Notas iniciais
Vocês não sabem o quanto me desculpo pela demora em postar este capítulo. Então... Desculpas, rs.
Mas agora vamos se alegrar porque ele está postado não é?
No próximo capítulo postarei as fotos dos atores que eu queria que(se meu livro virasse filme XD)interpretassem meus personagens. Espero que gostem do capítulo.
Aproveitem!

27 de junho de 2012


O silencio pairava sob o cemitério. Tudo que se ouviam eram o som do choro de Adam, que agora estava abraçado do pai bem de frente aos caixões de sua mãe e irmã. Também, o barulho das folhas secas sendo carregadas pela brisa fria daquela tarde. O cenário era um cenário comum de velório, mas com um toque a mais de escuridão. O coração de Adam estava escuro.



As lágrimas do garoto não conseguiam ser contidas pelo pai, que olhava fixamente para os caixões, sem entender o porquê de a tragédia ter acontecido. O porquê de Vivian e Lucy serem levadas dali, de sua vida. Da vida de seu filho. Os cabelos loiros de Adam voavam livremente, enquanto seu rosto tristonho e seus olhos inchados deixavam cair mais lágrimas de dor. E saudade.


Algumas fileiras atrás estavam Shanon e Charlie. Paris se recusara a comparecer ao funeral, porque achara desnecessária sua presença. Mas a psicóloga estava ali, junta do filho, para prestar sua presença e pêsames à família. Já que ela convivera tempo suficiente com Vivian para conhecer Samuel e o pequeno Adam.

Mesmo assim, a cena do circo pegando fogo ainda estava em sua mente. O medo que sentira no momento em que soube que estava a salvo de um terrível acidente ainda estava aceso. Foi ai, que seu marido veio à sua mente. Ele poderia ter escapado do acidente se tivesse um anjo como Adam ali, para avisá-lo. Mas será mesmo que havia uma pessoa com o mesmo surto de Adam para avisá-lo do perigo? Será que naquele momento, ela poderia estar abraçada com ele?

Shanon despertou com um toque.

— Ele está tão mal. — Falou Charlie, observando Adam de longe.

Shanon não queria responder o óbvio para ele, seria muita grosseria de sua parte. Mas tentou fazer sua parte.

— Você quer ir falar com ele?

— É melhor não. — Seu filho lhe respondeu em um tom entristecido.

Os dois continuaram parados ali, acompanhando a cerimônia.

Um pouco mais atrás, Allison caminhava entre as árvores. Ela tentava se aproximar ao máximo da cerimônia. Lembrara que Vivian era a melhor patroa do mundo, sempre tão decidida, gentil e doce ao mesmo tempo. Ela era como uma amiga, nos momentos em que estava mais triste. Como uma amiga. Entretanto, não pensava tanto nela, quanto estava pensando no que Adam havia desencadeado naquela noite. Mal sabia o garoto que assinara a sentença de morte de todos. Agora, tudo que Allison poderia fazer era contar sobre tudo, para todos. Sobre a lista. Sobre a morte. Mas como fazer aquilo na situação em que ele se encontrava? Acabara de perder a mãe e a irmã. E só ele sabia a ordem. Somente ele.

x-x-x

Bruce havia tirado um cochilo. A tarde permanecia fria, mas ele estava suando. Havia tido um pesadelo. Pesadelo este, onde ele estava em uma sala escura, onde havia chamas para onde ele olhasse. Elas estavam em todos os lados. Ele tentava sair, mas continuava preso. Havia sido um pesadelo sufocante.

O acidente no circo, algumas noites atrás, o deixara daquela forma, nervoso. Pois ele nunca tinha presenciado uma grande tragédia como aquela. E também, nunca havia escapado de um acidente. Por acidente.

Se não fosse pela confusão que Betty fizera, eles estariam dentro do circo no exato momento da explosão e do desmoronamento. Provavelmente ele morreria juntamente com ela. Ainda não havia entendido o motivo pelo qual aquelas pessoas passaram, causando o pequeno tumulto. Mesmo assim, não deixou de pensar em como havia ganhado uma segunda chance.

