que o velho se recostasse na poltrona. – Abyss é o apelido carinhoso que nós, os moradores, demos a essa ilhota.

“Dionysus” (cuja pronúncia era “Dionyss”), “Abyss”... Liz se sentiu estúpida por não ter percebido a semelhança sonora e entendido o apelido pejorativo desde o início.

– Bem, eu vim checar se há alguém morando na Casa 22. Recebi um documento dizendo que eu herdei o imóvel, mas eu não sabia que tinha parentes aqui. – Ela blefou de modo tão convincente que se surpreendeu. Esperava que Peter não tivesse notado nenhum sinal de surpresa em sua expressão. – Sua sobrinha-neta, Caroline, me disse que você poderia ter informações úteis...

– Essa é uma das desvantagens de estar vivo nessa pocilga aos 86 anos: as pessoas te usam como uma espécie de enciclopédia. – Resmungou o velho carrancudo. Liz não se intimidou, ele era sua única esperança. – Nascido e criado em Dionyss, acredito que nada que houve aqui deixou de passar pelos meus ouvidos... Sim, eu sei muitas coisas sobre a antiga dona da casa.

– O senhor poderia me dizer o que sabe sobre ela? – Liz perguntou. Ficaram em silêncio e ela esperou que Peter lhe enxotasse de sua casa, mas ao invés disso ele fez um sinal afirmativo com a cabeça e começou seu relato.

– O nome dela era Mariah, Mariah Connor. Mariah era a quinta mulher de uma ninhada de sete filhos, também era a mais bonita e a única loira, devo acrescentar. Tinha dois irmãos e quatro irmãs, todos mais velhos. Sua mãe morrera quando ela tinha pouco mais de três anos de idade e seu pai era um alcoólatra demente. Três de suas irmãs se casaram novas e se mudaram daqui, para fugir dos maus tratos dos dois irmãos. Só sobraram os dois, Mariah e sua irmã Betsy, as pobres coitadas.

“Os dois irmãos sustentavam a casa e frequentemente abusavam de Mariah e Betsy. Iam pro meio do mato, arrastando as meninas, e faziam com elas o que bem entendiam. Mariah não se dava bem com Betsy, as duas viviam brigando. Diziam que Betsy era esquizofrênica e a mandaram pra um hospício em Louisberg, depois disso nunca mais foi vista. Mariah era quieta, muito educada. Parecia ser uma boa moça, até conhecer aquele cara do oeste, o Donnie.

– Quem é Donnie? – Perguntou Liz, se empertigando na cadeira.

– Donald Kraig era um coroa psicopata. Tivera vários filhos por aí, três reconhecidos: Mary Beth, Suzanne e Lionel. As más línguas diziam que Mary Beth era prostituta e que Suzanne era larápia. Lionel era chamado de bastardo na escola, ninguém o respeitava. Coitado, dizem que era meio afeminado e isso fez com que o pai o renegasse completamente.

“Depois que Mariah começou a sair com Donnie, sua vida foi de oito a oitenta. Da menina reclusa, caseira e educada não restou nada. Os dois eram porra-louca, entende? Não queriam nada com a vida. Viviam perambulando por aí, drogados, gritando baixarias pelos ares. De repente, Mariah apareceu grávida na porta de casa, fumando e caçando briga com os vizinhos.

Donnie fugiu antes da criança nascer. Ela deu à luz um menininho, a cara do pai quando era mais novo. Maltratava tanto o moleque que ele saiu correndo pela mata adentro aos quinze anos e nunca mais voltou.

– E o que aconteceu com Mariah depois disso?

– Mariah... Bem, ela se endividou feio por causa das drogas, sua pensão fora anulada desde que o filho fugiu de casa. Não tinha onde cair morta. Entrou em depressão, tentou se enforcar numa árvore e acabou caindo no mar. Morreu afogada.

Liz Daisy estremeceu. Precisou de alguns segundos para apagar a imagem do corpo de Mariah sendo arrastado pelo pacífico. Assim que se recompôs, perguntou a Peter o endereço da casa dos pais de Mariah, com o pretexto de conversar sobre o imóvel que a mulher deixara com alguém de sua família.

– Não tem como eu te dar o endereço, garota. A casa deles foi derrubada há alguns anos e seus pertences foram transferidos para o Antiquário de Dionysus. Ninguém aqui sabe sobre o paradeiro dos Conners.

– O senhor sabe onde fica o Antiquário?

A pergunta de Liz provocara um sorriso no velho “Peter Enciclopédia”. Ele tossiu, colocou mais tabaco no charuto e se levantou.

– O Antiquário é o único grande prédio daqui. Ocupa quase toda a Rua II.

– Muito obrigada. – A donzela agradeceu, já a caminho da porta.

– Se cuida, garota. – Peter Jeremy se despediu, sua voz grave e enrouquecida parecia distante.

Liz perambulou pelas ruelas de Dionysus até encontrar uma cabine telefônica. Sentiu-se sortuda ao discar o número do hotel e perceber que o antigo telefone funcionava.

– Quero falar com o hóspede do 303, por favor. – Pediu Liz à recepcionista.

– Onde você está? – Jason perguntou, parecendo aflito.

– Encontre-me no Antiquário. – Antes que Liz pudesse dizer outra frase, a ligação caiu.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.