– Hora do banho. — Anunciou a mulher loira num tom severo, em frente ao banheiro. Ela segurava um escovão de modo ameaçador.

– Oba! — Exclamou o garotinho loiro, muito parecido com a mulher. Ele esperara com ansiedade a hora do banho, pois só podia tomar um por dia (regras da casa).

Mal a mulher havia aberto a porta e o garotinho já correra direto para o chuveiro, despindo sua roupa no caminho. A água caía sobre o rosto alegre do garoto. A mulher apertava cada parte do corpo dele, de olhos fechados e suspirando alto.

De repente, a água parou de cair. Os pingos resfriavam rápido na pele do garotinho, ele sentia frio. Seus olhos percorriam o banheiro, procurando por uma toalha que não estava ali.

– Cadê a toalha? — Indagou a criança em sua inocência.

– Não precisaremos dela. — A loira estudou o corpo do menino com seriedade, como se tentasse decidir por onde começar a secar. Escolheu as genitais e começou a esfregá-las e apertá-las ininterruptamente.

O garotinho não entendia. Por que a mulher loira esfregava tanto suas genitais, que haviam secado há muito tempo, sendo que o resto do corpo permanecia molhado? Ele estava confuso, mas não ousou perguntar. A mulher loira detestava perguntas e ele não queria irritá-la, já fizera perguntas demais naquele dia. Cumprira sua cota.

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O garotinho que se parecia com a mulher loira tinha crescido, já não era mais um garotinho. Era um rapaz, de catorze anos. Assobiava sua canção preferida enquanto passava pela porta descascada de madeira branca.

A mulher loira gritava e chorava alto, atirando objetos na parede. Seus longos e belos cabelos loiros estavam curtos e ressecados, os olhos estavam borrados de lápis creon preto, e na boca pendia um cigarro aceso. Estava assustadora.

Entretanto o rapaz não se assustou com o escândalo quando entrou no quarto, estava feliz demais para se importar com qualquer coisa que não fosse Anna, sua paquera de escola. Desde a semana anterior àquela os dois andavam de mãos dadas no recreio e eram vistos dando gargalhadas na pracinha.

– Ah, olhe quem finalmente chegou! – A assustadora mulher loira bradou, rindo com deboche – Jason, venha aqui. Agora.

Jason agiu como se não tivesse a escutado. Estava ocupado, pensando em como seria beijar Anna... qual seria a sensação? Seria doce, suave como a brisa; fariam contatos com a língua ou não? Ah, mas o primeiro beijo com certeza seria o mais especial, Jason planejara tudo: aconteceria debaixo da enorme cerejeira da pracinha...

– Que foi que aconteceu com você para pensar que pode me ignorar dessa maneira? — A loira começou a balbuciar e insinuar vômito, obviamente andara bebendo.

Desta vez Jason decidiu respondê-la.

– O que aconteceu é que encontrei uma garota. É isso. — Disse o rapaz de uma maneira sonhadora.

– Uma garota? — A mulher teve uma crise de riso, suas risadas eram tão macabras que causavam arrepios. Jason sentiu-se constrangido, mas respondeu em sua defesa:

– Sim, uma garota! Todos os meus amigos já beijaram uma, menos eu!

– Cala a boca, moleque! Pare de falar asneiras! Você... você nem sabe... nem sabe beijar! Os dois não sabem, vão ficar se lambendo.

A mulher gaguejava freneticamente e fazia expressões de nojo, como se estivesse prestes a vomitar, mas não por causa da bebida.

– Eu não me importo! – gritou Jason. – Só quero que seja especial!

– Especial? – Ela agarrou Jason pelos braços, lançando-lhe um de seus típicos olhares severos, porém desta vez estavam sobrecarregados de raiva. – Eu vou te mostrar como é que se faz!

