Notas iniciais
Escrito por 483ViniKaulitz.

Falando GREGo #482 – MEDIDAS A SEREM TOMADAS CASO VOCÊ SE APAIXONE POR UM PERSONAGEM – 15 DE SETEMBRO DE 2014

Ainda que estivesse usando um moletom preto, camiseta branca e uma barba épica, era possível enxergar uma gaze vazando pela gola do pescoço de Greg Kaulfuss. A gaze não era totalmente visível, mas levando em consideração a pessoa em questão, era fácil de se concluir que aquilo era uma tatuagem recente. No fundo do vídeo e do escritório, mesmo que desfocada, era possível enxergar a imagem de Lana Flowers, casualmente trabalhando em alguma coisa em sua própria mesa. O cabelo azul turquesa estava radiante, e mesmo que ainda em segundo plano, se destacava no mar de preto, branco e cinza que era o universo do Kaulfuss. Lana tinha retocado a cor recentemente.

Os dois estavam felizes.

– Como eu estava dizendo, — Greg devaneia, — em algum ponto de sua vida, lá pelos seus oito... nove anos, você fará uma escolha. Olha, eu tô falando de uma escolha importante, que mudará o rumo do resto de sua vida. Eu tô falando DA escolha.

– Greg..

– E sabe o que é mais esquisito nisso tudo? Você nunca irá parar pra pensar, nunca estará totalmente ciente de que está fazendo, ou de que fez essa escolha. É subjetivo... é subtexto.

Lana para de escrever ao fundo, ergue os olhos e presta atenção em Greg. A câmera perde o foco nele por um segundo, foca em Lana, então volta com uma intensidade feroz, por um milésimo de segundo revelando as pequenas rugas ao redor dos olhos azuis e cinzentos de Kaulfuss.

– A escolha basicamente está no cruzamento da linha tênue que difere uma pessoa comum de um artista. A escolha irá definir se você é um jogador ou um soldado. Você irá se tornar uma pessoa que joga com o sistema, que segue as regras e que vive buscando a calmaria ou um ponto de paz... o próprio “jogador”, ou você será um daqueles que escrevem, vivem, atuam, desenham, ou, simplesmente... mandam no sistema? Bom, esse é o “soldado”.

Greg ri por um instante.

– Olha, eu aposto que você prefere a segunda escolha. Simplesmente pois, se você está aqui no meu canal assistindo ao meu vídeo, então provavelmente você gosta de coisas criativas. E se você lê histórias, assiste filmes, acompanha a séries, escreve, desenha, tira fotos, canta, dança, se veste como o seu personagem, atua, dirige, assiste ou faz vlogs; se você se perde nesse universo vasto de meios que podem te levar para outra galáxia em um piscar de olhos, então com certeza meu amigo, você é um soldado.

– Você é um dos nossos. – Lana sorri do fundo, empolgada com o monólogo do namorado.

– Você é um dos nossos. – Greg retoma. – E enfim, foi essa a introdução legalzinha que eu pensei em fazer para esse vídeo que vou falar sobre personagens. Agora, na frente da câmera, admito que fui um pouco longe demais e que talvez as coisas não tenham muito a ver. Mas enfim, vamos tentar... vamos falar sobre personagens de histórias que marcam, e em como você pode se identificar com eles.

Pois no fim das contas, todos nós somos personagens de uma grande história, não é?

XXX

Lana apertou os olhos, um dos primeiros raios de sol tocando seu rosto. Ela suspirou, tonta, quase sentindo como se estivesse acordando de uma ressaca brava com Greg em seu encalço.

Mas não era aquela a situação.

Ela via os raios de sol do amanhecer fatiando através das frestas da madeira da cabana de Abigail. E a jovem turquesa sabia muito bem que as coisas só estavam piorando.

A sensação de ressaca foi embora bem rápido, então Lana sentiu como se uma grande parte de seu interior tivesse deteriorado muito rápido. Teria ela sido envenenada?

Mas ela não sentia dor...

Lana concentrou-se em lembrar. Ela tinha tomado um chá... Ah... o chá. Aquela velha filha da puta não era de se confiar. Ah se ela tivesse seguido seus instintos...

– Greg?

Lana ergueu-se, determinada. Só agora percebeu que estava amarrada pelos pulsos contra uma das pilastras de madeira do interior da cabana da velha. Ela olhou ao redor e enxergou Anna Clara, Shinji, Anna Bella e Clarisse, todos também amarrados, mas ainda dormindo.

– Greg?

Greg não estava ali.

– Anna? Shinji? Anna? Clarisse?

Ela chamou todos diversas vezes, mas ninguém acordou. Provavelmente suas respectivas doses de Boa Noite Idiota tinham sido maiores.

Lana tentou soltar-se, porém a corda estava bem presa. Ela suspirou, com raiva, tentando não pirar.

– Greg? GREEEG?

Foi aí que lembrou-se. Quando corriam pela floresta na noite passada, Greg tinha arrancado duas flechas pontudas do tronco de uma árvore, quebrado as pontas afiadas e deixado uma lasca com Lana, e outra consigo mesmo. Para o caso de que algo desse errado.

Lana sentou-se no chão e esticou a perna direita o máximo que pode em direção a sua própria mão, amarrada atrás de si. Então tateou em sua bota, até sentir a ponta afiada da flecha em suas mãos. Ela começou a serrar a corda do jeito que podia com as mãos amarradas.

– Ah, eu te amo Greg Kaulfuss.

XXX

Quinze minutos mais tarde, a corda se desfez e Lana soltou os pulsos da pilastra, suor descendo no rosto e suspirando aliviada, mas ainda alerta caso alguém se aproximasse.

Ela pensou em soltar as outras pessoas, mas Greg ainda era o próximo. Ou talvez Greg já estivesse...

