Prenúncio de Amor
8 Obrigada por me amar.
Notas iniciais
A primavera já estava quase no fim e, da janela, Julieta podia ver os campos verdejantes e cheios de flores da fazenda nascente. Onde viveu aquelas últimas semanas, aquele romance idílico junto daquele homem. Tocou o ventre com as duas mãos e com voz suave disse:
— Hoje é um dia especial meu amor. O inicio da nossa jornada. Juntos, eu, você e o papai.
Invocando a lembrança daquela noite, a noite em que Aurélio a pediu em casamento, não pode deixar de se sentir ruborizada e um tanto horrorizada. Que falta de juízo, alguém podia tê-los pegos naquele momento tão intimo.
[flashback on]
Direto e decidido Aurélio entrou no escritório onde Julieta checava umas correspondências, e falou:
— Precisamos conversar sobre essa situação. Sobre nós.
A princípio ficou tão chocada que não conseguiu sequer compreender o significado do que ele havia acabado de falar. A mente, o corpo e as emoções haviam se preparado para aquela conversa, mas foi tão inesperado que ela passou um tempo calada.
—Eu... Sim, nos...
Não pôde continuar porque, ainda sem ao menos respirar direito, Aurélio disparou:
— Case-se comigo! Fique ao meu lado para sempre, eu quero dormir e acordar com você todos os dias, fazer planos, eu quero que você seja minha mulher Julieta. Eu também gosto dos rituais, e eu quero dar todos os passos do amor com você. Não me diga um não de primeira, tome seu tempo, pense, considere.
Eu não sou bom o suficiente para você, estou numa situação financeira precária no momento, mas eu vou me restabelecer, por nós. Venho pensando nisso há dias, tentando descobrir a melhor maneira de me expressar, e no final decidi que... Bem, decidi que a melhor forma de aproximação era a direta e honesta.
Trémula, como alguém que começa a recuperar-se de um susto violento, Julieta continuou o encarando.
—Eu quero fazê-la minha esposa, quero tirar esse sobrenome que você foi obrigada a carregar por tantos anos, eu quero ser seu de corpo e alma e também diante de Deus. — Não quero pressioná-la, Julieta, e antes que diga alguma coisa, quero que saiba que passei dias pensando em tudo isso. Tive tempo para me acostumar com a ideia, e passei a acreditar nela com firmeza cada vez maior. — Disse ele se aproximando dela e tomando suas mãos nas dele.
—Nós nos amamos, porque esperarmos mais? E vamos ter essa criança, quero estar ao seu lado em todos os momentos, sei que gosta da sua independência, de fazer as coisas do seu modo e eu a respeito, sempre respeitarei seu espaço. — Eu a amo de todo o coração, você já é minha amada, minha querida e minha mulher. — Disse Aurélio emocionado.
—Eu... aceito me casar com você.
—Eu... não consigo acreditar que esteja falando sério! Eu achei que você fosse ficar aborrecida ou protestar.
— Eu sei muito bem o que eu quero Aurélio. Eu estou falando sério. — Disse ela se levantando e colocando as das mãos ao redor do rosto tão querido e amado. — Na verdade, tenho pensado nisso a semanas e tenho esperado com ansiedade você me fazer o pedido!
— Julieta... ah Julieta.
Aquele beijo era diferente, desta vez o efeito foi ainda mais intenso que os anteriores, mais erótico e faminto. Ouviu o gemido que ele deixava escapar contra sua boca e sentiu o corpo estremecer numa resposta imediata à tempestade de emoções que desencadeara-se em seu interior. Sentia as mãos dele em seu corpo, deslizando por suas costas, enlaçando sua cintura e puxando-a para mais perto, tão perto que os seios foram pressionados contra a parede sólida de seu peito musculoso. Envolvida pelo calor daquele corpo e atingida em cheio pelo delicioso aroma de sua pele, Julieta não pôde conter o tremor das pernas que, fracas, recusavam-se a sustentá-la. Eles tinham pressa, urgência, Aurélio a acomodou sobre o tapete felpudo diante da lareira e imediatamente o beijo tornou-se mais profundo, às mãos que a seguravam moveram-se lentamente até alcançar seus cabelos e Aurélio sussurrou seu nome sem afastar os lábios dos dela.
Agora ele a beijava com intensidade menor, mordendo seus lábios com delicadeza e acariciando seus cabelos num movimento relaxante e envolvente. Eles clamaram por ar e se afastaram, Aurélio estava com parte do corpo sobre ela, apoiou uma das mãos ao redor do corpo pequeno dela e voltou a tocá-la no rosto, o polegar acariciando a bochecha dela. Ele deslizou o dedo entre seus lábios, beijando-a novamente.
Rápida e com urgência, Julieta começou a desabotoar a camisa dele e puxou-a para fora da calça, com a pressa ela acabou rasgando a roupa dele, os botões voaram longe. Julieta começou subitamente a rir, descontrolada. Seu riso surpreendente fez com que Aurélio também a acompanhasse.
