Prenúncio de Amor
1 Eu estou do seu lado
Notas iniciais
Espero que gostem! comentem e me incentive! Let's go!
Não fui, na infância, como os outros
e nunca vi como outros viam.
Minhas paixões eu não podia
tirar de fonte igual à deles;
e era outra a origem da tristeza,
e era outro o canto, que acordava
o coração para a alegria.
Tudo o que amei, amei sozinho.
Assim, na minha infância, na alba
da tormentosa vida, ergueu-se,
no bem, no mal, de cada abismo,
a encadear-me, o meu mistério.
Veio dos rios, veio da fonte,
da rubra escarpa da montanha,
do sol, que todo me envolvia
em outonais clarões dourados;
e dos relâmpagos vermelhos
que o céu inteiro incendiavam;
e do trovão, da tempestade,
daquela nuvem que se alterava,
só, no amplo azul do céu puríssimo,
como um demônio, ante meus olhos. – BY EDGAR ALLAN POE
O frio da noite despertou Aurélio. Ainda sonolento suspirou satisfeito, fazia muito tempo que não se sentia tão bem. Esticou a mão para a mulher com a que tinha compartilhado a cama, disposto a provar a si mesmo, que aqueles momentos tinham sido reais.
Mas sua mão só encontrou o frio ar e um leve afundamento na cama. Ela partiu. 'Eu daria tudo para poder acordar ao seu lado Julieta.' Pensou Aurélio tentando fugir do frio e da solidão que Julieta havia deixado no quarto, assim como sua fragrância que ainda estava impregnada nos lençóis e naquele travesseiro que ele abraçava.
Dias depois;
Julieta permanecia de pé, atras da cortina do segundo andar tentando manter seu aborrecimento sob controle. Aquilo estava durando mais do que o aceitável. 'Por quanto tempo, você acha que pode evitá-lo?' Porque ele continua vindo me importunar? 'Porque você não fala logo com ele?' Que homem teimoso! 'Fale com ele!' Não posso falar com ele! 'É só uma conversa! ou você espera mais do que isso?' Não seja burra! Você está no controle, sim, você é a rainha do café. Você não pode fraquejar. 'Você já fraquejou! lembra? naquela noite...' —Argh! — Julieta se irritou com seus pensamentos traidores e soltou a fina cortina da janela.
— Senhora? Tudo bem?
— Sim, sim.. O que quer Mercedes?
—Aquele homem já foi embora, falei que a senhora não estava, como me instruiu.
— Sim, Obrigada. Faça isso todas as vezes que ele vir nessa casa. — Ordenou a rainha do café se dirigindo para seu escritório.
Aurélio se afastava lentamente pelo jardim das roseiras, estava irritado. Já estava cansado de procurá-la em todos os lugares possíveis, Julieta estava o evitando e evitando todos os lugares de propósito, bem sabia ele, e aquela empregada não sabia mentir, ela sempre desviava o olhar se entregando. O que ele parecia agora? Um maluco atrás de uma mulher que fazia questão de se esconder. Ele riria se fosse engraçado.
Mais pelo contrário do que ela imaginava, ele estava a procurando para alertá-la do perigo chamado Xavier. E seu pai de conluio. Ele só queria ajudá-la!
— Que mulher teimosa! — Falou em voz alta.
—Aurélio?
—Darcy! Hum.. Como vai?
— Muito bem, obrigado. — Respondeu o Inglês o cumprimentando com um aperto de mãos. — Já você parece irritado, brigou novamente com Julieta?
— Na verdade não, ela não estava em casa.
— Hum, deve haver algum engano. Falei com ela antes de ir na ferrovia e acabei de cruzar com o Samuel, o motorista. Ela até deu folga para o olegario.
— Ah, deve ter sido um engano mesmo, talvez a empregada tenha se enganado. Em todo caso, preciso conversar com ela. É de estrema urgência.
— Do que se trata? Se é que posso ajudar. — Darcy perguntou visivelmente preocupado.
— Trata-se da segurança da Julieta. Temo pela sua vida. Xavier está colocando todos os fazendeiros e a população contra ela, tendo a ajuda do meu pai. Ela precisa ser alertada!