Então a mulher loira foi se aproximando do rosto do rapaz, naquele momento tão indefeso quanto costumava ser quando garotinho. Jason tentou se desvencilhar da mulher, entretanto esta o segurava forte; ele se sentia incapaz e desmotivado, estava morrendo de medo. A mulher ordenou:

– Abra a boca.

Jason não a obedeceu.

– Abra a boca! – Ela apertou as bochechas de Jason com suas enormes unhas sujas e isso fez com que ele finalmente abrisse a boca. Enfiou sua língua na boca do rapaz com brutalidade. Ele a socou até que conseguisse se soltar do “abraço” e começou a correr.

– Isso mesmo, some daqui, seu frouxo! – A loira soltou mais uma estrondosa risada de deboche, macabra como as anteriores.

Jason correu o mais rápido que pôde para longe dali, as maçãs do seu rosto estavam encharcadas de lágrimas. Depois de um tempo começou a ofegar quase sem fôlego, mas não parou... Jason continuou correndo e chorando, vendo todos os seus sonhos passarem diante dos seus lindos olhos azuis. Tudo lhe havia sido tirado. Esperança, confiança, dignidade; a oportunidade de dar seu primeiro beijo com uma garota especial... continuava correndo, correndo, correndo em direção à luz...

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A luz o cegou. Jason abriu os olhos devagar, recuperando-se do flashback perturbador. Encontrava-se estirado na calçada da esquina da Rua 32, havia cacos de vidro cravados nos dois braços, sua roupa estava completamente ensangüentada. Piscou um pouco para que as imagens entrassem em foco.

– Ai! – Jason abriu a mão esquerda. Olhou para ela e deparou-se com uma seringa cravada em sua veia, retirou-a. Em meio a névoa, se lembrou das drogas, da dança, das músicas...

Jason rastejou um pouco. Muito tonto, segurou-se no poste mais próximo. Quanto mais piscava, mais tonto ficava. "Tenho que atravessar a rua", pensou ele. Respirou fundo e ficou de pé... não devia ser tão difícil andar em linha reta!

Com os olhos vidrados ele seguiu para a faixa de pedestres, se esforçando ao máximo para não desequilibrar. Infelizmente não conseguiu evitar piscar por muito tempo e, quando piscou, seus olhos pesaram tanto, mas tanto, que não conseguia abri-los de novo. Enquanto lutava contra suas pálpebras ele ouviu pneus cantarem alto, houve uma freada brusca e Jason desfaleceu novamente.

– Mas o que é isso? Você é louco? – Era uma enfurecida voz feminina ecoando e cortando seus ouvidos. Ouvira a porta do carro abrir e depois bater com força, o par de saltos altos estalando no asfalto estava cada vez mais perto...



– Ah, ótimo! Não vai se levant...– Ela interrompeu a frase ao se aproximar de Jason. Seu estado era tão lastimável que ela sentiu vontade de chorar: caído no meio da rua, um pouco zonzo, sangrando muito. Jogado às traças. Ela simplesmente não se perdoaria caso o largasse ali daquela maneira, sentiu que não havia outra opção senão ajudá-lo.

Percebendo que alguém estava ali, Jason esforçou-se o máximo que pôde e por fim abriu os olhos. À sua frente estava uma mulher maravilhosa: caucasiana, jovem, cabelos muito pretos, olhos cor de mel. O medo borbulhou em seu peito, mas de algum modo não se sentiu ameaçado pela presença dela: muito pelo contrário.

– Deixe-me te ajudar. – Ela o guiou com cuidado — Vamos para a minha casa.

Jason se recostou no banco traseiro do Opala, ouvindo-a cantarolar baixo. Ele admirava, distante, a paisagem disforme diante dos seus olhos, sentindo uma incomum sensação de paz.

– Chegamos. – Ela anunciou. Ao se levantar, Jason reparou na construção muito antiga em ruínas bem à frente do carro: um prédio que devia existir desde a década de 30. Era estranho e formidável ao mesmo tempo.

– Eu moro ali. – A moça apontou para a construção em ruínas que chamara sua atenção e os dois rumaram para lá. Os corredores eram úmidos e cheiravam a mofo.

