Presente de Grego, Entrega de Maroto (Marauders)
4 A Aterrissagem Forçada (Ou: Três Animagos de ressaca mágica)
A linha do horizonte, atrás deles, era uma lâmina de fogo dourado. O sol estava nascendo. E para criaturas noturnas, vampiros e trenós movidos a Magia Natalina, o sol não é um amigo. É um aviso de despejo.
— Pontas! — gritou Sirius, a voz rouca de tanto gritar contra o vento durante as últimas seis horas. — Acelera! Se o sol tocar os patins, a sustentação mágica evapora e nós vamos virar um meteoro de madeira e papel de presente!
Lá na frente, James – ainda na forma de um cervo majestoso, embora agora um cervo majestoso com a língua de fora e coberto de gelo – bufou. Acelerar?, ele pensou amargamente. Eu já estou correndo mais rápido que a minha vassoura Cleansweep!
Mas ele entendeu o recado. A bolha de calor ao redor do trenó estava tremeluzindo. A magia de Remus estava falhando. O trenó começou a pesar. Quatro toneladas pareciam oito.
— Estamos vendo a Oficina! — gritou Peter, apontando para a mancha escura no meio do branco infinito lá embaixo.
— Segurem-se! — alertou Remus, agarrando o painel de instrumentos com os nós dos dedos brancos. — A aproximação vai ser turbulenta! A aerodinâmica está comprometida porque o Sirius trouxe um pinheiro de lembrança do Canadá!
— Era uma árvore bonita! — defendeu-se Sirius, abraçado ao pinheiro pequeno que ocupava o banco de trás.
O trenó mergulhou. James, num último esforço heróico, angulou o corpo para baixo, usando a gravidade a seu favor. O vento uivava nos ouvidos deles. O chão se aproximava rápido demais. O pátio de obsidiana da Oficina crescia.
— TREM DE POUSO! — berrou Sirius, embora o trenó não tivesse rodas.
— Arresto Momentum! — Remus gritou, apontando a varinha para o chão.
O feitiço amorteceu a queda, mas não a anulou.
O trenó tocou o solo com um som que poderia ser descrito como "o fim do mundo em uma loja de móveis". Patins de ouro rasgaram a neve, levantando uma parede branca de três metros de altura. O veículo derrapou, girou 180 graus, derrubou uma cerca, atropelou um boneco de neve (que infelizmente era senciente e gritou um palavrão) e finalmente parou, fumegando, a apenas alguns centímetros da bota de couro de alguém.
Houve um longo momento de silêncio, interrompido apenas pelo som de peças de metal caindo no chão e o chiado do vapor.
— Todos vivos? — perguntou Remus, cuja cabeça estava enfiada dentro do saco de presentes vazio.
— Eu acho que engoli uma pinha — resmungou Sirius, cuspindo.
James se transformou de volta em humano. Ele caiu de cara na neve, os braços e pernas estendidos como uma estrela do mar.
— Minhas pernas... — gemeu James, a voz abafada pelo gelo. — Eu tenho quatro pernas a menos do que deveria. Eu não sinto meus joelhos. Alguém me traga um cubo de açúcar. Eu mereço açúcar.
A porta do trenó se abriu com um rangido triste e Peter caiu para fora, rolando até parar aos pés de James.
Eles estavam um caco. As vestes de Hogwarts estavam rasgadas, manchadas de fuligem de chaminé, baba de cachorro (culpa de encontros com cães de guarda), glacê de bolo e neve derretida. Sirius tinha um laço de fita preso no cabelo despenteado. Remus tinha uma marca de queimadura leve na manga.
Acima deles, a figura imponente de Klaus observava a cena. O sol finalmente rompeu o horizonte, banhando o pátio destruído com uma luz laranja suave.
Klaus não estava mais com o roupão. Ele vestia calças de lã grossa, suspensórios e uma camisa branca com as mangas dobradas. Ele segurava uma caneca fumegante e olhava para o trenó fumegante com uma expressão indecifrável.
Atrás dele, uma multidão de elfos tinha saído da oficina para assistir.
Klaus tomou um gole lento de sua bebida.
— Vocês arranharam a pintura no lado esquerdo — disse ele, calmamente.
Sirius, com um esforço sobre-humano, levantou-se, apoiando-se na lateral do trenó. Ele passou a mão pelo cabelo, tentando recuperar a dignidade Black, apesar do laço rosa preso na orelha.
— Isso não é um arranhão, Klaus — disse Sirius, ofegante, mas sorrindo. — É uma assinatura. Customização dos Marotos. De nada.
Klaus olhou para Sirius. Depois para James, que ainda estava deitado na neve murmurando sobre a injustiça de ser um animal de carga. Depois para Remus e Peter, que tentavam se limpar inutilmente.
— O saco está vazio — observou Klaus.
— Até o último presente — confirmou Remus, endireitando a coluna dolorida. — Tivemos um problema com uma casa na Austrália que tinha chaminé elétrica, mas Peter conseguiu desmontar o painel. E James teve que fugir de um bando de gansos selvagens na migração, mas... entregamos tudo.
O gigante de barba branca caminhou até o trenó. Ele passou a mão pela madeira chamuscada. Ele olhou para o odômetro mágico no painel.
Status da Missão: 100% Concluída. Nível de Magia Natalina Global: Restaurado. Nível de Caos: Crítico.