Momentos depois ela enfiou a mão por dentro da camisa dele. Um brilho malicioso iluminou os olhos achocolatados de Julieta, que ergueu a mão para os últimos botões intactos da camisa e começou a tirá-la. Julieta sentiu a boca seca e o coração disparado, colocou sua mão em seu peito, sobre o coração. Sentiu as batidas rápidas e descompassadas e, erguendo os olhos, os olhos de Aurélio pareciam mais escuros e profundos a luz da chama do fogo que vinha da lareira, e brilhavam de uma maneira que fez seu corpo reagir de imediato.
Aurélio respirava com dificuldade, ela também sentia a própria respiração ajustando-se ao ritmo rápido da dele, e os olhos foram atraídos pelo peito musculoso que, ofegante, movia-se com regularidade, expandindo-se e retraindo-se a cada dois ou três segundos.
Eles voltaram a se beijar novamente, mais intensamente do que se beijaram antes, e o corpo movia-se de maneira erótica contra o dela, ele a ajudou a se livrar das roupas e abraçou-a com carinho, beijando-a com uma febre que a fez esquecer todo o resto. Ele se livrou de suas roupas.
—Sua pele é macia como uma pétala —murmurou. — Aurélio mordeu a carne macia de seu seio e, incapaz de conter-se, ela inclinou o corpo para trás e ofereceu-se sem pudores, os dedos firmes nos músculos de suas costas e a pele respondendo ao prazer provocado pelo calor e pela umidade daqueles lábios. Ele voltou a mordê-la e, ao sentir a intensidade dos dentes na região sensível e receptiva, Julieta não pôde mais conter uma espécie de grito aflito. Assustado, ele ergueu a cabeça e desculpou-se.
—Não... Não foi dor... — ela gemeu, os olhos mais profundos e escuros, refletindo todo o desejo que a dominava.
Aurélio enterrou a cabeça entre seus seios e abraçou-a com tanta força que era quase impossível respirar. Com voz rouca, ele murmurou:
—Você é perfeita. Perfeita! Ainda não consigo acreditar na minha sorte ao encontrá-la.
—Eu que tive sorte de encontra-lo.
Aurélio deslizava a mão sobre sua coxa, subindo lentamente, e os lábios exploravam toda a região do ventre, e ali ele beijou com reverência, ali onde habitava o fruto daquele amor, depois os lábios dele desceram lentamente, ela ofegou em deleite quando ele encontrou a parte mais secreta e sensível de seu corpo. O cérebro e o raciocínio pareciam paralisados e indefesos, não só pelo que ele estava fazendo mas pelo prazer que sentia. Julieta moveu os quadris e inclinou as costas, suplicando pela intimidade que jamais conhecera.
Aurélio explorou e saboreou o gosto dela, Julieta achava que já tinha experimentado tudo com ele, mas aquele prazer que ele lhe deu quase a fez desfalecer.
As carícias tornaram-se mais íntimas e ardentes até que ele finalmente a possuiu, fazendo-a acompanhar o bale de movimentos rítmicos e ardentes. Quando o prazer finalmente os dominou por completo, levando-os ao êxtase, Julieta surpreendeu-se ao ouvir os próprios gritos aflitos e, pouco depois, espantou-se com a incapacidade de controle sobre o corpo.
[Flashback off]
Julieta suspirou em deleite ao voltar daquelas lembranças. Ainda de frente aquela janela admirava o dia brilhante lá fora, a temperatura estava amena. Era um belo dia para o acontecimento. O caos se instalava naquela casa, ela podia ouvir as vozes e comandos dos empregados.
Ela torcia as mãos em um ato de nervosismo. Ainda era incapaz de acreditar que aquilo estava acontecendo.
A proximidade do amor pode ser assustadora às vezes. E tudo parecia ser um sonho, tudo aconteceu tão rápido, ela estava convicta daquela decisão, estava preparada, mas não podia negar que o medo e a incerteza a rondava, era como um diabinho instalado no ombro. Aurélio é do tipo de homem que dá tudo, mas quer tudo em troca. Ela levou a mão ao ventre, onde já se notava a protuberância, o fruto daquele amor.
Ela lembrou-se por um momento da sua vida antiga, da tristeza permanente, dos dias cinzentos e solitários. As lágrimas escorreram pelo rosto delicado, ela sentia pesar daquela antiga Julieta, que havia passado os últimos anos, rejeitando qualquer um que tentasse aproximar-se, e agora, aquela nova Julieta a abraçava, elas se confortavam, se perdoavam.
Essa nova Julieta era um sol que brilhava irradiando luz, não tinha mais lugar para solidão e tristeza. Por um momento ela teve uma sensação estranha, ela sentiu, sentiu que havia borboletas habitando em seu ventre, aquilo a fez segurar a respiração, foi leve como uma brisa, mas ela o sentiu, parecia que o mundo todo havia parado. Ela tentou atribuir aquela sensação à emoção que estava prestes a vivenciar. Mas, então, a sensação se repetiu. O bebê. Só podia ser ele! Sorrindo por entre as lágrimas, acariciou o ventre, onde sentiu pela primeira vez seu filho mexer. Ela precisava contar para Aurélio. Pensou e ouviu batidas na porta. Ao se virar o viu abrindo a porta, ele sorriu, aquele sorriso de lado tão característico dele, mas o sorriso murchou quando ele percebeu que ela esteve chorando. Ela enxugou as lágrimas com as costas das mãos e sorriu de forma tranquilizadora.
