Presa Dentro de Minha Mente
2 | 0.1 | c a l l i n g
“The act of a person or a thing that calls.”
O dia pareceu claro demais quando eu abri os olhos, a luz de alguma janela me cegou completamente, apesar de não parecer estar Sol. Era um dia nublado, feio até, mas aparentemente eu tivera dormido por tempo demais.
Ou tivera dormido por tempo de menos?
Forcei minha mente a se lembrar dos últimos acontecimentos de ontem à noite, mas não me recordei de nada. Esfreguei meu rosto com a ponta dos dedos doloridos e machucados – eu tinha me machucado ontem? – e descobri um arranhão em meu rosto.
Eu estava deitada em uma cama que eu não conhecida, com roupas que não pertenciam à mim, ou pertenciam?, e eu não conseguia me lembrar de nada do que tinha acontecido na noite anterior.
Ou de nada que tivesse acontecido na semana.
Em que dia estávamos?
Era comecinho da manhã ou final da noite?
Eu não me recordava de nada.
Fiz questão de me levantar e sentar na cama, tentando raciocinar logicamente.
Onde é que eu estava?
O quarto era desconhecido, as paredes lotadas de papéis, um lixo abarrotado no canto do quarto, perto de uma mesa grande, cheia de esquadros, réguas e canetas. Uma televisão ligada, mas sem som transmitia as notícias do dia.
PREVISÃO DE CHUVA PARA O DIA TODO, era o que eu conseguia ler, mesmo àquela distância.
As cobertas eram floridas em rosa e vermelho, o que denunciava não pertencerem de um homem – ou pertenciam?— e havia duas portas em cantos extremos, além do closet de portas brancas. Uma certamente me levaria para fora deste quarto e a outra talvez até um banheiro?
A calça que eu vestia era do tamanho adequado para mim, parecendo ser até feita sob medida, mas a blusa já era outra história. Era uma blusa largada, grande demais, com uma banda estampada na frente.
Seria minha também?
Ou seria de algum namorado?
Levantei da cama, pisando com os pés firmemente no chão quando uma onda de náusea me atingiu certeira. Respirei fundo pelo nariz e expirei pela boca, vendo os pontos pretos dissiparem de minha visão.
Sem pensar duas vezes, abri a porta mais próxima de mim, me deparando com um banheiro igualmente branco, desta vez imaculado, com várias garrafas de loção pós banho, shampoos, condicionadores... Maquiagens...
Um espelho grande me deixava encarar o meu próprio reflexo.
Olhos grandes e arredondados pretos, com o cabelo bem curto, igualmente escuro.
Aquela era eu?
Eu não me lembrava de ser assim. Deus, eu não me lembrava de nada!
Toquei meu rosto. A mulher no espelho copiou meus movimentos. Era eu. Mas era uma versão de mim mesma que eu não conhecia. Toquei em meus seios, ombros, barriga, tentando entender aonde é que tudo se encaixava.
Uma tatuagem dentro de meu braço me chamou a atenção. Eu não me lembrava de ter feito tatuagem alguma, nem mesmo da dor das agulhadas. Nada.
Saí do banheiro levemente desnorteada, procurando explicações; algo estava errado. Tremendamente errado.
Havia uma foto no criado-mudo ao lado da cama. Era uma foto de uma mulher – eu – e um homem com cabelos curtos, mas a foto estava embaçada demais para que eu pudesse reconhecer seu rosto direito.
Forcei a mente para me lembrar de algum estranho que pudesse se parecer com aquele homem da foto, mas nada veio à minha mente, como esperado.
Era como se eu tivesse apagado por toda a minha vida, e acordasse naquele momento, jogada num mundo sem memória nenhuma do que tinha acontecido anteriormente.
Minha respiração começou a ficar falhada, como se eu tivesse corrido uma maratona, mas sem nem ao menos ter saído deste quarto desconhecido. Meu coração palpitou, minha garganta se fechou e eu respirei fundo, tentando me concentrar em não surtar.
Eu precisava sair daquele lugar.
Era a única coisa que eu pensava naquele momento: eu precisava sair daquele lugar. A sensação estranha de estar em um lugar que eu nem ao menos conhecia, me deixava com a cabeça girando.
Como eu tinha ido parar ali?
O barulho de um telefone tocando à distância me chamou atenção. Um telefone. Uma pessoa do outro lado da linha que talvez pudesse me dar algumas respostas.
Abri a outra porta, dando de cara com um corredor longo e bem iluminado, que cheirava à algo familiar, e dava acesso à uma sala também bem iluminada. Hesitei. O som ficava mais alto a medida que eu me aproximava da sala. Meus passos eram cautelosos, silenciosos... E se mais alguém estivesse naquela casa?
