Presas na Escuridão
1 Prólogo
Notas iniciais
— Acho que acertei um veio de carvão — exclamou Gerold repousando as mãos na cintura —, tragam uma lamparina!
O experiente mineiro pegou a lamparina a qual lhe alçaram, e começou a remover os resíduos das rochas que acabara de esmagar com sua picareta enferrujada.— O velho Gerold continua ligeiro! – disse um dos mineradores que se aglomeravam em torno de Gerold.
— O que posso ter de velho, tenho de esperto, meus caros. – respondeu secamente. — E digo mais, se pensam que vão roubar alguma joia que venha a aparecer... Pensem duas vezes... Não irei permitir que estraguem esta companhia mineradora com sua ganância imunda.
Gerold viera do império e trabalhava nas minas a seis luas, em busca de um pagamento gordo prometido pela União. Essa empreitada renderia um ano de peças de ouro sem precisar voltar a pegar em um cabo de picareta, e sua família poderia finalmente contar com sua presença paterna. Quando chegou ao assentamento a maioria dos trabalhadores eram prisioneiros locais, que foram sentenciados a escavarem os túneis para a mineração de carvão. Logo após a chegada de Gerold, outros grupos de mineradores foram enviados pela União, assim melhorando a qualidade do trabalho e diminuindo o furto de pedras preciosas, as quais eram encontradas eventualmente nas escavações e que deveriam ser entregues por lei aos soldados imperiais.
— Mas que provas têm disso, velho? — gritou uma voz ao fundo. — Além do mais, você sabe muito bem que a maioria aqui é prisioneiro. Fora, que a maioria dos trabalhadores estão desesperados para ganharem o dinheiro que foi prometido e ir embora daqui. Essas terras são amaldiçoadas pelos deuses! — completou o sujeito fazendo com que o grupo murmurasse palavras de consentimento.
— Pois fiquem sabendo que Dedo-quebrado está de olho — retrucou Gerold, que acabara de tirar as rochas que cobriam o recém-descoberto veio de carvão —, se ele pegar um de vocês roubando alguma pedra preciosa…
O veio do mineral era negro como a noite, mas continha pequenos pontos brilhosos que faziam com que se identificasse a sua autenticidade. Alguns dos mineradores já começavam a se dispersar, quando Gerold gesticulou nervosamente as mãos pelos ares sinalizando que todos minerassem a partir daquele ponto. Sua experiência neste ramo era vasta, e apesar da vigília e cobrança, todos seguiam as instruções de Gerold sem questionamentos.
O grupo de mineradores concentrou-se na parede na qual o velho acabara de encontrar o veio de carvão, e iniciaram seu processo de bate-bate, quebrando as rochas em torno do veio para depois acertar pontos específicos do minério, facilitando sua remoção em grandes pedaços. Gerold deixou o bando fazer seu serviço, enquanto descansava seus braços compridos e maltratados pelo tempo embaixo das minas, e bebia a água de um grande cantil que os trabalhadores carregavam junto do vagão de ferramentas.
Gerold estava exausto naquele dia. Trabalhara desde o amanhecer e ainda teve de fazer o transporte de uma grande carga de minério para a Máquina de Ferro, que chegara naquela tarde e iria levar de volta para o império o seu precioso combustível. Ele não sabia dizer se o cansaço estava deixando-o perturbado ou se os rumores, que estavam se espalhando entre os trabalhadores, eram verdadeiros. Mas uma coisa era garantida: sua mente estava sentindo os efeitos de seu transtorno e estava próxima a sucumbir ao temor da situação a qual se encontrava.
Havia algo naquela penumbra cegante das minas de carvão que lhe deixava transtornado, assim como a maioria dos trabalhadores, e a sensação de que estava sendo vigiado por olhos no escuro era constante. Algo sombrio e implacável, que parecia espreitar cada caverna daquele lugar. O túnel que estavam escavando agora era recente, e mal havia sustentações nas paredes, fazendo com que Gerold ficasse mais receoso com a situação de estarem ali. A única coisa que a mente do velho minerador pensava naquele momento, era como aquele dia estava sendo longo, e que só desejava sair dali o quanto antes e descansar seu corpo surrado.
