Notas iniciais
Escrito por PW (Em colaboração com Felipe Chemim e MV)

PARTE I: Branco

Novembro de 2015

O azul de tom fechado, das lâmpadas escondidas pelo acrílico, refletiam diretamente nos equipamentos, paredes — segregadas por adesivos laminados —, no piso repleto de compartimentos e no resto do ambiente claustrofóbico, de uma das salas das Tumbas, complexo laboratorial da Corporação Pyramid. Duas pessoas concentravam-se em realizarem suas tarefas, distribuindo os pequenos frascos translúcidos sobre a mesa de aço e analisando as amostras em microscópios pretos e modernos. Ambas trajavam capas de proteção e uniformes feitos sob medida para tal trabalho. O único barulho a se ouvir eram os tilintares dos frascos, que poucas vezes batiam uns nos outros, ao serem colocados nos suportes.

Do lado de fora, através de uma escotilha de vidro bastante estreita, olhos azuis vibrantes encaravam a robótica perturbadora dos funcionários do laboratório, atrás da porta. Os funcionários não perceberam a movimentação, e o indivíduo olhou para os corredores, vestindo um capuz de um casaco branco com a insígnia da corporação. A vestimenta escondia os cabelos e parte do rosto, para que o mesmo não fosse captado pelas câmeras, acabando assim, por preservar sua identidade. Ao notar que o perímetro estava limpo, fez um sinal sutil com os dedos delgados. As botas brancas batiam contra o piso, quando avistou a figura se esgueirando no final do corredor, temendo também ser identificada pelas câmeras. Tinha o corpo mais robusto e seria mais difícil não ser notada. Tocava as paredes tremendo, tentando parecer uma pessoa calma, as pernas bambas embaixo do tecido do uniforme do laboratório.

Os dois sabiam do risco que corriam e mesmo assim, colocavam o plano quase impossível em prática. Seguiram pelo corredor de maneira rápida, enquanto as câmeras faziam um barulho mecânico e lhes acompanhavam a cada passo pelo corredor. Em silêncio, davam passos precisos na direção do elevador mais próximo, há vinte metros dali. O primeiro tinha a planta das Tumbas nitidamente em sua mente, pois trabalhava ali há exatamente dois anos e conhecia o local como a palma de sua mão. O segundo continuava nervoso, em passos fora do ritmo, a respiração ofegante embaixo do capuz.

— Calma, já estamos perto. — O primeiro sussurrou.

O final do corredor deu lugar a uma ampla sala, parecida com um hall, completamente branca e quase sem nenhum equipamento ou móvel. Apenas quadros e mais quadros nas paredes, com pinturas à óleo de alguns deuses egípcios, e um vaso de plantas em um canto. Um tanto minimalista, o primeiro comentou para si mesmo. O elevador estava a dez metros, chegando bem perto. O painel acima mostrava o andar, estava descendo. As Tumbas ficavam no subsolo, cinco andares abaixo do térreo da corporação.

— Os seguranças. — O primeiro indivíduo disse, alertando o segundo, que estava vindo bem atrás. — Haja naturalmente e deixe o resto comigo. Nem precisou olhar para trás, para saber o segundo assentira.

Os dois se aproximaram dos homens — que mais pareciam armários —, eles estavam dispostos de cada lado das portas do elevador. A caixa de aço havia acabado de chegar. Ambos encararam as figuras encapuzadas, o primeiro mostrou seu crachá e conversou algo de maneira curta com eles, que autorizaram a saída. O segundo encarou o rosto de um dos seguranças por um milésimo de segundos e entraram no elevador. Bastou que o elevador fechasse suas portas e subisse dois andares para que um alarme soasse por toda a Tumba e imediações. Um alarme específico, as sirenes soavam diferentes para cada situação e aquela revelava claramente do que se tratava.

Alguma cobaia estava fugindo.

Os encapuzados ouviram o alarme soar de forma ensurdecedora dentro do próprio elevador e a câmera bem acima deles filmava tudo. Naquele momento, eles sabiam que estavam encurralados. E provavelmente, quando o elevador chegasse na superfície, meia dúzia de brutamontes estariam esperando e preparados para puni-los. Mas isso não podia acontecer e não aconteceria, se dependesse deles. Então, o primeiro sorriu para o segundo e tirou seu casaco, cobrindo a câmera do elevador. O elevador abriu-se e revelou uma bela mulher, esbelta, de cabelos longos e loiros, porém, presos em um rabo de cavalo. Ela tinha pele alva, as pernas grandes e atléticas, e uma pose de imponência e elegância. Saiu, arrumando o crachá no peito. Atrás da mesma, o sujeito com o uniforme da corporação e o capuz torto, revelando parcialmente seu rosto negro.

A loira passou pelos três seguranças parados próximos ao elevador e seguiu na direção da grande porta giratória, levando a cobaia consigo. O sol batia e refletia nas vidraças como um portal para o próprio paraíso, e era assim que a cobaia se sentia. Indo para o paraíso. Assim que entraram no táxi, após descerem a escadaria da corporação celeremente, os guardas chegaram ao hall de entrada e encontraram o casaco tapando a câmera do elevador.

Elas haviam conseguido.

XXXXX

29 de Janeiro de 2016

A tarde não estava nada agradável e o grupo situado em um dos casarões coloniais do distrito das fazendas fingia que as coisas estavam sob controle, e que suas emoções não estavam lhes corroendo por dentro, como um líquido ácido bombeado pelo próprio coração. Apenas dois dias antes do fim da quarentena e eles não sabiam o que aconteceria em seguir. Já estavam confinados dentro da propriedade do Santuário há algumas semanas, distantes do centro urbano e longe da maioria das notícias que se espalhavam pelo restante de Cabo. O sol entrava despercebido pelas brechas das cortinas brancas, que balançavam atrás das janelas de vidro.

De dentro, era possível ver as silhuetas das árvores chacoalhando do lado de fora. Eles estavam reunidos no segundo andar do casarão cor-de-creme e pilastras adornadas de ladrilhos vermelhos, com relevos lapidados a mão em forma de coroas de flores. As inúmeras janelas estavam apontadas para o grupo e o calor fazia questão de marcar presença. Alfa estava sentado em um sofá aparentemente de valor histórico, talvez uns oitenta anos. Porém, nenhuma poeira existia ali. Os civis abrigados no Santuário se dividiam para realizar tarefas como distribuição de alimentos e limpeza, o que era indispensável pra estadia em grupo. Ao lado do loiro permaneciam sentadas Ester, sua filha, e Mimi, uma pessoa pela qual ele sentia muito estar passando por toda aquela situação.

Michelle estava em Cabo da Praga pelo cachê que a produtora de Alfa pagaria pelo seu trabalho no novo projeto, mas Mimi veio diretamente para um pesadelo sem volta. Demétrio queria tirá-la daquela situação, assim como sua pequena filha. As duas não poderiam ter o mesmo destino de sua esposa. Aonde quer que Samara estivesse, estaria ansiando a saída deles daquele inferno. Coisas ruins acontecem com pessoas boas, isso martelava na cabeça do loiro, como se suas têmporas estivessem próximas de explodir.

Assim como Samara, Diana tivera um fim trágico. A mandíbula arrancada, o sangue encharcando a madeira úmida do píer… Ele não estivera lá no momento em que o gancho separou a mandíbula da jovem dubladora de seu rosto, mas podia sentir a dor que ela sentira, lá em sua alma principalmente. Eram muitos pensamentos, muitas dúvidas, muitas sensações ruins diferentes batalhando dentro de si para decidir quem tinha mais controle sobre sua mente. Ele falara com Thiago logo depois do mesmo ter pedido ajuda às pessoas mais próximas aos berros, acompanhado de uma garota que o produtor não conhecia. Alfa entendia a frustração e o medo do professor, que ficou arrasado por dois dias seguidos, sem sequer querer comer ou beber alguma coisa.

Seria a loucura uma saída fácil para os problemas? Seria a morte uma cama de flores macia e confortável para o descanso eterno? Alfa engoliu em seco e encarou sua filha e a atriz de soslaio. Bem na sua frente, estavam: Max, Ômega, Thiago, Sabrina, Alisson e um casal que se instalara ali. A mulher de cabelos cacheados passava a mão constantemente na barriga, parecia estar grávida — pelo tamanho da barriga, julgava-se uns quatro a cinco meses de gestação — e eles se mantinham abraçados, em silêncio, observando os desenhos que os raios de sol faziam em suas peles. Já Max tinha um boné sobre a cabeça e brincava com os próprios dedos de maneira insistente, bastante distraído com o ambiente a sua volta. Thiago estava recostado na parede, sentado de pernas estiradas. Sua cabeça tombada para trás mostrava o quão imerso em pensamentos remotos ele se encontrava. Sabrina fumava um cigarro em uma das extremidades da sala de decoração antiga, e Alisson estava nada mais, nada menos, que com a cara enfiada na janela aberta, vigiando o perímetro.

Ela já havia adquirido uma mania de segurança máxima diante de tudo que viveu. Desde o reencontro com Vinicius e seus amigos do Blue River Adventure Park, como o Gregório barbudo do Texas Rednick Bar e a outra fatídica lista da morte. A tatuada enfrentava a terceira lista, mas uma coisa lhe impressionou desde então. A capacidade de atrair a tal lista, a quem aprendeu a chamar carinhosamente de maldição. Por onde quer que Alisson andasse ela sentia que a qualquer momento poderia trombar novamente com a morte, mas nunca estar diretamente ligada a ela. Você tem medo de mim, sua vadia? Riu de maneira nervosa, tomando cuidado para que ninguém a visse tendo um de seus momentos de falsa esquizofrenia. Lá embaixo, viu um casal andando de mãos dadas e olhou disfarçadamente para Demétrio, que beijava o topo da cabeça da filha, aninhando-a em seus braços. Alisson suspirou.

Thiago queria beber algumas garrafas de cerveja, mas ele não sabia se conseguiria arrumar nenhuma naquela concentração militar. Desde que chegou, notou que estava diferente, mais introvertido, sempre mergulhando em um silêncio constrangedor e falando menos. Essas eram características marcantes nele, mas de algum modo, se intensificaram. Talvez fosse a lista da morte falada pelo grupo de Demétrio ou os problemas que surgiram logo depois.

As recordações do momento em que ele quase morreu no poço vieram à tona, fazendo-o mexer de maneira desconfortável no chão de madeira da sala de estar. Podia sentir levemente a água na garganta ou o ardor nos pulmões. Só de pensar que se não fosse pela água, seria pelas pedras jogadas pela infectada, ele tremeu. Desde pequeno Thiago adquirira um medo absurdo de águas profundas. Era algo que ele levaria para sempre consigo, como sua sombra. Então, ergueu-se e caminhou calmamente até Sabrina. Segundo o que falaram, ele tinha sido pulado pela morte e ela teria que pegar todos para voltar a tentar levá-lo. Diana… Eu poderia ter feito algo para evitar sua morte, assim como evitou a minha… Mas infelizmente não consegui, eu sinto muito…

— No que está pensando? Com essa cara de “fiz merda” não deve ser boa coisa, não é? — Perguntou a ocultista à queima-roupa.

— A morte da Diana, a cena ainda permanece na minha cabeça. Foi horrível ver o corpo dela naquele estado, sabe? — Respondeu ele inconformado.

— Você não pode se culpar por isso, lindão. A morte só quer uma desculpa e, assim como ela aproveitou da sua fraqueza naquele poço, ela aproveitou a distração da Diana. — Sabrina não tinha interesse em saber se Thiago aceitaria ou não suas palavras, ela só queria desabafar também.

