Presos Por Um Olhar
147 Eu te esperei aqui pela eternidade
Notas iniciais
“Hello, I've waited here for you
Everlong”
Everlong – Foo Fighters
Alexander
Estava acordado desde às cinco da manhã, tendo dormido muito pouco, apesar de cansado, mas me era difícil de acreditar que tinham levado a Kat para longe de mim.
E ainda mais inacreditável que hoje era o dia em que eu tinha imaginado desde o momento em que eu a conheci naquela praia.
Que ela nunca fique sabendo, mas eu sabia que me casaria com ela quando Kat cruzou meu caminho naquele sábado de manhã, correndo de forma elegante pelo calçadão, atraindo os olhares de cada homem por quem ela passava. E essa certeza só foi aumentando com o passar dos dias. Eu sabia o que queria, mas, o mais importante, eu tinha que esperar a decisão dela.
Kat havia sido machucada, humilhada naquela farsa que preparam para ela, assim, precisava de tempo. Tempo que eu estava disposto a dar, mesmo sabendo que o que eu sonhava poderia nunca acontecer.
Porém, naquela noite na Itália tudo mudou. Não sei se foi a atmosfera, ou se foi algo ainda mais profundo e pessoal, só sei que ela me pegou de guarda baixa quando proferiu as palavras que ficaram gravadas em meu cérebro como tatuagem: “talvez, tenha chegado a nossa hora. Hora de dar uma festa de casamento. De deixar meu pai me levar até um altar, ter Elena de dama de honra, Seb como nosso pajem. Ter todos nossos amigos reunidos para mais uma festa. Hora de celebrarmos o nosso amor. Eu não estou brincando, Alex. Eu estou pronta para colocar um vestido branco, e dizer o sim definitivo a você, na frente de todas as pessoas que são importantes para nós.”
Eu fiquei meio sem reação enquanto ela falava todas estas palavras, confesso que nem acreditei muito de início, mas quando ela praticamente prometeu que era verdade, que depois de três anos juntos iríamos planejar nosso casamento, eu acreditei. Porque ela não prometia com palavras vazias, mas sim com o olhar. E aqueles lindos olhos lilases não mentiam, assim como eram incapazes de esconder algo de mim.
E assim tem sido a cada momento desde que ela deu o aval. Foram meses de preparação, foram meses de constantes visitas a fornecedores, joalherias, docerias e não sei mais o que, porque ela não me deixou participar da parte de escolha do vestido, até que chegamos a esse dia.
O dia em que ela finalmente será a Senhora Pierce.
Eu sei que já temos uma certidão de casamento, que civilmente e legalmente já estamos casados. Mas para ela essa cerimônia é mais importante do que qualquer outra coisa.
Para ela é o dia de hoje que conta.
E por isso que eu estou ainda mais nervoso.
Óbvio que eu confio no que escolhemos, confio que ela estava, e está, certa de que tudo o que queremos estará pronto, mas, mesmo assim, ainda fico temeroso em pensar que algo possa dar errado e magoar os sentimentos de Kat.
Porque o dia de hoje é dela.
E eu quero que seja perfeito por ela.
Porque ela mais do que merece a perfeição.
De todos os preparativos para a cerimônia, somente um ela não viu.
O gazebo que eu desenhei e construí só para ela. Hoje ele será o nosso altar, mas depois que tudo se encerrar, eu vou colocá-lo no lugar favorito de Kat lá no Rancho. No mirante que ela tanto ama e sempre faz questão de visitar, para que assim ela sempre se lembre dos votos e promessas que eu fiz a ela.
Estava na cozinha, tomando uma xícara de café, quando Will apareceu e bate em meu ombro.
- Nervoso, mano?
Por alguns segundos eu parei e pensei, só tinha uma resposta possível.
- Não.
Will me encarou de novo.
- Nem um pouco?
- Não. – Repeti.
- Mas é o seu casamento... você está...
- Sendo acorrentado? Pulando fora do mercado?
Will deu ombros, concordando comigo.
- É o que eu quero, sempre quis. – Afirmei.
- Não sabia que você queria se casar, até onde me lembro, você era meio contra essa ideia até uns três anos atrás...
Dei um mínimo sorriso. Três anos. O tempo quase exato em que conheço Kat.
- É, até três anos atrás eu não pensava em me casar, Will. Mas a Kat mudou isso.
E foi a vez do meu irmão abrir um sorriso.
- Ainda bem que você foi louco o suficiente para procurar por ela novamente, mesmo que todos tenham rido da sua cara.
Voltei no tempo, para aquele final de semana. Para o final de semana em que a minha vida mudou.
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Desde o momento em que vi aquela mulher loira começar a se alongar não muito distante de mim eu soube que ela era especial. E, enquanto todos os homens viram um corpo e um rosto bonito, eu vi algo diferente.
Eu tive uma visão. Uma visão do passado.
Eu vi aquela mesma loira sorrindo para mim, com olhos brilhando e dizendo que sempre esperaria por mim.
E quando ela passou correndo, algo em mim clicou, me comandou, até que tentei pará-la, só para ter certeza de que era a mesma mulher que eu vira em minha mente.
Ela, de forma ágil, se desviou de mim e acelerou a passada. E eu fiquei parado, observando-a ir para longe de mim.
Mais uma vez. – uma voz sussurrou no fundo da minha mente.
Voltei à praia quando escutei os risos, ou seriam os uivos da turma do surf, que nunca tinham me visto levar um fora.
Não me leve a mal, tive muitas namoradas na vida, na verdade, por muito tempo eu tive a mulher que quis, até que conheci Suzanna e, por um tempo, sosseguei.
Não posso falar que o eu tive com ela se resumisse a algo maior do que tensão sexual. Não era paixão, e muito menos amor. Mas eu não sabia disso, não naquela época, pelo menos. Mas foi interessante até o ponto que ficou cansativo, repetitivo, enjoativo. Antes mesmo do fim midiático do nosso relacionamento, ele já estava morto. Eu não era mais interessante para Suzanna, que já tinha outros planos para si e ela não me fascinava tanto assim. Não valia o trabalho, o desgaste emocional estar ao lado de alguém que só tem beleza a oferecer.
Assim, nos três anos seguintes, eu não fiquei sozinho, solteiro sim, só, jamais, e tive a mulher que quis, quando quis.
Era certo?
Hoje vejo que não.
Mas era o que eu queria, ou melhor, eu não queria nada sério, e elas sabiam disso.
Até que em um sábado de manhã, tudo mudou.
Eu me vi levando um fora de uma mulher que eu não nunca vira, mas eu conhecia de algum lugar.