Não suportou o forno em que seu quarto se encontrava, então foi tomar um banho frio, para espantar a sensação ruim.

Enquanto sentia a água percorrer seu corpo, ele pensava no que o garotinho loiro falara sobre a explosão acontecer. O mais bizarro fora o fato dela não ter acontecido no momento da fala dele, só ocorrera depois. Ele previra todo o desastre. Pensando melhor, Bruce percebera que ele havia sido o causador do tumulto. Ele devia ter avisado àquelas pessoas que deixaram Betty furiosa. Mesmo que indiretamente, o garoto o salvara, e ele sentia que devia um “obrigado” e um “me perdoe” pela atitude de sua namorada.

Bruce procuraria o pequeno visionário ainda naquela semana.

x-x-x

4 de julho de 2012


Já era a segunda vez que a tia de Adam preparava um lanche para o garoto. A segunda vez que ela chegara até a porta de seu quarto e pedira para que ele viesse lanchar. Tudo em vão. Adam estava inconsolável, de frente à janela de seu quarto, olhando para as nuvens daquela tarde. Seu rosto permanecia sério, sem qualquer demonstração de tristeza. Cada vez que passara pelo quarto da mãe e da irmã, lembrava-se de seus sorrisos. Sentia muita falta das duas. Até mesmo das implicâncias de sua irmã.



Ele não costumava ser tão dramático. Mas sua mãe e irmã morreram. Ele perdera um pedaço de si. E o que poderia fazer para trazê-las de volta? Nada.


Já havia sido avisado da presença de Charlie na casa, porém, não queria ouvi-lo. Adam conhecia o amigo, e já sabia que ele o encheria de perguntas que ele não saberia responder. Ele não queria pensar em mais nada. Nem na confusão que causara no circo. Nada.

— O que eu digo para seu amigo? — Ouviu a tia falar do outro lado da porta.

— Diga que não estou a fim de conversar com ele! — Gritou.

— Ele disse que não vai sair daqui até falar com você.

Então Adam silenciou e se ergueu da cadeira em que estava sentado. Fechou a janela e caminhou até a porta, abrindo-a.

Sua tia afastou-se lentamente da porta, levando consigo o lanche do garoto de volta para a cozinha. Quando o viu parado do lado de fora do quarto. Não conseguira perceber o tamanho do sorriso dado, mas Adam sair daquele quarto já era um começo.

— Que bom que saiu de lá.

— Ele disse que só vai embora quando falar comigo? Então...

E Bailey o viu dobrar o corredor.

Quando chegou à sala, Adam viu Gale brincando com um mini-game, sentada no sofá. Mas ela, assim que o viu, ergueu-se do mesmo e saiu na direção da cozinha. Charlie estava sentado próximo ao sofá. E quando Adam percebera quem o acompanhava, estremeceu.

Sua psicóloga estava ao lado de seu melhor amigo. Claro, era sua mãe. Mas seria mesmo necessária sua presença ali? Ela vai me deixar nervoso. Pensou o garoto. Então, aproximou-se vagarosamente e sentou no sofá onde a pouco Gale estava.

— Você está melhor? — Perguntou Charlie.

— Um pouco.

Adam não conseguia olhá-los.

Shanon percebia os movimentos de nervosismo que Adam apresentava. Ele não parava com os dedos, brincando de tirar e colocar os dedos sobre os outros. Seus olhos procuravam escapar daquele ambiente. Ela conseguia perceber o desconforto que ele sentia.

— Só quero que saiba que pode contar comigo para tudo. Está bem, Adam?

O garoto nada respondeu, apenas meneou a cabeça positivamente. Em seguida, a psicóloga ergueu-se do sofá e caminhou até a cozinha, onde Bailey estava.

Charlie aproveitou que os dois estavam sozinhos e perguntou:

— Cara, o que houve lá no circo de verdade? Até hoje não consegui entender. — Ele parecia eufórico.

— Nem eu. — Adam respondeu seco.

— Eu sinto muito mesmo pelo que aconteceu com sua... — Houve uma pausa. Charlie hesitou em tocar no assunto. — Será que dava pra você explicar como aconteceu tudo isso? Como você viu todo o acidente e...