Assim como supôs a morena, o sociólogo não disse nada.

— Me arruma um cigarro. — Soltou exausto. — Se eu ficar mais um momento sem fumar ou beber, no estado em que estou, sou capaz de sumir sem rumo.

— Não faz a louca uma hora dessas, Thito. E aproveita que tirei esse maço da bolsa de uma senhora no refeitório. — Sabrina respondeu e soltou um pouco de fumaça na cara do amigo, indo até mais próxima da janela e lhe entregando o cigarro.

Thiago acendeu o tabaco e olhou para Alfa do outro lado da sala. O loiro falava ao celular e fazia algumas expressões de preocupação.

Sabrina pigarreou.

— O que foi? — Perguntou ele, olhando a expressão de malícia no rosto da ocultista. Thiago conhecia aquela feição, Sabrina tivera alguma ideia e precisaria de sua ajuda para por em prática. Ele tinha plena ciência de que não viria coisa boa dali, porém, gostava da sensação de fazer coisas proibidas. Era um sentimento do qual ambos partilhavam e sentiam prazer.

— Eu sei onde encontrar bebida aqui. — Sabrina disparou.

— Sério? — O loiro imediatamente olhou para os lados, para certificar-se de quem ninguém escutara.

— Vem comigo, seu trouxa.

Depois de sussurrar, a mulher segurou na mão do melhor amigo e o guiou pelos cantos do cômodo, enquanto os demais estavam dispersos. Com exceção de uma pessoa, Ulysses. O homem ouvia tudo que a dupla dizia e acabou por seguí-los. Não perderia a chance de molhar o bico, fazia semanas da última vez que ele encheu a cara. Aquela era a oportunidade perfeita. Aproveitou que seu irmão se distraíra ao celular, para ter um momento só seu. Chega de gente me vigiando, não sou mais nenhuma criança e não estarei cometendo nenhum crime!

A porta fechou-se atrás do ator sem nenhum esforço, com um mínimo rangido. Sabrina parou no meio do corredor que dava para a escadaria, assim que notou a presença do homem forte bem atrás deles. Thiago pôs as mãos no bolso e viu a morena encará-lo de maneira intimidadora.

— Onde pensa que vai? Seu irmão não vai gostar nada quando não o ver aí. — Sabrina preferiu ser irônica.

— Eu sou o irmão mais velho, eu dito as regras. E nesse momento, eu quero beber. Se vocês vão, eu vou. — Riu.

A jovem bufou, mas cedeu e os três saíram dali em direção ao local indicado por Sabrina.

XXXXX

No Instituto Pyramid as coisas estavam indo de mal a pior. O clima estava pesado, o ar denso demais para ser respirado de qualquer forma. Dentro da sala da diretoria, depois da porta dupla de vidro, Bárbara confrontava Anúbis de maneira sucinta e sem rodeios. Ele detestava quando a mulher decidia testar sua paciência ou tentava confrontar sua autoridade. O homem de figura imponente gostava de manter a ordem de sua palavra e fazê-la valer até o fim. Se Anúbis dizia que a cidade precisava de uma alternativa mais brutal, para ele, aquilo teria de ser feito.

Porém, tal momento era comum de um tempos para cá. A relação do casal ficou repleta de obstáculos emocionais e ausências do mesmo tipo. Difícil se encontrarem e mais difícil ainda concordarem com as atitudes do outro. Enquanto Anúbis preferia ser destrutivo e esmagador, Bárbara só queria que todo mundo saísse ganhando daquela mórbida situação. O que não era o caso, pois nas circunstâncias em que a população de Cabo da Praga se encontrava, alguém perderia muito feio. E Anúbis não estava disposto a aceitar a condição de que fosse ele a sair com as mãos abanando. Sua ganância falava mais alto.

— Temos dois dias para limpar a cidade. — Disparou ele com uma voz que retumbou por toda a sala branca. — Dois dias até que os militares tirem o lacre de Cabo.

Bárbara engoliu em seco. Uma das piores partes de ter que argumentar com seu marido, era a força que ele preservava no semblante rude e na voz gutural. O homem de cabelos loiros e barba bem cuidada, de mesma cor, trajava um terno caro e acessórios como relógio e anéis que brilhavam sob a luz forte das lâmpadas. Sua mulher exibia uma feição cansada de tantas preocupações, mas que sabia escondê-la na maquiagem simples e discreta. Usava um vestido branco com detalhes em prata e um par de brincos elegantes.

— Não podemos simplesmente matar todos os moradores, Anúbis. São milhares de vidas em jogo, não é assim que as coisas funcionam.

Cada frase era escolhida minuciosamente, todo cuidado era pouco. Discutir com Anúbis era como andar em um campo minado.

— Tivemos quarenta dias para resolver a situação alarmante, mas não conseguimos, até então. As cobaias de testes sumiram e não temos como concluir o antivírus. — As palavras da ruiva entravam como socos no estômago de Anúbis. — As Tumbas da Ilha do Faraó aguardam apenas nossas instruções para que façam algo a respeito. Nós precisamos de alguma amostra do soro do sangue de uma dessas cobaias, é a última chance de pormos um fim nisso.

O dono da Corporação Pyramid lembrou-se de que dias antes, enviara uma agente chantageada em campo, exatamente nas imediações do Santuário, para exterminar a última cobaia que se sabia viva em todo o cabo. KB-081 havia sido eliminada por uma mulher cuja filha estava nas posses da própria Bárbara, ali mesmo no Instituto, mas nem mesmo a viróloga sabia do plano arquitetado por ele.

— Ok. — Anúbis respondeu. — Irei enviar o último alerta para todos os contingentes que temos ao nosso favor. Se há alguma cobaia em Cabo, eles irão encontrá-la e você ficará à par de tudo.

— Obrigada. — Barbie então aproximou-se para um abraço e foi interceptada pelos braços parrudos do loiro.

— Mas você sabe que daqui há dois dias teremos que purificar Cabo da Praga. — Encarou-a com os olhos azuis intimidadores. — Perdemos o imprestável do prefeito e dúzias de civis no Expurgo feito pelos marginais do Complexo, o vírus só assola e se espalha a cada novo ataque, o Santuário está prestes a cair e a contagem regressiva para o fim da quarentena se iniciou. Não temos tempo de se apiedar de ninguém. A Pyramid está com um pé no colapso, por enquanto estamos lidando da melhor forma que podemos, mas vai chegar um momento em que tudo que poderemos fazer é acabar de vez com a ilha. Explodi-la talvez? Assim como aconteceu com a ponte.

— Foi você quem mandou explodi-la? O que tem na cabeça?

— Sensatez. — Anúbis deu de ombros. — Além do que, foi você quem vazou o vírus, lembra? Estamos todos juntos nessa merda de caos para limpar a sujeira da sua negligência!

O homem bateu o punho na mesa de vidro, fazendo-a estalar.

Todo o discurso anterior congelou o corpo da ruiva de maneira abrupta, ela não conseguia mexer um músculo sequer. Não reconhecia o próprio marido, a pessoa por quem um dia fora cegamente apaixonada e que hoje só lhe restavam resquícios de um casamento repleto de rachaduras e com risco de estilhaçar-se a qualquer momento. Álvaro passou a ser um completo estranho para Bárbara e seu psicológico já começava a ser afetado pelas constantes transformações do meio que a cercava. Sua família, seus negócios, seu amor, sua perspectiva de vida… Tudo. E a cientista acabaria por se transformar também. Ela só não sabia se seria uma mudança benéfica ou maléfica, isso só o tempo diria.

Anúbis passou por ela sério e indiferente como de costume, seguindo até a porta e saindo da sala sem dizer mais nenhuma palavra. Ficara apenas seu perfume. Bárbara estava sozinha outra vez. Com dois pesos na balança, não se sentia preparada para lidar com escolhas binárias. Ou ficaria parada, assistindo sua vida ruir ou tomaria providências.

E a cientista possuía dois dias para decretar seu lado. Seguir a razão ou a emoção? Ficar ou fugir? Atacar ou recuar? Viver ou morrer?

Diante de um silêncio sepulcral, Bárbara deixou que uma lágrima caísse.

XXXXX

O corredor do casarão em que estava o trio composto por Thiago, Ômega e Sabrina permanecia escuro, embora o sol da tarde entrasse por mínimos buracos nas paredes. O loiro de cabelos longos seguia afrente do trio, guiando-os, enquanto sentia as ataduras das mãos parcialmente enfaixadas deslizarem pela parede de tijolos. O acidente no poço lhe trouxe algumas destas “bagagens” físicas. E ele estava se recuperando bem, com Sabrina lhe ajudando a sair dessa ao tratar de seus ferimentos constantemente.

De onde estavam, podiam enxergar uma porta entreaberta e uma fina fresta de luz saindo de lá. Em silêncio, caminharam lentamente e chegaram até o que seria uma adega. Avistaram as diversas prateleiras de madeira dispostas igualmente nas quatro paredes do cômodo. Vinhos caros e baratos se misturavam a outras pouquíssimas bebidas. Ali também havia estoque de água e molhos de tomate.

— Aqui tem que ter cerveja, não é possível. — Sabrina entrou apressadamente, vasculhando as primeiras prateleiras.

Ômega entrou em seguida, pisando em algo pegajoso. Olhou para as solas de seus sapatos e viu o líquido viscoso e vermelho escorrer.

— Tem molho de tomate espalhado no chão. — Reclamou.

— Parece que alguém veio aqui antes de nós. — O comentário de Thiago fez Sabrina olhar desconfiada para o cenário.

Embaixo de uma das prateleiras, encontrou dois vidros de vinhos quebrados, mas as garrafas pareciam estar vazias e sem nenhum líquido delas por perto. A lâmpada acima do trio balançou vertiginosamente e Thiago olhou para os dois.

— Vamos sair daqui. — Pediu o professor, sentindo uma sensação estranha. Mas preferia não falar nada sobre ela. — Aqui não tem cerveja. Foi uma viagem perdida.

— Quem disse?

A voz da amiga despertou Thiago, que olhou para trás e viu ela sorrir com um gradado de cerveja em mãos. Ambos os rapazes loiros riram com as Skol Beats na posse de Sabrina.

— O que foi? Pelo menos encontramos cerveja nesse santuário. — Deu de ombros.

Enquanto todos riam distraídos, algo mexia-se atrás da prateleira próxima da ocultista.

XXXXX

Demétrio guardou o celular e ficou de pé, fitando o grupo que restara na sala de estar. Mimi, Ester, Max, Alisson e o casal que agora estava mais afastado. O cineasta tinha um semblante sério, mas ao tempo tempo preocupado com o que estaria por vir. Alisson logo percebeu e aproximou-se do homem, vendo Max fazer o mesmo. Mimi estava pronta para ouvir o que o loiro tinha a dizer.

Alfa começou:

— Renan ligou, mais duas pessoas morreram. Marcela e Donatella. — Havia pesar em sua voz.

— A dama de ferro da Falcon Magazine e a médica que cuidou da gente após o acidente. Sei bem. — Alisson acabara-se de lembrar de ambas.

Max soltou um suspiro pesado e Mimi soltou um gritinho, olhando para Demétrio de maneira séria. Alisson aproximou-se do homem e lhe deu um abraço apertado sem que ele esperasse.

— Sinto muito que estejam passando por isso. — A tatuada disse.

Alfa fechou os olhos e disparou decidido:

— Vamos embora daqui ainda hoje. Ainda não sei como, mas precisamos encontrar as outras pessoas da lista o mais rápido possível. Renan marcou um encontro com todos, inclusive Natasha poderá estar entre eles.