Lana não poderia considerar aquela probabilidade.

A jovem posicionou a ponta da flecha na mão de Shinji, ainda desmaiado, então explorou a cabana cuidadosamente, caso Abigail estivesse tirando um cochilo em algum lugar. Então espiou através das janelas, mas não viu ninguém.

Lana tinha que encontrar Greg.

A jovem armou-se de um pedaço de madeira que havia encontrado próximo a lareira e saiu porta afora.

A luz do sol banhou seu corpo e Lana recuou, ainda cautelosa. Mais uma olhada rápida, ok, o local estava realmente deserto. Respirou fundo, e concentrou-se na floresta adiante.

Lana desceu a varanda e disparou a correr em direção a mata, muito alerta e ciente de que poderia ouvir zunidos de flechas, mas o som não veio. Estava quase se embrenhando no verde quando algo enroscou em seu tornozelo e ela gritou, caindo de frente ao chão batido.

Ela repentinamente afogou o grito, quando se deu conta de que estava sozinha. Tremendo e suando, pegou uma pequena corrente artesanal que havia enroscado em suas botas, a corrente provavelmente estava jogada pela estrada.

Lana levantou-se e pulou na mata, agora finalmente escondida. Então por um segundo, a jovem parou outra vez e observou a corrente entrelaçada em seus dedos, notando agora que havia sido confeccionada de maneira artesanal, parecia um tipo de amuleto.

O pingente era uma pedrinha pequena mas muito brilhante.

Uma pedrinha azul turquesa.

XXX

Serena enxugou as lágrimas, mancando de volta ao local que havia entrado na caverna. Pela primeira vez em anos, ela não tinha ideia do que fazer.

Ela ainda queria continuar suas matérias. Ela precisava levar sua história pra frente, mas aquilo parecia longe demais do que ela havia considerado.

Ora, mas apesar de tudo ela ainda era uma jornalista. Quantos jornalistas dão o sangue todo o dia, arriscam as próprias vidas atrás de um furo, uma informação, um dado pequeno que pode significar a diferença entre ganhar o Pulitzer, a tentativa que levaria a um deslize que poderia mandá-la para rolar eternamente na bosta ou abraçar o fato de que poderia continuar presa para sempre no emaranhado caótico e sem importância da droga do subúrbio.

Aquela era sua chance, e ela não iria dar as costas.

O cadáver mutilado já fedia horrores. Ela não conseguia sentir nada além de pena, então permitiu-se viajar, e logo pensou em todos os seus colegas de profissão que já tinham encontrado cadáveres ao redor do mundo. E em todos que também não tinham encontrado.

Serena já estava um passo além de todos os outros jornalistas. Ela tinha encarado a morte, e agora estava pronta para rebater tudo de volta.

Ela só precisava saber como aquela história iria acabar. E então, bastava descobrir o caminho de volta pra casa.

Uma réstia esquisita caiu sobre seus olhos e ela recuou. Era um raio de sol e mais alguma coisa... Ela seguiu o brilho esquisito e, enfiado entre musgos numa parede de barro, havia uma pedrinha.

Ela esticou a mão e alcançou a pedra. Parecia ter alguns desenhos riscados, mas Serena achou interessante que ela brilhava muito. E também, era roxa.

Roxo era a cor da faixa de sua formatura. A cor do jornalismo.

Aquilo só poderia ser um sinal...

XXX

Nina tentava pensar, tentava encontrar rastros que pudessem guia-la de volta ao resto do grupo, mas tinha se embrenhado demais.

Ela segurava firme, se apoiando aqui e ali nos troncos das árvores, tentando entender as coisas.

Mas ela não iria desistir.

Ela sentia a preocupação constante batendo dentro de seu peito. Um pânico contínuo, mas era quase como se ela já conhecesse bem aquela sensação. Ela tinha passado por tanta coisa naqueles últimos tempos.

Ela ouviu o som de folhas secas sendo quebradas então congelou. Avistou uma pedra grande e abaixou-se, pronta para rastejar em direção a ela. Daria tempo de se esconder, ela sorriu para si mesma. A jovem estava se saindo melhor que a encomenda.

Então viu os cabelos azuis surgirem de relance em meio aos galhos, e sentiu seu coração aquecer e derreter. Ainda, manteve-se impassível, caso Lana estivesse sob guarda de um dos mascarados. Se esse fosse o caso, teria que usar outras estratégias.

Mas logo viu que Lana estava sozinha.

– Lana!

A jovem turquesa não se assustou, esboçou um sorriso pequeno, então caiu no choro ao cair nos braços da amiga.

– Nina, o Greg sumiu!

A loira não soube o que dizer, então abraçou-a outra vez.

– Tá tudo bem contigo? – Nina perguntou.

– Eu tô sim, e você?

– Eu também tô...

– Escuta... – Lana parou para respirar. — Aquela senhora... Abigail, ela é louca... ela não tá do nosso lado...

– Eu fui tola...

– Todo mundo foi... – Lana disse. – Todo mundo foi. Agora eu...

Lana continuou andando, um pouco desesperada. Ela parou e virou-se para Nina.

– Ele é o próximo, Nina. Eu não posso perder ele...

E Nina já estava ao lado de Lana.

XXX

– Depois de alguns episódios... capítulos ou minutos, você já sabe pra quem torcer.

Greg sorria, empolgado em seu próprio monólogo.

– As experiências da vida e o tempo moldam você. Tudo o que você é, tudo o que você é capaz, é apenas um reflexo de como um pedacinho da sua alma, do seu interior, lidou com o resto do mundo e com as situações que você foi exposto ao longo dos anos. E um personagem é exatamente isso.