Foi interrompido.

— Eu só vi! Não sei como eu vi, mas eu vi! — Charlie vira a alteração no humor do amigo.

Charlie pensou um pouco e decidiu não tocar mais naquele assunto.

— Você já está pronto pra voltar pra escola?

— Não sei.

— Fica muito estranho sem você lá. Sem alguém que eu possa jogar bola, ou brigar.

Adam não falou nada, apenas escutou seu amigo. Charlie continuou:

— É que eu pensei que você ia para o passeio de amanhã. É mais uma daquelas excursões de biologia até o jardim botânico. Como sempre o jardim botânico! — E soltou um riso.

Adam sorriu, vendo-o entusiasmado.

— Isso é estranho, porque você sempre gostou destes passeios.

— Agora é diferente, Adam. Eu cresci cara! Além disso, eu só gostava desses passeios por causa das garotas. Mas agora só tem meninas feias naquela escola!

Adam riu do jeito de falar de Charlie. Ele sempre achava engraçado seu modo de falar, muito expressivo. Entretanto, às vezes era um pouco desengonçado. Os dois falaram mais um pouco sobre a excursão até o jardim botânico, até Shanon decidir que os dois deveriam ir, pois já estava na hora. Então Adam os viu passar pela porta, e Charlie acenar. Acenou de volta, e quando a porta fechou-se, ele arfou um “ainda bem”.

Aquele era seu melhor amigo, mas Adam não estava se sentindo bem para conversar mais. Mesmo assim, agradeceu por Charlie tê-lo feito sorrir novamente.

x-x-x

A manhã que se seguiu estava mais ensolarada que a anterior. Ted colocava o lanche dentro da mochila azul. Ele estava sorridente, pois era o primeiro passeio escolar em que ele estava animado para ir. Então, percebeu que esquecera seu boné e voltou até seu quarto para pegar.

Subiu as escadas com certa dificuldade, mas ganhou forças para chegar até o final. Sua mãe já reclamara da forma como as coisas estavam acontecendo, em como tudo poderia ser mais acessível ao garoto. Ele não precisava de todos estes obstáculos com esta perna mecânica. Mas o que ele poderia fazer? Tudo na vida era um obstáculo para todos. E mesmo que quisesse o maior conforto do mundo, ainda sim, não estaria livre das dificuldades. Era assim que seu pai pensava.

Algumas discussões que se seguiam entre os pais do garoto, às vezes, duravam horas. Cansado disso, Ted resolveu que passaria por cima de todos os problemas, para viver feliz. E contente. O garoto decidira que este passeio seria o recomeço, o ponto de partida para uma nova vida. A vida que tanto sonhou, longe da perna mecânica, que era o que lhe conectava àquele mundo frio e cheio de preconceitos. Já bastava o bullying que sofria na escola, agora, seus pais discutiam por sua causa. Por conta de sua deficiência.

— Onde será que pode estar? — Ted olhou para todos os lados, tentando avistar seu boné preferido.

— Está procurando por isso?

A voz grave fez o garoto dar um pulo.

— Você me assustou... — Disse o garoto colocando a mão sobre o peito.

— Desculpa. — Freddy riu.

Seu irmão mais velho rodava o boné entre os dedos. Era um boné bem surrado, e que faria aniversário de dois anos naquela mesma semana.

— Eu ainda não sei por que gosta tanto desse boné, Ted. — Freddy viu o irmão se aproximar.

— Ele me dá sorte. — Disse antes de pegar o boné das mãos do irmão.

— Agora vamos, senão você chega atrasado e perde o ônibus e todo o passeio.

Freddy estava apressado. Mais ansioso até que seu irmão. Sentia-se muito feliz por ele ter voltado com certa auto-estima. Lembrou-se também, que há dois anos, Ted perdera totalmente a fé em si mesmo, depois do acidente no zoológico. Qualquer tipo de leão para ele era uma ameaça, desde pano até de porcelana. Gatos então? Nem pensar. Freddy não gostou nenhum pouco de ver o irmão naquele estado. Era uma paranóia criada por ele, depois do trauma do incidente.