Naquele momento ele já havia entrado no quarto e se prostrado a sua frente, pegando suas mãos numa caricia tranquilizadora.
Ela fechou os olhos em deleite, ele era sua lufada de ar fresco em meio as suas dores. E ela o amava com todo o coração, não podia visualizar uma vida inteira sem Aurélio.
Ele levantou uma das mãos e levou-a a face de Julieta, onde ali ficou, seu polegar desenhava círculos na maça do rosto dela, ela virou o rosto e se deixou ser acarinhada.
—O que aconteceu? Porque estava chorando? aconteceu alguma coisa?
—Não eu... Acho que o bebê mexeu.
—Tem certeza?
Julieta fez que sim e colocou a mão de Aurélio sobre sua barriga, feliz por dividir aquele momento com ele.
— Eu senti ele mexer! Nosso bebê.
Aurélio sorriu ao vê-la entusiasmada e a abraçou, depois depositou um beijo casto na testa e foi destribuindo beijos em todo o rosto dela. Ela sorria encantada.
Ele finalmente tocou seus lábios com muita suavidade num selinho. Julieta abriu seus olhos e ele enlaçou-lhe a cintura e a puxou para junto de si, então sua outra mão afastou-lhe os cabelos e tocou-lhe a nuca. Então os lábios de Aurélio voltaram a tocar os dela e todos os pensamentos coerentes desapareceram de sua mente. Era como se só existisse aquele homem no mundo, um homem que mergulhava dentro dela como se tivesse passado um ano no deserto e acabado de encontrar um lago de águas plácidas e cristalinas.
Julieta sentiu os botões do terno dele a pressionando no ventre, ou seria a fivela de seu cinto...Chocada e surpresa, ela percebeu que não era exatamente uma fivela que sentia contra o próprio corpo. Era outra coisa. Oh, Deus! De repente, teve consciência de que Aurélio devia estar tão excitado quanto ela!
E que naquele mesmo momento a porta foi aberta.
— Oh céus! me desculpem. —falou ema roborizada. —Aliais Papai! Você não deveria estar aqui! Você não pode ver a noiva antes do casamento! Da azar!
—Calma Ema! —Pediu ele se afastando e tentando se recompor. Julieta ria da situação e puxou a enteada para o quarto de se vestir dando a oportunidade perfeita para o Aurélio, antes de ir-se ele foi ao encontro dela e acariciou o rosto.
—Não vejo a hora de finalmente fazê-la a senhora Cavalcante. Eu te amo.
—Não vejo a hora de tê-lo só para mim. Eu também te amo.—Completou Julieta dando um selinho e fechando a porta que os separava.
E todo o resto passou como um borrão, Julieta já estava de frente a capela, ao seu lado Jane segurava um buquê de lírios e sorria amplamente. Vestia um vestido branco rendado e comportado. Parecia uma princesa de contos de fadas.
Julieta vestia um vestido de cetim cor de creme que ajustava-se com perfeição. Uma obra prima vinda direto de paris. A saia simples e comprida alongava sua silhueta esbelta, e o corpete bordado com pequenas pérolas lhe dava um brilho radiante. Ema fora responsável por aquela perfeição e ela não podia estar mais orgulhosa. O véu, preso à cabeça por uma guirlanda de flores, caía por suas costas como uma cascata de renda, combinando com os detalhes aplicados nas mangas e na gola alta do vestido, e a maquiagem suave valorizava o tom claro de sua pele.
As mãos de Julieta tremiam, nervosa. Mas ela estava radiante, dessa vez, seria com o homem que ela havia escolhido, o homem que amava e que lhe deu o seu maior presente. Aquela semente de amor que ela carregava.
A porta da capela foi aberta e Ema soltou um guincho furioso quando viu Camilo tentando sair.
—Fique onde está! Jane está aqui!
—Ok! O que eu faço! Vim buscar a minhas mãe! Aurélio já está impaciente. E o padre nervoso com o atraso.
—Ora bolas, casamento sem atrasos não é casamento. Ok, feche os olhos, eu vou guia-lo.
E assim o fez Ema.
No momento seguinte, Camilo teve seu braço enlaçado ao braço da Julieta. E a porta da capela foi aberta. Eles entraram e Ema e Jane ficaram para trás, ela se arrependia desses arranjos. Ia perder a entrada da Julieta! Ah céus que loucura!
Dentro da pequena igreja todos olhavam encantados para a rainha do café! A população do vale do café estava em peso naquele lugar.
Camilo se virou para a mãe e lhe sorriu.
—A senhora está linda minha mãe. Eu estou muito feliz que finalmente encontrou a felicidade.
—Oh meu filho.
—Não, não chore. Hoje é dia de sorrir. —Falou ele apontando para o altar da igreja.
Aurélio estava lá, parecia nervoso, mas seguia feliz e elegante no terno escuro, adornado por um único cravo branco na lapela que combinava com a camisa imaculada. Ao seu lado, Elisabeta e Darcy sorriam felizes para Julieta. Seus queridos amigos, agora padrinhos do seu casamento, não podia ser outras pessoas.
Ao som da marcha eles caminharam lentamente. Camilo entregou sua mãe para Aurélio com a certeza que ela seria muito amada e respeitada.