E no fim das contas, o que nos permite identificar-se com um personagem? O físico? Talvez. As características e qualidades? Pode até ser. No fundo, você e o personagem podem ser dois polos de sinais diferentes que se retraem, mas enfim, uma hora ou outra, você vai sacar que não é a semelhança que te faz igual a um personagem.

O que te permite torcer para um personagem é a sua capacidade de atravessar os limites da ficção. E então meu amigo, doar seu coração será a parte mais fácil.

– Awnnn! — Lana exclamou sorrindo no fundo. – Duvido você deixar isso na versão final do vídeo.

– Duvida é?

XXX

Lana avistou uma clareira nas árvores e disparou a correr. Então viu-se num heliporto, localizado num local alto de uma das montanhas.

– Eu não imaginei que tínhamos subido tanto. – Nina comentou.

– Tá sentindo isso?

– O quê? – Nina perguntou curiosa.

Lana sentia Greg. Não era o cheiro, Lana não era um rastreador, não era como um sentido animal. A jovem sabia que o namorado tinha uma espécie de essência fortíssima, que simplesmente perambulava pelos locais que ele passava.

– Greg esteve aqui. – Lana cambaleava pelo concreto, tentando identificar de onde aquilo estaria vindo.

Nina a encarava com uma expressão assustada.

Amiga?

Lana sentiu o coração sendo golpeado, havia um bracelete no chão. Ela abaixou-se e pegou o objeto, rapidamente identificando como o de Greg. Era uma espécie de pulseira que ele usava, simbolizando ter superado uma das fases ruins de sua vida.

– É do Greg.

XXX

Nina leu os dizeres no bracelete: “Live Free, Die Hard”.

Então acompanhou Lana recolher outras três pulseiras arrebentadas, todas levando em direção ao abismo. Havia também uma mancha de sangue no concreto.

A jovem loira continuou impassível, encarando a jovem turquesa parada diante da bela paisagem, pulseiras na mão, os cabelos azuis balançando no vento.

Nina sentiu uma lágrima descer em seu rosto, mas não caiu no choro.

– Ele não tá morto. — Lana disse com um sorriso esperançoso. – Não tô vendo sangue lá embaixo.

– Ok. – Nina disse. – Vamos achá-lo.

XXX

Anna Clara sentiu um ar quente em seu rosto, então recuou, assustada. Abriu os olhos e viu-se de frente com os olhos leitosos de Abigail.

– O que tá acontecendo? – Ela perguntou. Então notou que estava amarrada. Virou-se e viu que Shinji também estava, assim como sua filha e Clarisse.

– Achei que você não ia acordar nunca, querida. – Abigail sorriu. – Já tava mais do que na hora.

– Na hora do quê? – Anna sentia-se desesperada. – Me deixa ir embora! Solta minha família!

– É tarde demais para isso. – Abigail sussurrou.

– Shinji? – Anna chamou o marido. – Shinji!

Ela ouviu Shinji tossir, acordando. Anna Bella começou a chorar, e Clarisse parecia tentar entender o que estava acontecendo.

– Amor?

– Shinji! Me ajuda!

– Eu não consigo, eu tô preso! – ele exclamou. – Eu estou...

Então Shinji parou de falar rapidamente. Abigail parou e virou-se para ele, quase como se o enxergasse.

Aquilo era surreal. Eles estavam na lista da morte e agora aquela velha maluca estava...

– Sobre o que você perguntou, querida, estou preparando o teu ritual.

– Que ritual? – Anna gritou e tentou soltar-se outra vez. – Que ritual?

– Ora essa, seus olhos querida. – Abigail disse calma, quase como se aquilo fosse óbvio. — De que vão lhe servir esses olhos de visionária quando você estiver morta?

Anna sentiu um calafrio gelado descendo em sua espinha, Shinji gemeu ao seu lado, desconsertado. A velha sabia de muita coisa. Talvez a velha estivesse conectada com a coisa toda...

– Mãe, eu tô com medo...

– Não tenha medo, Bella. Eu tratei de fazer com que sua mãe conhecesse o homem com o gene recessivo perfeito para o dom passar para você sem perdas. Você ainda será muito útil para mim. – Abigail virou-se para a visionária.

– Anna Clara, estou te observando há um bom tempo.

Anna não sabia o que dizer.

XXX

Shinji não sabia exatamente como, mas o pedaço de madeira que magicamente estava em suas mãos quando acordou estava rasgando a corda muito bem.

Ele não imaginara que veria tanta merda em sua vida. Ele estava farto daquele jogo, mas ainda faria o que estivesse a seu alcance para salvar sua família.

Sentiu que sua corda já havia arrebentado, mas não tinha saído do lugar. Agora fazia o mesmo na corda de Clarisse, seu plano era soltar todo mundo antes de começarem a revidar. Três contra uma senhora, aquilo seria fácil.

O choro alto de Clarisse havia começado quando a jovem notou que o som de sua corda sendo rasgada era ruidoso. Ela estava sabendo jogar, e parecia disposta a seguir o plano de Shinji. Aquilo era ótimo.

– Você consegue enxergar, não é? – Anna perguntou de repente. – Uma pessoa cega não consegue fazer o que você faz. Porque é que você está fazendo isso?

– Digamos que eu posso fazer várias coisas. – Abigail deu de ombros, de costas para o grupo, próxima a pia da cozinha. — Todos nós temos os nossos truques, querida.

A velha ergueu uma caçarola no ar e um cheiro misto de álcool, incenso e enxofre encheu a cabana. Anna Bella começou a tossir.

– Deixe nossa filha fora disso, por favor. – Shinji implorou. – Deixe minha esposa, eu posso servir no que você está fazendo...

– Você é só um pedaço de carne. — Abigail comentou. – Você e a puxa-saco da jornalista do seu lado. – Vocês não servem para nada.

Shinji engoliu em seco.

