Premonição Chronicles 2
4 Capítulo 04: Pedra Preciosa
Notas iniciais
Vanessa havia terminado seu banho e já estava enrolada com uma toalha rosa. Uma outra toalha, dessa vez branca, escondia seus cabelos avermelhados. Sentia o cheiro de um cigarro francês e vagabundo sendo consumido no quarto. Chegando lá, viu que era Matheus, que estava na cama, nú e apenas com um lençol fino combrindo-o e um braço apoiando a cabeça na parede. Seu cabelo preto estava bagunçado e sua barba por fazer. Ao seu lado, uma mulher loira dormia de bruços, com as costas descobertas e metade das nádegas aparecendo. Pelas 3 horas que haviam passado com a moça desde que saíram de uma boate, ela parecia ser legal.
A ruiva não disse nada. Seus olhos verdes apenas analisaram o corpo de Matheus, que tinha um peitoral pouco musculoso e com alguns pelos. Seus pés estavam um sobre o outro e balançam suavemente de acordo com a sensação que o cigarro lhe trazia. O olhar azul parecia calmo e sonolento como uma maré em um dia sem vento.
O quarto devia ter uns cinquenta metros quadrados, sendo iluminado apenas por nove ou dez abajures espalhados ao redor do quarto. Peças de roupas estavam espalhadas pelo chão, junto com uma garrafa de champanhe, com a bebida escorrendo, manchando o tapete laranja, que combinava com as paredes da cor marrom. Na janela que estava paralela ao banheiro, tinha-se uma clara vista da Torre Eiffel, iluminada por lindas luzes.
–O clima de Paris é tão luxuoso, não é, fofinho?-Vanessa disse, agitando o ar com a mão para afastar a fumaça do cigarro, que ela odiava-Parece que tem ondas de luxúria e safadeza no ar.
–Desde quando você se tornou filosófica assim?-Matheus perguntou abrindo um sorriso malicioso, enquanto a mulher se aproximava dele, em passos charmosos.
–Não é filosófica, sua lontra demoníaca!-Vanessa retrucou com voz doce, catando o cigarro das mãos do homem e jogando, em uma mira perfeita, pela janela. Lá em baixo, alguém deveria estar com cinzas na cabeça.
Vanessa também queria citar que o clima da França fazia sentido em “menáge à trois”, mas decidiu deixar isso para si mesma. O rapaz, ao invés de se sentir ofendido, apenas deu um sorriso torto e disse que iria tomar uma ducha. A ruiva teve o luxo de ver a brilhante cena do corpo desnudo dele passando por ela, com o membro balançando e as nádegas tremendo. Totalmente brochante. A porta do banheiro se fecha.
Ela se aproxima de um dos espelhos do quarto e retira a toalha da cabeça, deixando os cabelos úmidos caírem nas suas costas. Pelo reflexo, observa a loira deitada, em um sono profundo. Vanessa não gostava que desconhecidos ficassem muito tempo além de um momento de prazer, por isso se aproxima da cama e se curva um pouco, dando tapinhas nas costas da moça.
–Oi… Hey, meu bem, acorda… -Vanessa cochichou, dando mais alguns tapinhas, que não deram efeito, apenas tiveram um suspiro como resposta.
Vanessa odiava ser ignorada ou não ter o que queria. E naquele momento, estava sendo ignorada e não tendo o que queria.
–Você não vai mesmo acordar…?-Vanessa perguntou, recebendo outro suspiro como resposa-Ok, tudo bem.
Dando meia volta, a ruiva alcança um copo de água na cômoda ao lado da cama, segurando-o em cima da cabeça da loira, que devia estar sonhando com um LSD cantor e capivaras dançando pole dance. Com um simples movimento, Vanessa virou o copo, derramando água na cabeça e nas costas da moça, que acordou com um susto, caindo da cama ao chão, nua e com um lençol enrolado na perna
–Êtes-vous fou?!-a loira levantou gritando, com uma mecha molhada grudada na cara.
Vanessa sabia um pouco de francês, mas não era fluente. Na dúvida da palavra terminada em “ú”, resolveu reforçar a expulsão.
–Tá, tá, querida. Pega seu “fú” e vaza daqui. Anda, anda… -Vanessa disse, dobrando um pouco os joelhos para pegar o vestido preto da moça e depois jogá-lo na cara da mesma.