Agora o suor tomava conta do corpo de Gerold, que já era um sujeito desagradável, e ficara pior desde que começara a trabalhar no assentamento de mineração. Seus cabelos estavam desgrenhados e endurecidos, parecendo um sem teto de Noster Amarathi, onde o número da plebe parecia aumentar a cada ano, mesmo com a ascensão do império. Seu corpo ficara esquálido, e agora nem se preocupava mais em usar proteção ao trabalhar nas cavernas do assentamento, andando com o peito nu, calças de couro, tão gastas que pareciam se desmanchar, e sandálias de palha.
“Cês devem achar mais carvão hoje!”, dissera Dedo-Quebrado no início da manhã, quando os trabalhadores se reunião para pegar as ferramentas no depósito. “Não quero ver cês voltando de mão vazia hoje hein!”. Gerold remoía as palavras do feitor, que andava pressionado pelo império e acabava descontando nos prisioneiros e empregados das minas.
— Ei! Pessoal! — gritou um dos mineradores que escavavam o veio. — Preciso de uma ajuda aqui. Acho que tranquei a picareta numa dessas malditas rochas...
Enquanto alguns riam e zombavam do seu companheiro, Gerold que observava de trás, foi ao encontro do minerador, que puxava sua picareta das rochas sem sucesso.
— O velho Gerold vai ajudar de novo… Afaste-se.
Apoiando os dois pés contra a parede rochosa, Gerold empunhou com as duas mãos o cabo da picareta. Olhou para cima, como se pedisse aos deuses que lhe concedessem a força que precisava, e voltou a olhar para seu objetivo, concentrando toda sua força em um único propósito.
— Ih! Nosso amigo Gerold vai quebrar a coluna rapazes! — gritou um dos trabalhadores que agora riam francamente.
Gerold então puxou com toda sua força o cabo da picareta. Sua visão girou como se houvesse dado um salto mortal, e parou quando suas costas se estatelaram no chão. As risadas ensurdecedoras ecoavam pelas cavernas da mina. Gerold levantou-se com seu dorso dilacerado pelo chão desforme das minas, e quando ia abrir a boca para dizer algo, notou que segurava o cabo da picareta, mas a junção de ferro da ferramenta permanecia presa às rochas.
— Essa porcaria prendeu de vez — disse Gerold soltando o bastão de madeira —, vou pegar um martelo. Quero ver ela resistir.
O velho minerador saiu às pressas de onde estava o vagão de ferramentas e pegou uma grande marreta enferrujada. Os outros trabalhadores permaneceram observando o que seu veterano iria fazer a seguir.
— Sim! Agora veremos quem vai ao chão, minha amiga! — gritou Gerold levando a grande marreta sob a cabeça e descendo-a rapidamente até chocar-se com o ferro emperrado.
Ao colidir-se com o que sobrara da picareta, os braços de Gerold vibraram em sintonia e o ferro que estava preso às rochas saltou ao chão fazendo um retinir agudo. Os mineradores gritavam e aplaudiam. Alguns até se aproximaram de Gerold, dando-lhe tapinhas nas costas machucadas, quando um dos trabalhadores que tinha grilhões nos tornozelos atirou-se sob o veio de carvão alucinadamente. Todos ficaram em silêncio e tentaram ver o que o sujeito estava querendo fazer, até que compreenderam. Havia algumas pedras preciosas na base do veio, provavelmente obsidianas.
— Malandro! Tá querendo pegar tudo é? — Um segundo minerador, este sem grilhões, jogou-se ao lado do primeiro, tateando freneticamente o solo.
Em um piscar de olhos, o bando todo estava aos gritos, puxões e empurrões, atirados ao solo competindo por quem iria pegar mais pedras. Um dos mineradores, em sua ensandecida cobiça, tomou a marreta de Gerold em um supetão, fazendo-o cair sentado em frente aos trabalhadores desvairados, que lutavam pelas riquezas encontradas nas minas. Esses caras vão acabar nos ferrando! Os guardas vão vir aqui com todo esse estardalhaço e vão nos prender tudo. O último que foi pego roubando do império perdeu os dedos, pensou Gerold que começava a se levantar vagarosamente.
O sujeito que tomara a marreta de Gerold chutava alguns mineradores no chão, e tomou a dianteira do grupo. Em frente ao veio, ele bateu duas, três vezes, e soltou a marreta ao chão. Este trabalhador era grande e tão forte quanto os homens das colinas de Tendras, as terras dos bárbaros, e não possuía grilhões. Portanto não se tratava de um dos prisioneiros. Agachado, o homem coletava punhados de obsidiana e colocava-as nos bolsos da calça enquanto o resto dos trabalhadores amedrontados apenas observava. Não me lembro desse cara aqui antes, pensou Gerold que, estava pasmo com a situação, acho melhor chamar os guardar antes que a coisa piore.