Tentei a minha famigerada jogada, que sempre deu certo na praia, um esbarrão com a prancha, um pedido de desculpas, uma presença solícita...
Mas aquela loira não caiu na minha.
E foi isso que me atraiu até ela de vez.
Eu fiquei desesperado para vê-la de novo. E, para meu espanto, ela estava sentada quase do lado das minhas coisas. Mas cedo demais ela sumiu. Corri atrás dela, outra cena bem inusitada para quem me conhecia, mas não a vi.
Passei o restante do sábado pensando em como iria encontrá-la em uma cidade do tamanho de Los Angeles. Isso deu nos nervos do meu irmão e até de Pepper. Benny me falou para pegar a primeira loira que visse, porque aquela lá não voltaria mais.
Vaguei por Venice e Santa Mônica por um bom tempo, mas não a vi novamente.
E, naquela noite, eu sonhei com ela. Não sei onde estávamos, mas sei que, de alguma forma, era ela ali, do meu lado, me fazendo promessas.
Contrariando meus costumes, no domingo, ao invés de ir para a feira de adoção de animais, para ajudar o abrigo de onde adotei Stark, voltei à praia, cheguei não eram seis da manhã. Andei um bom trecho do calçadão e não a vi.
Conformado que ela não voltaria mais, caí no mar e, logo saí, me surpreendi quando a vi sentada no mesmo lugar do dia anterior, praticamente ao lado das minhas coisas.
Ela estava concentrada em algo, ou seria em alguém, quando eu parei para me secar ao seu lado. Tentei chamar sua atenção ao remover a parte de cima de minha roupa de Neoprene, mas ela nem me notou.
Quando me joguei na toalha, tentando achar coragem para conversar com ela, mesmo que eu não tenha tirado os olhos dela desde o momento em que eu tinha visto, ela olha na minha direção.
Não pude ver seus olhos, mas sua sobrancelha direita estava levantada, em uma clara demonstração de que ela estava curiosa com algo. E, sem pensar muito, levantei-me e fui ao seu encontro.
Antes de vê-la de perto, eu pensei que estava indo à caça. E ela seria a próxima mulher que eu teria ao meu lado sem ter nada sério.
Tudo mudou no instante em que sua mão encostou na minha. E eu tive um vislumbre dela, parada na minha frente, com um vestido de época e uma sombrinha de renda aberta, tampando-lhe o sol do rosto, o rosto mais lindo que eu já vira, e eu me peguei murmurando um nome que eu nunca escutara.
Katerina.
Ali, naquele momento, eu deixei de ser o caçador que era, deixei de ser o cara que só queria diversão, deixei de ser Alexander Pierce, o homem que só namorava beldades desde o ensino médio.
Eu passei a ser dela, sem ao menos ter escutado o seu nome. Ter visto o seu rosto por inteiro.
Minha vida estava nas mãos delicadas daquela mulher de sotaque refinado e modos elegantes que eu acabara de conhecer.
Quando ela se apresentou, sua voz era tão musical quanto uma sinfonia, e quando disse o meu nome, selou de vez meu destino.
Se ela me pedisse, eu a seguiria até o inferno.
E foi pensando nisso que tive que correr atrás dela quando, cedo demais, partiu.
Eu não sabia o que era correr atrás de uma mulher, nunca tinha feito isso, mas fiz por ela. Porque eu precisava dela. Porque, por alguma estranha razão, eu senti que não havia vida sem ela. Que aquele estranho sonho que tive foi somente um aviso. Eu precisava dela porque eu a conhecia de muito tempo. Talvez tempo demais.
E, quando, por sorte, eu consegui fazer com que ela parasse o carro em que estava, eu não sabia muito o que fazer, ou como proceder, então joguei com a sorte e perguntei se ela correria no dia seguinte.
Eu não tinha o costume de correr na praia, só perto da minha casa e na academia, correr em lugares abertos pode ser perigoso, não por conta da violência, mas por você nunca ter a certeza de quem vai te encontrar e qual tipo de foto vão tirar de você, porém, se fosse para passar mais tempo ao lado de Katerina, eu faria qualquer coisa, arriscaria ser visto em público novamente, arriscaria tudo.
E, para minha surpresa, ela aceitou.
Não me lembro de muito mais depois que ela disse sim e combinou um horário, só sei que quando me vi, estava agachado ao lado da porta de seu carro, apoiado na janela aberta, enfeitiçado pela presença dela, pelo cheiro de seu perfume, pela cadência de sua voz.
Foi mais por necessidade do que por querer, e quando vi que ela tinha que ir, que ela tinha algo para fazer, um pouco depois de me despedir, me vi acariciando a sua bochecha, eu precisava saber se ela era de verdade, se ela realmente estava ali.
E estava.
Sua pele era macia como veludo, delicada como um cristal e as pontas dos meus dedos formigaram quando me afastei, clamando por senti-la novamente.
Eu fiquei parado na vaga onde o carro dela estava por muito tempo depois que ela foi, brigando internamente comigo mesmo, questionando os motivos para não tê-la chamado para sair hoje.
O amanhã era incerto e demorado.
O domingo foi uma reprise do sábado, com o detalhe que eu não estava presente de alma naquela praia. Somente meu corpo estava ali, minha mente vagava, querendo saber onde Katerina estava, e, se ela iria mesmo aparecer no dia seguinte.
Depois de uns dois tombos enquanto surfava, decidi ir para casa, a turma achou que era por vergonha, afinal, meus tombos foram dignos de risada, ainda mais para alguém que fora criado na praia, mas eles não entenderiam a verdade. Para eles Katerina não existia, era uma invenção da minha cabeça.
A noite de domingo foi longa, e antes mesmo da cinco da manhã eu estava na orla de Santa Mônica. Não parei meu carro logo no estacionamento, mas sim em frente a um lugar que eu não ia há muito tempo e, sentado ali, vendo o sol nascer, eu esperei.
A cada minuto que às 06:00 da manhã se aproximavam, eu ficava mais nervoso. Mais ansioso, temendo que ela não viesse. Que ela não passasse de um sonho.
E foi quando eu escutei o ronco de um motor e vi um carro imenso ser manobrado com precisão no estacionamento do píer. Praguejei contra aquele motorista que tinha parado na vaga de Katerina, sim, aquela era a vaga dela, só para mostrar o carro chique. Mas me surpreendi quando notei quem descia.
No dia anterior eu não notei o carro que Katerina dirigia, não notei muita coisa além de seu rosto.
Até agora...
É claro que toda aquela elegância e sotaque chique viriam acompanhados de algo bem europeu. E eu tive que rir.
- Uma europeia... – Murmurei quando, enfim, pensei no sotaque dela. – Não poderia ser uma mulher mais oposto de mim.