Nesse momento a francesa já estava com uma cara de quem chupou limão. Não devia estar entendendo nada que Vanessa dizia. Então a ruiva resolveu apelar pra linguagem de sinais. Se aproximou da porta do quarto e abriu, apontando para a saída. A loira ficou indignada e começou a berrar várias coisas, que deveriam ser, no mínimo, xingamentos em francês.
–Querida, não grita comigo!-Vanessa gritou batendo a porta. Ela se aproxima de um talão de cheque-Já sei, já entendi… Quanto que você cobra?
A moça, que já estava fechando o zíper do seu vestido, ficou com mais cara de confusa. Vanessa então entendeu que não haveria nenhuma comunição na língua delas que não fosse no sentido sexual. Pegou uma caneta, colocou um 14 no valor e adicionou mais uns quatro zeros. Depois de rabiscar a assinatura, destacou o cheque do talão e esticou o braço, oferecendo-o para a mulher.
A francesa então pegou o cheque e observou por alguns segundos, até compreender o que aquilo significava. Seu rosto começou a ficar vermelho e ela parecia prestes a rosnar. Quando Vanessa já achou que iria ser mordida e passaria o resto da noite em um hospital francês tomando injeção contra a raiva, a loira deu um grito, provavelmente outro xingamento, amassou o cheque, jogando no chão, e saiu batendo o pé e a porta.
Vanessa dá um suspiro.
–Na última vez que vim aqui, os franceses pareciam um pouco mais elegantes. Bom, au revoir.
Matheus abre a porta do banheiro, colocando apenas a cabeça para fora. Estava todo molhado.
–Hey, Vanessa, esqueci de pegar uma toalha. –ele conta com cara de cachorro abandonado.
–Pega!-a ruiva avisa, jogando uma toalha que achou por perto.
–Valeu!-Ele agradece dando uma piscadinha-E cadê aquela francesa gostosinha?
–Ah, foi embora… disse alguma coisa sobre estar atrasada para um compromisso e saiu. Uma lástima. –Vanessa diz tirando a toalha do corpo para se vestir.
–Pena… queria que ela me ajudasse aqui no banheiro. –Matheus fala fechando a porta. A ruiva revira os olhos.
–Termina esse banho. E a tarde, a gente tem que pegar um voo de volta para o inferninho chamado Brasil. –Vanessa avisa aumentando um pouco o tom de voz para ser ouvida-E faz esse pelo de rato na tua cara que você chama de barba, porque antes de tudo você é meu motorista particular.
Matheus grita um “ok!” como resposta.
–Falando nisso, será que vou de vestido azul ou branco?-a ruiva pensa alto enquanto veste uma calcinha rosa.
***
A poltrona da primeira classe era confortável. A forma como Vanessa sentava era impecável. As pernas cruzadas, sempre mostrando um pouco das coxas. A coluna reta e as mãos, na maioria das vezes, ficavam sobre o colo ou apoiadas em algo. As sobrancelhas sempre estavam alinhadas e proporcionais ao seu rosto elegante. O cabelo ruivo quase nunca estava preso, a menos que precisasse em algumas ocasiões especiais. Os fios ruivos e ondulados caíam sobre os ombros, como cascatas de uma cachoeira, porém vermelhas.
No final de tudo, resolveu colocar um vestido verde para a viagem. Matheus cumpriu a ordem de fazer a barba e estava com o rosto lisinho. Vestia-se socialmente, o que ele odiava, mas era seu uniforme de motorista. Ele sentava-se na poltrona ao lado da janela do avião, adorava ver as nuvens e paisagens que uma viagem aérea proporcionava. Já a ruiva permanecia sempre na poltrona do corredor, o mais longe possível da janela. Tinha medo de altura e odiaria passar a vergonha de ter um ataque no meio de uma viagem na primeira classe. Jamais entraria em um helicóptero e apenas usava o avião por ser a única maneira mais rápida de viajar.
Olhou para o pequeno e simples relógio banhado a ouro e com pequenos diamantes em volta, e ficou aborrecida que o mesmo havia parado. A hora continuava marcando 7:38, que deveria ter passado faz tempo. Encostou a cabeça na poltrona e fechou os olhos para descansar, mas logo já havia caído no sono.