– Bem... esse é “meu cafofo”, espero que se sinta à vontade.

“Uau.”, Jason sussurrou para si mesmo. O apartamento não era nem de longe luxuoso, afinal não se pode esperar muita coisa de um prédio desmantelado. Porém o local era bem decorado, simplório e aconchegante. Como um lar deve ser.

– A propósito meu nome é Liz. Liz Daisy. – A mulher se apresentou com um aceno.

– Liz... como fleur de lis – Observou Jason, com a expressão abobada. Liz riu do comentário e, ao abrir um sorriso, automaticamente Jason abriu um também. Que estranho.

– E você, como se chama?

– Jason. — Respondeu abruptamente.

– É um nome muito bonito. – Afirmou Liz. Seus olhos encontraram os olhos muito azuis de Jason e ambos desviaram o olhar, constrangidos. Passado o rubor, Liz percebeu que seu olhar repousara nos tenebrosos cortes de Jason e assustou-se.

– Minha nossa... você precisa de curativos. – Ela correu para o quarto, avançou para a primeira gaveta e pegou o kit de primeiros socorros. Com o equipamento em mãos, removeu os cacos de vidro um por um, depois limpou o sangue, então vieram as ataduras e os band-aids...

– Obrigado. – Sussurrou Jason, sem entender porque alguém faria isso por ele.

– Por nada. Estou acostumada a lidar com isso... sou enfermeira. Enfim, quer comer alguma coisa?

A verdade é que ele queria, estava morto de fome, porém se limitou a respirar fundo. Percebendo que o homem estava com água na boca, Liz acrescentou:

– Ei, não precisa ter vergonha. Tem comida suficiente para nós dois. – Ela sorriu e deu de ombros. – Além disso, uma companhia não faz mal a ninguém.

Jason sentou-se à mesa trêmulo, em silêncio sepulcral. Tentou não comer muito, mas conforme Liz lhe servia, ele comia com voracidade um pouco de tudo: pão com queijo, uma rosquinha de chocolate, um pedacinho de torta de cacau...

– Como você se feriu desse jeito? – Ela indagou, pegando Jason de surpresa. Ele tentou responder, mas saíam apenas gemidos de sua boca.

Percebendo que a pergunta deixara o rapaz desconfortável, Liz acrescentou para reparar a gafe:

– Quer saber, não precisa me contar se não quiser.

O resto do café seguiu-se em agradável silêncio, exceto pelo barulho de mastigação. Passado algum tempo após a refeição, Liz pigarreou.

– Onde você mora? Posso te dar uma carona. – Ela ouviu Jason engolir em seco antes de respondê-la.

– Não tenho lar.

– O quê? – Indagou estupefata. Como assim não tem um lar?

– Não moro em lugar algum.

Liz estava chocada. Se a pouco tempo pensava que sua vida era ruim, isso não era nada em comparação àquilo. Chorou um pouco, sem entender porque o sentimento de piedade a acometia.

– Quer passar um tempo aqui no meu apartamento? – Liz Daisy sorriu gentilmente, sem acreditar no que acabara de dizer. Os olhos de Jason cintilaram por um momento, mas a luz se esvaiu tão rápido quanto se acendeu.

– Não tenho dinheiro. – Respondeu, tristonho.

– Não se preocupe com isso. – Notando o olhar de desconfiança do rapaz, completou: — Podemos pensar nisso depois, tudo bem?

Jason mostrou seu polegar para a moça, sorrindo satisfeito; o que ele não percebeu é que, ao fazer isso, várias gotas de sangue rolaram direto para o chão.

– Talvez seja melhor tomar um banho...?! – Sugeriu ela, desconcertada. – Primeira porta à direita.

Jason piscou algumas vezes em meio à tonteira e se olhou no espelho. Sentiu tanta raiva de si mesmo que quase esmurrou seu reflexo, mas suas forças estavam esgotadas. Entrou debaixo do chuveiro e esfregou o sabonete na pele sem a menor firmeza, sentindo-se o fracasso em pessoa.