O boné fora um presente do próprio Freddy em uma das visitas ao leito de recuperação em que Ted estava. Seus olhos não brilharam assim há anos. Aquele era realmente o recomeço para seu irmão caçula. E se ele dizia que o boné lhe trazia sorte, quem seria Freddy pra contestá-lo?

— Você vem? — Disse Ted saindo do quarto.

x-x-x

Adam estava tomando café da manhã, quando seu pai saiu para trabalhar. Nem se despediu. O garoto o viu bater a porta com força e deduziu que ele estava com os nervos elevados, devido aos seus afazeres no trabalho. Sua tia ainda estava na casa, para tomar conta dele. Ela estava nos fundos da casa, estendendo alguns lençóis no varal. Adam viu Gale brincando com seu mini-game, bem próxima a ele. Então, ergueu-se da cadeira da cozinha e passou pelo balcão, indo na direção da prima.

A garota fez uma expressão de dúvida, enquanto via seu primo aproximar-se com certa fúria.

— O que faz com meu mini-game? — Seu rosto estava vermelho.

— Me desculpa... Eu não sabia que...

Adam esticou o braço para tomar seu mini-game das mãos da garota.

Então empalideceu. Seus lábios ficaram brancos e seus olhos pareciam desaparecer. Era como se ele estivesse desmaiando aos poucos, mas não estava. Gale gritou com medo de que seu primo viesse a cair. Porém, ele continuou de pé, bem a sua frente.

Estava estóico. E pálido. E seus lábios começaram a se mexer lentamente. Algumas palavras sairiam de lá, e Gale estava rezando para que fosse um “estou bem”.

Adam começou a sussurrar para ela:

— Elas estão atrás de mim... Por favor, me tire daqui.

Gale ficou confusa, mas não impediu que o primo continuasse falando.

— Elas vão me ferroar! — Adam gritou.

Ele continuou gritando e se atirou no sofá, se debatendo. Parecia estar muito apavorado. Foi quando Bailey chegou à sala e viu a cena. Gale largou o mini-game assustada ao lado do garoto, enquanto ele gritava repetindo coisas sem sentido sobre o sofá.

Bailey tirou o travesseiro que o cobria e o abraçou.

— O que houve querido? — Abraçou-o mais forte.

Adam parou de gritar.

— Elas queriam me matar. — Disse-lhe aos prantos.

— Elas quem? — Perguntou Bailey.

— As abelhas.

x-x-x

Ted abraçou Freddy.

— Está entregue. — Freddy riu.

Ted deu um leve sorriso. Foi ai que viu o ônibus que levaria os alunos até o jardim botânico, chegar. Próximos ao ônibus estavam os “garotos maus” que faziam bullying contra Ted. O garoto da perna mecânica estremeceu ao vê-los e sentiu um vento gelado percorrer sua nuca. Ele olhou para Freddy que parecia distraído com uma mensagem em seu celular.

Um dos garotos maus lançou um olhar tenebroso para Ted, e ele desviou seu olhar rapidamente.

— Posso te pedir uma coisa? — A voz de Ted estava trêmula.

Freddy continuou mexendo no celular, até escutar o que o irmão havia falado.

— Pode me pedir qualquer coisa. — Sorriu.

— Fica aqui comigo, até eu entrar no ônibus?

— Por quê?

Olhou para todos os lados, até ver os garotos parados ao lado do ônibus. Um deles encarava seu irmão. Os mesmos pirralhos do circo. Então voltou a olhar para o irmão, com os olhos assustados.

— São eles, não são? Eles é que estão causando problemas pra você. Não é? — Abaixou-se até ficar da altura de Ted.

O garotinho da perna mecânica nada respondeu.

— Você não quer me contar?

Apenas ficou com o olhar vagando por todo o estacionamento do colégio, sem dizer mais nada para seu irmão. Isso, até escutar o apito agudo do professor de biologia.

— É hora. — Disse-lhe Freddy. — A gente se vê mais tarde? Que tal jogarmos Resident Evil juntos?