Observei por um tempo ela andar pelo píer, conferindo o relógio no pulso, sua passada elegante, digna de alguém da realeza, tomava o calçadão e toda a minha atenção.
Ela foi até a ponta do píer, observou algo, depois voltou. Sua expressão séria, até um tanto indignada, e foi quando eu notei o motivo.
Eu estava atrasado.
Ela começou a se alongar, como se estivesse planejando correr sem mim. E sem que ela notasse, sem fazer barulho, estacionei perto de seu carro, quase colado nele.
Ela se assustou quando me viu, mas abriu um sorriso tão lindo que quase me tirou o fôlego e tomou toda a minha atenção.
E, não sei como, ela transformou uma manhã de segunda, na melhor manhã da minha vida.
Seja com sua conversa, com a forma como ela conseguia me tirar do sério, como, mesmo sem me conhecer, ela sabia como mexer comigo da melhor maneira possível. Katerina, sem perceber, tinha se tornado a pessoa mais importante para mim.
E eu precisava de mais alguns momentos roubados dela, por isso, decidi, antes mesmo de pensar nas consequências, que a levaria para tomar café. Porque ali, ainda tinha um mistério para mim. Um que ela não quis me responder no dia anterior.
Eu precisava ver seus olhos.
Hoje sei que fui trapaceiro quando removi seus óculos escuros sem que ela estivesse esperando. Mas, se para toda ação, tem uma reação, o que eu senti quando fitei aqueles olhos únicos pela primeira vez foi o suficiente para acabar de selar o meu futuro.
Foi olhando nos fundos daqueles olhos lilases que eu soube que eu iria me casar com ela, que ela era meu mundo, meu futuro, a única forma de viver.
Seus olhos me mostraram tudo isso, e o beijo roubado quase uma hora depois só me deixou ainda mais preso a ela.
Katerina virou minha vida de ponta cabeça, bagunçou tudo o que eu tinha planejado para mim até o fim da minha vida, que naquele momento não tinha a intenção de ser muito longa, e me fez pensar que o para sempre existia.
Foi naquela manhã de segunda-feira, que eu virei o Alexander que muitos pensavam que nunca seria possível de existir. Com uma clara exceção, minha mãe.
Eu mudei tudo o que eu acreditava por Katerina. Eu virei uma versão de mim mesmo que só a minha mãe conhecia.
E, depois de muito tempo, eu pensei no futuro a longo prazo. Porque eu precisava viver ao lado daquela mulher.
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E, voltando ao presente, encarando meu irmão, eu respondi:
- Eu precisava procurar por ela, Will, eu só não sabia o porquê.
E Will, que desde sempre fora apaixonado por Pepper, me deu um sorriso de que entendia o que eu falava.
- É, acho que eu sei o que é isso. Só que eu ainda não estou pronto para o salto de fé. – Comentou casualmente e saiu da cozinha comendo algo.
- Que horas eu vou poder ir pro Rancho? – Perguntei para ele, pois era Pepper a responsável por organizar a minha chegada com a clara intenção de que eu não encontrasse com Kat hoje.
- Pepper falou que podemos sair ao meio-dia.
Meio-dia. Ainda eram oito da manhã.
Eu precisava fazer algo ou iria enlouquecer até que pudesse ver minha esposa de novo.
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Katerina
Eu pensei que não conseguiria dormir muito nessa noite, mas estava completamente enganada. Não sei se foi o cansaço por todo o stress do dia de ontem, se foi o fato de que fui para a cama bem tarde, ou se foi o chá, só sei que dormi muito bem, e me surpreendi que acordei tarde.
Eram nove horas quando me levantei, bem disposta e, mesmo que involuntariamente, abri um enorme sorriso.
- É, hoje é o dia! – Murmurei feliz ao observar o meu vestido que agora estava em um manequim, cortesia de Margot e Chelsea.
Fui para a cozinha fazendo uma trança em meu cabelo, e não deixei de notar que eu não era a única pessoa extremamente feliz no ambiente.
Todas as mulheres ali espelhavam meu humor, algumas de forma mais esfuziante, outras mais discretas, mas todas estavam felizes.
O café foi um evento barulhento, falávamos todas ao mesmo tempo, não medíamos a altura de nossas vozes e nem de nossas risadas.
Ficamos sentadas na mesa da cozinha jogando conversa fora, até que a equipe que iria me preparar chegou.
Miguel, Chelsea e Margot chegaram com tudo, batendo palmas, falando ainda mais alto do que nós e já me dando ordens.
- Cedo assim?! – Exclamei.
- É o seu dia especial, Katerina, precisamos de todo o tempo do mundo para que você fique deslumbrante. – Disse Miguel. – E não se esqueça, nós ainda temos que auxiliar muita gente por aqui.
E, daí para frente, foi tudo cronometrado, banho, cabelo, unha, almoço, até que às 15:00 horas, enquanto faziam minha maquiagem, escutei diversos passos pesados ecoando pela casa.
- Alex... – Murmurei.
- Mas nada de chamar pelo seu futuro esposo. Ele só te verá no altar. – Margot comentou.
E, a calma que eu sentia foi se esvaindo aos poucos, á medida que os passos que tinham parado na porta de meu quarto foram se afastando, e a voz de Alex diminuindo com a distância.
- Mas a roupa dele está aqui! – Clamei, rezando para que o deixassem entrar nem que fosse por alguns segundos, eu precisava ver nos olhos dele que esse dia era tão importante para ele quanto era para mim.
Miguel bateu palmas e logo Liv apareceu, seu cabelo estava em bobs, enquanto ela tentava dar um efeito ondulado.
- Chamou, täti? – Perguntou a minha fiel escudeira, que andava de um lado para o outro tirando as mais diversas fotos.
- Fui eu, Olivia. Pode fazer o favor de levar o terno para o seu tio? – Miguel falou e estendeu o saco onde o terno de Alex estava.
- Claro, mas antes eu posso tirar umas fotos aqui? – Ela pediu um tanto sem graça.
Os três que me arrumavam estranharam e ela, um tanto vermelha, se explicou:
- Meu presente de casamento para a tia e o tio são fotos que ninguém pensou em tirar... assim, eu queria poder tirar umas da tia ainda não totalmente pronta, de vocês...
- Mas é claro! – Margot se animou.
Liv ficou um tempo no quarto, sem fazer barulho, apenas captando alguns momentos que ela achava importante, depois saiu correndo, carregando o terno de Alex.