Os olhos de Max brilharam. Fazia alguns dias que ele estava longe da namorada. Sentia falta das implicâncias, dos carinhos, das broncas, dos beijos. Detestava quando tinha pensamentos clichês de casais do Nicolas Sparks, mas era a sua genuína verdade. Max era incompleto sem a presença de Natasha. O ilustrador estava disposto a ir com Alfa, sair do Santuário era o passo inicial para reencontrar a escritora. O homem coçou a pouca barba e acenou em resposta.

Demétrio queria ter feito um plano antecipado, mas a ligação de Renan o surpreendeu por completo. Agora, encontrar os demais era um desejo abissal e ele faria acontecer a qualquer custo. Viu Mimi e Álisson assentirem prontamente. Ester continuava alheia ao que se passava, seu pai sabia que deveria ser assim. Ester estaria mais segura sem conhecer a verdade obscura por trás da nova vida.

No colo da garota, a chinchila cinza ronronava.

De repente, o grupo ouviu um barulho vindo do térreo e diversos gritos de pessoas diferentes ecoaram desesperados pelo casarão. Alisson correu rapidamente até a janela e puxou a cortina, tendo visualização do andar de baixo. As pessoas corriam pela terra molhada e batida de uma pequena chuva da manhã do mesmo dia. Algumas choravam muito, outras só queriam outro abrigo. Sem entender nada, o grupo do andar de cima já estava preparado para descer, quando a porta da sala de estar abriu-se num rompante e da abertura, entraram uma horda de seis infectados.

Demétrio não fazia ideia de como crescera tão rápido o número das vítimas do vírus no Santuário, muito menos como o vírus havia ultrapassado a barreira militar feita após os demais ataques. Sem pensar duas vezes, pegou a filha nos braços e pediu que todos ficassem juntos e se armassem. Viu Alisson apoderar-se de um abajur, Max de uma mesinha de canto de madeira branca e Mimi de um guarda-chuva que encontrara no canto da parede. Foi nesse instante que o grupo avistou o casal ser atacado pelos infectados.

Três deles saltaram sobre o casal. O homem careca tentou acertar uma cotovelada, mas os infectados estavam mais enfurecidos e velozes. O primeiro subiu em cima da vítima e começou a rasgar seu dorso violentamente. Já a mulher grávida, de cabelos cacheados, tentou proteger sua barriga e correr, mas dois infectados pularam em suas costas, e enquanto um deles arrancava seu couro cabeludo, o outro rasgava suas pernas. O casal gritou uma última vez, antes de serem deixados sem vida sobre o tapete da sala. O sangue escorreu e as tripas do careca deslizavam pela tapeçaria.

Os outros dois infectados foram na direção do grupo de Alfa. Max surgiu na frente do cineasta e impediu que ele fosse atingido pela raiva do infectado. O ilustrador desceu a mesa com força na direção da criatura, que gemeu quando o móvel partiu-se em pedaços na sua cabeça e costa. O infectado tombou no chão e por lá ficou, inerte. Mimi e Alisson seguravam o segundo, que se debatia debilmente e tentava abocanhar as duas. Elas sabiam que eles não iriam devorá-las, mas no mínimo, dilacerar. Mimi gritava, pedindo que Alisson matasse logo ele, mas a tatuada só queria ganhar tempo. Alfa passou rapidamente com Ester no colo, indo para a saída. A atriz aproveitou o momento para retirar o salto e cravá-lo na barriga do infectado.

As duas soltaram a criatura, que grunhiu em resposta.

— Vamos sair daqui agora! — Max gritou e saltou o corpo do infectado no meio do caminho.

Michelle e Alisson saíram dali às pressas, deixando a criatura sangrar.

XXXXX

Ômega sentara no chão da adega há pouco tempo. Thiago e Sabrina tomavam as cervejas de pé, encostados nas prateleiras. Eles conversavam sobre o vírus e como eram suas vidas antes dele. Ulysses contara sua história como escoteiro e irmão mais velho de Demétrio. Como seus papéis eram invertidos e diferentes do habitual. Contou também que o loiro chegara cedo em sua família e desde então, os meio-irmãos sabiam lidar muito bem um com o outro. Ômega amava Alfa mais do que tudo, e sempre o faria porque era a única pessoa verdadeira com a qual poderia contar sempre. Ele nunca gostou de dar trabalho para o irmão, mas reconhecia que era um tanto irresponsável e que suas decisões afetavam diretamente no comportamento do outro. Só Demétrio lhe parava.

Sabrina já chegaria em um ponto da vida onde nada mais lhe traria aquela vontade de viver intensamente. Para ela, a vida tinha se tornado monótona e o sentimento de indiferença só tinha aumentado. Thiago era o alicerce que lhe dava o impulso necessário para não pegar suas trouxas e ir embora para nunca mais voltar. Ele era tudo que ela tinha agora e ela faria questão de protegê-lo, muito mais nesse momento, como sempre fez. De seu modo torto, mas fez.

Thiago jogou a bebida de lado e olhou para os dois a sua frente. Os cabelos caíram sobre seu rosto e ele deu um riso bobo, pensando sozinho.

— A vida é tão irônica, né? — Balbuciou.

— Por que diz isso? — Ômega perguntou, bebendo mais um gole de cerveja.

— O mundo pode estar caindo lá fora, mas a gente está aqui desfrutando de Skol Beats Senses. — E riu novamente.

— Eu prefiro morrer bebendo, do que viver que nem uma retardada, passando o dia olhando pra janela feito um eterno clipe da Celine Dion. — Brincou Sabrina.

— Estou com ela. — Ulysses retrucou.

Por algum motivo, Thiago estranhou o lugar mergulhado em um silêncio assustador. Os outros riam de uma forma que não pareciam estar passando pela mesma coisa que ele. A epidemia estava começando a ficar banal e aquilo mastigava os pensamentos do loiro sem dó.

Até que ele ouviu um ruído.

— THITO! — Sabrina gritou.

Thito virou-se com velocidade, a tempo de ver o vulto surgindo detrás de uma das instantes. As garrafas de vinho começaram a despencar sobre eles e o loiro foi atingindo por duas delas, que estouraram em seus ombros. Logo em seguida, um infectado pulou em suas costas e o professor gritou. Ômega apavorou-se e puxou a blusa do infectado, que rasgou. Sabrina pegou um dos gargalos de garrafa e deferiu um golpe no rosto da criatura, de modo que a criatura grunhiu. A ocultista deu mais dois golpes na cabeça dele, fazendo-o tombar no chão.

— Saiam daqui! — Ômega bradou, abrindo a porta e deixando que Sabrina e Thiago dessem o fora.

Ele não teve a mesma sorte, pois no momento em que sairia, o infectado cravou seus dentes no tornozelo do ator, que gemeu com a dor repentina. Thiago olhou para trás e seus olhos fitaram o sangue descer pela canela de Ômega. Sabrina puxou o amigo e gritou pelo outro homem, que saia da adega correndo. Ulysses trancou a porta e os três seguiram pelo corredor estreito.

Lá fora, longe da ala onde estavam anteriormente, o trio se deparou com a fazenda tomada por infectados, um caos instalado sem volta. Viram Max correr ao lado de Michelle e Demétrio, que trazia a filha no colo. O ilustrador apontou para o trio, que se aproximou rapidamente. Eles olharam para trás e Alisson empurrou um dos infectados, outrora avançando sobre ela.

Adiante, muitos infectados atacavam os civis sem qualquer chance deles se defenderem. Mulheres, crianças e idosos tentando se defender, mas nenhum deles obtinha sucesso. Homens se juntavam para ataca-los, mas o azar os seguia e as criaturas avançavam rapidamente, rasgando suas peles com os dentes e unhas. Alisson chegou ofegante até o grupo, vendo um infectado bater a cabeça de um idoso contra uma árvore, até o sangue jorrar de uma abertura na testa.

Alfa virou o rosto da filha.

— Precisamos encontrar um transporte! — O cineasta disse em meio à gritaria.

— Eu quero ir embora! — Mimi chorava copiosamente.

— Vai ficar tudo bem. — Max tocou o ombro da atriz. A mesma encolheu-se em seus braços.

— Eu vi um carro militar há alguns metros daqui. — Sabrina retrucou apontando em uma direção.

Sem pestanejar, o grupo passou a segui-la, correndo em meio ao caos. Thiago suava frio, enquanto via Ômega correr com dificuldade. Aproximou-se dele e sussurrou:

— Você não vai contar pra ele? — O professor referia-se a Alfa.

— Ainda não. — Respondeu.

Um pouco mais na frente, eles se depararam com o veículo militar estacionado próximo à varanda de um dos casarões. Um homem com vestimenta da guarda municipal era atacado. Ele gritava e procurava chutar a criatura para fora do carro.

Outros infectados vinham correndo na mesma direção do grupo. Alfa percebeu o que aconteceria e pediu que Mimi segurasse na mão de Ester. Com a atriz tomando conta de sua filha, o produtor chamou a atenção de Max, que entendeu o recado. Os dois se aproximaram do veículo militar depressa e com um puxão, Max trouxe o infectado ao chão, num baque ensurdecido pela areia. Em seguida, Alfa chutou seu rosto e o infectado soltou um grunhido estridente, mas interrompido pelo pescoço quebrado no mesmo segundo.

A horda de dúzias de infectados vinha chegando numa velocidade impressionante logo atrás do grupo.

— Subam, subam! — Alfa gritava, ajudando Michelle e sua filha a subirem no transporte.

— Não temos tempo! Rápido! — Alisson ajudava.

Depois foi a vez de Sabrina, Thiago, Alisson e Ômega, que estranhamente teve bastante dificuldade para subir. Demétrio fingiu não perceber que seu irmão mancava e deu passagem para Max. Logo, entrou no outro lado, atrás do volante e deu a partida. Na primeira tentativa, o veículo falhou, mas na segunda, o barulho do motor lhe animou. Alfa acelerou pela estrada de terra, a poeira subiu e o transporte militar seguiu até os portões. No meio do caminho, as rodas esmagaram o que seria um braço.

O Santuário agora não passava de um Mortuário.

Pelo retrovisor, durante alguns segundos, Demétrio encarou o sol batendo no rosto do irmão. Ômega desviou o olhar e Alfa entendeu tudo. Ele não teria forças para perder mais ninguém.

XXXXX

Alfinn dormia solenemente com a cabeça no colo de Gabriel, enquanto Fred e Kaique mantinham-se perto dele, também dormindo. O médico sentara-se no chão e passara a fitar a janela na sua frente como se estivesse entrando em uma espécie de transe.

Dois dias antes

A porta dupla abriu-se com voracidade, batendo nas paredes com um baque seco. Gabriel surgiu, andando apressadamente para fora da escola. Logo atrás vinha Kaique completamente aflito. A noite estava escura, a penumbra decorava a rua e o frio cobria o bairro. Ao lado do médico, Fred e Alfinn apareceram de mãos dadas, os três desconfiados e ao mesmo tempo boquiabertos com o que presenciaram. Os corações deles estavam em pedaços, princialmente Alfinn, as lágrimas não paravam de rolar pelo rosto alvo do garoto.

O semblante de Fred permanecia uma incógnita, mas era notável seu nervosismo. Gabriel engolia em seco, a garganta áspera fazia o homem tossir brevemente. Descendo as escadas, Fred largou o bisturi manchado de sangue e entreolhou-se com o médico, que acenou positivamente. Os três foram até o veículo estacionado na frente da instituição e entraram suados. Kaique pediu que Gabriel dirigisse.

— O que aconteceu lá dentro? — Perguntou claramente preocupado. — Ainda não consigo assimilar muita coisa. A Dona, ela… Joker… Estão mortas.