Ted riu mostrando entusiasmo.

— Sim!

Freddy ajustou o boné da sorte do irmão caçula.

— Agora sim.

E entrou no ônibus, ainda com um pouco de dificuldade com os degraus. Dentro do ônibus conseguiu um assento vago ao lado de Charlie, que sorriu ao ver o amigo. Acenou para Freddy de dentro do ônibus. O irmão mais velho ficou sorrindo feito bobo, até o ônibus sair, e perder o irmão de vista.

x-x-x

Allison andava ao lado de Paris em uma rua do centro. A segunda arrumava a toca verde que cobria o topo de seus cabelos.

— Você soube da Judith, Allie? — Perguntou Paris, quebrando o silêncio mortal.

— Não. O que tem ela? — Allison despertou de seus pensamentos.

— Me contaram que ela não conseguiu sair do circo naquela noite...

Paris fazer Allison se lembrar do acidente no circo, foi como uma flecha entrar em seu coração, abrindo novamente suas feridas. Ela não queria desenterrar novamente seu passado. A caverna McKinley. Chase. Afinal, esquecer era o que ela vinha tentando fazer ao longo deste percurso de um ano. Fizera de tudo para relaxar e colocar um entulho por cima de seu passado. Até aulas de artesanato e dança fizera. Inclusive, fora com a mesma professora que dias antes levara seus cães de estimação até a clínica.

A mesma mulher loira que aparecera lá. Mas ela não tinha aquela vaidade e extravagância toda. Não chegava nem a chamar atenção quando passeava com ela. Era diferente, mais simples e cheia de gentileza. Aquela mulher da clínica não parecia ser ela, quase não a reconhecera. Estava muito mudada. A vida deve ter-lhe dado algumas surpresas. Pensou.

Respirou fundo e foi tirada de seus pensamentos pela insistência de Paris.

— Estou com sede. Que tal um sorvete?

— Não, obrigada. — Disse Allison desanimada.

— Nem um suco?

— Talvez.

Agora, o que Allison pensava era em como contar para sua melhor amiga sobre a lista. Como começar? As duas entraram na primeira lanchonete que viram e sentaram em uma mesa bem reservada.

Enquanto Paris olhava no cardápio os sabores de sucos, Allison falou:

— Preciso te contar algo que você ainda não sabe sobre mim. Algo que aconteceu há um ano, quando eu ainda morava no Colorado.

x-x-x

Quando o ônibus estacionou, todos os alunos desceram dele. Ted fora um dos últimos a descer, com a ajuda de Charlie desceu os degraus.

— Eu consigo descer sozinho. — Resmungou.

— Mas eu quero te ajudar, ora!

— Pare de tentar bancar o bonzinho, Charlie. Eu sei bem que você andava com os garotos maus. — Seu olhar mudou totalmente.

A cada palavra dada, Ted mudava o olhar de curso, atrás dos garotos maus que lhe importunavam.

— Eles não estão por perto... Relaxa! — Disse Charlie percebendo os movimentos do amigo.

Os dois começaram a caminhar em direção ao grupo maior de alunos, que já estavam enfileirados bem a sua frente. O apito do professor de biologia quase estourava os tímpanos dos alunos, mas era preciso escutá-lo. Sem o apito, não saberiam para onde ir. O professor de biologia era quem os guiaria por todo o jardim botânico, pois ele trabalhara alguns anos naquele lugar, e foi lá que começou seu gosto pela biologia e botânica.

— Ah, isso é passado. Eu não ando mais com eles. — Charlie parou em uma das fileiras.

— Por quê?

— É uma longa história. — Houve uma pausa. — Você lembra aqueles rituais idiotas que garotos precisam fazer quando querem entrar para um grupo?

— Sei... Eu acho. De iniciação, não é?

— É. Eu fiz um desses rituais. Foi há alguns meses atrás, no cemitério Browning. — E o garoto suspirou, mostrando seu cansaço daquele assunto.

O apito do professor assustou os dois, que seguiram o comboio de alunos.

