Apesar de ter nascido na Amizade, nunca tive muitos amigos. Eu não era o tipo de pessoa que gostava de falar, e nem das dinâmicas em grupo que minha facção realizava. Certa vez, fui grossa com uma garota que insistia em ser minha amiga. Meus pais ficaram tão assustados, que me levaram para uma "conversa" com Johanna Reyes, representante da Amizade. Ela pediu que eu não repetisse aquilo, mas seus olhos diziam que, se eu o fizesse novamente, as consequências poderiam não ser muito agradáveis. Eu não era a única cujo comportamento ia contra os princípios de minha antiga facção. Kendall também era assim. Famoso por invadir as plantações durante a noite, e por ser "cabeça dura". Alguns dizem que Johanna o proibiu de escolher Amizade na cerimônia de escolha. Eu nunca pertenci à Amizade. Sempre senti que era Destemor. Mas agora, sinto que minha escolha foi um erro, pois meus medos me dominavam.

O grupo de nascidos no destemor se juntam à nós, e os dois homens que me receberam quando cheguei se colocam na frente do grupo.

- Meu nome é Kyle. — Diz o mais velho — E este é Amar. — Ele aponta para o jovem que estava junto à ele. — Os veteranos, ficam comigo. Os iniciados, acompanhem Amar.

Seguimos por um lugar escuro, e eu mal vejo onde piso. Amar nos leva para fazer um tour, mas eu mal presto atenção no que ele diz. Não quero conhecer porcaria nenhuma! Naquele momento, eu apenas queria mostrar que não era covarde, e nem pacífica. Mas aparentemente, não dá para mostrar sua bravura enquanto todos observam um rio.

Entramos em um lugar com mesas espalhadas. Um refeitório. Entro na fila, e observo o "menu". Carne. Está em toda parte. Nada de frutas. Se meu estômago tivesse sentimentos, provavelmente estaria sorrindo agora. Na Amizade, comer carne não é visto com bons olhos. Matar animais para alimentar a gula, enquanto você pode consumir toda esta proteína em pílulas e frutas, é considerado extremamente violento. Pego uma porção de pastéis recheados com uma carne branca, e uma fatia de bife com um molho vermelho. Jogo minha bandeja na mesa mais próxima, e reviro a comida. O pastel tinha um sabor maravilhoso, e o bife fazia minha língua queimar. E esta, era uma sensação até boa. Kendall e Ben se sentam na mesma mesa que eu. Uma garota e mais dois garotos da erudição se aproximam, e eu faço uma careta para eles, tentando afastá-los. Mas eles ignoram e se sentam comigo. Comemos em silêncio.

Após as refeições, Amar nos leva até o quarto onde dormiremos até que a iniciação termine. O silêncio que começou após pularmos do prédio ainda reina, portanto, nosso "tutor" não precisa pedir silêncio para falar.

- Como dito anteriormente, meu nome é Amar. — Ele apóia seu peso no pé esquerdo, e sua bota faz um barulho quando toca o chão. — Este ano, nossa facção perdeu pessoas importantíssimas, e é necessário substituí-las. Portanto, através de uma votação, nossos líderes decidiram que quinze pessoas poderão se juntar ao Destemor. Vocês, iniciados, formam um grupo de dez pessoas. Há, também, um grupo de onze nascidos no destemor. Isto quer dizer, que ao final desta iniciação, seis de vocês estarão sem facção.

- Espera aí. — Diz um garoto da erudição, com o cabelo ridiculamente partido de lado. — Quatro pessoas estarão fora, mas não necessariamente quatro Iniciados. A probabilidade de um deles sair é a mesma que qualquer um de nós tem. E nascidos no destemor também podem falhar.

- Como se chama? — Amar se aproxima, encarando o garoto.

- Eric. — O garoto responde.

- Escute aqui... Eric. — Ele diz, com um tom de voz elevado. — Eu estou pouco me lixando pra sua maldita probabilidade! Você acha que destemidos falham? — Ele se curva para o garoto. — Acha que pode derrotar um destemido com sua probabilidade? — Ele se afasta e abre os braços. — Porque, se quiser tentar, pode vir! Será um prazer ver um erudito sangrando!