Diante do silêncio que tomara conta do carro, ele desistiu de querer arrancar alguma palavra dos demais e entrou no silêncio também. Os quatro avançaram em Mabel, e naquele momento, por mais que soubessem quem cravara o bisturi no peito da mulher, nenhum deles diria qualquer coisa.

Gabriel ficou alguns minutos com o carro parado e deu a partida.

Agora

Mia cutucou o irmão gêmeo algumas vezes, até tirá-lo de suas lembranças. Ela deu um sorriso iluminado e o chamou para comer alguma coisa que Stein, Erick e Elly haviam preparado juntos. Gabriel não ouviu muita coisa a partir daí, ele estava ocupado demais remoendo seus pensamentos sobre Donatella, a quem tinha dedicado seu amor, antes mesmo de ter certeza do quão incrível a médica era.

XXXXX

Serena tomava um suco de laranja na sacada de um prédio de alta classe na Alta Praga. Na mesa branca, sob a sombra de um guarda-sol, a jornalista e escritora havia colocado seu notebook, um exemplar de seu livro e uma pistola calibre doze. Ao longe ela via vários focos de incêndio e ouvia as sirenes das ambulâncias, bombeiros e viaturas de polícia. Todas em uma sinfonia macabra de desespero. Porém, ela não poderia se desesperar, ela tinha algumas coisas sensatas a se fazer, antes de perder completamente sua sanidade com tanta desgraça.

Pouco antes de por a cabeça no lugar, a ruiva saqueou algumas salas do estúdio de TV onde trabalhou por algum tempo. Não havia sido tão fácil, porque lá algumas pessoas ainda insistiam em trabalhar e deixar a população informada, coisa que facilmente ela conseguia fazer na internet. Bando de alienados! Aposto que devem estar divulgando looks para vestir na epidemia. Tsc! Bebericou um gole do suco.

Serena mantinha o olhar concentrado no computador, pesquisando assuntos de seu interesse e que dizia respeito a algumas pessoas. Especificamente sobreviventes do acidente no túnel Theodoro Kaulfuss. No livro, vários marca-páginas destacavam informações interessantes e relevantes para a pesquisa.

Serena agradecia por ter arrombado justamente um apartamento vazio naquele condomínio. Se por azar acabasse invadindo um já ocupado, essa calibre doze poderia ter sido a última arma que ela veria em sua vida. Seria uma bala a enfeitar seu crânio, não o óculos que usava na cabeça, naquele momento.

A jornalista ergueu-se da cadeira e seguiu para dentro do apartamento, pegando um livro em cima da mesinha de centro.

— Um livro escrito por Hermes Gama… Pai de Demétrio Gama, uma das pessoas da lista. Pobre rapaz, pegou a mesma maldição do próprio pai…

Serena levou o livro até a varanda e o juntou às suas pesquisas. Agora, ela tinha o suficiente para conversar com as vítimas da nova lista da morte. Pelo menos, o que restara dela. Ela devia aquele favor aos que não conseguiram sair ilesos ao pesadelo da Ilha Vermelha um ano antes. Aos que não tiveram uma nova chance, para contar a verdadeira versão dos fatos.

Pôs os óculos escuros sobre o rosto e pegou tudo que precisaria, colocando numa grande bolsa. A arma, Serena colocou cautelosamente na cintura. Por último, pegou o celular e discou o número de uma amiga. Ela saberia onde encontrar o grupo, também seria de grande ajuda.

No visor, o contato aparecia:

“Amélia”

XXXXX

PARTE II: Cinza

Final de Tarde — Mesmo dia

O enorme transporte militar parou diante da fábrica abandonada. A poeira subiu assim que ele estacionou e os passageiros começaram a descer um a um. Quando deu por si, Alfa também desceu do veículo e observou o grupo junto do lado de fora, prestes a entrar.

— Tem certeza que é aqui? — Perguntou Alisson, pondo as mãos no bolso da calça.

— Esse foi o endereço que o Renan me passou mais cedo. Ele deve estar aí dentro com os demais sobreviventes. — Demétrio respondeu pragmático.

Alisson entendia o lado do cineasta. O irmão estava tossindo há vários minutos, pálido e tivera dois desmaios no percurso que fizeram do Santuário até o centro urbano de Cabo. A tatuada sabia que o produtor não queria demonstrar fraqueza, que ele queria ser forte para amparar Ulysses nesse momento, mas ela também sabia que ele tinha ciência do estado em que o irmão havia chegado. Ômega estava próximo de perder a sanidade, de se transformar em uma carcaça enfurecida, ensandecida e que não pouparia esforços para atacá-los. Porém, ele evitava tocar no assunto, sempre com sua mania de querer proteger tudo e todos.

A mulher não disse nada, apenas tocou no ombro do loiro e baixou a cabeça. Ômega surgiu atrás dela, mostrando o polegar em sin de positivo. Estava com uma tira de pano em volta do tornozelo, de onde escorria algum sangue. Thiago e Sabrina não paravam de olhar de soslaio para a perna do ator. Nenhum deles queria que fosse assim, mas Ômega não conseguiu e agora pagaria por seu infortúnio. Em silêncio, Demétrio caminhou até o irmão e passou o braço do mesmo sobre seus ombros, eles entrariam juntos. Ulysses tossiu.

Max andou na frente, sendo acompanhado de Alisson. Os irmãos Gama vinham logo depois, Thiago e Sabrina vinham por último, ao lado de Michelle e Ester, que estava com os olhinhos vermelhos de tanto chorar. Ela estava tempo o suficiente no caos para entender que a situação de seu tio não era das melhoras, mas ela pedia para o “Papai do Céu” tratar de seu machucado, para que assim, ele pudesse melhorar logo. Mimi segurou firme na mão da garota e lançou um olhar acalentador típico.

— Vai ficar tudo bem no final, você vai ver, Esterzinha. — Disse.

Assim, o grupo entrou na fábrica abandonada pelo único grande portão que viram. Descendo a rua, dois carros passaram em alta velocidade e uma sirene de polícia ao longe. Voltando a atenção novamente para a fábrica, Demétrio ouviu o portão enferrujado ranger e arranhar seus tímpanos.

XXXXX

O antigo hangar estava sem muitos equipamentos. As paredes eram de tijolos brancos, porém, sujos pelo tempo do abandono. Parte do teto de metal fora arrancado, deixando a luz da tarde adentrar no enorme espaço como feixes de um vitral. Na lateral esquerda, rentes à parede, estavam tubulações antigas e bombas hídricas, além de uma passarela de metal, vermelha e amarela. As janelas refletiam o sol para o lado de dentro, assim como o teto. E o encontro de suas luzes faziam diversos desenhos no chão de concreto repleto de placas de aço parafusadas. Talvez fossem parte de um mecanismo que não jazia mais ali. Haviam dois portões verdes de madeira bem no centro, mas que estavam trancados por dois enormes cadeados. Logo acima de ambos, um grande relógio de ponteiros, e nenhum deles soube dizer quando ele havia parado. Quebradas, as três lâmpadas isoladas no teto não faziam diferença alguma. A única luz que havia era a natural.

O grupo entrou depressa, avistando o outro grupo espalhado na outra extremidade.

Entre eles: Edmundo, Natasha, Debora, Amanda, Mia e Erick. Eles então se dividiram em dar as boas-vindas aos demais. Natasha não poderia ter feito diferente. A estudante de direito correu para os braços de Max, que estendeu-os e sentiu o corpo da negra chocar-se com o dele num aperto infinito. Os braços do ilustrador pareciam não saber onde tocar o corpo da namorada, já que ia dos cabelos crespos até a nuca, da nuca para a costa, da costa para a bunda. A escritora encheu-o de beijos de alívio e saudade. Entre lágrimas, ela sorriu, seus olhos levemente indígenas fechando e Max sorrindo feito bobo.

Os que não se conheciam ainda fizeram suas devidas apresentações e todos se posicionaram no centro do hangar, ficando uns de frente para os outros, em um círculo. A maioria já estava reiterada sobre o que estava havendo com eles, a maldição da lista da morte. Após todos os ocorridos, tudo que presenciaram, viveram e sentiram, era impossível alguém contestar a veracidade dos fatos. Os infortunados estavam sendo perseguidos pela entidade mais temida do mundo.

A morte.

Demétrio olhou ao redor e não avistou Renan. Suspirou pesadamente ao ouvir outra tossida de Ômega. Seu único irmão estava mal e ele não poderia fazer mais nada, apenas aguardar que seu corpo não lhe pertencesse mais, que sua mente fosse embora e que ele fosse entregue ao nada. Demétrio queria poder tirar o irmão de dentro da penumbra, de dentro da escuridão, mas não surtiria efeito e infelizmente Ulysses logo não estaria entre eles. Assim como o próprio cineasta. Pela primeira vez, Alfa tinha certeza de que não teria controle sobre aquela condição. O vírus era fatal e faria mais uma vítima em breve.

Ester olhou para o pai por um momento e sorriu de lado. A chinchila em seu colo ronronou. Alfa não poderia deixá-la, ele teria que tomar as rédeas de seus problemas, dos seus receios. A morte não vai conseguir nos vencer, essa vadia vai se ferrar dessa vez!

— Onde está o Renan? — Alisson perguntou. A tatuada estava bem ao lado do produtor.

— Estou aqui. — A voz do homem surgiu no espaço de maneira abrupta, chegando a assustar Erick e Amanda, que no momento estavam de costas para o visionário.

Renan entrou no círculo quase de forma ritualística. Em seu semblante um misto de cansaço, sofrimento e pesar, notórias olheiras embaixo dos olhos, cabelos bagunçados. Era nítido que ele não comia ou dormia direito desde que a morte se abatera sobre ele. Nenhum deles, para falar a verdade, estavam tendo boas noites de sono ou refeições razoáveis.

Disparou:

— Eu resolvi reunir todos vocês, porque estou cansado de ver as pessoas a minha volta morrerem e não conseguir fazer nada a respeito para ajudá-las. Chega! Eu não aguento mais!

Edmundo encarava a indignação do homem, e ao lado, Debora tocou seu ombro e ali pousou o rosto. Próximos a ela, Natasha e Max também ouviam tudo o que o homem de olhos azuis dizia. Embora Fred ouvisse tudo ao lado do irmão, Alfinn, também de Gabriel e Mia, o adolescente não entendia muita coisa, o assunto era muito confuso para ele. Eles deveriam ouvir, era a última chance deles de sair daquela cúpula com aroma de necrotério. Em seguida, Renan acenou para Erick, que entrou no círculo, soltando a mão de Stein. Elly observou o amigo mancar um pouco e lembrou-se rapidamente do momento em que a placa de metal o atingiria, mas ela interveio.

— Segundo o que apuramos até aqui, houveram nove mortes de sobreviventes da possível lista. Nove de nós. — O jovem começou. — Isso sem contar com as vítimas que foram puladas.

— Eu, Mia, Thiago e recentemente o Erick. — Completou Debora, olhando para os citados. — Isso contabiliza ao todo treze vítimas.

— Então vocês foram para o final da lista. — Alisson encontrara uma brecha para falar. — A morte terá que ir até o final para recomeçar. Ou seja, seguindo o padrão, quando ela levar o visionário, ela dá início a um novo ciclo.

Demétrio olhou sério para a tatuada, que mandou-lhe um olhar desconsertado.

— Sabemos quantos somos ao total? — Edmundo indagou. — Muitos além de nós saíram do túnel, antes dele desabar. — O homem arrumou o chapéu.

— Não sei exatamente quantos são, mas sei quem vi morrer na visão. — Renan retrucou do centro do círculo.