***
Quando Vanessa havia chamado o Brasil de inferninho, não pensou que iria se concretizar no sentido literal. Ela havia viajado do Brasil para Nova Iorque, depois para a Madri, Roma, Veneza e por fim a França. Estava acostumada com o frio ou no máximo um calorzinho com brisa refrescante. Mal tinha desembarcado e já sentiu o clima. Pensou em dar meia volta, comprar uma passagem para o Alasca e sumir. Mas só tinha voltado ao Brasil porque tinha compromissos a cumprir. Daqui dois dias começaria o final de semana e consequentemente o evento que havia patrocinado.
Ela nunca se importou muito com animais, até porque vestido ou casaco de pele de onça ou coelhos estava muito fora de moda. Mas esse era o propósito da Animal Rescue, instituição para cuidar das várias espécies de bichos. A sorte de Vanessa era que os três dias de eventos iriam ocorrer em uma ilha paradisíaca perto do Brasil. E claro, Animal Rescue abriria várias portas para negócios e lucros.
Já estava no banco de trás de um Maserati branco enquanto Matheus dirigia. O carro tinha grande potência, mas sofria em velocidades baixas perambulando pela urbanização.
–Vamos para a mansão?-o homem perguntou.
–Não… primeiro passe na floricultura, compre algumas rosas violetas e depois passe no cemitério. –Vanessa pediu delicadamente.
Matheus dirigiu um olhar para a ruiva através do retrovisor e houve uma comunicação silenciosa. Ele sabia o que significava. Vanessa queria relembrar o passado.
***
A fumaça se dissipava no ar. Dessa vez era um cigarro comum, o que já não era mais tão prazeroso para Andreia, depois que ela descobriu outros prazeres alucinógenos. Seu cabelo curto estava desarrumado. Havia fios grudados na testa e outros arrepiados. Ela estava deitada na cama, esparramada, olhando o teto sem graça.
O notebook no chão mostrava um blog que falava de psicologia, o curso da jovem. Mas nunca se interessou por psicologia. Nem por nada. E ainda não se interessa. A faculdade serve apenas para mostrar para a família que ela serve para alguma coisa, e que teve a capacidade de se formar, diferente de todos os parentes. Mas de vez em quando ela pesquisava sobre o assunto, pois nem sempre conseguia levar a vida só em truques.
A matéria que ela via era sobre como a psicologia agia sobre os impactos que a mente impõe na morte. O suicídio, aborto, eutanásia, depressão e luto são exemplos de como o psicológico é modificado em relação ao assunto fúnebre. Muitas vezes, é a própria mente que influencia a morte. Talvez algumas pessoas só morram porque são vencidas pelo próprio psicológico.
Depois de um tempo lendo sobre o assunto, Andreia resolveu largar o notebook e fumar um inocente cigarro para relaxar. Estava vestida com uma calça jeans e uma camiseta anil sem estampa. Se levantou da cama e iria pegar um cigarro com efeito mais pesado, quando ouviu seu celular tocar.
–Ah… merda. Quem será agora?
–Oi, gata. –a voz masculina e cheia de malícia respondeu do outro lado da linha logo que iniciou a chamada.Era Danilo, o príncipe não tão encantado de Andreia.
–Qual é a boa?-Andreia perguntou sentando na beirada da cama.
–Tô bolando um plano para gente ganhar a maior grana. –ele disse arfando. Parecia estar dentro de um buraco ou algo do tipo. Pelo que o conhecia, Andreia apostaria seu maço de cigarro que o cara estava debaixo de algum carro, consertando algo, pois era seu trabalho.
–Beleza, conta. –Andreia disse nada empolgada. Geralmente os planos do namorado terminaram cada vez pior.
–Vem aqui na oficina do meu pai. Te explico direitinho.
Andreia teve vontade de soltar um suspiro e protestar. Mas acabou cedendo, disse um “Ok.” e desligou, prometendo que estaria lá em uma hora, no máximo. Seu pai não estaria em casa, e mesmo se estivesse não impediria ela de sair.
Abriu o guarda roupa para escolher uma vestimenta melhor. Tirou uma ou duas camisetas para ver qual estava no melhor estado, quando ouviu o barulho de um pequeno objeto de metal caindo. Ao pegar do chão, viu que era seu pingente wicca. Nada mais era do que uma pulseira fina, feita de couro, com um pingente de metal pendurado. O pingente em questão era um círculo de metal, com desenhos e escrituras nas bordas e com um pentagrama. No centro do símbolo ficava um círculo azul. Resolveu que iria usar o acessório, mesmo tendo um pequeno arrepio enquanto o tocava.