Ele se colocou ao seu posto e esperou sua amada. Que não demorou a entrar acompanhada pelo pai. E céus, pela segunda vez sentia aquele nervosismo. Sua Jane parecia um anjo andando em sua direção.
Julieta e Aurélio trocaram suas alianças, em seguida foi a vez do outro casal, logo depois eles repetiram os juramentos, Julieta descobriu, porém, que a cerimônia a afetava mais do que podia imaginar quando chegou a sua vez e ouviu seu novo nome sendo chamado pelo padre. Julieta Sampaio Cavalcante.
E todo o resto passou como um borrão.
— Agora podem beijar as noivas. A voz do padre acordou-a dos devaneios ,sentiu a mão de Aurélio tocar-lhe o queixo. Logo os cabelos escuros de Aurélio tapavam o sol que vinha da janela e sua boca firme cobria a dela num beijo suave. Sentindo-se corar, afastou-se depressa e virou-se para o padre, e para seu filho e sua nova filha abraçados. Os convidados começaram a se aproximar, Julieta foi abraçada com entusiasmo por Ema que tentava enxugar as lagrimas.
A seu lado, Aurélio segurava firme sua mão. Os raios do sol penetravam pelos vitrais da igreja e espalhavam sua luz em torno do casal que, caminhando por entre as flores do campo utilizadas na decoração, pareciam ter saído de um conto de fadas. Todos os convidados seguiam os noivos e os padrinhos, e o cortejo dirigiu-se à entrada da capela onde tinha um corredor humano. Onde foram recepcionados por uma chuva de arroz e felicitações de felicidades, Julieta estava radiante tal como seu marido. Marido ela não cabia em si de felicidade.
— Eu te amo Senhora Cavalcante — Aurélio falou em voz baixa, aproveitando os segundos de privacidade que seguiram-se ao bolo e à valsa. Ela fitou-o com um sorriso radiante:
—Eu te amo meu marido.
Julieta baixou o tom de voz e disse:
—Acha que ainda vai me amar dentro de cinco meses, quando eu estiver parecida com um balão de gás?
Ele a abraçou, tirando-a do chão e a beijou, sendo ovacionados pelos convidados.
5 Meses Depois
Como no dia anterior, o calor ia ficando insuportável na medida em que o tempo passava. Julieta estava atrás da sua escrivania, checando e organizando tudo. Havia prometido ao Aurélio que iriam para São Paulo no dia seguinte, ele andava preocupado com a chegada do bebê e ela também se sentia mais segura, estando perto do hospital. Ele havia saído para resolver uns assuntos no vale do café, ela estava aproveitando e trabalhando, coisa que não fazia quando ele estava por perto. Já era fim de tarde, mas o calor infernal não cessava. Ela passou o dia inteiro incomodada, não sabia o que era, não conseguia se concentrar, e aquele calor.
Nana havia comentado que poderia ser por causa dos hormônios. Ela suspirou passando a mão naquele barrigão, não via a hora daquela criança nascer. Tinha que reconhecer que estava exausta. Ela se voltou assustada quando ouviu um baque seco no andar de baixo e vozes exaltadas. Respirando fundo, e com um pouco de dificuldade, levantou-se e foi até a porta. Porta essa aberta de supetão, primeiro ela viu Susana com o rosto ensanguentado, depois viu Xavier entrar empunhando uma pistola nas costas da sócia.
—Mas o que você acha que está fazendo? — Quem permitiu sua entrada nessa casa?
—Isso permitiu. —Disse ele levantando a pistola e segurando Susana junto de si.
—O que você quer? —perguntou ela, com a voz rouca.
—Eu vim aqui para conversarmos. Sente-se rainha do café. —Ordenou ele apontando a arma na direção da Julieta, enquanto mantinha um sorriso debochado no rosto. Ele puxou Susana para a outra poltrona. Julieta se viu sem alternativa e obedeceu.
—Não sei que acha que está fazendo, mas o Aurélio chegará daqui a pouco. —Mentiu ela.
—Ora não me insulte! — Esbravejou ele. —Acha que sou um garotinho ingênuo, ou idiota. Eu sei que ele foi pra o vale e talvez nem volte hoje. Mas vamos ao que interessa. E não se atreva. — Ele advertiu vendo-a levar a mão a gaveta. — A fazenda está cercada pelos meus homens, e seus homens, bom, você deveria contratar pessoas mais capazes.
Levantando-se ele foi até a gaveta e tirou a arma e a manteve com sigo. Nesse meio tempo Susana se levantou e o golpeou nas costas com o tinteiro. Mas ele foi mais rápido e a esbofeteou, ela caiu no chão.
—Não a machuque! — Gritou Julieta.
—Oh, é mesmo, você ainda não sabe não é? — Xavier perguntou gargalhando.
Julieta estremeceu, o medo a estava paralisando, aquele homem estava louco.
—Ora, ora... Pela primeira vez a rainha está no escuro, a sua sócia estava compartilhando informações e outras coisas a mais comigo. Essa meretriz estava fazendo jogo duplo. E por causa dela, como ver, majestade, rainha do cafe, você me levou a ruína. E agora eu estou sendo obrigado a fazer isso. Vou tirar tudo de você, até o ultimo centavo.
Julieta olhava para Susana. Ela não conseguia acreditar que aquilo estava realmente acontecendo.