Uma rajada fria entrou pelas janelas da fábrica e passou pelo grupo reunido, arrepiando-os de imediato. Erick pigarreou.

— Só temos um probleminha. Na verdade, um problemão. — Enquanto falava, Erick procurava não olhar diretamente para as pessoas do círculo e gesticulava mais que o normal. — A ordem das vítimas, que deveria ser executada através da visão do Renan, não é a mesma das que estão ocorrendo.

— Como isso é possível, esse não deveria ser o padrão? — Quem indagou fora Natasha. Max abraçava a namorada por trás.

Alisson torceu o nariz e mordiscou o lábio, falando:

— Na verdade, pelo que sei sobre isso, há diversos padrões, não necessariamente precisa ser o mesmo da premonição. Por exemplo, tem listas que são reversas, ao contrário da visão. Outras seguem uma ordem totalmente diferente. O que temos que encontrar aqui é o padrão exato, o que liga essa lista. Pequenas conexões entre vocês ou algo do tipo. — O peso do mundo em suas costas a fez suspirar. Ela não sabia mais o que dizer, desta vez, a lista da morte estava sendo bastante complicada.

A conversa foi interrompida por um helicóptero cortando o céu acima da fábrica, fazendo um barulho estridente e deveras irritante. Alguns taparam os ouvidos, e por um segundo, Renan ouviu um estranho ruído vindo dos fundos do hangar.

Ao lado de Alfa, Ômega tossiu, despejando um líquido viscoso no piso. Alisson afastou-se de imediato. Em seguida, Demétrio levou o irmão para longe do grupo, sob olhares de pesar.

XXXXX

Tema: [ https://www.youtube.com/watch?v=vnH1OiacSkI ]

Passando por uma porta de ferro, Demétrio arrastava o irmão, que estava com a pele tomada por feridas sob a jaqueta do mesmo, principalmente seu dorso e membros, já que o rosto fora o menos afetado. Ulysses urrava e sentia seu corpo sofrer mudanças bruscas. Ele torcia o corpo e suas veias pulsavam forte na pele.

— Aguenta firme, Uly! — Alfa suava frio.

— Eu… Não… Consigo! — O ator rangia os dentes.

Eu nunca fui de lembrar
Nem tenho quadros em casa
Pois são a fonte do problema

Alisson, seguida do quarteto Natasha, Max, Debora e Edmundo chegaram até aquela parte do hangar com suas faces preocupadas, porém, resignadas. Observavam Demétrio chamar pelo nome do irmão, tentando despertá-lo de qualquer maneira, mas sem nenhum retorno positivo. O cineasta ajoelhou-se próximo ao corpo de Ômega, quando ele deu o último espasmo.

— Ele morreu? — Max sussurrou para Natasha, que olhou desconfiada para o corpo estirado no chão empoeirado.

A vida nem sempre é
Do jeito que eu esperava
Eu já nem sei se vale a pena

Até que Ômega abriu os olhos extremamente vermelhos e despejou uma quantidade grande de baba aos pés do irmão, que recuou num impulso. O loiro levantou-se com rapidez, fitando Ulysses erguer-se do chão na mesma velocidade, partindo para cima dele com toda fúria. Ele dava gritos, como se o ódio fosse a única coisa que o consumisse.

— Ômega, sou eu! — Demétrio estendeu os braços, mas Ulysses agarrou o colarinho de sua blusa e o jogou no chão com força.

Mas se eu pintar um horizonte infinito
E caminhar
Do jeito que eu acredito
Eu vou chegar em um lugar só meu

Max e Ed correram para dar apoio ao cineasta, que se levantava em meio aos ombros doloridos. Debora também partiu para cima, puxando uma faca de cabo repleto de pedrarias. Mesmo com salto relativamente alto, ela alcançou Ômega segundos antes dos dois homens, erguendo a faca e sendo interceptada por Alfa, que segurou seu braço.

— Não faça isso, por favor! — Pediu.

— Nós precisamos fazê-lo parar, Demétrio, ele está infectado! Se não for ele, seremos nós! — Debora encarava o loiro sem o mínimo de culpa. Ela sabia que estaria fazendo a coisa certa pelo grupo. Inclusive para os irmãos Gama.

Lá pode ter um novo amor pra eu viver
Quem sabe uma nova dor pra eu sentir
A droga certa pra fazer te esquecer
Vai apagar a tua marca de mim

Tudo pode estar lá

No segundo seguinte, seu irmão saltou em suas costas, buscando dilacerar seu pescoço com os dentes. Alguma baba caiu na blusa do produtor, que percebeu logo depois e a retirou de forma célere. Ômega avançou novamente, e desta vez, Max foi rápido em lhe lançar uma cotovelada certeira no rosto, fazendo o infectado cair de bruços com um baque surdo. Natasha aproximou-se do namorado e passou a observar o decorrer da cena sem saber como reagir. Debora recuou a faca e guardou a lâmina de volta.

Quem dera poder partir
Sem tchau, sem mala, sem nada
Ver bem de longe o meu Planeta

(E perceber)

Que a gente é pequeno demais

Ed calmamente andou até o cineasta e ficou de frente para ele, retirando seu chapéu e tendo a oportunidade de olhar-lhe nos olhos. Alfa pisou nas costas do irmão, prendendo-o no chão, enquanto o mesmo debatia-se debilmente para tentar outra investida. Os olhos marejados do ex-escoteiro não impediram que ele visualizasse a face complacente de Edmundo. A voz do homem mais velho soou como um trovão:

— Demétrio, você precisa fazer isso. Você precisa deixá-lo ir, não há mais nada que possamos fazer para salvá-lo. Ele está fadado a ser um infectado agora, o vírus o pegou. Seu irmão já foi tragado, agora precisa ser forte. — Ao término do breve discurso, Ed engoliu em seco. Por algum motivo, seu coração estava acelerado e ele sentia uma sensação de imponência tremenda. Talvez, pelas lembranças de Samantha vindo a todo momento em sua cabeça. Ele pensava que se ela não tivesse morrido no acidente do túnel, poderia ser ela a estar naquele estado. E seria ele no lugar no produtor.

Na imensidão das galáxias...
Voltar a bordo de um cometa.

— Ele não pode ir! Eu já perdi meu pai e minha esposa, eu não vou conseguir ficar sem meu irmão! — Alfa não conseguiu segurar as lágrimas. Elas começaram a descer pelo seu rosto sem precedentes. — Eu não vou deixá-lo ir para a escuridão!

Distraído com a discussão, Demétrio virou um alvo fácil e seu irmão, sendo controlado pelo Plaga Vírus, agarrou sua perna e puxou o loiro para o chão. Alfa caiu e rolou para o lado dele, desviando do que seria uma mordida. Ômega não se apiedou e montou em cima do outro loiro, agarrando seu cabelo e empurrando sua cabeça contra o chão. Max correu para ajudá-lo, assim como Natasha e Alisson. Debora jogou a faca para Alisson, que agradeceu.

— Demétrio você precisa me ouvir! Precisa deixar seu irmão ir!

— NÃO! — Alfa berrou, ele chorava muito, enquanto sentia a cabeça doer de forma incontrolável, ao mesmo tempo em que o infectado batia sua cabeça no piso. — ÔMEGA. ME. ESCUTA. EU SEI QUE ESTÁ AÍ!

Mas se eu pensar que em tudo há algo de perfeito
E, assim, voar pra onde o ar é rarefeito
Eu vou chegar em lugar só meu.

Ulysses não estava mais ali. Aquele hospedeiro agora pertencia completamente ao vírus.

— Sai de cima dele, seu imundo! — Natasha chutou o rosto do infectado com força. Ômega grunhiu, vendo o sangue pútrido respingar no chão, próximo do cineasta. Max ergueu o homem, que reclamava da dor na cabeça, em meio ao choro.

Alisson puxou a faca e olhou para o loiro, que olhava fixamente para ela. A morena acenou positivamente.

— ALFA! — Mimi gritou. Atrás dela, Ester e o restante do grupo. A atriz loira também estava com os olhos inteiramente marejados. — Faça pela sua filha! Ester precisa de você!

Lá pode ter um novo amor pra eu viver

Quem sabe uma nova dor pra eu sentir

A droga certa pra fazer te esquecer

Vai apagar a tua marca de mim

Tudo pode estar lá

O estalo mental de Alfa fez com que ele acenasse de volta para Alisson. A morena então jogou a arma na sua direção. Num piscar de olhos, Ômega voltou a atacar Max e Natasha. O casal tentou segurá-lo, mas Alfa surgiu na frente dos dois. Os flashes da infância dos irmãos surgiu no pensamento do cineasta feito tapas da própria consciência. O ambiente ficou mudo, o tempo ameaçou parar, o suor frio desceu nas têmporas. Seu cabelo úmido, os lábios ressecados, a garganta áspera, os dedos trêmulos segurando a faca… O infectado abriu a boca para morder Demétrio, mas a lâmina do objeto enfeitado com joias que o loiro segurava, entrou no meio da testa do irmão muito antes.

Alfa saiu da linha do jato de sangue no último segundo e retirou a faca. O líquido viscoso e escuro escorreu pelo rosto de Ulysses, que apenas abriu a boca, talvez para proferir sua última palavra. E caiu no concreto.

E eu aqui.
(Infinito — Fresno)

Demétrio, de olhos inchados e com sua alma de vidro quebrada, desabou também. Chorou feito uma criança perdida. De fato, o homem estava perdido. De onde ficou, seu olhar enxergou Ester. A garota mantinha-se estática, sem esboçar qualquer reação. Bem atrás dela, Mimi baixou a cabeça e também entregou-se ao choro.

XXXXX

Já estava ficando escuro dentro da fábrica. O sol prestes a se por, anunciava uma noite tenebrosa. O grupo grande estava todo reunido novamente na mesma ala principal do hangar. Boa parte deles preferiam não citar o que aconteceu há poucos minutos antes com o irmão de Demétrio. Os amigos mais próximos do produtor fizeram um tipo de enterro para o corpo de Ulysses. Depositaram-no dentro de um saco plástico e o enterraram em uma cova rasa nos fundos da antiga fábrica. Sob protestos, Alfa viu pela última vez o rosto de Ômega, mesmo que denegrido pelo Plaga Vírus. Depois do fato, ele não conseguiu falar mais nada, nem com sua própria filha. Estava em choque, abatido, quebrado demais para fazer algo além de olhar para a parede.

Os demais preferiram seguir com a reunião sem chamarem a atenção do cineasta e o deixar realizar seu luto da maneira que ele desejasse. Rajadas frias entravam pelo teto e janelas, invadindo a calmaria macabra, submergindo-a num mútuo sentimento de medo.

Natasha aqueceu-se ao atritar as mãos, enquanto Max passava o braço pelo seu ombro. Nos pensamentos da negra, a imagem de Rafaela ia e vinha como fogos de artifício brilhando no céu. O sorriso da jornalista, seus olhos vivos, seu jeito extrovertido e super comunicativo, tudo que lhe pertencia e lhe fazia autêntica. Nada seria como antes e a escritora precisava lidar com isso. Não ter a presença física de sua irmã não significava ter perdido-a para sempre, mas sim, ter ganhado suas lembranças até que as duas pudessem se encontrar novamente. No momento, ela tinha de se colocar inteiramente aos cuidados de Max, pois ele estava precisando mais dela do que de si mesmo. A negra suspirou e aguardou Renan continuar a reunião.