Às 16:00 eu estava quase totalmente pronta. Cabelo, maquiagem, unhas, minha pele parecia porcelana com o tom exato de rosa no alto das bochechas, minhas unhas impecáveis em um tom nude perfeito, que não roubaria a atenção da aliança que logo estaria sendo colocada ali para nunca mais ser retirada, minha boca tinha um tom de malva perfeito que trazia a iluminação ideal para a parte inferior de meu rosto, meus olhos foram devidamente destacados, agora só faltava o vestido.
- Muito obrigada. – Falei emocionada, ao ver o resultado de tanta preparação. – Ninguém faria melhor do que vocês. – Corri para abraçar os três que inicialmente eram da equipe de Alex, mas que viraram meus amigos de forma repentina. – Agora, por favor, vão se arrumar! Quero vocês lá quando eu entrar.
- Ainda falta o seu véu. – Miguel comentou.
E, como se estivesse esperando a deixa, minha mãe bateu na porta, pedindo para entrar.
Miguel, que também fazia às vezes de segurança para que ninguém além de meus pais e Liv me vissem antes da hora, abriu uma frestinha.
- Sra. Nieminen, entre.
- Vocês ainda não foram se arrumar? – Ela questionou ao olhar as roupas comuns dos três.
- Katerina ainda precisa de nós.
- Pode deixar que eu a ajudo com o vestido e com o véu, Margot. Pelo menos isso a mãe da noiva pode fazer.
Eles se despediram de mim e correram porta afora, ficando eu e minha mãe no quarto, somente esperando um horário decente para me vestir.
- Todos já chegaram? – Perguntei.
- Quase todos. Quando estava vindo para cá, vi Wendy chegando com a família. Amanda, também estava descendo para o local onde será a cerimônia.
- Elena está tranquila? E Seb? Será que ele vai conseguir atravessar o corredor?
- Katerina, Elena sabe que hoje é um dia importante, tanto para você quanto para Alex, e não por outro motivo, foi a única autorizada a ficar ao lado do noivo.
- Como assim!?
- Ao que parece, Alexander está um tanto nervoso, e, depois de aparecer na cozinha reclamando que estamos todos atrasados, Amelia pediu que ele se acalmasse, e, para isso, ele escolheu Elena. Você conhece sua sobrinha e sabe que ela não fica quieta, creio que ele preferiu o falatório sem sentido de Lena do que ficar olhando para as paredes até que Lauren libere a entrada dele.
- Justo, também preferiria Lena a ficar contando minutos que se arrastam, — Comentei e mais por nervoso do que por curiosidade, olhei a hora, 16:25.
- Ah! Olivia está andando com a câmera para cima e para baixo, tirando fotos.
- Eu sei, já esteve aqui nesta tarde. – Comentei e olhei para minha mãe. – Pode me ajudar com o vestido? Até que fechemos todos estes botões, já estará quase na hora.
E, devagar, minha mãe me ajudou a entrar no vestido e a fechar botão, por botão. Estava ajeitando a saia depois de calçar os sapatos, quando bateram na porta.
- Sou eu, minha filha! – Disse Dona Amelia.
- Pode entrar. – Respondi e me virei na direção da porta.
Minha sogra mal tinha entrado quando arfou.
- Katerina... – Murmurou e não falou mais nada, mas seus olhos estavam marejados, assim como os de minha mãe.
Eu senti meu rosto corar na hora. Não estava acostumada a ser elogiada, mesmo que de forma muda, e olha que Alex sempre fazia questão de dizer o quanto eu estava bonita, mesmo que eu estivesse usando camisa de banda de rock e legging para ficar em casa.
- Meu Deus, olha que noiva linda você é! – Ela continuou depois de um tempo e veio para perto de mim, ver o vestido e os detalhes do véu. – Quando Liv me descreveu o vestido eu jamais esperaria que fosse assim. – Continuou falando.
- Dona Amelia, por favor não chore agora. – Pedi com a voz embargada, quase chorando junto com ela.
Vi minha sogra parar, respirar fundo e contar até dez, antes de abrir os olhos novamente.
- Vamos deixar o choro para o momento certo, não? – Disse com a voz não muito estável.
- Seria muito bom, ou Chelsea e Margot me matam! – Brinquei balançando as mãos na frente do meu rosto, tentando me acalmar.
- Bem, estou aqui com uma missão, e, talvez, um pedido. – Começou minha sogra. – Eu não tive filhas, como você sabe, então, não tenho para quem dar as coisas de mulherzinha, como bem falam meus filhos, que tenho e que herdei de meus pais. Assim, estava pensando nessa semana sobre uma joia em específico que tenho e que, caso tivesse uma filha, gostaria que ela usasse no dia de seu casamento...
Estava curiosa com a caixinha que agora ela me mostrava, era de veludo branco, no formato de coração.
- Você já tem todas as coisas da tradição?
Olhei para minha mãe, para confirmar.
- Bem, Dona Amélia, eu não pensei muito nisso, mas tenho a coisa nova: que são o vestido, sapato, véu e a coisa azul é o meu anel de noivado e uma das flores do buquê... não pensei na coisa velha ou na emprestada. – Falei sem graça.
- Que bom! – Ela disse e arrancou uma reação de estranheza em minha mãe. – Eu tenho a coisa que falta. – Estendeu-me a caixinha de joias. – Esse par de brincos será a sua coisa velha e a coisa emprestada. Uma pequena história, eles pertenceram à bisavó de Jonathan, foi um presente do então noivo a ela, passou pela avó dele e foi entregue à Dona Ilsa, quando ela se casou. No dia de meu casamento, ela me presenteou com estes brincos, para serem a minha coisa velha... como não tive filhas para ser passado para elas, estou te emprestando, Katerina e ficaria muito honrada se você pudesse usá-los hoje, no dia do seu casamento com o meu primogênito.
Não tinha como recusar um pedido desses.
- Mas é claro que vou usá-los, Dona Amélia! – Comentei ao pegar a caixinha e abri-la, para me deparar com um par de brincos de pérola, rodeados com pequenos diamantes. Eles eram o encaixe perfeito para a headband que eu usaria. – Eles são perfeitos. – Comentei ao começar a colocá-los na orelha.
Dona Amelia observou o cuidado que eu tive as peças, e depois ficou admirada quando viu que seriam complementares com a peça que usaria para segurar meu véu. Ela acabou por ficar por perto e auxiliar minha mãe para colocar o véu em minha cabeça.
Quando, enfim, fiquei pronta, faltavam dez minutos para o início da cerimônia, eu não tive coragem de me ver no espelho, mas a julgar pelos olhares que minha mãe e minha sogra me davam, eu deveria estar bonita.
- Obrigada pela ajuda. – Agradeci de coração, abraçando Dona Amélia. – E, também pelos brincos.