Abigail virou-se para o grupo outra vez. Em suas mãos ela trazia uma flanela com um utensílio de cozinha parecido com uma concha metálica, banhada naquela água quente de diversos cheiros.

– O que você vai fazer com isso? – Anna perguntou, as lágrimas descendo o rosto.

– Seus olhos querida... como eu estava dizendo... – Abigail abaixou-se diante de Anna Clara.

Shinji não deixaria aquilo acontecer. Ninguém iria botar um dedo na mulher dele. Então ele levantou-se de imediato e pulou na direção da velha.

E foi aí que o inferno começou.

XXX

Havia uma sensação esquisita no ar, e Lana podia dizer que Nina também sentia.

As duas haviam descido a montanha e agora estavam paradas diante de uma caverna obscura que não tinham visto antes. As coisas não estavam fazendo muito sentido mesmo. Ambas achavam que entendiam o que estava acontecendo, mas com o comportamento recente da velha Abigail, estava claro que o buraco era ainda mais embaixo.

Eu só queria te lembrar,
Que aquele tempo eu não podia fazer mais por nós
Eu estava errado e você não tem que me perdoar
Mas também quero te mostrar,
Que existe um lado bom nessa história:
Tudo o que ainda temos à compartilhar

Lana seguiu adiante em direção a entrada da caverna, cada passo ecoando em seus próprios ouvidos. Ela parou no último segundo, e Nina a acompanhou, pousou a mão em seu ombro. A jovem turquesa sorriu e entrou.

Ao longo da vida, Ana Carolina tinha se preparado mentalmente para encarar diversas situações, mas nada poderia ter lhe preparado para o que surgiu diante de seus olhos.

Sobre uma das mesas de pedra, jazia Greg Kaulfuss.

Da entrada da caverna era possível ver apenas um corpo grande, um homem. Mas as tatuagens vazando nos rasgos das roupas não poderiam mentir.

– Não... – Lana gemeu, ainda parada no local que estava. – Greg...

– Greg... – e Nina pareceu descarrilar naquele nome, e ela não conseguiria encontrar uma palavra para dizer. – Greg... – ela enxugou as lágrimas que vieram num turbilhão. — Ô Greg...

Lana cambaleou até o corpo do namorado, sentindo a própria garganta fechando, o próprio corpo enfraquecendo.

Ela não tinha salvado o guardião dela. E esse pensamento estúpido doeu, acertou em cheio no meio de sua testa e Lana se segurou na mesa para continuar firme. Ela precisava ver...

Parecia que Greg tinha caído de um abismo.

– É ridículo... – Lana comentou entre choros, encarando Nina. – Acabaram com ele.

Pelas manchas de sangue nas roupas, era possível deduzir que o corpo tinha dezenas de machucados. Ele estava com os joelhos dobrados, alguém tinha feito para ele caber totalmente na mesa. Um buraco na perna, Lana se perguntou o quanto aquilo teria doído.

O que Greg tinha feito de tão errado para morrer daquele jeito?

Rasgos na camiseta, manchas roxas no peito e as pulseiras, uma vez organizadas no pulso, agora pareciam esfareladas ao longo do antebraço. Ainda, no rosto, ele tinha uma expressão de calmaria, quase como estivesse dormindo.

Lana nunca esqueceria de Greg. O rapaz tinha sido a pessoa mais forte que ela havia visto na vida, e agora estava morto, vulnerável.

Olhos fechados, o cabelo despenteado. Era possível ver que alguém tinha tentado remover o excesso de sangue que estava na barba dele, então agora apenas as pontinhas dos pelos estavam avermelhadas.

Lana debruçou-se para chorar sobre o peito de Greg, e ao afundar sobre ele, com horror notou que várias de suas costelas estavam quebradas.

– O que fizeram com você, beiçudo?

Nina encostou-se na parede adiante, e chorava também, observando a cena. A jovem loira não saberia consolar Lana, simplesmente pois também precisava ser consolada.

Lana tocou o rosto de Greg.

– O que fizeram com você, meu amor?

Por alguns minutos, Lana ficou ali, recostada, tentando entender o que tinha acontecido. O homem que ela mais amou estava morto. E nada traria Greg de volta, e daquele instante em diante, estava óbvio que sua vida nunca mais seria a mesma.

Lana sentiu algo nos bolsos de Greg e pegou o objeto. Era a GoPro de Greg. Ela sentou-se e observou a mini câmera quebrada, então tirou o cartão SD e alcançou um celular que estava em seu bolso. Ela pressionou o botão para ligar.

– Lana, não tem sinal aqui...

– Ele provavelmente gravou alguma coisa, eu preciso...

Nina aproximou-se calmamente.

– Dependendo do que tem aí pode ser pior...

Lana deu de ombros, a voz embargada.

– Nina, eu acabei de descobrir que perdi a pessoa que trouxe sentido na minha vida. O que estiver aqui com certeza não será pior.

Lana encontrou o arquivo recente no cartão SD e pressionou play.

XXX

No meio do salto, Shinji se preparava pra cair em cima da velha, mas não foi o que aconteceu.

Ele sentiu seu corpo pairar no ar acima da mulher no instante em que iria atingi-la. Era surreal.

Ele acreditou que estava delirando, mas o olhar de medo no rosto de sua mulher deixava claro, aquilo estava acontecendo.

– Meu deus. – Anna Clara disse.

Então Shinji foi arremessado no ar, e todas as mulheres gritaram.

– PAAAI!

O homem bateu a cabeça na parede com um baque surdo e caiu no chão, mas não foi o suficiente para deixa-lo inconsciente. Ele levantou-se e sentou no chão com dificuldade enquanto a dor explodia em sua nuca e nas costas. Ele nunca tinha quebrado um osso na vida, mas sentia que duas de suas costelas tinham arrebentado.