O homem de cabelos castanhos se colocou de frente do grupo e, desta vez, em um semicírculo, ficou atento ao que ele diria. Porém, assim que Renan começaria, foi interrompido por um barulho de sapato alto batendo contra o concreto. Os olhares de quase todos se voltaram para a porta principal e lá avistaram duas mulheres surgindo da cortina feita pelos raios de luz. A primeira tinha os cabelos ruivos na altura dos ombros e usava roupas aparentemente caras, como uma jaqueta de couro cor-de-caramelo, uma calça preta e sapatos altos. A segunda, por sua vez, tinha os cabelos castanhos metodicamente arrumados caindo na altura dos seios; usava uma camisa xadrez simples e uma calça jeans clara, acompanhada de tênis converses.

A ruiva elegante trazia um livro nas mãos, enquanto a morena segurava uma prancheta e vários papéis. Alguns reconheceram imediatamente de quem se tratavam ambas, outros apenas esperaram que elas pudessem dizer o por quê de estarem ali. O que prevalecia era a dúvida.

Sem demora, a ruiva falou:

— Eu sei que isso pode soar estranho para a maioria de vocês, mas eu sei o que estão passando, eu sei sobre a lista da morte e estou disposta a ajudá-los.

Amélia ouvia o que Serena dizia, confirmando com a cabeça, mas dentro dela, ainda pensava muito sobre o assunto e mesmo depois de tudo que sua amiga lhe relatara sobre a Ilha Vermelha, seu ceticismo impedia que acreditasse cem por cento em toda a história.

— Eu andei pesquisando muito depois do que ocorreu comigo na Ilha Vermelha, não sei se tiveram a oportunidade de comprar e ler meu livro… Mas, depois do que vivi, acredito piamente que sei mais sobre as maldições da morte do que possam imaginar. — Pigarreou. — Começando pela profecia de Santa Muerte, o gatilho para a lista da morte de um ano atrás, quando Anna Clara Del Sol, uma comissária de bordo, teve uma visão da erupção de um vulcão que varreu o litoral da ilha e devastou uma cidade quase que por completo. Quatorze pessoas tiveram a sorte, ou azar, de saírem da ilha antes da erupção, graças à mulher. Contudo, todos morreram meses depois, um a um, em acidentes aparentemente inexplicáveis.

— Assim como está acontecendo conosco… — Renan murmurou.

Serena continuou:

— Foi aí, que nesses meses de sufoco, eles descobriram que o que ligava-os à lista era uma profecia criada por um civilização espanhola, que adorava uma entidade chamada Santa Muerte e que realizava rituais de sacrifícios seguindo uma ordem específica das vítimas, que foram divididas em categorias, o que não é o caso de vocês. Já que são dezoito ao total, e não, quatorze. — A ruiva deu uma pausa e esperou que alguém pudesse tirar alguma dúvida.

Mia e Debora possuíam semblantes de espanto estampados no rosto. Enquanto Erick apertava forte a mão de Stein e Natasha engolia em seco, aninhando-se no peito de Max. Ed reunia as informações, visando fazer um mapa mental dos acontecimentos em sua mente ao mesmo tempo em que Mimi mantinha-se próxima de Alfa.

— Quer dizer que a ordem das mortes da nossa lista também está ligada a essa tal de Santa Muerte? — Amanda perguntou.

— Não. — Respondeu a jornalista. — Depois do que houve no túnel, eu me dediquei a pesquisar a fundo o que realmente estava rodeando essa lista. Eu estou acompanhando e investigando por debaixo dos panos faz algumas semanas. Foi aí que Amélia se tornou parte disso. — Serena entreolhou-se com Amélia, que sorriu de lado.

A estudante de medicina entendeu o recado e prosseguiu:

— Serena me contou tudo e me pediu que repassasse uma lista de nomes que eu fiz para o hospital logo após o engavetamento. Nela estão contidos os arquivos das identificações e lesões sofridas por cada um de vocês naquela noite. — Amélia mostrou a prancheta para que o grupo visualizasse. — Não demorou para que a Serena fizesse as relações com as mortes ocorridas, puxando informações pessoais no banco de dados dos hospitais, com minha ajuda, e estabelecesse uma lista com todos os envolvidos.

Amélia acabou por lembrar de Mariano. Ele era um dos fadados pela lista da morte, mas nunca teve coragem de abrir o jogo com ele. Ela queria lhe poupar da angústia de viver à sombra da morte, ao fim de sua vida. Assim que descobriu que o homem pelo qual nutria um sentimento maior, aproximava-se do destino final, seu chão cedeu e sua cabeça ficou a mil por hora. Porém, precisava fingir que ficaria tudo bem, porque nada ao seu alcance tiraria Mariano daquela condição.

Desde então, convivia com o fato de Mariano ter sido ninado pelos braços da morte tão cedo. A lembrança da última noite dos dois juntos era um quadro pregado na parede da memória da doce Amélia.

— Isso mesmo. — Serena interrompeu os pensamentos de Amélia com sua fala. — Depois de contabilizar dezoito listados, eu eliminei os nove que não conseguiram driblar a morte de novo nesse tempo, infelizmente, e sobraram exatamente os nove que estão aqui presentes. Renan, Natasha, Debora, Edmundo, Adele, Thiago, Erick, Amanda e por fim, Demétrio.

O cineasta olhou por cima dos ombros, ouvindo a versão de Serena sobre o fatídico camino pelo qual sua vida percorria. Sem seu pai, a mãe de sua filha e seu irmão, a vida do produtor de filmes B fazia menos sentido. A lista da morte não iria interferir no quanto o loiro desejava ter morrido na noite do engavetamento no túnel.

— A parte que mais queremos saber, sem querer interromper a linha de raciocínio mostrada, é qual o padrão para a nossa ordem da lista? Já que a morte está nos levando um por um em uma ordem diferente da premonição do Renan. — A pergunta de Erick fez a ruiva lembrar de um ponto crucial com um estalo.

— Você chegou a um tópico que é de suma importância, garoto. A ordem da lista de vocês está interligada a uma outra profecia, criada a partir de uma mitologia grega com certa influência egípcia. Ela é datada muito antes da profecia de Santa Muerte e pode ter sido uma das responsáveis pela sua disseminação. — Serena abriu o livro que segurava. — Ela também é citada brevemente em um livro memorável de Hermes Gama, onde o mesmo relata suas descobertas sobre as ruínas da civilização espanhola.

Alfa levantou com um pulo e fitou Serena. A jornalista sabia que chamaria a atenção do produtor e baixou o olhar por alguns segundos.

— O que meu pai tem a ver com isso? — Os olhos do loiro pareciam em chamas do choro de minutos atrás.

— Ele conheceu essa profecia, Demétrio. Ele estudou e descreveu brevemente ela em seu livro. O nome é a Profecia dos Signos ou como alguns costumam chamar, Os Dezoito Cavaleiros da Morte.

Alisson arrepiou-se, a sensação gélida em sua espinha dominou e puxou pensamentos de que ela conhecia o bastante sobre tal profecia. Depois de seu primeiro contato com a lista da morte, ela entrou de cabeça no assunto e desdobrou algumas teorias a respeito da mesma.

O loiro não lembrava de ter lido algo sobre essa profecia grega no livro do pai. Por isso, deixou que Serena continuasse.

— Amélia me ajudou a cruzar os dados pessoais com a teoria da profecia para que eu pudesse estabelecer um padrão que se encaixasse com a ordem em que as primeiras vítimas da lista foram levadas, e cheguei à conclusão de que a chave para a ordem desta lista está nos signos de vocês! — Uma lâmpada imaginária acendeu sobre a cabeça da ruiva.

— Nossos signos? Pff! — Edmundo fez uma careta de dúvida. — O que tem a ver com a profecia?

— Os dezoito cavaleiros da morte eram regidos e identificados pelos signos, que vinham como ramificações dos deuses gregos. Funcionava como um tipo de descendência. — Alisson explicou convicta. Ela já tinha lido muito sobre o assunto logo depois que teve seu primeiro contato com a lista.

— Isso significa que meu signo está interferindo na lista de maneira direta? Ele dá a minha posição nela? — Debora perguntou. — Desculpe, mas parece uma piada de humor negro.

— Vocês verão como fará sentido. — Serena replicou. Pegou uma folha de papel, retirou uma caneta da pequena bolsa de couro que carregava e a entregou nas mãos de Renan.

O homem ergueu uma das sobrancelhas.

— Anote a ordem das vítimas na sua visão. — Pediu a jornalista.

Renan levou alguns minutos para escrever no papel. Sua memória não era das melhores e no momento, estava tão nervoso que qualquer esforço lhe dava bloqueio. Mas conseguiu concluir o que a ruiva pedira.

Serena recebeu a folha e associou o que o visionário escrevera com os dados das anotações de Amélia. A jovem acompanhava tudo de perto, ora olhando o trabalho de Serena, ora lançando olhares para o grupo aguardando alguma resposta.

Com o término da tarefa, a ruiva comemorou:

— Bem o que pensei, no alvo!

— O que foi revelado aí na sua bola de cristal? — Ed brincou, recebendo um olhar de reprovação de Debora logo em seguida. Ele arrumou o chapéu.

— Foi revelado que a ordem da visão do Renan realmente bate com a profecia dos signos! A ordem em que os signos são dispostos normalmente... — Os olhos de Serena brilhavam. Ela estava visivelmente satisfeita pelo acerto. — A primeira vítima era a Lorelai, que é de Áries, o primeiro signo do zodíaco; o segundo seria o Edmundo, que é aquariano, mas seu ascendente em Touro lhe trouxe para a segunda posição inicialmente; Adele e Maria em seguida por serem ambas Geminianas. Depois, seguindo a ordem do zodíaco, temos: Rita de Câncer, Thereza e Natasha de Leão, Mariano e Erick de Virgem, Marcela de Libra, Debora e Diana de Escorpião, Gustavo de Sagitário, Demétrio de Capricórnio, Donatella de Aquário, e por último, Amanda e Thiago de Peixes. Como não há registros do Renan no banco de dados, ele fica em último por ser o visionário, já que é o que geralmente acontece na lista.

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— Eu estou em choque. — A estudante de direito retrucou de onde estava. Mia tremia com o fato das informações estarem batendo.

— Agora precisa explicar o porquê da ordem ser diferente da visão. — Erick proferiu.

— Pelo fato da ordem mudar sempre que um acidente acontece. — Serena encarou o jovem. — Nesta profecia, assim como em Santa Muerte, a ordem muda a cada acidente conjurado pelas suas entidades correspondentes. Hermes Gama relata no livro sobre Santa Muerte que os signos muitas vezes se alteram, mas que geralmente eles seguem um padrão escolhido aleatoriamente pela entidade, sendo assim, pelo que ele cita no livro, fica da seguinte maneira — Serena folheou o livro para achar o trecho. — Leão1, Escorpião2, Sagitário3, Virgem4, Câncer5, Gêmeos6, Peixes7, Áries8, Libra9, Aquário10, Capricórnio11 e Touro12.

— Seguindo essa lógica e comparando com os nomes dos listados que temos, nós conseguimos os nomes dos próximos. — Amélia disse com a voz embargada.

Demétrio veio caminhando lentamente até a concentração dos seus amigos e disparou:

— Não vejo como essa ordem possa fazer sentido quando os signos se repetem.

— Pessoal. — Natasha ergueu a mão para falar. — Concordo com o Alfa. Thereza era leonina e foi a primeira, de fato, mas esse também é meu signo e a morte não chegou em mim ainda, mesmo depois de todos os outros terem morrido.

Serena pareceu desapontada com a colocação. Ela estava confiante de que havia encontrado a chave para a lista e o que Natasha dizia quebrava completamente sua linha de raciocínio.