—Susana! — Julieta esbravejou. —Fale alguma coisa, diga que isso é uma mentira.
Susana se encolheu e fugiu do olhar da Julieta.
—Conte a verdade para ela. Ande!— Ele exigiu.
—Eu não acredito que eu cheguei a me aliar com você um dia. Você não passa de um idiota. Acha que vai conseguir ir muito longe depois de pegar o dinheiro dela? — Susana falou pela primeira vez. Limpou o sangue da boca com o dorso da mão e se levantou.
—Você me subestimou desde o dia que nos conhecemos. Você acha que sou idiota. Eu vou levá-la como garantia. A maridinho devoto e apaixonado dela não vai poupar esforços para ter a mulherzinha e o filhinho de volta.
Ao ouvir aquilo, Julieta sentiu-se como uma presa acorrentada ao chão. Depois que recuperou a calma, ajeitou-se languidamente, a adrenalina corria nas veias, levou as mãos ao ventre e orou silenciosamente para Deus os proteger.
Julieta sabia que a vida daquele serzinho dependia dela, e nada poderia fazer. Não haveria tempo de pedir ajuda a nenhum de seus homens e nem do Aurélio.
—Me deixe ir embora! Você falou que me libertaria se eu o colocasse aqui dentro. —Falou Susana amedrontada com a arma apontada para seu rosto.
—Oh, doce Susana! Você me subestima mesmo! Acha que vou deixa-la ir! Você me entregaria na primeira oportunidade.
Susana engoliu em seco, precisava agir rápido. Não podia deixar aquele caipira maluco machucar Julieta, e nem ela no processo. Apesar de tudo que havia feito e acontecido, apesar de odiar Julieta por sempre menosprezá-la, e ser ignorada por ela, Susana não queria vê-la morrer na sua frente. Ela também foi uma vítima a vida toda, explorada, usada naquele mundo dominado pelos homens, desde muito nova teve que usar de artifícios para subir na vida, a ganância, o desejo pelo poder a destruiu, e ela perdeu para sempre a pessoa que apesar de tudo sempre a tratou como alguém, ela não merecia o perdão da Julieta, mas faria de tudo para reparar o mal que havia feito.
Como já sabia que ele a achava atraente, Susana não desperdiçou charme para atraí-lo até onde estava. Deu alguns passos, até ficarem próximos.— Ora, você teria coragem de me matar? —ela perguntou, com um sorriso insinuante. Ela jogou os cabelos para trás.—Porque não me leva com você? Afinal sei todos os segredos dela. Xavier não respondeu.
Ela se abanou e apenas abriu o primeiro botão da blusa, revelando o começo dos seios fartos. Depois respirou fundo, salientando-os ainda mais.—Quem sabe eu não posso ajudá-lo?
— Eu não confio mais em você! Você se aliou aquela megera williamson! — Disse Xavier sem desviar os olhos da pele macia que ela lhe revelava.
—Oh querido, você ficou com ciumes? —Susana molhou os lábios, procurando seduzi-lo ainda mais.— Acho que lá dentro é mais fresco que aqui. Com um sorriso malicioso, Susana se aproximou dele, quase a tocá-lo com o corpo. A respiração dele acelerou-se.
— Eu senti a sua falta. Por que tanta surpresa, meu amor? Estou sendo sincera. Nunca me vi assim tão atraída por um homem. Você é diferente de todos que já conheci mais viril e encantador e me faz sentir. . . —Susana acariciou-lhe a boca com a ponta do dedo, depois lhe tocou o peito suado. —Poderíamos fazer um acordo.
Com os lábios entreabertos, inclinou-se, fingindo quê ia beijá-lo, mas apenas roçou a boca no rosto dele e mordiscou-lhe a ponta da orelha, Sentiu náuseas, mas compreendia que necessitava prosseguir, pois precisava salvar Julieta e ela mesma. Então, pendeu a cabeça para trás, permitindo que ele lhe beijasse o pescoço e em seguida ela pegou a arma da Julieta das mãos dele e disparou. Julieta ao ouvir o estampido se abaixou contra a escrivania e escutou outro disparo, de onde estava viu Susana caída no chão. Susana a olhou e gesticulou um desculpe. Xavier falou para um dos capangas que estava bem, que foi um tiro de raspão e o mandou preparar o carro. Ele rodeou o móvel e se abaixou para puxar Julieta.
Ela o surpreendeu ao atingi-lo com o pé no queixo. Julieta sabia que precisava agir com rapidez. Xavier encontrava-se desmaiado aos seus pés, mas podia acordar a qualquer instante. Num dos armários, ela encontrou cordas. Num curto espaço de tempo conseguiu amarrá-lo e tirando o lenço do bolso o amordaçou. Então, com as mãos trêmulas, se voltou para Susana, ela ainda respirava. Tinha uma mancha de sangue enorme no abdome, mas ficar ali só retardaria a ultima chance que ela tinha. Ela tinha que procurar uma forma de escapar para ajudá-la também.
Agora tinha que pensar em sair dali e passar pelos capangas até chegar na outra fazenda. Depois de vasculhar praticamente todo o escritório, encontrou sua arma no chão. A pegou com firmeza e se dirigiu a porta.
Ainda era dia, mas o sol não demoraria a se pôr.