– Que porra é essa...

Abigail encarou-o através de seus olhos leitosos, do meio da sala.

– Shinji! – Anna Clara gritou entre choros. – Sai daqui! Dona, faça o que tiver de fazer mas não machuque minha família!

– Não preciso sua família, mas o frango tá dificultando as coisas.

‘ — O quê? – Shinji perguntou. Ele tentou ficar de pé, mas caiu outra vez.

– Como você fez isso? – Clarisse perguntou, ainda sentada no chão. Shinji já tinha a soltado, e também soltado uma das mãos de Anna Clara.

– Engraçado você perguntar. — Abigail comentou. – Você sabe o que eu sou.

– Não pode ser, eu...

– É claro que pode.

Abigail estalou os dedos e uma a uma, todas as velas presentes na cabana acenderam sozinhas.

– A senhora é uma bruxa? – Anna Bella perguntou.

Abigail deu de ombros. Ela apontou para a porta da cabana, que foi aberta de uma vez só.

– Preciso ter uma conversinha em particular com sua mãe.

– Não!

Clarisse levantou-se repentinamente, e assim como a velha tinha feito com Shinji, a moça pareceu ficar pendurada no ar por um segundo, então foi arremessada pela porta.

Shinji não queria acreditar. Ele levantou-se de uma vez, então desviou ao ver sua filha indo em sua direção, também sendo arremessada para fora da cabana com um grito.

Anna Clara chorava copiosamente.

E agora Shinji estava de pé, diante de Abigail. A velha encarou-o outra vez e balançou a cabeça num tom de desprezo.

– Homens.

XXX

Anna Clara viu o marido sendo arremessado para fora da casa. Todas as suas concepções de uma vida inteira estavam desabando diante de seus olhos. Bruxas? Lista da morte? Quem diria.

A mulher estava desesperada, porém parecia que a velha estava dando uma chance de vida para seu marido e sua filha. E aquilo, no fim das contas não era tão ruim.

Abigail virou-se de volta para ela. Estava claro que aquela velha não era cega. Anna Clara não duvidava de mais nada.

A velha abaixou-se diante dela, mais uma vez com a flanela e uma espécie de concha na mão.

– Seus olhos, querida.

Anna Clara notou que uma de suas mãos estavam soltas. Shinji teria a soltado? Ela não se preocupou. Ergueu o braço e desferiu um tapa barulhento na cara da velha.

A velha recuou, um tanto quando chocada, então retomou a pose. Então ela fechou os olhos e pareceu se concentrar em alguma coisa, e Anna Clara foi arremessada para uma cadeira e sentiu seus braços serem amarrados outra vez. Anna berrou, descrente do que estava acontecendo com ela.

– Você não tem mesmo ideia de com quem você está brincando, não é?

Anna não tinha ideia nenhuma. Mas ela não podia negar que a sensação tinha sido maravilhosa.

XXX

Lana derrubou o celular no chão ao terminar de ver o vídeo. Nina pegou-o e enfiou no bolso da jovem.

As duas não sabiam o que dizer.

– É aquela mulher do vídeo, não é? – Nina perguntou.

– É sim. – Lana respondeu enxugando as lágrimas. – Reconheceria de longe.

– Você tem ideia de mais alguém que pode estar envolvido?

– Não sei, — Lana respondeu. – Honestamente, não sei se quero saber...

– Você precisa ser forte, Lana. Eu passei por muita coisa e ainda tô aqui.

Lana concordou. Aquilo era uma verdade.

– Eu quero vingança.

– Vingança? – Nina perguntou.

As duas ouviram uma voz feminina do lado de fora.

– Rápido! — Nina grudou no braço de Lana. – Alguém tá vindo!

As duas correram e se esgueiraram abaixo de uma planta que havia crescido na lateral do interior da caverna.

Lana ainda podia ver o corpo de Greg acima da mesa. A jovem turquesa sabia, sua ficha não tinha caído.

Então a mesma mulher que havia chupado Greg e alguns meses mais tarde ajudado a matá-lo entrou sozinha na caverna e cantarolando. Lana sentiu todos os músculos de seu corpo enrijecendo de raiva.

Hora de brincar, Carlinhos.

Lana sentiu as mãos de Nina fechando ao redor de seu punho. A amiga queria segurá-la, mas talvez aquela fosse a única chance de vingança que teria na vida.

Ela não iria perder.

Lana levantou-se do esconderijo, ignorando os protestos silenciosos de Nina. Totalmente fora do campo de visão da assassina, ela apanhou uma pedra do chão e correu em direção a mulher.

A mulher gritou quando Lana trepou em cima dela, juntando-a de uma vez só e derrubando-a no chão.

– Que que é isso, me larga! – A mulher protestou realmente assustada.

– O nome dele é João Gregório, — Lana cuspiu na cara da mulher. Tão rápido, ergueu a pedra diante de si e macetou na cabeça da mulher.

XXX

Abigail mergulhou a concha no líquido fervilhando outra vez.

Anna Clara sabia o que a velha iria fazer, mas não sabia o que poderia fazer para lutar de volta.

– Seu marido jamais vai conseguir entrar aqui novamente. – Abigail comentou. – Criei uma barreira invisível no lado de fora da cabana. Ninguém vai nos interromper.

– Por que você tá fazendo isso? – Anna viu a mulher se aproximar novamente com a concha, a flanela e a bacia. – Deixa a gente ir embora... por favor.

– É a seleção natural, minha querida. Pessoas morrem todo dia.

– Não desse jeito. — Anna Clara protestou, agora segurando as lágrimas. – Eu tenho uma filha. Ela precisa de mim.

– Eu tenho filhos e garanto que eles conseguem viver muito bem sem a mãe. – Abigail sorriu. – De qualquer jeito, já te falei sobre os planos para sua filha.