— Você,Kat, é a noiva mais bonita que já vi. – Comentou e iria me abraçar novamente, se não tivessem batido na porta.
- Amelia, você está aí? – Sr. Pierce chamava pela esposa. – Está na hora de irmos para o local da cerimônia. Diana, você também.
- Bem, minha querida, te vejo no altar. Estou ansiosa para ver a reação de meu filho ao te ver. – Dona Amelia disse e me abraçou, antes de sair para acompanhar o marido, ainda pude escutar: — Não, Jonathan, você não pode ver a Kat ainda. Só quando ela caminhar até o altar.
- Meus sempre curiosos sogros. – Murmurei feliz ao constatar que até em uma ocasião como essa, eles não mudavam nada.
- É a minha deixa também KitKat. – Minha mãe que tinha ficado estranhamente calada falou. – Assim como Amelia comentou, você é a noiva mais bela de todas, filha. – Disse com os olhos marejados e me deu um beijo na testa, antes de sair para o corredor.
Fiquei alguns segundos sozinha, e, quase morta de curiosidade, estava para me virar na direção do espelho quando bateram na porta.
- Entre. – Tentei falar, mas minha voz falhou. Então decidi por ir até a porta, a esta altura, jamais seria Alex. E assim que abri, vi meu pai. – Isä! – Murmurei.
Meu pai sempre foi um homem calmo e centrado, não sei se sua personalidade sempre fora assim, ou se os anos como engenheiro na Fórmula 1 o fizeram ser assim para lidar com toda a pressão de um fim de semana de corrida.
Lembro-me que há três anos, sua expressão também era calma, quando chegou na minha casa para me levar até a igreja onde me casaria. Contudo, hoje não estava assim. Assim que me viu, vi algo brilhando em seus olhos, e na mesma hora, um bolo se formou em minha garganta, pois a vontade de chorar veio com força.
- KitKat. — Ele falou com a voz embargada e abriu o restante da porta.
Hesitante, dei o passo que faltava para encontrá-lo no corredor.
- Olhe para você! – Ele falava em finlandês. – Está muito bonita, minha filha.
Para tentar desviar o foco de mim, comentei casualmente:
- E pensar que achei esse vestido por sorte com menos de três meses para o casamento.
- O vestido também é bonito, filha, mas digo que você nunca esteve tão bela quanto agora por conta do sorriso que leva, este sim chegam aos seus olhos que exprimem a felicidade incontida que sente. – Ele falou me pegando de surpresa.
- Achei...
- KitKat, uma noiva pode usar o vestido mais bonito do mundo, feito só para ela, mas se ela não estiver feliz e certa do que está fazendo, jamais será bonita. Você poderia estar usando uma das suas muitas camisetas de banda de rock, sua camisa da McLaren ou o uniforme da Seleção Finlandesa de Hockey para se casar, e ainda sim, seria a noiva mais bela de todas. Porque nada se compara a esse seu sorriso, filha. Nada. – Ele terminou e me deu um beijo na testa.
Senti meu rosto ficar ainda mais vermelho, e senti algo mais, minhas bochechas tensionadas, em um sorriso largo e sincero que eu nem sabia que estava ali.
Papai estendeu braço, me indicando que era para segurar ali, aceitei em uma batida de coração.
- Agora, filha, não se esqueça de olhar para frente, todos merecem ver esse sorriso.
Olhei para ele e, brincando, perguntei:
- Até mesmo o Surfista?
Meu pai, entrando na brincadeira, apenas respondeu:
- Se ele sobreviver à visão que é você para chegar a entender que esse sorriso hoje é só para ele, ele terá sorte.
Iria rir, mas outra risada chamou nossa atenção, era Liv, que, quase camuflada na ponta do corredor, registrava nossa conversa em fotos.
- Loira Aguada, você deveria estar tirando foto do noivo agora! – Falei.
- Eita, täti, eu já fiz isso. As fotos de agora dele, são do fotógrafo... mas esse momento ele não teve... assim como não teve quando o tio encontrou com a Dona Amelia... – Comentou e saiu correndo.
E essa fala dela me deixou além de curiosa. Se aqui quase acabou em lágrimas, como será que foi do outro lado da casa? Foi papai quem me tirou da minha contemplação, ao me chamar:
- Pronta, filha?
Engoli em seco, e acenei que sim.
Caminhamos de braços dados pela casa, até que chegamos na porta do estúdio de Dona Amélia, foi dali que todos saíram, pois todo o caminho até o altar começava ali, mesmo que os convidados só fossem ter ciência quando descêssemos por uma escada que levava ao ponto exato onde colocamos o altar, que era onde o sol batia de forma indireta, iluminado de dourado o caminho e nos dava uma vista deslumbrante de toda a parte baixa da Califórnia, chegando ser possível ver o oceano ao fundo.
Meu buquê me foi entregue na porta, para que as flores não murchassem antes da hora, e, com um sincronismo perfeito, começamos a descer, faltando uns cinco passos para que a área do altar ficasse visível, a música que escolhi para que entrasse começou a tocar.
- O tema da Fórmula 1? – Papai me perguntou.
- Por que não? Não é esse o esporte que move a nossa parte da família? – Respondi e ergui a minha cabeça, era hora de me apresentar para todos os convidados e para minha família, que eu já podia ver, estavam de pé, só aguardando que eu aparecesse.
E, assim que fiquei frente a frente com o altar, notei que não era aquilo que tínhamos planejado. Era algo ainda mais deslumbrante.
Onde era para ter uma mesa sendo coroada com flores, havia um belíssimo gazebo, todo adornado com pequenas luzes e as flores que compunham meu buquê e que estavam bordadas no meu véu.
- Mas... – Murmurei ao ver a versão final de tudo o que – não – fora planejado por mim. – Quem?
- Até onde sua mãe me contou, foi Alexander quem desenhou e fez esse gazebo.
Eu estava embasbacada com a visão, deslumbrada com a beleza do gazebo e do resultado final, e, de uma forma, estava até mesmo fascinada por Alex ter feito tudo aquilo, como uma surpresa para mim.
E, por falar nele, depois que meus olhos percorreram toda a extensão da nossa nave improvisada, que avistei todos nossos convidados, que tinham uma expressão de felicidade em seus rostos sorridentes, meus olhos caíram nele, no meu noivo.
De início, ele estava de costas para mim, mas, como se eu o tivesse chamado, ele se virou no exato instante em que eu passava pela primeira coroa de flores que demarcava o início do tapete dourado.
Não sei como era possível, mas seu sorriso era imenso, genuíno, alcançava seus lindos olhos azuis, que, no exato momento em que me viram, brilharam de felicidade e, sem vergonha nenhuma, notei que ele chorava de alegria.
