Sentado em sua cama, Eric olhava para os pingos de chuva que caíam lentamente sobre o vidro. Era difícil para ele, pensar que tudo que estava acontecendo em sua vida era igual àqueles pingos. Desejava que as coisas acontecessem mais rapidamente, mas isso era o que menos acontecia. Se ele tivesse um botão para acelerar o tempo, ele agora que é um adolescente, seria já um adulto formado em astronomia. Também já teria uma casa e uma família com três filhos e um papagaio. Teria que ser uma ave já que ele era alérgico a pelos de cachorro e gatos. Provavelmente, neste exato momento estaria sentado num banquinho de madeira feito pelo sogro, e estaria olhando os flocos de neve caindo sobre sua varanda. Sua esposa chegaria com um copo de leite quente em mãos, e ela ficaria junto a ele, olhando para a perfeita vida que tinham.
Mas é claro que isso não estava acontecendo. Eric ainda era um branquinho magricela, com cabelos negros curtos (com um corte todo errado feito pela mãe) e ainda estava passando pela maldita adolescência.
Diferente de sua irmã gêmea perfeitinha, ele não era popular e tão pouco engraçado. Era praticamente um “Nerd”. Não importava quantas vezes tinha mudado de casa, ele ainda era o cara que normalmente andava com um grupo estranho na escola. E agora, mais uma vez, teria que passar por essa situação.
Eric havia se mudado há dois dias, numa cidade um tanto quanto estranha. Diferente do lugar anterior, a cidade era grande e parecia ficar acordada vinte e quatro horas por dia. Podia se dizer que era bastante agitada. E isto tinha pegado os irmãos de surpresa já que seus pais costumavam morar em cidades pequenas.
A única coisa que deixava Eric feliz nisso tudo, era pelo fato de ter um grande planetário perto de sua casa nova. O próprio pai havia avisado que o dono do lugar era de um amigo íntimo, e que se o filho quisesse trabalhar lá, seria maravilhoso.
E foi por isso que esse foi o único motivo que o fez vir de carro sem reclamar, diferente de sua irmã.
—Ei cabeção?! – Lilith aparece pela porta – A senhora Rebeca e o senhor Robson querem falar com a gente na sala.
—Por que você simplesmente nãos os chama de mãe pai?
—Porque eu não tenho dez anos pirralho! – ela mexia num celular cor-de-rosa.
—Se eu sou pirralho, então você também é idiota! – retruca subestimando a idiotice da irmã gêmea.
—Tanto faz! – Ela coloca a mecha loira detrás da orelha e faz cara de nojo para o garoto – Apenas venha logo cabeção! – coloca o celular na bolsa e sai.
Eric suspira, a garota era um saco. Sempre mimada pelo pai, ela ganhava tudo o que queria, por exemplo, o celular, o carro e o aparelho de som. Para piorar, a maioria das coisas era rosa. Lilith era praticamente uma patricinha nível máximo. E para a tristeza de seu irmão, parecia que todos a adoravam por isso. Na última escola, ela havia ganhado a miss “Padrão Perfeitinha para a Sociedade”, e por causa disso, todos ficaram puxando o saco dela, principalmente os próprios pais.
—Idiota... – Eric então se levanta e pega os óculos quadrado sobre a escrivaninha. Olha-se no pequeno espelho pendurado a parede, e faz uma cara deprimente. Aqueles óculos só serviam para deixa-lo inteligente e nada mais.
Suspira novamente. Era um completo fracassado.
Ele começa a observar os milhares de pôsteres de cientistas calados a parede. O rosto de Nicolau Copérnico era o que o mais inspirava. O cara tinha sido desprezado por todos e ainda assim tinha descoberto o ponto de partida da astronomia, que o Sol era o centro do sistema solar.
“Um dia também irei descobrir algo que o mundo inteiro ficara chocado” – pensa determinado.
—ERIC!! – desta vez era sua mãe chamando.
—Já vou! – apressadamente pega sua mochila azul marinho sobre a cama e desce correndo as escadas.
Chegando a sala, seu pai estava sentado em sua adorável poltrona preta, enquanto sua mãe permanecia em pé, criticando a minissaia ROSA de Lilith.
—É muito curta para ir pra escola! – dizia – Quase da pra ver sua calcinha!
—Todas estão usando assim senhora Rebeca – Lilith cruzava os braços e revirava os olhos indicando estar de saco cheio.
—Já disse para não me chamar assim! – estava nervosa – Você está parecendo uma idiota, com essa roupa curta sendo que está chovendo lá fora.
—Não está mais!
—Estamos atrasados... – interrompe Eric.
A mãe olha para ele e faz uma expressão de desaprovação.
—Eric querido, você não acha que está desengonçado com essas roupas?
Ele estava com uma calça jeans azul escuro, junto com sua camiseta cinza estampada com o rosto de Albert Einstein fazendo careta. Também usava um casaco marrom escuro. Era meio grande já que antes era de seu pai.
—Ele está ótimo, querida. – interrompe o próprio.
