Presente de Natal.

Por Pikenna

One-shot


Uma mulher caminhava pela praia deserta. Seus pés descalços deixavam pegadas pequenas na areia, mas logo, estas eram apagadas pelas brandas ondas que o calmo mar lançava. O vento frio e ameno brincava com as longas madeixas negras da jovem, as quais contrastavam com sua pele alabastrina.

Seus olhos verdes fitavam a imensidão negra, a qual era iluminada apenas pela grande e branca lua cheia. Nem mesmo as estrelas se faziam presentes naquela noite, escondendo-se atrás de algumas nuvens passageiras.

Seus devaneios compeliam sua mente a trazer lembranças adormecidas e esquecidas no tempo. As respostas que buscava nunca foram encontradas. Já nem sabia mais o porquê de estar vagando sozinha pela praia, naquela noite que os humanos consideravam tão especial.

Subitamente, ela escuta um acalanto, dissipando suas divagações. Suas pernas param de conduzi-la a um destino incerto. Aquela música vai se tornando mais nítida e de imediato, ela reconheceu-a. Algum ser se aproximava dela, do maior perigo desse mundo encoberto pela escuridão.

A melodia continua a ser cantada. Se ela pudesse chorar, seus orbes estariam banhados em lágrimas. Se possuísse algum sentimento, provavelmente encontrar-se-ia derribada. Entretanto, nada pode acontecer a um monstro.

Seu fino braço é tocado por uma suave e quente mão. Conhecia aquele toque que lhe causava deleite, a voz calma que a fazia ter sonhos profanos e luxuriosos. Não era necessário se virar para confirmar o que já sabia. Apenas aguardou a canção terminar para proferir qualquer palavra.

_ Seres da luz deveriam proteger as casas dos humanos contra os monstros da escuridão, especialmente nesta noite de natal, onde todos estão reunidos, tornando-se tudo mais fácil e cômodo. – a voz dela saiu gélida e fúnebre.

_ Tenho permissão para estar aqui, foi um presente que ganhei.

_ Não tens medo de morrer? Esquecestes o que sou? – a mulher indagou ameaçadoramente.

_ A morte é uma passagem, não a temo. Tu é que não se lembra mais de quem és. A tua verdadeira identidade se perdeu na memória do passado. – respondeu a voz com sabedoria.

_ Por quê? Quais as razões o te trazem aqui? – perguntou ela, o receio contido na voz.

_ Por que questionas se tens a resposta?

_ Volte para teus amigos e permita que eu prossiga com a minha silenciosa caminhada. – falou a jovem com rancor e melancolia.

_ O ódio que nutres por mim vencerá o laço de amor que criamos juntos?

_ Este sentimento a muito deixou de habitar em meu coração. Partiu junto contigo...

_ Estás enganada. Tu que o trancastes, cercando-o com escuridão. Ele ficou no esquecimento, porém, ainda continua em teu interior, implorando para que o liberte.

_ Mentiroso! – gritou colérica – como podes dizer absurdos como este? Tu sabes que vampiros não amam ninguém e nem são capazes. Somos criaturas que vivem na penumbra da noite, aguardando humanos indefesos para sugar todo o seu sangue sem compaixão. Não passamos de monstros violentos, devoradores de alma.

_ Qualquer individuo desse mundo tem o direito de mudar seu próprio destino, os caminhos encontram-se ao redor de cada um, precisa apenas fazer as escolhas certas.

_ Eu não pude optar. Nasci “vampira” e assim continuarei pelo resto da eternidade. – respondeu a mulher tristemente.

_ Por que evitas olhar para mim? – indagou, mudando o rumo da conversa.

_ Não quero que vejas a dor que me tortura.

_ Que dor é esta que te afliges? – perguntou, preocupado.

_ Estou sedenta por sangue. – respondeu num sussurro.

_ Abstinência? – arriscou um palpite.

_ Uma resposta plausível, mas incorreta. Tentativa de controlar os desejos e instintos de um monstro.

_ Por favor, Akasha. Permitas que eu admire mais uma vez a tua beleza estonteante. – suplicou a voz.

A jovem se virou e deparou-se com um anjo. Orbes de um dourado brilhante, jamais vistos; cabelos negros, curtos e lisos, bagunçados em seu típico penteado; imensas asas brancas que ocultavam a magnífica lua cheia; pele bronzeada.

Os olhos de ambos se encontraram. O anjo viu a dor e as dúvidas que preenchiam os olhos esverdeados. Ainda com a mão segurando um dos braços da mulher a sua frente, puxou-a para perto de si, abraçando-a. Sentiu a pele fria tocar na sua quente, causando-lhe sensações estranhas, mas deliciosas.

Sem pensar, alçou vôo, subindo até estar na altitude almejada. Então, seguiu em frente, segurando fortemente a “vampira” que permanecia no silêncio. Deixou um suspiro lhe escapar dos lábios, chamando a atenção da mulher.

_ Para que lugar estás me levando? – indagou curiosa.

_ Verás. Será meu presente de Natal para ti. – respondeu apático.

_ Natal é para os humanos, essa comemoração tola não faz sentido para os vampiros.

_ Estás equivocada. – falou o anjo – Agora, feche seus olhos. Logo chegaremos ao lugar. Entretanto, não poderás saber a localização do mesmo, pois é sagrado e mágico. Seres da escuridão não têm o direito de obter conhecimento sobre tal.