Sorri na sua direção, tentando segurar as lágrimas que formaram em meus olhos ao ver a sua reação, e quis mais, quis apressar meu passo para que pudesse chegar ainda mais rápido ao seu encontro, porém, alguém tinha que ser a voz da razão nesse momento, e aqui foi meu pai, que manteve o passo constante e o braço segurando o meu, até que finalmente estava lado a lado com Alex.
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Alexander
Nunca o tempo passou tão devagar. Vaguei pela casa por um bom tempo, escutei meu irmão reclamar enquanto assistia TV, ouvi meus padrinhos comentando algo e, cansado de não ter nada para fazer, resolvi ir para a academia, porque, pelo menos assim, o tempo passaria sem que eu notasse.
Fiquei por quase duas horas lá dentro, quase me levando ao desgaste só para não ter que ficar pensando no que estava acontecendo no Rancho.
Mas foi-me impossível. A cada exercício, a cada série que eu terminava, minha mente vagava.
Eu precisava saber se a Kat tinha dormido bem.
Se ela estava calma.
Se ela tinha comido algo, porque eu a conheço e sei que ela não come quando está ansiosa.
Se ela estava tendo mais paciência do que eu com essa hora que não passava...
Quase às onze e meia, meu irmão apareceu.
- Se você não quiser se casar fedido como um gambá, creio que deve ir tomar um banho. Saímos em meia-hora.
Fui para o quarto tomar um banho, aparar a barba, adiantar o pouco que eu podia.
Quando saí do banheiro, meus olhos pousaram nas malas que levaríamos para nossa lua de mel que Kat já havia deixado prontas.
- Péssima hora para pensar nisso. – Murmurei.
Acabei de me arrumar, peguei as alianças e outra caixinha que seria só de Kat e saí para o corredor.
Na garagem, encontrei com Will.
- Segure isso. É a sua responsabilidade. – Entreguei as alianças a ele.
- Duas caixas?
- Uma é surpresa para a Kat. – Falei e na distração de meu irmão, tomei a chave de sua mão.
- Era para eu te levar.
- Não vou arriscar sofrer um acidente com você dirigindo. Já basta a brincadeira que fizeram na noite passada. – Falei e bati a porta do carro.
Will entrou no carona, reclamando como sempre, com pouco, Matt e Benny também vieram.
E, antes que me desse conta, havia uma fila de uns 10 carros nos seguindo. Os homens enfim liberados para chegarem.
Não estava prestando atenção na velocidade que atingia, só queria chegar logo, quando Will chamou minha atenção.
- A Kat quer ir para o altar, não para o velório, Mano. Tira o pé um pouco.
Levantei o pé, praguejando que ele já havia sacado que era só falar o nome da minha esposa que eu atendia.
E, uma hora e meia depois, chegávamos ao Rancho.
Fui recebido por minha mãe e por Elena, que foi quem me informou onde Kat estava.
- Setä! Levaram a täti e trancaram a porta do quarto! Ninguém pode entrar lá! – Ela disse esbaforida.
Minha mãe segurou um sorriso e depois nos levou para a cozinha, onde comemos algo.
Vi que meus sogros foram para outro cômodo, provavelmente para conversarem sobre Kat longe de mim e eu me vi cercado dos nossos convidados especiais, seja a turma do surf que já tinha chegado, seja as amigas fiéis de Kat e, claro, nossas famílias, que hoje passariam a ser uma única família.
Um detalhe que me chamou a atenção foi Liv, ela que sempre foi a sombra de Kat, estava por aqui, câmera em mãos e, de tempos em tempos, levava o objeto à altura dos olhos, fazia o foco e pressionava o obturador. Assim, que ela parou do meu lado, creio que focando nos meus pais, perguntei:
- Foi expulsa de ser o grude de sua tia hoje?
Ela me olhou espantada e, até mesmo um tanto sem graça.
- Não. Eu só tenho algo mais importante para fazer.
- Que seria? – Perguntei, era mais fácil conversar com Liv, ela estava estranhamente calma, apesar de toda a movimentação ao redor. E a garota, ao invés de me responder com palavras, aponto para a câmera que carregava. – Fotos?
- Vamos dizer que essa é a minha visão desse casamento. O meu presente para vocês, setä! – Comentou baixinho, ficando ainda mais vermelha.
E eu não soube o que falar. Minha sobrinha tinha acabado de me surpreender.
A hora passou, as mulheres foram se arrumar, os homens ficaram jogando conversa fora por mais um tempo, até que Lauren, que já estava no Rancho desde cedo para organizar os últimos detalhes, me chamou.
- Bem, Alexander, Katerina já está se arrumando, é a sua vez.
E, mais por instinto, do que por curiosidade, caminhei na direção do quarto que divido com Kat, só para ter meus passos impedidos por cada mulher que estava nessa casa quando parei em frente a porta.
- Nem pense nisso! – Pepper gritou.
- Pode sair daí, Tatuado! – Pietra, saída sei lá de onde, estava quase me arrancando dali.
- Nem pensar que você vai entrar nesse quarto e estragar toda a surpresa. – Vic disse com Seb nos braços.
E eu fui arrastado corredor afora por todas elas e por minha mãe e avós que falavam que era muito bom eu não dar uma de esperto e tentar bisbilhotar o que Katerina estava fazendo.
- Minha roupa está lá. – Foi tudo o que eu pude dizer, já na sala.
Elas pararam e ao fundo escutamos um bater de palmas e Liv passou igual a um foguete por todos nós, câmera no pescoço e gritando pela tia.
- Ela vai trazer o que você precisa. – Dona Diana me informou.
Me joguei no sofá e esperei, Liv não saía do quarto e quando dei por mim, minha outra sobrinha apareceu.
- Oi, setä! – Disse Elena.
- Oi, Leninha! – Cumprimentei de volta e olhei para a garotinha. E ela estava parecendo uma fada que havia saído de alguma história infantil. Usava um vestido branco que ia até o chão, a barra do vestido estava coberta por um bordado de flores, todas na cor violeta, e uma faixa da mesma cor transpassava sua cintura. Seu cabelo, tão loiro quanto o da tia, estava preso em uma trança, e a cada interseção havia uma flor. As flores, notei, eram as mesmas que adornavam o gazebo lá fora e faziam parte de toda a decoração do casamento, inclusive de nosso convite.
- Você está muito bonita, Lena. – Falei para ela.
E, ao contrário do que ela sempre fez, dessa vez não teve voltinha para me mostrar o vestido, ou ela não veio correndo para pular em mim, muito calmamente ela se encaminhou para o sofá e se sentou do meu lado com cuidado.