—Só porque ele está usando o casaco – a mãe retruca.
—Exato! – Ele pega o jornal que estava na mesinha ao lado e abre para ler.
Eric não deixa de sorrir. O pai podia mimar a chata de sua irmã, mas ele também o defendia sempre que necessário.
—Olhe querida! – o pai se levanta e mostra o jornal para a esposa – Uma gripe forte pegou alguns velhos na cidade – sorri – Eu nem comecei e já vou estar cheio de trabalho.
—Será que são ricos? – Se empolga a mãe – Precisamos de um jardineiro.
—Deus...Como vocês são esquisitos... –sussurra Lilith.
Eric dá uma ajeitada nos óculos fingindo não escutar.
Em todas as cidades que se mudavam, o pai de Eric sempre trabalhava numa funerária, o porque disso os irmãos nunca entendiam, mas sabia que se pessoas morressem, melhor seria para a família. Principalmente se forem velhinhos ricos.
—Enfim senhores “Queremos todo mundo morto” – Lilith pega sua bolsa vermelha de cima do sofá e vai em direção a porta – Tenho que ir para a escola.
—Espera um pouco mocinha! – seu pai fica mais sério – Não está se esquecendo de algo?
—Ah não... – Ela revira os olhos e se volta para ele – Já sabemos as regras.
—Precisamos fazer isso mesmo? – agora era Eric que queria ir embora logo.
—Vocês sabem que sim – Ele tira debaixo da blusa um pingente prateado – Me mostrem.
Lilith suspira, mas faz o que o pai manda. Ela também mostra o pingente prateado.
—Agora você Eric – ordena.
Pendurado em seu pescoço e escondido debaixo da camisa cinza, Eric tira o pingente prateado. No meio, o formato era de uma cruz atravessada em um coração.
—Ótimo! – a mãe também tinha um – Agora as regras.
—Não podemos tirar o colar de forma alguma – Lilith fecha os olhos e imita um robô programado a falar – Nem na escola, nem numa piscina, e nem no banho.
—Até na hora de dormir – continua Eric – Mesmo se pedirem para tirar, receberão um não como resposta.
—E se perguntarem o por quê...? – pergunta o pai.
—Diremos que é um símbolo de nossa família e fizemos uma promessa de nunca tirarmos – continua Lilith.
—E essa promessa é feita há gerações – acrescenta Eric.
—E se caso tentarem tirar a força...?
—Spray de pimenta neles! – os irmãos falam juntos.
—Perfeito! – a mãe sorria animadamente – Agora vão logo!
O pai concorda com a cabeça e volta a sentar na poltrona e novamente pega o jornal.
A chuva havia parado e ambos os irmãos correm para o carro de Lilith, que para variar era ROSA.
—Que merda Lilith, não da para mudar ao menos a cor do carro? – Ele já colocava o sinto de segurança.
—Não enche! – retoca rapidamente o batom olhando para o espelhinho do carro – Você que quis ganhar a porcaria do telescópio.
Ele olha para a vizinhança com os braços cruzados, ignorando o xingamento de seu querido telescópio.
Lilith liga o automóvel e pisa no acelerador.
A escola ficava uns vinte minutos de casa, então querendo ou não, Eric teria que pegar carona com a irmã por enquanto.
Ele suspira e olha para o seu colar.
—Por que será que eles têm tanta fixação por esses pingentes?
—Eles acham que vão nos proteger no mal – a garota acelerava cada vez mais.
—E você acha que é verdade?
—É claro que não! – Lilith buzina para um carro a sua frente – Assim que eu virar independente vou tirar essa porcaria.
—Mas não seria um desrespeito para nossos antepassados?
—Antepassados uma ova! – ela dirigia feito louca – Não acho que eles irão se importar com essas merdas de colares – Ela da uma freada brusca sobre o farol vermelho – Afinal, eles já morreram mesmo.
Eric olha para ela perplexo. Era impressionante os argumentos que a irmã tinha para tudo. Podia se dizer que até tinha um pouco de inveja. Mas não o seu jeito estupido e sim a maneira que era totalmente decidida.
—Chegamos – ela para o carro no estacionamento e rapidamente sai do carro – Lembre-se, não fale comigo enquanto estivermos em publico.
—Ok ok – ele sai do carro e coloca sua mochila sobre as costas – Eu não te conheço até a hora de ir embora.
Lilith concorda com a cabeça e vai para a entrada.
Eric olhe ao redor e vê uma grande quantidade de estudantes.
—Ei Lilith! – grita e espera todos olharem – A mãe disse para comprar absorventes depois, vocês estão precisando!
Os estudantes imediatamente caem na gargalhada, enquanto Lilith o encara de um jeito ameaçador incalculável.
Ele ri.
Aquele era o primeiro dia de aula deles, e Eric havia prometido que apesar de ainda continuar um nerd, ele também iria se divertir em certas circunstâncias, principalmente as quais incluiria sua querida irmãzinha.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.
Fale com o autor