— Calma! Vamos entrar e conversar com ela. — Pediu Darcy.
A casa estava mergulhada numa melodia executada ao piano, minuet en sol mayor de Bach, era tocado com perfeição por Charlotte que parou quando viu Darcy entrando pela porta. Ela o chamou com urgência, até ver que ele estava acompanhado, ela sorriu envergonhada para o pai de Ema e o cumprimentou com um aceno.
— Como vai senhor Aurélio?
— Muito bem, obrigado. Tenho que parabenizá-la pela sua habilidade ao piano. Você toca divinamente.
— Oh, muito obrigada! — agradeceu ela fazendo um floreio com as mãos — Mas o senhor mudaria de ideia se ouvisse Julieta tocando, ela toca maravilhosamente bem. — Ele sorriu, e já podia imaginá-la imponente diante do piano, tocando delicadamente com as suas pequenas e lindas mãos. Seria uma experiencia única vê-la tocar pensava ele. — E já pude comprovar que Ema toca melhor que eu. — continuou Charlotte. — Desculpe interrompê-los, Darcy preciso falar com você.
— Claro! Aurélio você pode ir na frente, já sabe onde fica o escritório. Se sinta em casa. Logo me juntarei a vocês.
— Obrigado, com licença senhorita, foi um prazer revê-la.
— O prazer foi meu.
Aurélio parou de frente a grande e pesada porta, bateu uma vez e esperou uns segundos até ouvi-la mandar entrar.
Ela estava concentrada escrevendo em um grande caderno, e checando os livros de contabilidade. O coração do Aurélio bateu mais forte com aquela visão, ela estava usando minúsculos óculos de leitura, que a fazia parecer fofa e estudiosa. Ele teve que controlar o impulso de correr e beija-la com ardor.
— O que quer Mercedes? Já falei que não quero nenhum chá.
— Julieta. — Disse Aurélio com voz macia, ela levantou o olhar e aferrou as mãos no estofado da poltrona como se estive caindo e caindo num precipício. Aurélio deslizou seu insolente olhar sobre ela, fazendo arder sua pele sob o tecido do vestido. Contra sua vontade, Julieta se lembrou do prazer de está entre seus braços e pelo olhar dele, ela sabia que ele estava lembrando a mesma coisa. A raiva de si mesma, por saber o quanto era fraca diante daquele homem a fez sufocar as lembranças, mas não antes que um brilho de cumplicidade iluminasse o olhar do Aurélio.
Ele fechou a porta e entrou no escritório.
—O que o senhor faz aqui? Quem lhe deixou entrar?
— Calma, calma.. Não se aflija. Eu não vim falar.. de nós. A menos que queira, eu não me oponho a isso. — ele riu ao vê-la incomodada e resolveu se explicar mas a porta foi aberta e Darcy entrou.
— Afinal, o que está acontecendo aqui? — exigiu a rainha do café se acomodando na sua poltrona.
— O Aurélio tem algo muito importante para tratar com você, ele já ia embora quando o encontrei no jardim. Ele achava que não estava em casa, a Mercedes deve ter se enganado. — Falou Darcy se sentando na cadeira a frente da mesa e convidando Aurélio a se sentar na outra.
—Sim, sua empregada deve ter se enganado senhora. — Salientou Aurélio sem deixar de olhá-la. — Julieta evitava o olhar de Aurélio, que tinha um sorriso de lado demonstrando que sabia que ela o estava evitando. 'Pega no pulo Julieta.' — Pensou ela.
— Xavier está colocando os fazendeiros e toda a população do vale contra você, e pior, ele está usando a ingenuidade do meu pai para ganhar a confiança e simpatia de todos.
— Mas que ultraje! Como ele ousa?
— Julieta pelo que conheço desse cavalheiro, ele não é de brincadeira. — Disse Darcy entrando na conversa. — Precisamos contornar essa situação, você já foi alvo de um atentado antes. Como amigos que somos, recomendo que pare as negociações, por enquanto. — Completou o lorde inglês.
— Eu não fujo de lutas Darcy, você me conhece o bastante. E não será um calhorda como Xavier que vai me fazer recuar. Eu não tenho medo dele e de ninguém.