— A menos que… — Erick pensou um pouco para dar continuidade. — Este aspecto explique algo mais. Talvez deixamos passar um detalhe.

— Ou nos leve de vez para o buraco. — Alfa comentou, respirando fundo.

— A morte é muito complicada. — Amanda suspirou, apoiando seu corpo nos braços encostados no chão.

— Fora esses detalhes, o padrão segue intacto com Debora, Gustavo, Rita, Maria, Mia, Thiago, Diana, Lola, Marcela, eu e Donatella. — Erick retrucou. — Serena está certa, só estamos esquecendo algum detalhe.

— Precisamos pensar um pouco mais, se quisermos desvendar o esquema. — A voz de Mia quase sumiu no meio dos comentários que vieram em seguida.

Todos começaram a falar ao mesmo tempo, dizendo coisas sobre outras falas.

— ESCUTEM! — Serena berrou. — Amélia tem a relação de nomes das próximas vítimas, esse esquema estando correto ou não. Então, melhor vocês ficarem sabendo logo para se prevenirem. Não quero ser a responsável por saber sobre a ordem e não comunicar a vocês!

Amélia aproveitou a deixa e disse:

— Os próximos da lista, segundo a profecia dos signos, são respectivamente: Demétrio, Natasha, Edmundo e Renan.

A relação veio como um soco no estômago de Alfa.

XXXXX

O ônibus do exército andava pela estrada esburacada de terra, enquanto o mesmo pulava um pouco, por conta dos desníveis da estrada.

Suzana suspirou profundamente, enquanto observava a região rural de Cabo da Praga passar diante dos seus olhos. A moça estava sentada no fundo do ônibus e mexia nos cabelos negros que caíam sobre os seus ombros.

As lembranças do Expurgo ainda não a haviam abandonado completamente e ela duvidava que um dia as mesmas poderiam sumir. Todo o desespero que passara naquela noite ficara impresso em suas memórias de forma permanente. O incidente no ônibus, a perseguição no teatro, o incêndio na Falcon, e as mortes de Lola e Marcela marcaram a mulher.

No dia seguinte ao Expurgo, Amanda e Suzana retornaram ao Complexo e ficaram horrorizadas com o que viram. O que um dia fora uma grande fábrica não passava agora de prédios queimados e metal retorcido. A fuligem preta tomara conta de todo o ambiente e os bombeiros ainda não tinham conseguido apagar todos os focos de incêndio, embora o mesmo já estivesse controlado. E aí ocorreu a separação das duas.

Amanda decidira retornar a uma parte da Falcon que não fora engolida pelo fogo, exatamente para ficar unida aos outros sobreviventes e Suzana acabou indo junto com os outros moradores do Complexo para uma escola local que servira de abrigo temporário do exército. Depois de um dia, agora iam para um local definitivo, na região rural de Cabo. Suzana já tinha ouvido falar de tal lugar, mas boatos diziam que não iriam para as Fazendas, porque está já estavam em lotação máxima, e agora, tomadas por infectados, infelizmente.

No abrigo, conseguira encontrar Heloisa e D, que descobrira ter lembrado de quem era. No fim das contas, Desconhecido não era um exato doente mental, visto que finalmente se lembrara de tudo. Mas seria relativamente difícil para Suzana começar a chamá-lo de Arthur, o seu verdadeiro nome. Tentou perguntar sobre o paradeiro de Casper, mas não houve resposta.

O rapaz simplesmente tinha desaparecido da face da Terra.

Antes de serem levados para o abrigo passaram por uma triagem e os com suspeita de infecção foram separados do resto do grupo. Ninguém sabia o que tinha acontecido a eles, mas Suzana já suspeitava do pior. Além disso, todos tiveram as armas recolhidas e alguns até foram presos. A ordem tomava conta da desordem.

Ao lado de Suzana, Heloisa repousava sobre o colo de Arthur que mexia nos seus cabelos curtos. Suzana olhou para os dois e sentia que ambos se aproximavam bastante. Se antes, eles já eram próximos… Agora os dois pareciam a um passo de se beijarem. Ela podia sentir que um sentimento diferente emanava dos dois.

O ônibus do exército passou pela entrada das Fazendas, e seguiu por mais alguns metros até virar em uma estrada vizinha ao acampamento. Seguiram por cerca de um quilômetro até atravessarem um portão de ferro. E então Suzana viu para onde tinham sido mandados.

Era um tipo de acampamento militar, decerto um pouco diferente das Fazendas, porém mais patrulhado que o mesmo. Agora eles eram propriedade do exército, cada um daqueles antigos moradores do Complexo. Não seria exatamente fácil deixar o local, que pela descrição da placa de entrada chamava-se “O Sítio”. Mas isso nem passava pela mente da mulher.

Um misto de sensações perpassava pela mente de Suzana. Ainda carregava uma vida em seu ventre, e não sabia como sustentaria a mesma. O futuro era completamente incerto para ela, que nem sabia se sairia viva da quarentena. Amanda também a preocupava mas algo dizia no seu íntimo que nunca mais veria a garota. Assim como Casper.

Já faziam semanas que Suzana não reconhecia mais Casper. Depois que a quarentena começou, os resquícios de sanidade do rapaz foram literalmente dando lugar a um plano megalomaníaco que ela sabia que daria errado. Por que não impediu Casper a tempo? Agora ela tinha certeza de que algo acontecera a ele, e seu destino provavelmente seria apodrecer na prisão ou pior. Ele poderia já estar morto.

Mas infelizmente, ele realmente tinha pedido por isso.

O ônibus parou na frente de um casarão e os militares começaram a orientar os ex-moradores do Complexo para saírem do veículo. Heloisa foi acordada por Arthur e os três foram os últimos a deixar o tal do ônibus. Entraram numa fila que serviria para uma segunda triagem, e somente assim eles estariam aptos a ficarem no acampamento. Médicos corriam para todas as direções junto de diversos militares, que verificavam em cada um dos indivíduos sinal do Plaga Vírus.

Suzana então se virou na direção de Arthur e Heloisa, que estavam atrás dela e no instante em que iria falar qualquer coisa, parou e começou a olhar para Arthur.

— O que foi, Suzana? – Heloisa perguntou vendo que a jovem olhava fixamente para o rapaz ao seu lado.

— Esse colar… – Ela falou e se aproximou de Arthur que foi pra trás, surpreso. – Casper tinha um igual.

— Não sei do que você fala, Suzana. – Arthur respondeu. – Eu o achei no meu quarto… Ou o que acho que era meu quarto quando o fogo começou. Era a única coisa que trouxe antes de tudo explodir.

— Mas é muito parecido… – Suzana falou. – Estranho.

— Arthur, aproveitando que a Suzana tocou nesse assunto… – Heloisa falou. – Você se lembra do que você e Casper tinham em comum?

— As lembranças vão e vem, Helô. Eu não me lembro de tudo… – Ele mentiu. – Eu sei que o Casper era muito próximo de mim mas não lembro o que.

— Tinha até uma foto dele no seu quarto… Acredito que não deve se lembrar.

— Tudo ainda está muito vago… Eu lembro mas às vezes… É como se eu visse as coisas através de uma cortina. Falta muita coisa pra se encaixar.

Mas no fundo, Arthur sabia perfeitamente qual era sua relação com Casper e também sabia que Hórus estava metido na história do Sítio. Apesar de comandado pelo exército, tinha certeza de que havia um dedo do secretário no fato de não serem mandados para as Fazendas. Além do fato das mesmas terem sido invadidas por infectados.

Ele queria observar os ex-moradores do Complexo de perto e não era por piedade. E Arthur servia como um desses olhos.

Até onde estaria disposto a se arriscar por conta de Hórus, principalmente agora que outra pessoa, a própria Heloisa, chamava muito mais a atenção dele?

XXXXX

Tema: [ https://www.youtube.com/watch?v=iXi6IHFHeIA ]

I don't know if you were looking at me or not

You probably smile like that all the time

And I don't mean to bother you but

I couldn't just walk by

And not say hi

A umidez e a poeira que cobria as paredes e objetos da ala do hangar entrou pelas narinas de Alisson, dando a ela uma vontade imensa de espirrar, mas se conteve. Focara em seguir Demétrio, não deixaria ele sozinho em um momento como o que estavam passando. Dane-se o tempo dele sozinho, eu não vou abandoná-lo!

— Demétrio! — Chamou a tatuada.

And I know your name

'Cause everybody in here knows your name

And you're not looking for anything right now

So I don't wanna come on strong

But don't get me wrong

O homem olhou por cima dos ombros, ainda cabisbaixo. As arestas dos olhos do loiro completamente irritadas, as olheiras destacando as marcas de expressão abaixo do olhar cansado, a marca das lágrimas permutadas na fuligem que caía do teto denegrido. A visão de Alisson era tomada pela nostalgia do cineasta vivaz e sorridente que conhecera via computador. O que tinha na sua frente nada mais era que uma pessoa distante e perdida. Uma criança perdida…

— Eu queria dizer que você não está sozinho. — Mostrou um sorriso confiante. — Tem uma filha e amigos que gostam muito de ti. — A morena retirou o óculos e limpou a breve lágrima que cairia. — Nada está perdido. Ninguém vai deixar a morte levar mais ninguém, muito menos você. Sua filha não vai te perder, eu não vou te perder!

Your eyes are so intimidating

My heart is pounding but

It's just a conversation

No girl I'm not gonna waste it

You don't know me

I don't know you but I want to

Alfa virou o corpo e sorriu de lado. Pelo pouco tempo que conhecia Alisson, já tinha captado a essência guerreira e a determinação da mulher. Ele era bom em reconhecer isso. Alisson nunca desapontou, ela era aquilo e não deixaria de ser. Uma fortaleza com paredes de aço, que escondiam um coração bom e gigante. Do tamanho de toda sua força. Ela vivia tão intensamente que era difícil dizer quando ela estava com medo. Ela sentia medo? Alfa sabia que Alisson não procurava nada, ela não tinha que encontrar nada, apenas sair daquele pesadelo.

O coração do loiro passou a bater mais forte, as borboletas internas se chocavam na sua barriga. Para quem costumava controlar as emoções muito bem, Alfa passou a andar desarmado, sem saber como prever o que viria, o que permanecia guardado para ele num futuro próximo. E agora ele tinha plena sabedoria disso.

Era a morte a sua espreita. Ele era o próximo.

I don't wanna steal your freedom

I don't wanna change your mind

I don't have to make you love me

I just want to take your time

— Me dê sua mão, vamos voltar. — Alisson estendeu a mão pálida e trêmula. Ela tremia por estar com as pernas bambas. Não era Demétrio, poderia não ser por nada especificamente. Pensou ser somente seu corpo respondendo aos estímulos da situação caótica de Cabo da Praga, que vez ou outra iam e vinham.

O cineasta deu um passo e encarou o chão.

— Alisson, eu… Você sabe, eu...

Alfa não queria assustá-la. Ele nutria um sentimento muito bonito em relação a ela, gostava muito da mulher, mas não sabia como transformar aquilo em atitudes. Perdera Samara como um peso de toneladas esmagando seu coração, sua esposa morrera cedo, eles haviam acabado de construir uma vida juntos e tudo ruiu. A partir daí, ele não soube como preencher o espaço. Nunca preencheria. Então, a tatuada tornou-se ainda mais presente em sua vida, estava ao seu lado a todo momento.