– Shinji jamais vai deixar você tocar nela.

– É o que veremos.

Abigail posicionou a concha diante dos olhos de Anna Clara. A jovem mulher caiu no choro novamente, sem armas. Ela virou o rosto, porém sentiu sua cabeça virar para frente a força.

Era Abigail jogando.

Anna Clara viu a concha se aproximando de seu rosto. Então a mulher esbarrou a ponta do objeto na pele ao lado de seu olho direito, e Anna sentiu a pele sensível instantaneamente derretendo e queimando. Então uma lágrima de sangue desceu seu rosto, seguida de várias.

Anna berrou o mais alto que pode.

– É assim mesmo. – Abigail comentou.

Anna sentiu a mulher pressionando a concha na lateral de seu globo ocular e tentou ignorar a dor, mas era impossível. Ela tinha certeza de que seu olho já estava totalmente vermelho agora.

Abigail continuou pressionando, e Anna sentiu o metal quente da concha fatiando as laterais de seu globo ocular. A visão que tinha do olho direito já estava totalmente embaçada, e com horror, Anna sabia que aquilo não duraria muito tempo.

A sensação de um corpo estranho invadindo a cavidade de seu cérebro era a pior experiência que Anna tinha passado na vida. A velha continuava a encarando, como se fosse um doutor com muita experiência.

Anna não ouvia os próprios gritos mais. Ela sentiu um calor súbito em seu rosto, e percebeu que sangue em profusão saia de sua cavidade ocular e descia por seu rosto. Então a velha apertou e de uma só vez, Anna sentiu como se uma ligação dentro de sua cabeça tivesse sido arrebentada num único golpe.

A córnea.

Anna Clara berrava, mas não ouvia. No mesmo instante, a visão embaçada em seu olho direito desapareceu, e tudo que ela via era o escuro. Era como se nunca tivesse enxergado ali. E então ela só tinha o olho esquerdo.

Com o olho esquerdo, observou Abigail terminando de arrancar seu olho direito da órbita. Em seguida, um líquido escuro e viscoso do interior de Anna foi espirrado do restante de sua córnea, atingindo o rosto de Abigail.

A velha sorriu.

Em seguida, Abigail foi pulverizada por uma espécie de jato amarelado, e aquilo foi demais para Anna.

Anna vomitou, agora sentindo o vento soprando em seu próprio rosto, e em sua cavidade ocular. Anna se perguntou quanto tempo levaria para finalmente morrer.

– Me mata de uma vez! – Anna berrou. – Me mata sua velha porca!

No mesmo instante. Anna sentiu seus braços livres e ela desferiu um soco no rosto de Abigail.

A velha pareceu impressionada, levou as mãos ao rosto e recuou.

Anna escorregou no próprio sangue e caiu estatelada no chão. Ela levantou-se em seguida, observando a bagunça que seus fluídos oculares haviam feito no local, mas não sentiu nojo. Ela sentia raiva.

– É como diz o ditado. — Abigail se ergueu diante de Anna Clara. – Nunca subestime o poder de resistência de uma visionária.

Anna apoiou-se na mesinha, e no mesmo instante sua mão coberta de sangue deslizou pela madeira, arremessando a bacia e seu líquido misto sobre um dos armários de bugigangas da velha.

Tinha álcool naquela mistura.

Anna sentia o sangue encharcando sua própria camiseta em meio ao vômito, mas continuou. Ela então arrancou uma das velas de um candelabro e arremessou no líquido.

A combustão foi instantânea e uma chama intensa se ergueu até o teto.

Abigail recuou assustada.

Anna continuou encarando a velha com o olho que lhe restava. Anna se sentia forte agora. Quase como se pudesse passar por cima de tudo. Ela ergueu-se de pé e ficou diante de sua inimiga outra vez.

Abigail disse alguma coisa e Anna ouviu um estalo ao mesmo tempo que sentia seu corpo perdendo o equilíbrio. Uma dor intensa e quente subiu por sua espinha e Anna caiu de costas no chão.

Abigail havia quebrado suas pernas. Ainda caída no chão, Anna sentiu que foi empurrada contra uma das paredes da cabana. Anna lutou e tratou de sentar-se no chão, apoiada contra a parede. As chamas já estavam se alastrando por outras paredes agora.

– Estou impressionada. — Abigail admitiu. Anna via apenas a sombra da mulher atrás da fumaça e das chamas. – Já que você gosta tanto de enxergar as coisas, você ficará consciente e sentirá dor até a última célula do seu corpo queimar. Isso pode durar horas.

Abigail andou em direção ao corredor e desapareceu.

As chamas se aproximando, o corpo em dor, Anna berrou.

XXX

Lana desferiu três golpes contra a cabeça de Maria, mas a mulher era incrivelmente forte e balançava descontrolada abaixo da jovem turquesa.

Lana não queria dizer uma palavra final de efeito. Ela apenas queria acabar com a mulher. Aquilo era demais? Lana também morreria nas mãos daquela mulher?

Nina correu e segurou as pernas da mulher, que ainda se debatia. Lana tentou desferir outro golpe na testa da mulher, mas a pedra escorregou e rolou para o lado escuro da caverna.

Lana gemeu desapontada, então teve uma ideia.

– Nina! – Lana berrou. – O coturno do Greg!

– Oi?

– O coturno direito do Greg! Me dá!

Nina não entendeu.

– Eu seguro essa biscate! Pega o coturno do Greg!

Nina levantou-se e correu até o corpo de Kaulfuss. Ela arrancou o calçado pesado e gigante do pé do fotógrafo e correu de volta para Lana.

Nina ergueu o coturno no alto e desceu a sola do mesmo com força na cara da mulher.