- Mamãe falou que eu tenho que ter muito cuidado hoje, que não posso sujar minha roupa ou estragar meu cabelo, senão vou estragar o casamento e o senhor e a täti vão ficar chateados comigo.
Eu duvidava que a Kat iria ficar com raiva de Elena se ela aparecesse descabelada ou com uma mancha no vestido, mas como foi Tanya quem deu a ordem, preferi ficar quieto e não falar nada.
Assim, enquanto esperava por Liv, fiquei conversando com Elena, ela sim, era a única que continuava normal diante de todo esse caos organizado que era o dia de hoje, e, assim, foi me contando tudo o que eu havia perdido no dia anterior e, também, os detalhes da sua ia ao Grande Prêmio do Canadá.
Elena estava me contando como seu novo piloto favorito perdeu a corrida, quando Liv apareceu, carregando meu terno.
- Setä, está na sua hora de se arrumar. – Ela falou solene.
- A Kat...
E ela abriu um sorriso enorme.
- Está quase pronta. Então se apresse. A Vó Amelia disse que era para o senhor se arrumar no quarto da piscina coberta.
- Tudo bem.
- Ela deixou tudo pronto lá para o senhor.
Elena que estava do meu lado, me deu um abraço e falou que iria me esperar ali para contar o final do Grande Prêmio e logo depois me vi sendo escoltado para fora por meu pai. No caminho encontrei com meu sogro que parecia que brigava com a gravata e minha sogra que apenas falava:
- Nem pense em desmanchar esse nó, Jari.
Só para fazer o tempo passar, tomei outro banho e quando estava quase vestido, só com a gravata em mãos, porque eu não sabia dar o nó da borboleta, eis que alguém bate na porta.
Era a minha mãe e como o noivo não tem a tradição de que só pode ser visto quando está no altar, ela deixou a porta aberta.
- Mas a senhora já está chorando, mãe? – Perguntei assim que ela entrou no quarto, secando com cuidado embaixo dos olhos.
- Acabo de sair de perto de Kat. E você nem consegue imaginar como ela está bonita, meu filho.
Se antes eu tentava não pensar em como Kat iria estar vestida hoje, agora me era impossível não pensar, ainda mais que faltava menos de 30 minutos para a cerimônia começar.
- Acho meio difícil ela estar ainda mais bonita.
- Quero ver a sua reação quando a ver. Vai mudar de opinião rapidinho. – Ela comentou e logo em seguida olhou para minhas mãos. – Problemas com a gravata?
- Nunca aprendi a dar esse nó. – Falei.
- Bem, vamos dar um nó na sua gravata pela última vez. – Disse minha mãe, um tanto nostálgica. – Você se lembra da primeira vez que usou uma gravata?
- Uhn... no aniversário da vó Ilsa? – Perguntei em dúvida, eu não sabia quando exatamente foi a ocasião, mas me lembrava perfeitamente de sentir como se fosse sufocar.
- Sim, você tinha só seis anos. Brigou o tempo todo com a gravata e depois acabou por tirá-la e amarrá-la na cabeça. – Ela riu. – Claro que no dia eu não ri com o que você havia feito, mas também, obrigar uma criança a usar gravata não foi a minha melhor ideia como mãe.
- O Will escapou dessa.
- O primogênito geralmente é a cobaia do casal. E você...
- É, eu entendi. – Tive que rir. – Deveria cobrar isso do Will, ele se livrou de um monte por minha causa.
- Talvez ele fale sobre isso no discurso de hoje.
- Ele não me envergonhando já está de bom tamanho. – Comentei sombriamente. – Mas se ele não segurar a língua, quando for a vez dele, eu posso me esquecer das boas maneiras também...
- Com coisa que Katerina vai deixar. – Disse minha mãe com convicção.
É, ela não deixaria. Jamais.
- E por falar na Kat... – Tentei a sorte. – Alguma dica para me preparar para o que vou ver?
Minha mãe riu e ao fundo escutei uma outra risada, mais baixa e mais musical. Levantei a cabeça e vi Liv com a câmera apontada para nós.
- Pelo visto eu nem preciso perguntar de novo. Estão todas contra mim. – Falei mais para Liv do que para minha mãe.
- E você acha que nós decepcionaríamos a Katerina? Ainda mais hoje, Alexander?
- Achei que pelo menos teria alguém do meu lado... – Apontei para Liv.
Minha mãe seguiu o meu olhar e encontrou uma Olivia com um discreto sorriso no rosto.
- O que tem a dizer em sua defesa, Loira Aguada? – Perguntei.
- Que hoje eu sou só uma sombra, não estou do lado de ninguém. – Ela disse.
- Por alguns minutos vai escolher o lado da sua avó americana e vai tirar umas fotos para mim.
E foi o que Olivia fez, até que Lauren nos chamou para fazermos o cortejo de entrada.
Olivia nos seguiu por um tempo e assim que conseguiu as fotos que queria, e, também conseguiu irritar Pietra ao chamá-la de tia, o que arrancou risadas de todos os nossos padrinhos, passou a passos rápidos por nós.
- Vai perder a entrada, fofoquita? – A mesma Pietra perguntou.
- Tem fotógrafo oficial para isso. Vou tirar outras fotos.
- Traduzindo, vou atrás da minha tia! – Kim comentou ao dar um tapa de leve na cabeça da sobrinha.
- Não estraga o meu cabelo, tio! Quer que eu seja a única descabelada da festa?
- A Elena vai cuidar disso.
- Ah, mas não vai mesmo! Tem gente tomando conta dela com olhos de águia. – Respondeu e subiu os degraus correndo, quase tropeçando na barra do vestido e caindo, para logo em seguida soltar um “eita” e se equilibrar no salto que usava novamente.
- Ligada nos 220 volts, como toda a família. – Comentou a minha mãe quando a viu entrar na casa.
A procissão começou a andar, o primeiro casal de padrinhos, foi autorizado a parar na ponta do tapete dourado e atravessá-lo.
E, assim, um por um, dos seis casais de padrinhos, passou por baixo da armação de flores e seguiu para o altar.
Eu, de braços dados com minha mãe esperava a minha vez de acabar de descer a escada, e quando meu pai, de braços dados com minha sogra, acabou de chegar ao altar, os acordes de Nothing Else Matters começaram, sendo liberada a nossa descida. E foi só aí que eu percebi que estava nervoso. Minhas mãos estavam frias e suadas.
- Por que tão nervoso? – Questionou a minha mãe.
- Não tenho certeza... talvez com medo de fazer algo errado.
- Você não vai fazer nada de errado hoje, meu filho. – Ela falou e parou no último degrau, se virando para mim e depois de um sinal, fez com que eu me abaixasse e me deu um beijo na testa. – Hoje não é dia para nervosismo, mas sim para alegria.