Sentiu as pernas fraquejarem e pensou que fosse desmaiar.
Ela abriu a porta com todo o cuidado e andou bem perto da parede na ponta dos pés ate do fim corredor sul, onde havia um quarto com uma sacada, seria sua unica alternativa. Pois usar a escada estaria fora de cogitação, ela podia ouvir os passos dos homens de onde estava. Ela parava de instante em instante, estava ofegante, a bariga pesava, parecia que tinha chumbo nos pés. Chegando no quarto foi em direção da grande janela, nenhum sinal dos capangas daquele lado. O silêncio só era interrompido pelos grilos.
A sorte dela era que a Janela tinha uma treliça e ela não perdeu tempo. A tarefa foi mais complicada do que imaginou, ela tentava não olhar para o chão, Aurélio teria um ataque se a visse agarrada aquela madeira, ela riria da situação se pudesse.
Momentos intermináveis depois Julieta sentiu o chão sob os pés. Correu até uns arbustos e escondeu-se. Dali podia ter uma visão geral do pátio e pensar como chegar até a outra fazenda onde se encontrava sua salvação.
Pela primeira vez Julieta se deu conta do que acabara de fazer. Havia golpeado Xavier, fugido dos capangas, se dependurado numa janela, onde podia ter caído e morrido no processo.
Faminta e extremamente cansada, Julieta se esgueirou pelos arbustos e viu a silhueta de um dos capangas, ele fumava afastado dos outros. Sem vacilar, pegou uma pedra grande e atirou com força na nuca dele, derrubando-o em seguida.
Com as mãos geladas e as pernas trêmulas encostou-se na parede fria de cimento. Do estabulo seria mais fácil chegar na outra fazenda. Mais uma vez, sentiu o corpo fraquejar. Seu coração batia alto e descompassado, o que lhe dava a impressão de que os homens restantes ouviriam mesmo estando distantes. Por um momento, censurou-se por ter sido tão audaciosa naquele plano, mas seu instinto de mãe falava mais alto, não podia permitir que algo de mal acontecesse a seu filho, ela precisava agir. Aurélio. Pensar nele fez suas lágrimas rolarem, só de imaginar não poder vê-lo nunca mais a destruía por dentro. Agora já não dava mais para recuar, precisaria agir e rápido.
Andando rente ao muro, sempre com a arma na mão, ela aproximou-se de outro capanga. Ele caminhou lentamente em volta da construção e quando abaixou-se para amarrar o cordão da bota, Julieta apontou a arma em direção à sua testa.
—Mas, o que é isso? —perguntou ele espantado.
—Diga a seu amigo que está na porta que você vai fazer uma ronda.
—Ele não acreditará.
—Não discuta, faça o que estou mandando —ela sussurrou.
O capanga gritou o recado para o outro. Julieta não perdeu tempo, atingiu-o na cabeça com a arma. Sem perder mais tempo, Julieta correu em direção do estabulo, seguiu pela trilha de pedras experimentando o maior medo de sua vida. Felizmente viu várias silhuetas na frente da outra propriedade, mas parou por um momento, temia que fossem mais homens do Xavier. Ela andou com cautela se ocultando nos arbustos, estava muito longe, mas podia jurar que Aurélio estava no meio deles, sorriu em meio as lágrimas. Respirou aliviada e tentou correr até lá.
Mas sentiu a mão de alguém a puxar e tampa-lhe a boca, isso fez derrubou a sua arma. No momento oportuno ela se virou e acertou-lhe um pontapé na virilha, que o fez curvar-se. Com agilidade, ela saiu correndo, acreditando ter dominado mais um. Só que desta vez sua sorte não foi tão grande. Quando menos esperava, ele a agarrou pelos ombros e lhe deu um tapa no rosto, que deixaram marcas vermelhas na pele delicada. Ainda atordoada ela conseguiu atingi-lo com mais um pontapé nas coxas, mas ele já a dominara por completo. Julieta gritava, gritava para que Aurélio pudesse ouvi-la. Ainda estava distante. Desesperada, ela agarrou-o pelos cabelos e tentou morder-lhe o braço.
Ela estava prestes a se render, quando viu o homem cair no chão como num passe de mágica. Aurélio havia saído de trás da árvore e golpeado o homem na cabeça com uma pedra.
— Aurélio! cuidado!
Dominado pelo ódio, Aurélio acertou-o um murro certeiro, derrubando o homem ao chão. Julieta já não tinha mais forças e, foi caindo lentamente na grama macia, mas antes de tocar o solo foi amparada. Ao abrir os olhos, viu que a pessoa que tinha se ajoelhado a seu lado era Rômulo. Ele tomou seu pulso e falava com ela, mas julieta estava tão cansada. Brandão chamou o medico que se afastou quando Aurélio tomou seu lugar.
Julieta sentiu alguém abraçá-la, era realmente ele, e com ele estava Coronel Brandão e varias pessoas. A lua refletia-se nos cabelos dourados, e lhe iluminava o corpo másculo, porém ela não conseguiu ver se estava ferido. Ao ser abraçada, Julieta sentiu que o mundo poderia terminar naquele instante, pois finalmente se achava segura e protegida.
—Você está bem meu amor? —Aurélio perguntou, acariciando o rosto de Julieta.