A mulher gritou com a botinada na cara e cuspiu sangue. Ela parou de se debater abaixo de Lana, provavelmente meio tonta por causa da pancada. Começou então a dar risada, os dentes envoltos em sangue.

– Rápido Nina, dentro do coturno!

– Cabelo azul idiota! — a mulher riu alto, encarando Lana e se engasgando com o próprio sangue.

Nina entregou para Lana a outra ponta afiada da flecha que Greg havia recolhido na noite seguinte, uma para ele e outra para Lana.

– Cabelo azul. – A mulher riu cuspindo sangue. – Você é a esposa do cara que eu matei.

Lana ergueu a ponta da flecha e desferiu um único golpe na jugular da mulher. A jovem turquesa levantou-se logo em seguida, evitando o jato de sangue desagradável. A jovem no chão debateu-se por mais alguns segundos e morreu.

– E agora eu matei você. – Lana disse entre dentes.

Lana e Nina trocaram um olhar. Nenhuma das duas disse nada.

XXX

– Honestamente, — Greg encara a câmera, — acompanhar a morte de um personagem querido é uma memória que pode te perseguir pelo resto da vida.

XXX

Horrorizado, todos os pelos do corpo eriçados, dor explodindo em diversos cantos de seu corpo e lágrimas descendo seu rosto, Shinji acompanhava a cabana ardendo em chamas.

Desde que havia sido arremessado do interior da casa da velha, Shinji tinha tentado mil e uma maneiras de atravessar a barreira invisível, que provavelmente a velha havia conjurado.

Shinji não queria viver num mundo sem Anna Clara. E então ele continuava golpeando na barreira, que permanecia intacta.

XXX

– Às vezes a morte de um personagem é tão triste quanto a morte de um ser humano real. – Greg dá de ombros. – Mas sabe o motivo disso acontecer? Você sabe Lana?

– Não sei, Greg.

– Bom, acontece pois o personagem é um ser humano real. Pelo menos pra nós, os “soldados”.

XXX

Escondida na mata, Anna Bella chorando em seu colo, Clarisse observava Shinji tentando atravessar a barreira que Abigail havia feito.

Abigail era uma bruxa poderosa, e Clarisse jamais imaginara que metade das coisas que havia visto na cabana da velha pudessem ser feitas.

A bruxaria ia muito além do que ela havia imaginado.

– Eu quero a minha mãe. – Anna Bella disse entre choros.

– Eu tô aqui agora, — Clarisse respondeu, segurando o próprio choro.

Carregando a garota que era consideravelmente pequena, Clarisse sentiu algo no bolso do capuz da menina, que ao estar em contato com seu peito, incomodava.

Tirou um amuleto pequeno, com uma pedrinha vermelha no meio. Era um objeto mágico, ela conseguia sentir a energia.

– É sua? – Clarisse perguntou para Anna Bella.

– Não é. – A menina respondeu. – Achei que era sua.

XXX

– Você é obrigado a aceitar o destino do seu personagem? – Greg pergunta. — Claro que não. Assim como você não precisa aceitar o destino de um ente querido.

– É como as coisas acontecem na vida real. – Lana comenta no fundo, o foco da câmera pega nela. – Você só precisa aprender a conviver com a ausência de uma pessoa amada. É triste de se dizer, mas a vida passa.

XXX

Serena saiu da caverna, a luz do dia batendo sobre seus olhos.

Ela só tinha precisado de uma pausa, de um tempo. Agora sentia-se recuperada, pronta para voltar para a ativa.

Ela pressentia que o ato final estava próximo.

XXX

– Você pode até ficar satisfeito com a morte do seu personagem. Mas a maneira como as coisas se dão, o impacto que se dá durante e depois do golpe final, a metáfora bem sacada para representar o quanto aquela pessoa poderá fazer falta no mundo, não importa o quão forte você seja, essas maravilhas metalinguísticas existem, e estão ali para te destruir.

As coisas nunca são do jeito que a gente quer.

XXX

Lena acordou com um espasmo. Ela estava deitada e não tinha ideia do que estava acontecendo.

Ela assoprou o cabelo que estava em seus olhos e enxergou o teto de uma câmara. Ela tentou levantar-se, mas percebeu que seus braços e suas pernas estavam amarrados.

– Ah, você acordou.

Lena olhou ao redor. Bella estava deitada em uma mesa de pedra, no lado oposto da câmara. A jovem também estava amarrada, e balançava a ponta dos pés de um lado pro outro, quase como já tivesse enjoada de esperar para que alguma coisa acontecesse.

– Bem vinda ao clube. – Bella disse.

XXX

– Não importa o quanto você torça para seu personagem encontrar o caminho correto, ele sempre vai tomar uma decisão estúpida. Ele vai pegar o caminho errado que vai matar alguém, ou ele vai pegar o caminho errado que vai acabar dando cabo em si mesmo.

Mas no fim das contas, a vida não é isso? Um bando de gente escolhendo o caminho errado?

XXX

Mônica lavou o rosto e bebeu um pouco da água, esperando uma sensação de alívio. O que não aconteceu.

Ela estava radiante com a descoberta recente, ela tinha outra irmã. Apesar da tormenta, as coisas pareciam estar tomando um novo rumo, certo?

– Mô, vem cá!

Mônica seguiu a voz da irmã e a encontrou-a próxima as pedreiras. Mas Valentina estava apontando para o céu.

No horizonte da montanha, era possível ver uma nuvem de fumaça subindo. Incêndio.

– É a cabana da Abigail. – Valentina comentou.

– Você acha que devemos ir? – Mônica perguntou.

– O que você acha?

XXX

– Longe de casa, distante do mundo, assim como eu, assim como você, o seu personagem está vulnerável. Não importa o quanto ele seja forte, sempre terá alguém que luta no mesmo nível, e sempre terá alguém mais forte. É o clichê da vida.