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– Está falando sério? Que loucura, amiga! – Soou uma voz do outro lado do telefone.

– Eu sei... a vida dele deve ser uma loucura. – Liz lamentou, voltando o olhar para baixo.

– Não, não falo do cara, falo de você! Como pôde trazer um cara que mal conhece pra dentro de casa? E se ele for um estuprador? — Liz riu do tom de voz assustado de sua amiga Jane, embora esta tivesse razão no que estava dizendo.

– Eu sei que é loucura, Jane – Ponderou Liz -, mas... qual é, não tinha como virar as costas para ele naquele estado!

– Sério, você é louca!

Jason se enrolava na toalha quando se surpreendeu com um ataque de risos, que vinha do quarto. Precisava falar com Liz, mas não sabia como interrompê-la: ele não tinha roupas para colocar, pois as que trajava estavam esfarrapadas e encharcadas de sangue.

– Ah, ele pelo menos é bonito? – Quis saber Jane.

Liz olhou para a fresta da porta do banheiro e viu Jason coberto pela toalha branca que comprara no natal, secando seus cabelos loiros com as mãos. Ele era musculoso e seus músculos se retraíam enquanto movimentava os braços... Jason era belíssimo.

– É, ele é gatinho. – Liz preferiu não entrar em detalhes.

– Eu quero conhecê-lo. Vou almoçar com você depois de amanhã, tá? Se não sabia, ficou sabendo agora. E o bofe tem de estar contigo!

– Tudo bem, Jane... – Liz revirou os olhos e desligou o telefone, voltando sua atenção para Jason outra vez.

– Ei, você precisa de alguma coisa?

– Acho que de uma calça... – Ele riu, esticando a toalha e observando seu pinto.

Ela enrubesceu e enfiou a cara nas gavetas, procurando roupas que pudessem servir no rapaz.

– Ok, tenho uma calça de pijama que pode te servir... achei!

– Obrigado.

Ao virar-se, Liz deu um encontrão em Jason e seus olhares se cruzaram de novo. Com rispidez, ele tomou das mãos delicadas da anfitriã a calça, cortando assim o breve contato estabelecido.

– Acho que vou... te deixar à vontade para se trocar – Liz virou-se, as mãos cobriram o rosto quente e corado.

Jason vestiu a calça devagar, pretendendo ganhar tempo sozinho no quarto. Tentou se concentrar no que faria dali em diante. Estava atordoado (e drogado) demais para entender o que estava acontecendo. Liz também tentava entender. Por que diabos havia convidado o cara para passar um tempo na sua casa? Quero dizer, é perfeitamente natural e sensato sentir pena de um sujeito como aquele, mas a ponto de trazê-lo para a sua própria casa? Que tipo de louca faria isso?

“Não, não tem nada demais nisso”, repetia para si mesma numa espécie de mantra.

Passando pela porta e rindo, Jason cuspia palavras:

– O que vou fazer aqui?

– Ah, certo... – Liz não conseguia pensar em nada. Talvez tarefas domésticas? Parecia uma boa ideia, pois mal tinha tempo para passar um pano nos quartos. – Pode cuidar da casa enquanto eu estiver fora?

– Be-leza! – Ele exclamou seu pensar duas vezes, sua visão já havia evoluído de dupla pra tripla ou quádrupla...

Liz consultou o relógio... droga, estava atrasada para o plantão! Precisava se apressar.

– Jason, marquei hora extra no trabalho e estou atrasada. Tem comida na geladeira, a TV a cabo já está ligada e a chave-reserva está atrás do lustre do quartinho.

– Ok... – Suas palavras se perderam no ar, pois ela já havia lhe dado as costas e corria escadas abaixo. Esperar pelo elevador era inadmissível na situação. Precisava do dinheiro extra. Precisava.