—Eu... Xavier está no escritório. A Susana, ela está ferida.
—Brandão vai cuidar de tudo, não se preocupe mais. Eu estava morrendo de preocupação. Eu tive tanto medo de perder vocês. — Falou ele abraçando-a mais forte mantendo a mão de forma protetora na barriga dela.
—Como você está aqui? Como chegou tão rápido?
—O irmão do Luccino se entregou e falou dos planos do Xavier. Eu encontrei com o Coronel e ele me avisou, Rômulo também nos acompanhou por precaução. Ele foi ajudar a Susana. Fique tranquila. Graças a Deus está tudo acabado.
—Não, não está. — Disse ela fazendo uma careta de dor.
Havia uma expressão de perplexidade no rosto de Julieta. As duas mãos dela seguravam a barriga.
—Acho que minha bolsa estourou!
—Está tudo bem —disse ele, de modo confortador.
—Não, não está! A gente tinha decidido ter essa criança em São Paulo! —Ela estava tremendo, o choque aparecendo em seu rosto quando ela percebeu a situação.
— Julieta não fique nervosa. Vai ficar tudo bem... Eu ficarei ao seu lado o tempo inteiro. Rômulo está aqui. Ele podia ouvir sua própria voz muito calma, mas o sangue estava martelando-lhe as têmporas.
—Vamos, eu vou levá-la para dentro. E vou mandar alguém chamar o Rômulo.
Ela estava gemendo agora, a dor misturada ao terror. —Está doendo muito...
Ele pegou-a no colo, e a levou para a casa.
Aurélio tentava acalmá-la, segurava sua mão enquanto ela se contorcia com as contrações sobre a grande cama. Um tempo depois Rômulo apareceu.
O homem não perdeu tempo, estava ali, agindo de forma prática e eficiente.
—Preciso de algumas toalhas —Rômulo disse, enquanto a governanta de Julieta corria para buscá-las e ele lutava para permanecer calmo e ser profissional. Era apenas um parto, ele disse a si mesmo, e ele era mais do que capaz de lidar com aquilo. Seu primeiro parto. Oh céus!
—Eu preciso que você me escute, Julieta. —Ele havia tirado a lingerie dela e a examinara. O bebê não estava esperando por essa agitação toda, não estava esperando por nada...
—Susana? O que aconteceu? — Julieta perguntou quando a contração passou.
—Ela está estável, não se preocupe, ela ficará bem. Julieta assentiu. —Eu acho que este é um bebê pequeno, então, nós vamos tentar desacelerar o processo. Você não pode fazer força —ele alertou Julieta. —Nós precisamos que isso aconteça da forma mais lenta e suave possível...
Ela balançava a cabeça sinalizando que estava entendendo, mas ainda assim, ela estava desesperada para fazer força, para empurrar, Aurélio estava lhe dizendo para respirar com calma.
—Está acontecendo depressa demais... —O seu corpo estava se preparando para isto há horas, você simplesmente não sabia. —Ele sorriu. —Nós só precisamos desacelerar um pouquinho. Ele estava certo. Durante toda a manhã, ela havia se sentido inquieta, tentara ficar deitada, ler, descansar. Ela havia tomado um banho e voltado para a cama, e então, decidido ir ao escritório e tudo aquilo aconteceu, Xavier, Susana, ela pendurada numa treliça, exposta ao perigo de todas as formas possíveis...
—Está nascendo —ela gemeu.
E estava. Nada iria parar a chegada do filho da rainha do café de vim ao mundo, e ela estava muito feliz por Aurélio estar por perto, e aterrorizada só de pensar que ele poderia não ter estado.
Rômulo segurou o pulso de Julieta e ficou alarmado. Aurélio percebeu, se levantou e o chamou para o corredor.
—O que há de errado?
—Ela está com o pulso muito acelerado, temo que possa haver complicações. Ela sofreu muitas emoções, mas ela é forte. Ela vai conseguir, fique tranquilo, ela vai precisar de tranquilidade e serenidade.
—Sim! Você tem razão. — Falou Aurélio voltando para o lado de Julieta que respirava com dificuldade. Outra contração.
A umidade aflorou nos cantos dos olhos fechados dela. Escorreu pelas têmporas agora, misturando-se a seus cabelos úmidos de suor. Ele aproximou-se e secou-lhe as lágrimas.
—Eu amo você Julieta. E prometo que você não vai mais passar por isso!
Ela riu em meio as lágrimas e apertou a mão dele.
—Eu estou tão cansada. Estou com tanto sono.
—Julieta...
EPÍLOGO
Nunca, nem por uma vez sequer, ela vacilou, desistiu ou duvidou da sua força.
Nem mesmo um pouquinho.
—O que aconteceu depois tia Ema?
—Ora seu bobinho! Sua avó deu a luz a sua tia Sophia!
—Ele não sabe de nada Ema! Ele é o menino mais burro que existe no mundinho inteirinho —Falou Sophia com voz autoritária. Ema riu, não conseguia parar de compará-la com Julieta! Uma mini Julieta.
Tinha cabelos negros, pele clara, os olhos era iguais ao pai, tinha o nariz arrebitado da mãe e pontinhos salpicando aquele rostinho de anjo, mas na personalidade, era uma legitima Sampaio! Sua irmã seria tão ou mais linda que a mãe.