O veterano começara a correr quando um grito de pavor rompeu seus ouvidos:
— Pelos deuses! Não faça isso, por…
Gerold travou a musculatura das coxas parando seu movimento. Seus pensamentos giravam em sua cabeça, e tinha a sensação de que iria desmaiar iminentemente. Seus olhos se depararam com uma cena terrível, a qual ele nunca pensara que iria presenciar. Muito menos em seu trabalho rotineiro das minas de carvão. O brutamonte que acabara de espancar alguns trabalhadores e coletara as obsidianas, estava com a grande marreta enterrada no crânio de um dos trabalhadores, que tinha espasmos por todo o corpo e expelia sangue, junto de uma massa cinzenta de sua cabeça partida.
— Vamos pegar esse louco! É só um… — gritava um dos mineradores.
— Esse cara não é normal, vamos dar o fora daqui! — gritava outro.
Em uma grande explosão parte dos mineradores iniciaram uma debandada desesperada, enquanto outros começavam a cercar o seu agressor que tinha olhos injetados de sangue e salivava ódio puro. Gerold permaneceu em uma distancia segura e observava o embate que estava sendo travado. Três thorakitais passaram por Gerold aos tropeços em seus grilhões e tinham punhos cerrados com algumas das obsidianas que haviam gerado todo o tumulto. O veterano tentou pará-los para solicitar-lhes ajuda, quando a confusão entrou em seu ápice.
— Ah! — os gritos de outros dois mineradores retumbaram em sintonia pelas paredes rochosas, mesmo após seus corpos sem vida e sem cabeças se estatelarem ao chão cavernoso.
O brutamonte urrou e desferiu mais um golpe com a marreta em um trabalhador que se esgueirava às suas costas. Por sorte, ou talvez não, o minerador jogou-se ao solo fazendo o golpe passar por cima de sua cabeça e indo ao encontro do veio de carvão. As paredes pareceram vibrar com o golpe, e uma camada densa de poeira começava a tomar conta do túnel. Gerold agora só se preocupava com sua vida, quando percebeu que a fuligem que impregnava o ar começava a tomar uma forma sinistra de um rosto, fazendo o coração do veterano sair pela boca. Isso não pode tá acontecendo… Que porra é essa?!, gritou Gerold dentro de sua mente perturbada.
As pernas do velho minerador começaram a fraquejar, mas resgatando as últimas forças remanescentes conseguiu manter-se em pé. Foda-se… vou dar o fora daqui. Realizando uma meia-volta, Gerold postou-se a correr, contudo mal pudera avançar dez passos e seus pés deslizaram pelo solo como tentar capturar uma cobra do pântano com as mãos nuas. Apoiando as mãos no solo percebeu que ele estava molhado, mas não quis perder tempo tentando descobrir o que era. Apenas correu na direção oposta à poeira, onde quer que fosse dar.
Quando seus pulmões pareciam querer sair de seu peito, Gerold se recostou em uma das colunas de madeira do túnel. O corredor era escuro, e o pouco que conseguia enxergar era graças às luzes que vinham de onde acabara de fugir. Ao tirar as mãos de suas calças de couro, pode perceber que elas ficaram manchadas com um material escuro e pegajoso. Olhara para a palma de suas mãos e notou que elas estavam embebidas na mesma substância, até perceber do que se tratava. Tanto as mãos, quanto a parte de trás de suas calças, estavam empapadas de sangue fresco. Provavelmente fora o que causou seu tombo inesperado em sua fuga desesperada.
Como em um pesadelo a visão do veterano tornou-se turva. Na tentativa de safar-se das minas, Gerold andou aos tropeços pelo corredor sombrio que parecia sugar as forças vitais de seu corpo frágil e cansado. Conforme suas mãos tateavam as paredes em busca de um caminho, uma pesada gargalhada como a de um bêbado, ecoou pelas alcovas das minas, fazendo com que o corpo do mineiro fraquejasse de medo.
Aterrorizado, o velho minerador tentou novamente partir em disparada somente para abalroar contra a escuridão que o pressionava e cair mais uma vez. No entanto, agora não tivera forças para se reerguer. Este é o meu fim… Gerold de Abalm, pensou o veterano fechando os olhos e esperando pelo seu destino final. Mas ainda não era sua hora, pois pela ironia dos deuses, teria de sofrer mais um pouco.
Fale com o autor