***
Matheus havia resolvido ficar encostado no carro enquanto Vanessa adentrava no local com aura depressiva, com grandes árvores balançando com o vento. A calçada do cemitério não foi feito para os saltos da socialite, pois tinha diversos buracos.
–Se quebrar meu salto e eu cair, vou processar a prefeitura toda... –Vanessa resmungava consigo mesmo, enquanto se equilibrava segurando algumas flores roxas.
Para sua sorte, seu objetivo estava a alguns metros perto do grande portão de ferro, mas ela daria tudo para que não houvesse motivo para aquilo existir. O pequeno mausoléu era feito com granito negro e tinha forma de um retângulo de pé, com uma pequena estatueta de anjo com asas abertas em cima. A porta de vidro já não era mais tão transparente por causa de uma fina camada de poeira, mas ainda podia-se ver seu interior, com jarros decorados, flores mortas e fotografias de uma linda moça.
De sua bolsinha de madame, Vanessa tirou uma chave pedurada em uma correntinha. Não importa para que lugar do mundo fosse, sempre estaria com essa chave. Era um modo de se conectar com a pessoa que mais amou. Após abrir a porta de vidro, fazendo um rangido estridente, a ruiva entrou no cubículo, que estava abafado como uma sauna. Pegou as flores mortas e jogou do lado de fora, na calçada. Limpou o vaso branco decorado com linhas lilás, utilizando a torneira fixada na calçada.
Depois de alguns minutos, o vaso já estava com as flores roxas e novas, encostado ao lado de um quadro com a foto de uma ruiva sorridente e linda. A plaquinha de ferro na frente dizia: Elisa Magalhães. Os dedos de Vanessa passaram pelo quadro, lentamente, como se acariciasse o rosto da mãe. Fechou os olhos e suspirou. Sentia muita falta da mulher, com quem compartilhava muitos segredos, entre momentos bons e memoráveis. A socialite nem teve tempo de se despedir da mãe, apenas conseguiu dizer um “Até logo”, pensando que ela voltaria realmente logo. Mas nunca voltou.
Vanessa perdeu a mãe quando tinha oito anos, em um acidente de carro. Passou o fim da infância e o começo da adolescencia em crise, tanto com seu pai, quanto consigo mesma. Precisou de anos de terapia para conseguir superar os distúrbios alimentares e psicológicos que teve. Odiava se lembrar disso, então tratou de chacoalhar a cabeça e se livrar dessas más memórias. Podia ser inevitável, mas ela iria controlar. Passou o dedo indicador delicadamente pelo rosto, evitando que alguma lágrima caísse. Iria borrar seu rímel.
Passou mais alguns minutos dentro do mausoléu, até que resolveu finalmente ir para a mansão. Saiu do cemitério, tentando não cair e com o barulho do salto ecoando pelo lugar. Matheus já estava deitado no banco, quase cochilando. A ruiva sentou no banco de trás e deu um pequeno, porém estalado, tapa na cara do rapaz, que se levantou em um susto e bateu a cabeça no retrovisor.
–Acorda, marmota. –Vanessa gritou.
–To acordado, to acordado. –Matheus respondeu arregalando os olhos-Vamos para a mansão, certo?
–Infelizmente… muito provável que já vou enfrentar o rei, o imperador, o Dom Juanberto.
–Juanberto?
–Roberto. Meu pai. Não entendeu a piadinha?-Vanessa disse cerrando os olhos. Soltou um “idiota” como reprovação e ordenou que desse partida.
***
A mansão já podia ser avistada três quadras antes. Vanessa nunca se preocupou em saber o tamanho exato dela, só sabia que era enorme. Tinha uns dezenove ou vinte quartos e sete banheiros, sem contar as suítes. Tinha uma grande sala de jogos, um salão de festa, uma biblioteca, sala de jantar e um jardim com pequenas árvores No jardim dos fundos, encontrava-se uma piscina, quase que olímpica, com alguns trampolins brancos em voltas. O portão preto se abriu assim que o porteiro viu o carro se aproximando. O serviçal deu um sorriso e acenou para a Vanessa, que como resposta, sorriu friamente e subiu o vidro da porta.
Três empregadas e um mordomo, que a socialite nunca parou para saber o nome, já esperavam na entrada, para carregar as malas. O carro mal estacionou na frente da porta e a ruiva já estava saindo, com a bolsinha em mãos.