— Eu tenho que concordar com o Darcy, Senhora. O Xavier é desleal, usa de violência, é um verdadeiro canalha.
— Não irei me esconder em casa! Como uma covarde!
— JULIETA! — Falou Aurélio alto demais atraindo a atenção do Darcy. Ela o fuzilou com o olhar. Com voz mais branda ele completou. — Quer dizer, Senhora Julieta, seja razoável, e nos escute. Eu tenho um plano, irei ajudá-la a falar e esclarecer o mal entendido com os fazendeiros.
— Porque faria isso? — Perguntou ela — Ficaria contra seu próprio pai? Por mim?
— Eu não acho certo o que ele está fazendo, não posso simplesmente cruzar os braços e fingir que nada está acontecendo. Eu preciso proteger meu pai também, ele está cego pela raiva, e pode fazer uma besteira estando ao lado daquele canalha.
— Pois bem, eu acho uma ótima ideia. Agradeço a sua ajuda Aurélio, e saibam que podem contar comigo também nessa luta. — Disse Darcy enquanto se levantava, Julieta olhou para ele suplicando em pensamentos que não deixasse a sala. — Bom, preciso ir. Tenho que checar umas coisas na ferrovia, Aurélio, foi bom revê-lo. Julieta, até mais tarde. — Darcy se despediu e os deixou sozinhos. 'Traidor!' — pensou ela entrelaçando as mãos para esconder que tremiam.
— Eu estou do seu lado. — Disse aquele homem de supetão fazendo-a errar uma batida do seu coração. — Só quero que saiba que eu não a culpo pela desgraça da minha família. Eu sempre estarei do seu lado. — Ele repetiu aquelas palavras deixando Julieta completamente muda.
— Obrigada, agradeço pela a ajuda. — Falou ela sensibilizada pelo gesto daquele homem, ele sempre a surpreendendo. Sempre a deixando sem fala.
Ele sustentou seu olhar e era um olhar de cumplicidade, leve e quente ao mesmo tempo. Julieta já sentia os efeitos no seu corpo, era um olhar carregado de amor, admiração e desejo.
Ele desviou o olhar primeiro, algo atrás da rainha do café lhe chamou atenção, na grande estante, havia uma seleção de livros de poesia, e aquilo o fez se levantar, alimentado pela curiosidade se aproximou para ler os títulos.
— Você gosta de poesia? — Perguntou ele com incredulidade.
— Isso o choca?
— Bem, é inesperado. Eu também gosto de poesia. influência da Ema. Você tem belos títulos.
— Obrigada. — Disse ela se recostando na poltrona e fechando os olhos. Ele estando longe, mesmo que na mesma sala, mas longe do seu olhar, a ajudava se recompor. Ela ainda estava na mesma posição quando ele se virou, podia vê-lhe o topo da cabeça, algumas mechas teimosas escapavam do penteado dela, ele tinha vontade de libertá-los daquela prisão cheia de grampos. Ela parecia cansada.
Ele se aproximou lentamente e como estava em pé, as suas costas, pôde ver a formação do seu colo, ela respirava com vigor. Em vão tentava apagar da mente a imagem e lembranças dela, do corpo sedoso e macio embaixo do seu. Ele tentou bloquear aqueles pensamentos e colocou gentilmente uma mão no seu ombro, ela se sobressaltou, mas não abriu os olhos, estava fugindo dele.
— Não se preocupe com Xavier, eu estarei do seu lado. — Julieta timidamente colocou sua mão pequena sobre a dele. Foi tão natural e certo naquele momento. — Eu agradeço. — De verdade. — Ele sorriu para si mesmo e foi quando percebeu que no dedo anular dela não havia as duas alianças que ela carregava com ela para todo lugar. Ele sentiu esperanças, e uma emoção. Talvez ela estivesse mudando, se abrindo para eles. Ele não falou nada porque sabia como ela reagiria, se fecharia novamente.
Ela abriu os olhos e encontrou os olhos dele a sondando. Ela tirou sua mão da dele como se tivesse levado um choque, e o encanto do momento desapareceu. Ele resolveu quebrar o clima apontando para o livro sobre a mesa.