Todos passaram pelo enorme portão do jardim botânico. Os alunos faziam baderna, e riam, pulavam, gritavam, mas havia os alunos calmos. Eles seguiam o comboio bem atrás. Charlie e Ted. Os dois conversavam.

— E o Adam? — O garotinho da perna mecânica perguntou.

— Ele ainda não ta... Preparado pra vir... Sabe? É que eu não entendo essas coisas. Foi diferente quando meu pai morreu, não sei como.

— As pessoas reagem diferentes, eu acho.

— É deve ser. — Deu de ombros.

Os dois sabiam que o professor estava falando sobre as diversas plantas que estavam ao seu redor. As venenosas não estavam ali, estavam na ala vizinha, mas nenhum dos alunos poderia ir para lá, aquilo era de fato a coisa mais certa a fazer. Os dois ouviam de longe a explicação do professor:

— Do outro lado da vidraça estão as Droseras. São espécies de plantas das famílias das Droceraceaes. A maioria delas é carnívora. Elas produzem uma substância pegajosa chamada mucilagem, e...

Ted e Charlie acabaram se dispersando. E foram se afastando do comboio aos poucos. Estavam conversando, e ao mesmo tempo, observavam a diversidade de plantas ao seu redor. Foi quando se viram totalmente sozinhos naquela ala do jardim botânico.

O sol estava bem acima deles, e só fazia seus raios diminuírem por conta das vidraças que ali existiam. Nas paredes e no teto. Estavam em uma casa de vidro, com várias plantas os cercando. Logo detrás de uma das plantas Ted viu uma placa amarela com um símbolo negro dentro em formato de caveira. Ele dizia: “Cuidado! Plantas venenosas!”

Droga! Murmurou Charlie ao perceber que estavam perdidos. O jardim botânico era enorme, e provavelmente o comboio já poderia estar longe. Eles estavam sozinhos. Era o que achavam. Então começaram a caminhar, foi ai que algo bateu contra a parte de trás da cabeça de Ted. E em suas costas. Ouviam-se os estalidos. Eram pequenas pedras, e estavam sendo arremessadas pelos garotos maus que não gostavam de Ted.

— Parem com isso! — Gritou Charlie, virando-se em suas direções.

— Ui, o amiguinho do robô está com raivinha? — A ironia no tom de voz de um dos garotos era inconfundível.

— Calem essa boca! — Gritou Ted, os repelindo.

— Agora você ficou valente... Não é?

— Nos deixem em paz! — Charlie se afastou um pouco, conseguindo avistar um pedaço de madeira próximo a ele.

O agarrou e esperou que um dos garotos fizesse algum movimento brusco.

Enquanto eles discutiam, um enxame de abelhas protegia sua colméia, no alto de uma árvore próxima de onde estavam. Uma das vidraças os separava do perigo.

Charlie viu os garotos se aproximarem simultaneamente e pediu que Ted se afastasse. Foi quando arremessou o galho na direção de um deles que desviou. O galho bateu na árvore, fazendo as abelhas se movimentarem em várias direções, mas elas não deixaram o local, e continuaram próximas da colméia.

Um dos garotos maus olhou para cima e avistou a colméia.

— Que tal fazermos um joguinho?

Os outros sorriram maliciosamente. Ted e Charlie os observavam, estavam encurralados. Não sabiam para onde fugir. Não tinham como se defender deles. Charlie olhou para Ted, imaginando o que poderia ser dele se ele não estivesse ali. Ele não pode se defender, mas eu posso defendê-lo. Eu sou seu amigo, e amigo são para essas coisas. Seu rosto foi ficando vermelho, até ele decidir correr na direção dos garotos. Cerrava o punho.

Dois deles deram a volta e o agarraram por trás. Um passou o braço pelo seu pescoço, dando-lhe uma gravata, enquanto o outro puxava seus braços para trás.

— Me soltem seus covardes!

— Por que somos covardes? Não estamos nem batendo em garotas. — O outro riu sarcasticamente.

Ted tentou correr, mas suas costas bateram em uma prateleira de vidro com vários vasos de flores. Todos caíram e espalharam suas terras. E flores. O boné de Ted também caiu e foi coberto por terra. O garoto restante se aproximava aos poucos, vendo que tentava se erguer pausadamente. O garoto viu a colméia bem próxima a eles, e pegou o mesmo galho de antes.