A sala da entrada tinha um piso xadrez, que mataria um disléxico, era amplo e sempre bem limpo, com um lustre brilhante banhado a ouro pendurado no teto. Alguns sofás e poltronas decoravam a sala, junto com uma mesinha, alguns vasos, quadros e estátuas diversas. Lá tinham três corredores. O primeiro levava para a cozinha, o segundo para a sala de jantar e o terceiro para a biblioteca e sala de jogos. Uma escada pouco curvada levava para o segundo andar, onde ficavam os quartos, banheiros e quartos para hóspedes. Adentrando mais alguns corredores, se encontrava o salão de festas, com globos, canhões de luzes e vários acessórios festivos. Vanessa tinha saudade dos bailes de máscaras, que há anos não eram promovidos.
O salto alto da ruiva estava quase encostando no primeiro degrau da escada quando ouviu a voz do seu pai, vindo pelo corredor da sala de jantar.
–Ah, que bom que chegou a tempo para o jantar. –o homem disse, ainda andando pelo corredor.
Vanessa soltou um baixo suspiro de irritação e deu meia volta, olhando para o pai.
–Imagina se eu ia perder esse momento tão lindo em família. –Vanessa disse banhada em ironia.
O grande empresário Roberto Albuquerque de Olivera, invés de se sentir ofendido, soltou um riso seco. Analisou a filha com os olhos claros. Tinha poucas rugas no rosto, não aparentando ser tão velho, apesar de já ter os cabelos grisalhos. Vestia-se quase sempre formalmente, com ternos e roupas sociais. Sapatos sempre impecavelmente engraxados e limpos.
–O clima na Europa estava bom?-ele disse, pousando a mão em uma poltrona e colocando a outra mão no bolso da calça.
–Estava ótimo. –a ruiva respondeu secamente, dando as costas para o pai e começando a subir as escadas.
–Você foi visitar sua mãe, não foi?-Roberto perguntou, fazendo a filha parar no meio da escada.
Vanessa apenas virou o rosto, analisando o pai. Tinha maldade nele? Ironia ou sarcasmo, talvez? Resolveu não continuar aquela conversa. Com toda certeza iriam começar a trocar farpas e uma discussão gigantesca. Andou pelos corredores, enfeitados com quadros e vasos de flores. Chegou em seu quarto, jogou a bolsinha na grande cama king size e tirou os saltos. Passava tanto tempo com eles que nem sentia mais alívio ao tirá-los, já estava acostumada.
Seu quarto era enorme, com paredes brancas e tapete indiano macio. Tinha várias cômodas com espelhos, maquiagem e jóias. Na cabeceira da cama, havia uma réplica de um quadro de Picasso, e atrás dele, um cofre com jóias e dinheiro reserva. Paralela a sua cama, estava a caminha de Batman Jade, o gato preto de olhos verdes, que dormia cheio de preguiça. O quarto era uma das suítes da casa, portanto ela logo se apressou em tirar a roupa para relaxar na sua banheira. A água morna relaxava seu corpo e sua mente. Uma pena que não apagava os fantasmas do passado e os medos do futuro.
***
Como esperado, Andreia achou seu namorado de baixo de um carro que ela não soube identificar qual era, dentro da grande garagem do pai dele. Vestia uma calça jeans e camiseta branca, que estava suja de graxa. A jovem chegou ao seu lado e deu um pequeno chute na sua perna, para alertá-lo que estava ali. Danilo saiu nervoso pensando ser alguma brincadeira de mal gosto de alguém, mas quando viu a namorada, seu rosto se suavizou.
–Hey, gatinha. –ele se levantou. Havia borrões de graxa eu seu rosto e no seu braço.
Danilo avançou para tentar dar um beijo em Andreia.
–Não, não, não… -ela protestou-Você está cheia de graxa.
–Desde quando você virou patricinha?-ele ironizou.
–Cala boca, babaca. –Andreia disse-Mas vai, me fala logo o que você tá bolando agora.
–Bom, um conhecido meu conseguiu uma viagem para mim, de avião, para uma ilha paradisíaca. E como minha primeira dama, eu quero te levar junto. –Danilo contou com ar de simplicidade.
–E qual a parte ruim ou perigosa, Lorde Sexto? –ela retrucou arrumando o pequeno topete loiro do rapaz.
–Vai acontecer um evento nesse final de semana lá nessa tal ilha paradísiaca. Vai estar cheia de milionários e…
–Ah não, Danilo, qual é!-Andreia interrompeu-Enganar pessoas de novo?