I don't wanna wreck your Friday

I ain't gonna waste my lines

I don't have to take your heart

I just wanna take your time

— Queria agradecer por estar me ajudando a seguir em frente. — Desta vez lançou-lhe um olhar seguro e marejado. — Só de lembrar que certamente não teríamos ido tão longe…

— Não precisa agradecer, precisa reagir! — A morena andou até ele sem precedente e o encarou de maneira fixa. — A morte não vai conseguir dessa vez, porque estamos todos aqui, todos com você! Fique firme, Alfa, não se deixe abater. Procure nas piores circunstâncias uma maneira de se tornar um ser mais forte!

You could've rolled your eyes

Told me to go to hell

Could've walked away

But you're still here

And I'm still here

Come on let's see where it goes

Demétrio sentiu a mulher lançar-lhe completamente. Mesmo que fosse em pensamento, era a mais pura reação de seu corpo aos olhos de âmbar. Os olhos de Alisson eram tão intimidadores, o coração do produtor pulsava tão rapidamente, que ficava difícil separar todas as emoções. No fim das contas, Demétrio não estava acabado, ele ficaria de pé. Os dois não se conheciam direito, mas queriam viver intensamente, enquanto durasse aquele sentimento. Alfa não queria fazer Alisson amá-lo, não roubaria seu espírito livre, não tomaria seu coração. De fato, apenas seu tempo. E ela sabia disso. Queria isso.

I don't wanna steal your freedom

I don't wanna change your mind

I don't have to make you love me

I just wanna take your time

No segundo seguinte, os dois beijaram-se de forma intensa.

I don't have to meet your mother

We don't have to cross that line

I don't wanna steal your covers

I just wanna take your time

Não tinham que cruzar nenhuma linha de relacionamento, só queriam um tempo juntos. E juntos, eles permaneceriam firmes, de pé.

I don't wanna go home with you

I just wanna be alone with you

(Take Your Time — Sam Hunt)

XXXXX

O grande grupo no hangar principal estava reunido, enquanto debatiam sobre a lista. Por enquanto, nenhum deles sabia explicar como funcionava a profecia com signos repetidos, mas o principal já tinham, mesmo que parcialmente. Os próximos a terem um encontro face à face com a própria Senhorita Morte.

Os assuntos iam mudando a medida que eles deixavam de querer comentar sobre a lista. Edmundo reclamava de como estressava fácil quando não deliciava seus pratos requintados, e de como aquele assunto mexeu com seu estômago. Gabriel e Mia concordavam, a garota estava com a cabeça deitada no colo do irmão gêmeo, sentindo seu afago. Próximos deles estavam Ellen, Stein e Erick conversando e falando sobre Hikari, ou melhor, Helena. O estudante de química sentia-se ainda muito chocado e se via tentando digerir o que sua mãe lhe contara. Mas eles teriam mais tempo para conversarem, ou não.

De repente o grupo ouviu um zunido alto e sem nem esperarem, uma pessoa veio correndo celeremente dos fundos do hangar. Primeiramente avistaram a silhueta mover-se na escuridão da noite e logo em seguida, ela surgiu à luz da lua como um gato ágil. Subiu em algumas caixas e tentou escalar as janelas altas acima da passarela barrada, visto que as portas também estavam trancadas. Edmundo e Max foram os primeiros a se levantarem e avistarem o rosto assustado da mulher.

Os cabelos longos e dourados refletiam sob a lua, os olhos refugiados em medos, os lábios trêmulos e o corpo atlético suando frio. Ela tinha uma pele um pouco bronzeada e rosto alongado, mostrando seu nariz reto e sobrancelha finas. As roupas estavam desgastadas e rasgadas, como se fugisse há muito tempo. Dava para ver o tempo que estava em quarentena pelo seu semblante cansado e confuso.

— Não deixem ela fugir! — Alisson berrou ao vir correndo da mesma direção, seguida de Alfa.

A mulher loira desesperou-se em escalar a plataforma amarela, mas escorregou e caiu de costas. Ed, Max e Alisson correram até ela. Os homens a seguraram e ela começou a espernear.

— ME SOLTEM, POR FAVOR! ELES VÃO ME ENCONTRAR, PRECISO SAIR DAQUI!

Todos encaravam-na confusos. Eles não faziam a mínima ideia de quem era a moça, o que ela estava fazendo e a que se referia como “Eles”.

— EU PRECISO SAIR DAQUI, ELES ESTÃO CHEGANDO! ME LARGA!

— Quem é você e quem são “Eles”? — Edmundo perguntou à queima-roupa.

— O que fazia aqui? — Max também indagou.

Debora aproximou-se da rodinha e disparou, abrindo caminho:

— Vocês não acham que estão fazendo perguntas demais, rapazes? Deixem ela se acalmar, ora.

Natasha e Alisson concordaram com um aceno e os homens calaram-se.

— Nós não vamos te fazer mal, querida. Pode confiar em nós. — A magnata proferiu com cautela. — Só queremos saber o que está acontecendo. Você é uma estranha no nosso território, precisa se identificar. — Debora parecia acostumada àquele tipo de situação. Sua voz era suave e imponente.

A mulher loira desconhecida resistia, rangendo os dentes, ao mesmo tempo em que os olhos percorriam todo o depósito da fábrica. Ela procurava uma forma de escapar do grupo, mas quando percebeu seu tamanho e que todos estavam esperando por uma resposta, respirou fundo, tentando desacelerar o coração.

Disse:

— Meu nome é Marjorie. Eu estou fugindo há semanas, não só dos infectados, como da Corporação Pyramid. Eu trabalhava lá, nos laboratórios, mas depois da quarentena, passei a ser caçada por eles.

— Caçada pela Pyramid? Por que? — Natasha não se conteve e perguntou ao fundo.

— Eu ajudei uma cobaia a fugir há um mês. Era uma cobaia de seus experimentos, mas ela foi morta, eu a perdi. Temo que tenha sido eles e minha confirmação veio quando passaram a me perseguir. Eles querem me matar também! — A voz da mulher passou a assumir um tom de completo desespero.

— Calma, nós vamos te ajudar, ok? — Debora tocou os braços da mulher e olhou firme em seus olhos claros.

— O-Obrigada.

— Ajudá-la? — Ed lançou um olhar de incredulidade para a amante. — Não sabemos qual a procedência dela, Debora. Não é assim que funciona, precisamos ter certeza do que ela fala.

— Eu não sou nenhuma criminosa, estou falando a verdade! — Marjorie cuspiu.

— Quem nos garante? — Serena retrucou. A ruiva rodeava a loira como uma fera a analisar a presa.

— Você está com medo, Ed? — Debora devolveu com uma agressividade velada. Ela não precisava de muito para convencer Edmundo, de que o ex-federal estava errado.

— Ela não pode ficar conosco. — O homem rebateu.

— O Ed só está sendo sensato. — Thiago, que até então mantinha-se calado, replicou.

— Eu concordo com o velho. Não é assim que as coisas funcionam. Pode ser um risco à mais pra gente. — Amanda interveio.

— Eu acho um pouco arriscado, de fato. Isso atrairia a Corporação Pyramid para nós também. E de problemas, já estamos correndo. — Alfa retrucou, mas analisou. — Por outro lado, ela precisa de nossa ajuda e não vamos ser tão covardes de negar.

— Nós vamos ajudá-la e ponto final!

Todos olharam para trás para verificarem de quem era a voz. E Mia aproximou-se de cabeça erguida, encarando Edmundo com um olhar intimidador. O homem não torceu o nariz, detrás dos óculos ele mantinha seu olhar indiferente. Se em todos os anos de vida da garota e sua experiência com situações semelhantes, ela saberia identificar quando uma mulher como Marjorie precisava certamente de ajuda, ela não lhe deixaria na mão.

— Nós vamos te ajudar, você pode ficar conosco, Marjorie. — Mia sorriu, tentando passar-lhe confiança.

— Isso, vamos sim! — Erick completou.

— Muito obrigada mesmo.

No segundo seguinte um clarão e uma enorme explosão sacudiram o hangar da fábrica. Todos foram ao chão.

— São eles! — Marjorie berrou.

Como se uma sirene soasse pelo hangar, todo o grupo se separou no exato instante. Seus cérebros induziram-os a se dissiparem como poeiras ao vento imediatamente, deixando a situação bastante caótica. Marjorie estava na presença de Demétrio e Alisson. O homem não viu quando Mimi e Ester sumiram de sua vista. Alisson então, segurou na mão de Marjorie e piscou, aquele era um sinal de que ficaria tudo bem. A brisa gélida passou pelo rosto de Demétrio como um corte, a tempo do homem virar o rosto e ver a fumaça amarronzada deixada pela explosão subir. Ele elevou o olhar, avistando as hélices do helicóptero cortarem a noite e descerem o pássaro de ferro pela abertura do teto desgastado.

A ave de ferro pousou com um impacto, assustando algumas pessoas do grupo que acabavam de sair daquela ala. Natasha olhou por cima dos ombros, vendo apenas a fumaça encher o ambiente. A escritora tossiu várias vezes, sentindo Max puxá-la para que saíssem dali. Fred e Kaique corriam bem próximos dos dois. Eles infelizmente perderam Alfinn de vista.

— Vamos sair daqui! — Alfa tentou guiar as duas mulheres para longe daquele hall, porém a fumaça enchia o ambiente de tal maneira a dificultar a visão do trio.

Alisson virou-se de costas e sentiu o objeto vindo na direção de seu rosto. Ela abaixou no último momento e a arma passou acima da sua cabeça, a centímetros de distância. Marjorie olhou horrorizada e empurrou o membro da Corporação Pyramid. O homem trajava branco e um tipo de vestimento que lembrava um aparato militar.

— Alisson! — Demétrio berrou e partiu para cima do guarda.

No meio do fumaceiro, Amélia surgiu cambaleando e tossindo, ela sentia-se zonza. Marjorie viu a moça e pediu que ele fugisse dali o quanto antes. Do helicóptero saíram mais quatro guardas, todos armados. O piloto esperava-os do lado de dentro, sem desligar a aeronave. O barulho era ensurdecedor, as hélices cortavam o ar com força, enquanto os guardas cercavam Demétrio, Alisson e as duas mulheres. Amélia ameaçou recuar e foi surpreendida com um dos guardas apontando a arma para sua cabeça. Alfa até tentou resistir, mas ele e Alisson levaram uma coronhada segura cada um, até caírem desacordados. A fumaça cobriu os dois, então eles ouviram um segundo estrondo. Parte do teto cedou, caindo aos pés de Edmundo, que tentava chegar até o grupo.

Marjorie olhou para os corpos desfalecidos dos amigos e gritou. Amélia correu para perto dela e tropeçou. Dois guardas acabaram com agarrar seus braços. A médica berrou e viu eles fazerem o mesmo com a mulher loira. Marjorie encarou a médica assustada, ela sabia o que viria a seguir. Então, os quatro homens puseram as duas dentro do helicóptero que alçou voou logo em seguida.

— AMÉLIA! — Serena gritou no meio da fumaça, que começava a se dissipar aos poucos.

Tarde demais, Amélia e Marjorie não estavam mais entre eles.

— Elas foram levadas! — Edmundo brandou em resposta. — Eles puseram as duas no helicóptero, não conseguimos!

A poeira revelou Debora ajoelhada no hangar, sua face encarava a ave de ferro sair da fábrica pela grande abertura no teto. Cacos de vidro tilintaram no piso de concreto.

Max e Natasha se aproximaram do grupo, que chegava de volta ao hangar com cuidado. Eles encontraram Alfa e Alisson desacordados e trataram de acordá-los. Os dois estavam confusos, as cabeças latejavam, os pensamentos embaralhados. Mal sabiam o que viria a seguir.

Notas finais
Não esqueçam de comentar. Os comentários são muito importantes para a continuidade do projeto. Vemos vocês nas reviews, pessoal!