Klaus soltou um suspiro longo. O ar saiu de seus pulmões formando uma nuvem branca.
— Eu apostei com o elfo-chefe, Grodric, que vocês cairiam no Oceano Índico — confessou Klaus.
— Que falta de fé — resmungou James, levantando a cabeça da neve. — Nós somos grifinórios. Nós só caímos quando queremos. Ou quando a vassoura quebra.
— Grodric! — Klaus gritou para a multidão de elfos. Um elfo rabugento se adiantou, entregando a Klaus um saco de moedas de ouro com uma cara feia. — Nunca aposte contra a imprudência adolescente, meu velho amigo.
Klaus virou-se para os quatro rapazes. A luz do sol agora iluminava seu rosto plenamente. As olheiras profundas e a sombra cinzenta de depressão que pairava sobre ele horas atrás pareciam ter suavizado. Ele não parecia "feliz" no sentido saltitante da palavra, mas parecia... leve. Como se tivesse tirado uma mochila de pedras das costas.
— Vocês têm ideia do que fizeram? — perguntou Klaus, a voz grave.
— Violamos o Estatuto Internacional de Sigilo em cerca de cento e noventa países? — sugeriu Remus, preocupado.
— Provavelmente — Klaus deu de ombros. — O Ministério vai ter trabalho com os Obliviadores amanhã. Mas não é disso que estou falando.
Klaus estendeu a mão enorme e, com surpreendente gentileza, ajudou James a se levantar da neve. James cambaleou, e Klaus o segurou pelo ombro para firmá-lo.
— Eu faço isso há séculos — disse Klaus, olhando nos olhos de James, e depois para os outros. — E, pela primeira vez em mil e duzentos anos, eu pude sentar na minha poltrona, na frente da lareira, e apenas... assistir à neve cair. Eu ouvi o silêncio. Eu bebi meu hidromel sem olhar para o relógio.
Os Marotos ficaram quietos. A bravata habitual desapareceu por um momento. Eles viram, por trás da figura lendária, o homem cansado.
— Vocês não salvaram apenas o Natal para as crianças — continuou Klaus. — Vocês salvaram o Natal para mim. Eu tinha esquecido como era a manhã de Natal. A paz que vem depois da tempestade.
Sirius, que nunca sabia lidar bem com momentos sentimentais honestos, pigarreou e chutou um pedaço de gelo.
— Bom, sabe como é... Nós gostamos de voar rápido. E o James gosta de se exibir. Foi... foi divertido.
— Foi uma loucura — corrigiu Remus, sorrindo. — Mas foi uma boa loucura.
Klaus sorriu. Desta vez, um sorriso verdadeiro, que fez rugas aparecerem nos cantos dos olhos.
— Vocês estão imundos. Cheiram a rena e fumaça. E destruíram meu canteiro de flores de gelo na aterrissagem.
— Desculpe — disse Peter.
— Não peçam desculpas — Klaus riu, um som estrondoso. — Entrem. O café da manhã está pronto. E acho que, pelas regras da casa, quem trabalha na noite de Natal tem direito ao banquete dos Elfos.
Os olhos de Peter brilharam.
— Panquecas?
— Panquecas, waffles, bacon de javali mágico e chocolate quente que nunca esfria — prometeu Klaus.
Ele se virou e começou a caminhar de volta para a entrada da fortaleza, mas parou na porta e olhou para trás, para os quatro rapazes parados na neve iluminada pelo sol.
— Vocês vêm ou vão esperar o próximo Natal aí fora?
James olhou para Sirius. Sirius olhou para Remus e Peter. Um sorriso compartilhado passou entre eles. O tipo de sorriso que dizia: Nós acabamos de fazer a maior vigarice da história e saímos como heróis.
— Depois de você, Almofadinhas — disse James, mancando, mas com o espírito renovado.
— Cavalheiros primeiro, Pontas — retrucou Sirius, passando o braço pelos ombros do amigo para ajudá-lo a andar.
Enquanto entravam na Oficina, agora aquecida e cheia do cheiro de comida, a sensação de missão cumprida se instalou. Mas Sirius, observando Klaus caminhar sozinho na frente deles, sentiu uma pontada no peito. O velho estava feliz, sim. Mas assim que eles fossem embora... ele estaria sozinho naquela torre de novo. Por mais 364 dias.
Sirius parou por um segundo, olhando para as costas de Klaus. Uma ideia, mais brilhante que qualquer feitiço Lumos, acendeu em sua mente travessa.
— Ei, Remus — sussurrou Sirius.
— O que foi? O que você está planejando? — Remus conhecia aquele tom.
— Nós ainda não demos o nosso presente — disse Sirius, tateando os bolsos em busca de um pedaço de pergaminho. — E eu acho que sei exatamente o que um velho bruxo solitário precisa.
— Sirius, nós não temos dinheiro — lembrou Peter.
— Nós temos algo melhor, Rabicho — Sirius sorriu, e era o sorriso mais gentil que ele dera naquela noite. — Nós temos a nós mesmos. E acredite em mim, isso é um presente e tanto. Ou uma maldição. Vamos descobrir.
Eles entraram no calor da casa, deixando o frio do Ártico para trás, prontos para a última parte de sua aventura natalina: o encerramento.
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