A única diferença, é que as vezes o tempo está do seu lado.

E as vezes, pode não estar.

XXX

– Ele vai encontrar a Vanessa. — Nina disse entre lágrimas do lado de fora da caverna. – Eles vão se divertir muito.

Lana sorriu, já tinha parado de chorar. A jovem turquesa parou diante de Greg.

Ela tinha entendido a sensação esquisita que tinha tido quando havia acordado na cabana de Abigail, horas antes. O pedaço do interior de Lana que havia deteriorado não era físico. Era um pedaço de sua alma.

A chama azul da vida de Lana havia se apagado para sempre.

– Descanse em paz, meu putão.

A jovem turquesa beijou os lábios do homem, e com tristeza concluiu que aquele era o último beijo.

Pelo menos naquela vida.

XXX

– Pessoalmente, fugindo um pouco do assunto, por muitos anos de minha vida acreditei que de algum jeito, no final, todos nós somos insanos demais por acreditar que existe uma luz que vai nos tirar da dor, e nos salvar do túmulo no final da nossa história. Talvez essa luz exista.

E no fim das contas, se essa luz não existir e eu tiver que desaparecer, então eu irei.

Eu não tenho medo.

XXX

Anna gritou ao sentir as chamas atingindo suas pernas.

A sensação era exatamente a mesma de quando Abigail tinha colocado a concha em seu olho direito, minutos mais cedo. Primeiro o calor, então a pele derrete, queima e escorre. E o sangue...

Anna sentia a fumaça fechando ao redor de si mesma, mas continuava respirando. Ela já devia estar morta, porém o feitiço de consciência de Abigail estava funcionando muito bem.

Outro grito. A pele estalava... borbulhava... crack crack crack. Parecia um tipo de pesadelo em que você nunca acorda, e sente tudo. O calor, o frio, derrete... escorre. Sangue.

E Anna ainda teria que encarar aquilo tudo durante algumas horas.

Ela observou a chama dançando em seu antebraço. A pele fervendo, ardendo, gritando, quase como se estivesse brava que Anna não estava mais reagindo. Então a pele se rompe, uma boa visão das artérias, veias e músculos. Então essa camada pega fogo também.

Se Anna sobrevivesse, ela provavelmente ficaria chocada pelo resto da vida. Mas a comissária de bordo duraria só por algumas horas.

Ela quis mudar de pensamento. Lembrou-se de Anna Bella e Shinji. Duas pessoas que fizeram muito sentido na vida dela. Se você viveu fazendo o bem pelo menos para uma pessoa, então dar adeus a tudo não poderia ser tão difícil.

E ela estava até feliz, pois Shinji estaria lá para Anna Bella. Se um pensamento te faz feliz, então o escuro não pode ser tão aterrador.

Ela viu o outro braço em chamas. Segurou o grito agora e empurrou a dor para longe. Ela sentia que o corpo estava prestes a desligar, mas não iria desligar. Lembrou-se então de Abigail falando que nunca deveria ter subestimado o poder de uma visionária.

Então porque é que Anna ainda estava vendo seu próprio fim? Ela tinha poderes também, não tinha?

Ela concentrou-se. Precisava dar um jeito. Ficou em silêncio, isolou o som das chamas.

Era isso. Ainda ouvia seu próprio coração batendo. Se pelo menos ela pudesse se lembrar dos solavancos do avião...

Thud thud thud...

Ah, ela se lembrava. Os solavancos antes do avião decolar. Ela só precisava sincronizar os sons. E se as batidas do coração casassem com os solavancos do avião, então não haveria medo.

Anna amava voar.

Anna fechou os olhos, sentindo o mundo indo embora. Agora sim, ela estava desligando.

Sentiu as chamas dançando em seu cabelo curtinho agora, mas era só uma cócega. Respirou fundo. Ela estava apertando os cintos agora.

E foi aí que os solavancos pararam. Tão repentinamente quanto surgem, os solavancos param. E tudo o que ela ouviu e sentiu, foram as turbinas.

Anna estava voando agora.

XXX

– Quando eu acabei uma das minhas séries favoritas, — Greg continuou, — Breaking Bad, eu juro que fiquei sem chão. Eu acho que consigo me apegar muito fácil nessas coisas, o que eu posso fazer? Mas enfim, eu conversei com outras pessoas, mas nada me fazia sentir bem em relação ao final da série, ao fato de ter acabado. Então sabe o que eu fiz? O que eu fiz, Lana?

– Você ligou pra sua mãe.

– Exato! – Greg riu. – E o que ela me disse, foi a única coisa que me fez sentir bem, e eu tento levar pelo resto da vida.

– Fique feliz por ter acontecido. Leve as memórias boas, e você ficará bem. E isso, meu caro amigo soldado, é o que todos nós devemos fazer. Fique feliz por ter acontecido. Leve as memórias boas, que você ficará bem.

Eu sou o Greg Kaulfuss, e esse foi o Falando GREGo #482. E eu espero que você tenha curtido.

A tela ficou preto e branca, um recurso que Greg sempre usou para mostrar cenas dos bastidores dos vídeos.

– Lana?

– Que foi Greg?

– Você vai sentir minha falta quando eu for embora?

– Lógico que não, Greg.

Greg dá uma risada feliz. Ele começa a batucar na mesa com uma latinha de Skol e cantarolar uma música enquanto a tela escurece, mas a voz de Greg continua.

When I’m gone
When I’m gone
You’re gonna miss me when I’m gone
You’re gonna miss me by my hair
You’re gonna miss me everywhere, oh
You’re gonna miss me when I’m gone

Notas finais
Não esqueça de comentar. As reviews são muito importantes para a continuidade do projeto.