Então, sem contestar, a jovem faz o que lhe é pedido. Deposita toda sua confiança nele, deixando-o guiá-la. Ficou vagueando em devaneios enquanto continuava a voar. Quando, subitamente, seus pés tocam o chão, ela sente algo macio abaixo dos mesmos, já que se encontrava descalça.

O anjo sussurrou em seu ouvido uma permissão para que ela abrisse os olhos e pudesse ver para onde ele a havia levado. Assim que moveu as pálpebras para cima, a fim de olhar aonde se encontrava, defrontou-se com uma paisagem magnífica.

Grama rasteira e verde, cobrindo todo o chão, o teto e as paredes que ladeavam o lugar feitas de pedras, estas compostas por diversos minerais como quartzo, jade, diamante e apatita. No meio daquela exuberância de cores, havia um lago de uma coloração diferente. Suas águas eram amareladas e brilhavam intensamente.

_ Ele está lotado de topázio, uma pedra amarela, causadora dessa estranha cor presente no lago. – disse o anjo diante do semblante de dúvida que a “vampira” fez ao ver as águas.

Ela nada disse, apenas continuou a observar a perfeita paisagem. Não havia nenhum animal presente, nem mesmo planta. A grama era sintética, bem perceptível. Fechou novamente os olhos procurando sentir o vento, porém, nada lhe tocava a tez. Virou-se para o homem fitando-o.

_ Não há vida aqui! O que ilumina esse paraíso? – ela indagou surpresa.

_ Como eu havia dito, aqui é mágico e sagrado, feito apenas para os imortais, devido à falta de oxigênio, como pode ter percebido. Há uma fonte de luz no interior do lago, capaz de iluminar tudo. – ele respondeu.

O anjo aproximou-se da jovem, encarando aqueles olhos sedutores e hipnotizantes. Ela desviou o contato, afastando-se dele. Sua mente trazia lembranças que ela queria esquecer. Aquilo a deixava angustiada e confusa.

_ Por que insistes em permanecer estóica? Tens conhecimento sobre meus sentimentos, mas os ignora e despreza. Por quê? – pergunta o anjo, indignado.

_ Não quero sofrer novamente. Foi muito doloroso ver-te partir, perde-te para a luz.

_ Dissestes que vampiros não possuem sentimentos. – disse com desdém.

_ Um dia, eu tive, porém se dissipou. Sabes o que restou? Ódio.

_ Sei o que se passa em teu coração, posso sentir. A mentira ronda em teu interior. Não me desejas mais?

_ Sim. Contudo, não retornarei ao passado que sempre almejei apagar. Meu amor por ti se foi quando me deixastes.

_ Ilusão criada pelo ódio. Abandona o passado, esqueça o futura, viva o presente, uma dádiva do Senhor Superior. Permita que meu amor cure a sua mágoa. Deixe-me amá-la mais uma vez.

_ Para depois desaparecer e largar-me no abandono, nas trevas?

_ Não. Nosso romance é proibido e condenado, sabes a lei. Entretanto, ficarei contigo por toda a eternidade. É uma promessa.

_ Como farás o impossível? – indagou sem esperança.

_ Este lugar será a tua morada. Eu a visitarei sempre que puder e cuidarei de ti. – respondeu o anjo contente.

_ E de que forma me alimentarei? Não há vida aqui!

_ Não se preocupe. Eu cuidarei disto, basta que confies em mim. Se aceitares, não poderás sair desse local. – ele alertou.

_ Eu tenho medo de me entregar ao amor. – a “vampira” confessou.

_ Não tema.

Ela não respondeu. O anjo tornou a se aproximar da jovem. Tocou-lhe a face fria, buscando os olhos esverdeados. A descrença da mesma ainda era grande. Ele encostou sua testa na dela, sem desviar o contato do olhar.

_ Dá-me tua permissão? – perguntou seriamente.

_ Sim. – ela respondeu convicta.

Então seus lábios se juntaram para um cálido beijo que foi se intensificando, tornando-se lascivo. O desejo reprimido por ambos há muito tempo explodiu, desencadeando uma necessidade incontrolável de carícias.

Passaram a noite de natal fazendo amor, aonde um completava o outro. Os corpos nus deitados sobre a relva um ao lado do outro em um forte contraste. Vampiro e anjo, escuridão e luz. O homem cansado depositou um leve ósculo nos finos e rosados lábios da jovem “vampira” e sussurrou para ela.

_ Te amo Akasha, para sempre.

_ Te amo Anauel, por toda eternidade. Obrigada pelo maravilhoso presente de Natal. – a mulher sorriu.

Ele correspondeu com um beijo ardente em um jogo de duas línguas, onde ambas se preocupavam em explorar cada canto da boca. E novamente se amaram, encerrando aquela data especial e mágica.

Notas finais
O nome do anjo, Anauel, foi escolhido especialmente pelo significado que esse nome tem. Não coloquei à toa.

Para quem tiver curiosidade:

O Anjo: Este anjo ajuda a encontrar a verdadeira espiritualidade e a obter sabedoria. Protege contra problemas de saúde, acidentes e conserva a paz nas famílias, neutralizando a maldade dos inimigos.

Categoria: Arcanjos
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