Ninguém se move, nem diz nada. Escuto a respiração acelerada de uma garota da sinceridade ao meu lado. A expressão de Amar é extremamente cruel, e isto me faz querer sumir. Seus braços são fortes o suficiente para me matar em cinco minutos. Eu jamais vi algo assim. Ele aponta o dedo para nós, e analisa rosto por rosto.

- O Destemor não liga para o que vocês acham. Não queremos saber do que vocês aprenderam em seus livrinhos. — Ele aponta para Eric. — Nem o que acham do nosso comportamento. — Ele aponta para um casal da sinceridade. — Suas boas ações, para nós, são fúteis. — Ele encara o Abnegado. — E a paz de vocês é patética! — Ele aponta, necessariamente para mim. — Se quiserem pertencer a alguma facção, é melhor jogar tudo o que carregam consigo até agora, no lixo!

O silêncio agora é medonho. O suor em minhas mãos me incomoda, e as batidas do meu coração são tão altas, que tenho medo que alguém escute.

- Estarei aqui amanhã, às oito, para começarmos os procedimentos que farão vocês verdadeiros destemidos. — Ele fala, desta vez, com um tom de voz brando. — Estejam prontos.

- Que... — Começa o garoto da sinceridade, soltando a mão de sua namorada. Mas Amar simplesmente não dá a mínima, sai, e bate a porta atrás de si. — ... Procedimentos?

Decido tomar uma ducha antes de dormir. E aparentemente, as outras garotas decidem fazer o mesmo. Após o banho, me sento para limpar a ferida que ganhei quando pulei do trem. Por baixo da pele lesionada, há uma bolsa de areia, me obrigando a reabrir a ferida. O sangue escorre, e eu o limpo com uma toalha de papel.

- É melhor lavar isto com bastante sabão. — Diz uma garota da Erudição, morena e de olhos um pouco puxados. — Pode infecçionar. — Ela acabou de sair do banheiro, mas ainda assim, lava a mão que abriu a porta da cabine de banho que usou.

- Obrigada. — Digo a ela.

Algo dentro de mim grita para que eu interaja com ela. Mas isto não é parte de mim. Ou não é parte da garotinha rebelde da Amizade? Meu silêncio em minha antiga facção era apenas uma válvula de escape, uma forma de mostrar que eu detestava aquele lugar. Agora eu sou livre para ser quem eu desejar ser. Quero mesmo ser alguém inacessível, como Amar?

- Me chamo Leah. — Digo para ela, e sorrio.

- Mac... — Ela hesita. — Mackenzie. — E sussurra.

Ao deitar na cama, percebo que algo está errado. Olho para a esquerda e não vejo as três camas de meus irmãos mais velhos: Jesse, Emily, e Theodore. Não escuto as vozes de meus pais, que toda noite faziam orações conosco, e depois se reuniam com seus vizinhos, na sala de nossa casa. O cheiro da terra da Caverna não é o mesmo da terra onde minha família plantava hortaliças. Mas não era isto que eu realmente queria? Liberdade não era meu maior desejo? Eu serei capaz de suportar o preço alto disto?

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Aguardo meu nome ser chamado, sentada em um enorme banco, rodeado por uma escura penumbra. Resta apenas eu. A chamada é realizada na ordem dos saltos, portanto, o garoto da Abnegação foi o primeiro. E eu serei a última. Amar abre a porta, e novamente a luz branca me alivia.

- Leah. Sua vez. — Ele diz, com calma.

Entro, e ele fecha a porta. E a tranca. Duas vezes.

- Pode se sentar. — Ele aponta para uma cadeira inclinada, que parece ser confortável. Mas as máquinas ao lado dela, afastam qualquer sensação de conforto de mim.

Minhas mãos começam a suar, e tento reencontrar a calma. Mas eu não sei como me acalmar. A Amizade era muito monótona, por isto, jamais senti tanta ansiedade. Antes do Abnegado entrar nesta sala, Amar disse para todos que explicaria a cada um, individualmente, como seria o procedimento ao qual nos submeteríamos hoje. Mas até agora, não explicou pra que uma seringa com uma agulha enorme seria útil neste procedimento. Além de suar, começo a tremer feito uma covarde.