—Você não pode falar assim com seu sobrinho Sophia!
—Ela é muito chata! Era pra eu ter ficado com meus pais.
—Então vai embora bobão!
—Eu não sou bobão! Vou falar para o vovô e para a vovó que você está falando palavras feias!
Ei vocês dois, se não se comportarem, não vou contar mais histórias.
—O que está acontecendo aqui? — Perguntou Aurélio entrando no quarto das crianças.
—Papai! — Gritou Sophia se levantando na cama e pulando sem parar.
Ele foi até ela e beijou o topo da cabeça. Ema tentou se levantar mais estava tendo dificuldade. Aurélio soltou a pequena e a ajudou a se erguer.
—Eu estou tão imensa! —Reclamou Ema passando a mão sobre o barrigão. Aurélio pousou a sua sobre a da filha mais velha e sorriu emocionado.
—Você está linda! Mais linda que nunca carregando meu neto.
—Ah papai, eu sinto tanta falta do Ernesto. Eu mal o vejo, tenho medo dessa criança nascer e ele nem estiver presente.
—Não pense nisso. Ele agora é muito ocupado, está defendendo os direitos dos cidadães. Deveria se orgulhar.
—Eu me orgulho, mas ele só pensa nas outras pessoas e eu? Eu não deveria ter deixado ele se tornar um deputado. Bom, eu vou me recolher, boa noite crianças, boa noite papai.
—Boa noite! — Falaram todos ao mesmo tempo.
—Vovô cadê a vovó? — Perguntou Frederico se sentando na cama.
Ele era o oposto da Sophia, tanto na aparência como na personalidade, tinha os cabelos loiros como os a mãe, parecia Camilo quando criança, era doce e inteligente. Eles tinham quase um mês de diferença. Se odiavam na mesma medida que se amavam, ele vivia mais na casa dos avós do que na própria casa. Era o xodó do Aurélio, o seguia para todos os lugares, amava ver o avô cuidar da plantação e dos cavalos. Era a calmaria enquanto Sophia era a tempestade. Julieta sorriu ao vê-los fazendo careta um para o outro.
—Alguém me chamou? —Perguntou Julieta parada com as mãos nos quadris no umbral da porta. Ela sorria.
—Mamãe! — Gritou a pequena Sophie saindo da cama e se pendurando na mãe, que teria caído se não tivesse se apoiado na parede.
Julieta a embalou com carinho e a colocou escancarada no quadril, sua pequena não tão pequena mais estava muito grande. Ela a levou até a cama e a depositou com carinho, cobrindo-a em seguida. Beijou sua testa e desejou boa noite.
Julieta se voltou e fez o mesmo processo com o neto, eles eram muito ciumentos, ela tentava tratá-los iguais, até o momento estava dando certo.
Aurélio também os beijou e desejou boa noite. Desligando as luzes, deixou a porta um pouco aberta para entrar a claridade do corredor.
Julieta entrelaçou o braço em Aurélio e eles foram para o quarto do casal.
—Que tal uma taça de vinho?
—Eu adoraria. — Respondeu Julieta se colocando nas pontas dos pés e o beijando na bochecha.
—Sabe o que eu quero fazer antes? —Perguntou ele sério.
—O que senhor Cavalcante? — Ela o olhava com malicia.
—Nada disso senhora Cavalcante! Eu quero dançar com você. — Ele se afastou e foi até o aparelho de som e baixou a agulha no disco.
Uma melodia romântica se ouviu no cômodo.
Ela atravessou o espaço que os separava.
—Bem? — ela o olhava com ternura. —Eu só tenho uma coisa a dizer.
Subindo na ponta dos pés, ela colocou seus braços em volta do pescoço dele. Um momento antes dos seus lábios tocarem os dele, ela murmurou:
—Eu te amo com todo o meu coração.
Ela o beijou e depois encostou sua testa na dele e rodopiaram abraçados.
Julieta pousou a cabeça na curva do ombro dele e falou:
—Eu passei a minha vida toda fugindo de relações que envolvessem sentimentos, também não conhecia nada sobre o amor. Achei que, fosse sempre duro, cruel e opressor, mas com você, com sua paciência e sua perseverança, você me curou de todas as formas e maneiras possíveis.
Ele levantou a cabeça dela e se debruçou, a boca a um milímetro da dela.
—Nem sempre fui o que sou hoje. Já fui completamente egoísta e fraco. Fui vaidoso. Você mudou a minha vida. Ao seu lado, minha doce, querida, amada Julieta, acho que posso ser um homem melhor.
—Obrigada por me amar— ela sussurrou com voz embargada.
Com aquelas poucas palavras, ela disse a Aurélio o que sentia. A Julieta realizada e apaixonada na sua frente vencera os medos daquela outra mulher, ferida pela crueldade da vida. O passado não seria esquecido, mas nenhum dos dois tornaria a permitir que fantasmas viessem perturbar o prenúncio daquele amor que só floresceria com o tempo. Eles tinham a vida toda pela frente.
Em vez de responder com palavras, ele baixou mais a cabeça e beijou aquela boca tão amada, enquanto rodopiava com a mulher da sua vida em seus braços.
FIM.
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