O aparelho ensurdecedor estava em cima da mesa, ao lado de uma bolsa preta com vários papéis espalhados ao redor dela.
Peguei o telefone e olhei o identificador de chamadas.
Gabriel Burden.
Meu coração gelou por algum motivo. Quem diabos era Gabriel Burden?
— A-Alô? – minha voz foi baixa, irreconhecível aos meus ouvidos.
“Ainda bem que você atendeu, Jane! Estou te ligando há mais de uma hora... Estava preocupado!” a voz grossa do homem do outro lado da linha fez os pelos de meu braço se arrepiarem completamente.
— Hm... Desculpa. – pareceu uma pergunta ao invés de uma afirmação.
“Onde você está?” ele perguntou.
— Eu não sei.
“Que tipo de resposta é essa? Você está em casa?” ele perguntou novamente, desta vez com um traço de preocupação misturado com irritação evidente na voz.
Mas eu não sabia onde eu estava. Andei pela sala à procura de alguma pista sobre o lugar que me encontrava.
— Eu não sei que lugar é esse. Eu não sei quem eu sou. Eu não sei nem quem você é! – minha paciência, se antes era pequena, agora parecia inexistente.
Quão difícil era para aquele homem entender que eu não sabia de nada?
“Jane, respire, ok?” ele me disse, com o tom de voz baixo e calmo, controlado, como se estivesse falando com uma criança. “Você está na sala agora, não é? É onde você sempre deixa o telefone, para não perder a hora.”
Assenti, mesmo que ele não pudesse me ver e murmurei que sim, quase inaudível.
“Ok, vá até a janela. Você vê um carro azul estacionado na garagem?”
Carro azul?
Minha mente começou a trabalhar rápido. Janelas rodeavam praticamente a casa toda, como é que eu saberia se havia um carro azul estacionado na garagem? Abri todas as cortinas, e efetivamente dei de cara com um carro azul cobalto estacionado na frente da casa, quando abri a cortina perto da porta.
Minha respiração se acelerou, a adrenalina me empurrando aos extremos da loucura.
— T-Tem um carro azul cobalto. – gaguejei.
O homem do outro lado da linha suspirou de alívio.
“Graças a Deus.” Ele disse em voz alta. “Estou a caminho. Não saia de casa, não abra a porta para ninguém além de mim!”
E a ligação foi interrompida.
Olhei para o espelho em minhas mãos, agora bloqueado, e apertei o botão do centro, somente para vê-lo pedir uma senha. Meus dedos pairaram sobre o teclado numérico, incerta sobre o que digitar. 1, 2, 3 e 4 foram meus números escolhidos. Talvez o dono do celular usasse senhas fáceis.
Senha incorreta. Tente novamente.
O aparelho pareceu zombar de mim. Larguei-o em cima da mesa, não seria útil para mim em nada.
Descobri algumas fotos enquadradas nas paredes perto da cozinha americana, fotos minhas, de animais, de alguns desconhecidos. E de um homem em particular. Meu coração bateu mais rápido. Ele era bonito. Seus cabelos acobreados e olhos verdes chamavam atenção, mas o que me fez travar foi seu sorriso. Analisei aquela imagem por muito tempo, perdendo a noção total do tempo.
Eu conhecia aquele sorriso. Ele era familiar.
Ele era familiar? Quem era ele?
Uma batida estrondosa na porta fez com que eu me agachasse, procurando abrigo dentro da casa. Tampei minha boca com a mão, para me impedir de gritar. A batida soou novamente. Quem quer que fosse a pessoa do lado de fora, ela certamente não estava com muita paciência.
Corri até a cozinha, pegando uma faca de seu suporte em cima da bancada, rezando para que a pessoa não me ouvisse de dentro.
Mais batidas, desta vez mais altas. Segurei a faca contra o peito, rezando uma prece que eu nem ao menos sabia, com palavras desconhecidas à mim, mas familiares aos lábios, que as recitavam automaticamente.
O barulho cessou. Eu sentei com as costas apoiadas no balcão, respirando rápido, meus olhos vagando de um lugar para o outro, esperando um ataque de algum lugar.
Ouvi o barulho da maçaneta se torcer na porta, destrancando com a ajuda de uma chave. Levantei e me escondi no canto entre a parede e a geladeira, e agradeci mentalmente por ser pequena o suficiente para me encaixar naquele canto sem problemas.
Passos fortes escoaram, atingindo meus ouvidos com força. A faca não estava muito segura em minha mão escorregadia por conta do suor, mas eu estava armada pelo menos. Pronta para qualquer situação emergencial.
— Jane? – o homem me chamou.
Era uma voz parecida com a do tal Gabriel Burden, mas os meus ouvidos poderiam estar pregando peças em mim.
E sem pensar duas vezes, quando ouvi o homem se aproximar, me lancei sobre ele.
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