- Neste soro — Ele diz apontando para o líquido na seringa. — contém um transmissor. O soro reagirá em seu organismo, simulando uma situação de perigo... E medo. Ele também te induzirá a uma alucinação. O transmissor enviará imagens para este computador, e eu poderei acompanhar o que se passa em sua mente. Para sair da alucinação, você tem que se acalmar. — Enquanto fala, ele afasta meus cabelos alaranjados de meu pescoço, e aplica a injeção em mim. Estou tão absorta em suas palavras, que a injeção não dói tanto quanto eu esperava. — Quando a simulação terminar, eu a enviarei para a administração do Destemor.

Suas palavras começam a se soltar no ar, e meus olhos fecham lentamente. Sinto que cochilei, e abro meus olhos. Uma mulher morena está sentada de frente pra mim, vestida de branco.

- Acho que não deu certo. — Digo

- O que? — A mulher se inclina, mas sua expressão não muda

- O soro. Acho que não deu certo. — Sorrio com o canto da boca.

- O... Soro? — Ela diz, educadamente.

- Sim. — Olho ao meu redor. — Onde está Amar?

- Leah... Quem é Amar? — Ela diz, tomando uma prancheta, e fazendo anotações.

- Amar... É meu instrutor de iniciação.

- Sim. E com que frequência vocês se veem? — Ela continua a anotar

- Bem, desde o dia em que eu... — Meu cérebro fica confuso e me levanto. — Espere um pouco. Quem é você?

- Leah, fique calma.

Ela larga a prancheta em um rápido movimento, e se põe de pé. Estende os braços, como se quisesse evitar alguma reação violenta de minha parte. Corre até uma parede, e pressiona um botão vermelho. Quando olho ao meu redor, percebo que aquela não é a sala que estava antes. É completamente diferente. O lugar onde eu estava deitada não era uma cadeira confortável, mas uma cama, e em suas extremidades, haviam correias. No quarto não tinha janelas, apenas uma porta.

- Eu estou louca? — Pergunto a mulher, enquanto as lágrimas se juntam ao suor, molhando todo meu rosto.

- Seus pais, Mitch e Daniella te internaram aqui quando você cravou uma faca de pão na coxa de seu irmão mais velho, Jesse. Leah, mantenha a calma. Já estão vindo com seu medicamento. — Ela soa desesperada.

- Não! Eu não fiz isto! — Grito — Eu tenho que sair daqui. — Corro até a porta e agarro a maçaneta. — Por favor, me tirem daqui! Eu quero sair, por favor! — Grito, enquanto bato desesperadamente na porta.

De repente, alguém empurra a porta e eu caio. Três homens de branco me seguram com força, enquanto eu luto para que eles me soltem. A mulher se aproxima, e finca uma agulha em meu braço. Sinto o sangue correr quente, e tudo parece borrado. Mas eu ainda luto. Ou pelo menos tento lutar. Então, minhas forças se esgotam, e eu durmo.

Um barulho me acorda, e eu estou de volta à sala da simulação. Amar digita algumas coisas no computador, e olha rapidamente para mim. Me sinto sufocada, mas ignoro esta sensação. Enxugo meu rosto, e me levanto da cadeira.

- Espera, Leah... — Ele diz, se aproximando de mim. — Eu sinto muito por ontem à noite. — Ele suspira e fecha os olhos.

- Por ter me chamado de palhaça? — Escarneio.

- Por tudo. — Ele ignora meu comentário, e percebo que seu tom de voz é completamente diferente do de ontem a noite. — Meu objetivo não era magoar, nem assustar ninguém. — Ele sorri e balança a cabeça. — Apenas os transferidos da Erudição. Eles podem ser um pouco arrogantes e teimosos, por isso, é bom tirar isto deles logo no início.

Ele não diz mais nada. E eu também, permaneço calada.

- Já posso ir? — Digo.

- Sim. — Ele soa decepcionado.

Abro a porta, e saio. Sem olhar pra trás. A experiência de hoje, me mostrou que eu não sei me controlar. Jamais saberei. E infelizmente, sei que um dia, isto irá me matar.

Notas finais
O personagem Amar, é citado no livro Free Four. Suas características físicas e idade não foram reveladas, por isso, tomei liberdade para colocá-lo como um jovem de 21 anos. No mesmo livro, Quatro fala que, quando chegou no Destemor, os iniciados apenas tinham que passar pelas paisagens do medo. Portanto, quero deixar claro que esta história, se passa durante esta época.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.