Voltamos a caminhar e logo estávamos na frente do gazebo, o ar meio etéreo que as flores deram combinado com o pôr do sol, parecia que tinha nos transportado para outra dimensão.
Minha mãe me deixou ao lado do altar e foi ficar ao lado de meu pai, pegando a mão dele, um sorriso imenso estava estampado no rosto de cada um.
Respirei fundo e como havíamos combinado, eu só estaria autorizado a ver Kat quando ela parasse ao meu lado, quando o Sr. Nieminen me passasse a mão dela. E, assim, esperei. Ora esfregando as mãos, ora observando os nossos padrinhos, para ter noção do que eles estavam vendo, uma certa hora, ainda mais nervoso com a demora da noiva, me peguei alisando a gravata, o que arrancou risadas de meu irmão.
- Calma, mano, ela não vai fugir. O carrão dela está em Los Angeles e não temos nenhum carro de rally na propriedade. – Ele brincou e escutei as risadas das madrinhas.
Respirei fundo e tentei me concentrar que tudo estava dentro do nosso plano de casamento, que tinha que ter essa pausa, até porque Kat estava em algum lugar, descendo as escadas com um vestido de noiva e provavelmente calçada com um salto imenso que só ela saberia como usar.
Porém, no fundo, parecia que eu sabia que ela estava vindo, parecia que sabia que a cada segundo ela estava mais perto, e quando o tema da Fórmula 1 começou a tocar, com as devidas risadas abafadas de Mel, Pietra e Vic, eu tinha certeza de que ela estava quase ali.
Nós prometemos manter a postura escolhida, até porque tinha toda a questão da grande revelação da noiva ao noivo... mas foi impossível.
O mistério já tinha durado tempo demais.
E, sem pensar muito, depois de observar as feições dos padrinhos, me virei.
E Kat estava encarando, com olhos arregalados o gazebo. Suas orbes lilás percorriam os detalhes, o tamanho e ela, um tanto incrédula, tentava entender como aquilo pudera parar ali.
Vi meu sogro sussurrar algo no ouvido da filha e ela abrir um sorriso ainda maior, para então, observar os presentes.
Ela viu um por um, para alguns, que eram mais queridos, ela sorria e meneava a cabeça, depois sua atenção se voltou para o altar e, por fim, parou em mim.
Por um breve segundo notei que ela ficou curiosa com algo, mas logo suas feições se suavizaram e, quase que ela sai puxando o pai pelo corredor afora. Ainda bem que meu sogro manteve o ritmo dos passos e a trouxe devagar até o gazebo, assim, não somente eu, mas todos os convidados puderam apreciar a visão que era Katerina vestida de noiva.
Eu já havia visto Kat vestida de noiva, em uma foto, que foi entregue a ela quando tentaram suborná-la por informações, logo que nosso relacionamento começou, quando observei a foto, tudo o que eu vi era que ela, naquele momento, parecia uma deusa escandinava com o vestido mais certo e os cabelos soltos.
Mas nada poderia me preparar para o fato de que hoje ela estava ainda mais bela do que naquela foto.
Katerina estava radiante. Exalava alegria, beleza, elegância a cada passou que dava.
E, tardiamente percebi uma coisa: seu sorriso mais bonito era direcionado a mim.
E, meus olhos que estavam úmidos, extravasaram a alegria com choro.
Se alguém apostou que o noivo não ia chorar, perdeu.
E, finalmente ela chegava ao meu lado, ainda sorrindo e, assim como eu, chorando também.
Meu sogro largou o braço da filha e estendeu a mão na minha direção, peguei a sua e com um aperto firme, tentei transmitir confiança a ele, e a certeza de que tomaria conta de sua filha como se fosse o meu maior tesouro, o que ela era.
E o Sr. Nieminen só me disse a seguinte frase:
- Tome conta da minha KitKat, é tudo o que te peço. – E me entregou a mão dela.
Kat se virou para o pai e, contrariando o que tínhamos combinado, abraçou-o apertado, murmurando algo em finlandês quando desfez o abraço com lágrimas nos olhos.
- Seja feliz, minha filha. Para sempre como está sendo agora. – Ele respondeu em inglês, quando deu um passo para trás e depois seguiu para o lado da esposa.
Katerina, respirando fundo, se virou para mim, olhos marejados e um sorriso imenso no rosto.
- E finalmente nos encontramos aqui!
- E eu tenho te esperado por aqui por uma eternidade. – Murmurei antes que nos virássemos para o padre.
- Sábia escolha de palavras. – Ela comentou de forma misteriosa, como se fosse algo só nosso.
E no fundo era.
Porque assim como eu tive certeza de que eu já a conhecia quando ela passou por mim no calçadão de Venice, ela também sabia quem eu era antes mesmo que eu me apresentasse.
Porque estamos nos encontrando pelos séculos em busca de nosso final feliz.
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Katerina
Eu não saberia dizer o que foi o mais difícil nos últimos minutos, se foi controlar a velocidade de meus passos enquanto eu cruzava o tapete dourado que combinava com toda a decoração, ou se foi dizer muito obrigada ao meu pai, quando ele “me entregou” à Alexander.
Para a última um enorme nó se formou em minha garganta. Era como seu eu tivesse um milhão de agradecimentos presos em minha garganta, mas não conseguisse expressá-los.
Até porque não há muitas palavras que possam exprimir o quão grata eu sou por tudo o que meu pai fez por mim.
Que meus pais fizeram.
Assim, apenas o abracei da forma mais apertada que consegui, agradecendo a ele em cada idioma que eu sabia, agradecendo por tudo, mesmo sabendo que isso não era o suficiente.
E ele, ao me soltar, apenas pediu que eu fosse feliz.
E esse pedido dele significava tanto! Mas tanto!
E, quando ele se afastou, indo ficar ao lado de minha mãe, eu pude enfim observar Alex. Seu sorriso que era espelhado em seus olhos, sua postura de quem tinha ganhado o melhor e maior presente do mundo.
- E finalmente nos encontramos aqui. – Falei ao pegar a sua mão.
- E eu tenho te esperado por aqui por uma eternidade. – Ele murmurou os dois primeiros versos de Everlong do Foo Fighters para mim.
E tais versos nunca falaram tanta verdade.
- Sábia escolha de palavras. — Respondi, pensando em cada passado que eu revivi nos primeiros meses de nosso relacionamento. Relembrando cada vez que a promessa de que seríamos felizes para sempre era feita.
E algo dentro do meu peito se aqueceu.
Pois o nosso “felizes para sempre” começava agora.
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