— Ema ama esse conto, ama essa temática gótica e sombria, acho que sobre influencia da irmã da Elisabeta, Cecília. E vejo que vocês compartilham desse gosto pelo gênero.
— É mesmo? Que interessante. — Disse ela correndo as mãos docemente sobre o livro. — Eu sou amante da literatura desde criança, embora não tenha muito tempo ultimamente. Aliais Falando em Ema, tem falado com ela?
— Ela não tem respondido minhas correspondências. Já não sei o que fazer. Prometi que esperaria seu tempo, mas fico apreensivo dela nunca mais querer me ver.
— Ela também está sofrendo com essa separação.
— Como você saberia?
— Eu estive com ela em São Paulo na minha rápida visita. Conversamos um pouco. E temos nos falado por cartas. Ela voltará para o vale, amanhã. Sei disso porque marquei de encontra-la na casa de chá.
— Como assim vocês têm conversado?
— Bom, Ema se parece comigo quando eu era jovem. Muito ingênua, teimosa, totalmente sem freios.. Mas dentro dela há fibra, uma coragem, eu consigo ver. Ela só precisa enxergar e ter direcionamento. Talvez isso tenha nos aproximado.
— Como ela estava? As meninas Benedito tem prezado pela sua segurança? Se não fosse pelos relatos de Jorge eu nem saberia onde ela estava dormindo.
— Não se aflija, ela estava perfeitamente bem, ela só está zangada e com razão! convenhamos. — Julieta o olhou. — Ela o ama, você é o herói dela, ela tem muita sorte de ter você como pai, sua falecida esposa também teve sorte.
— Alice e eu nos conhecemos quando ainda usávamos fraldas, foi um casamento arranjado, muito antes de sabermos o que significava a palavra. Eu tinha muito carinho e respeito por ela, mas nunca foi uma... paixão... Como a nossa. — disse ele acariciando a mão dela.
— Você precisa ir. — Pediu ela recolhendo a mão para longe da dele, tentou se levantar da cadeira mas ele foi mais rápido e a impediu mantendo-a pressa entre seu próprio corpo e a poltrona.
— Não fuja de mim, não finja que não sente nada.
— Aurélio pare, eu disse que seria só aquela noite.. Eu não mudei de ideia. Foi só um momento de fraqueza, desejo e nada mais.
—Naquela noite você me amou... da mesma forma que te amei. E tudo o que ocorreu foi por iniciativa sua —lhe espetou.— Então, não negue que sente algo por mim, eu não quero só partilhar a sua cama, eu quero ser seu amigo, seu amante, alguém em que possa confiar. Quero apenas que você me aceite. Não fuja do meu olhar, e do meu coração.
—Pare com isso. Aquilo foi diferente. E terminou naquela mesma noite.
—Estamos muito longe de ter terminado —respondeu ele calmamente.
Aurélio notou a marca fina e quase apagada no pescoço dela.
— Eu te marquei naquela noite, me desculpe. — Falou ele deslizando o dedo pelo rosto e o pescoço de Julieta e se deteve na marca. Ele manteve o dedo desenhando círculos num carinho fazendo-a estremecer com a carícia.
— Foi uma noite de luxúria apenas e não significou nada —lhe advertiu Julieta com os olhos cerados.
—Suas palavras desmentem o que diz seu corpo. Em quem devo acreditar? Você não me ama ou tem algum sentimento por mim? — Então olhe para mim. — pediu ele.— Diga que não sente nada quando a toco assim. — Falou ele se debruçando muito perto dela, ele emoldurava o rosto dela com as mãos, suas bocas a centímetros, olhos nos olhos e Julieta fechou os seus, não podia sustentar o olhar dele, não era capaz.
Ele a beijou na bochecha, no nariz, na testa, no queixo e por fim muito próximo da boca e parou. Ele queria torturá-la, queria que ela pedisse, implorasse se fosse necessário.
Ela abriu os olhos.
— Aurélio... Por favor. — Suplicou a rainha do café. — Vá embora.
— Eu vou, mas essa conversa não acaba aqui. — adivertiu antes de deixá-la a sós. Julieta possou a mão sobre o coração que batia errante, e se deixou ficar ali, completamente sozinha, trêmula da cabeça aos pés.
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