— O joguinho é roubar o mel! — E soltou uma gargalhada apavorante.

Suas sardas pareciam assustadoras naquele momento. Então Ted o empurrou e acabou batendo a perna mecânica na árvore. O garoto largou o galho, que acidentalmente foi na direção da colméia. Ted bateu o corpo contra a vidraça e caiu do outro lado, com um dos braços cortado pelos estilhaços. A colméia balançou e desprendeu-se da árvore, caindo rapidamente na direção de Ted.

Quando viram o estrago feito pela briga, os garotos correram, derrubando Charlie sobre vários vasos de plantas carnívoras. Ligeiramente ele se ergueu, sem ter tocado nenhuma delas e correu na direção de Ted. O garoto da perna mecânica se debatia no chão, tentando tirar-lhe a colméia. A casa das abelhas havia caído bem em sua cabeça, prendendo-a nela. Várias abelhas picavam-no simultaneamente. As ferroadas pareciam queimar enquanto entravam em contato com sua pele.

Ted era picado nos olhos, bochechas, lábios e orelhas, enquanto Charlie tentava tirar a colméia de sua cabeça. As abelhas ferroaram seus braços, e ele não teve escolhas a não ser recuar e procurar alguma luva. Fora a primeira coisa que viera em sua mente. Quando a achou, se aproximou novamente. Ted ainda se debatia e gritava, com a ardência no rosto insuportável. As abelhas continuavam picando seu rosto por completo.

Charlie conseguiu agarrar a colméia e puxá-la, mas o que viu não foi o que queria ver.

— Meu Deus! — Seus olhos se arregalaram com a cena.

Ted parou de se debater. Seu rosto estava completamente desfigurado, e as abelhas já haviam ferroado seus braços e pescoço. Seu rosto estava inchado e vermelho. Os ferrões das abelhas pareciam estar visíveis em sua pele. Seus olhos estavam esbugalhados, assim como suas bochechas, orelhas e lábios também.

Estava irreconhecível.

— Socorro! Alguém ajuda aqui! — Charlie gritou o mais alto que pôde.

x-x-x

Paris não estava acreditando no que Allison estava lhe contando.

— Você quer dizer que o que aconteceu com aquele garotinho loiro lá no Comet Circus, também ocorreu com esse tal de Chase? E que é muito perigoso para todos que escaparam? — Paris não queria mostrar sua descrença, mas era impossível.

— Isso mesmo. É uma lista criada pela morte, sabe? Pra consertar o erro.

— Olha. Eu não queria falar isso, mas você pirou amiga. Depois do que houve, você não ficou a mesma. Parece que você está mais... Paranóica.

— Você não acredita em mim, é isso? — Allison é que não estava acreditando em tudo aquilo.

— Vou ser sincera contigo... Não. Eu não acreditei em nada do que disse. — Houve uma pausa, e Paris bebeu um gole de seu suco. — Pelo menos, na parte do acidente da caverna eu acreditei, e no surto que esse Chase deu. Mas no resto é difícil acreditar Allie. — Paris suspirou.

— Escuta bem, Paris! Todos que saíram daquele circo precisam saber o que está acontecendo. Ou pode ser tarde demais, você está entendendo? O jogo da morte é muito perigoso!

— Se continuar desse jeito, você é que vai se tornar perigosa. Escuta o que eu estou te dizendo. — Disse-lhe se erguendo da cadeira.

— Aonde vai?

— Vou à casa do Freddy.

E saiu da lanchonete.

— Paris, volta aqui! Dá pra pelo menos pensar no que eu disse? — Não houve respostas. — Paris!

Allison ficou ali sozinha. Sentada à mesa. Pensando sobre como ajudar os outros. Eles precisam de mim. Precisam do Adam. Ele é a chave para a ordem.

Notas finais
Bem, não esqueçam de comentar e até o próximo capítulo, que prometo que não demorará tanto como este demorou. Abração ;]