–Me ajuda vai. –Danilo suavizou a voz para fazer o pedido-E a gente pode aproveitar a ilha como um aniversário de namoro com… Algum tempo. Enfim, vai comigo, vai?
As mãos deles se tocaram.
–Não vai acontecer nada de ruiim com a gente, né?-Andreia perguntou com os olhos verdes brilhando.
–Não, claro que não…
–Então beleza, vamos. Mas me prometa que não vai fazer nada de mal além de roubar um pouquinho de dinheiro ali e aqui, tá?-Andreia indagou levantando o dedo indicador.
–Por isso que eu te amo!-Danilo abraçou Andreia de surpresa pela cintura, grudando o corpo dos dois e deu um beijo na namorada.
Depois do beijo, Andreia sentiu seu rosto úmido.
–Ai, seu trouxa, sujou minha cara!-Andreia reclamou dando tapinhas nele-Mas eu também te amo.
Eles se beijaram mais, e dessa ve Andreia não ligou para a graxa. Já estava suja mesmo.
***
Os últimos dias de Vanessa estavam sendo horríveis. Talvez fosse culpa do Batman Jade, já que gato preto dá azar, de acordo com as superstições. Surpreendentemente, discutiu com seu pai apenas algumas vezes, inclusive antes de embarcar para a viagem à Santa Muerte. Roberto queria que ela resolvesse alguns problemas em negócios. Antes de partir, passou mais uma vez no cemitério para ver o túmulo da mãe. Depois, quando chegou ao navio que os levaria para a tal ilha, foi obrigada a dividir quarto com uma adolescente que, de acordo com o pensamento da socialite, devia ter fugido da Febem e se infiltrado no navio de algum jeito.
Já sentada na sua cama, resolveu ligar para Matheus que havia ficado na cidade. Não que ele fosse a pessoa mais querida para Vanessa, mas era o que tinha para o momento.
–Já tá com saudades?-Matheus zombou do outro lado da linha.
–Sabe, pessoas finas e elegantes como eu primeiro dizem “Alô”, então, alô. E até uma capivara feito você faria boa companhia agora. –Vanessa confessou.
–Serio?-Matheus riu-Pensei que você estivesse na companhia de vários empresários sarados e socialites gostosas.
–Que nada! Pensei que teria uma mega suíte só pra minha linda pessoa, e no final das contas algum erro me fez dividir quarto com uma garota que pode montar um restaurante na cabeça de tanto oleosidade que tem no cabelo. –Vanessa contou irritada, andando pelo quarto em círculos.
Tropeçou numa das malas da garota, que estava perto da cama dela. Enfurecida, chutou a mesma, que rolou para o lado.
–Mas agora a Little Ruth saiu. Me convidou para ir junto mas nem olhei para cara dela. –falou como se nada tivesse acontecido.
–Little Ruth?
–É... O nome da garota é Ruth. E pensando bem, eu também vou dar uma volta por aí, porque né, mereço, sou ser humano. Beijinhos, até depois.
Matheus ainda iria falar algo, mas a ruiva já havia desligado.
***
O salto alto vermelho fazia o clássico barulho pelo convés do navio enquanto Vanessa desfilava, passeando. Escolheu usar um bonito biquini preto e branco, com a parte de cima tomara que caia. Como complemento, usava uma canga vermelha quase transparente, que estava amarrada na cintura, como a cauda de um vestido de noiva. Batom vermelho nos lábios fazia uma combinação entre cabelo, boca, saltos e canga. Em seu braço direito tinha várias pulseiras finas e douradas, complementadas com pequenos rubis cravados. Em sua orelha, brincos nada discretos balançavam. E claro, uma inseparável bolsinha estava em sua mão.
Ao chegar numa piscina, avistou alguns tobogãs, um pequeno bar, cadeiras de praia e espriguiçadeiras. Se aproximou de uma delas, desamarrou a canga e sentou. Antes de deitar, viu uma confusão na piscina. Parece que alguém tinha caído e batido a cabeça, mas uma loira, que ao ver de Vanessa parecia ser bonita, já estava salvando a Santa Desastrada que caiu. Sua atenção desviou ao sentir algo passar pelos seus pés, como um rato ou algum bichinho peludo. Deixou tudo aquilo para lá e deitou na espriguiçadeira, folheando uma revista.
Não demorou muito para um rapaz sarado chegar perto. Usava uma bermuda listrada e tinha uma camiseta pendurada no ombro. Depois de algum tempo de conversa e de dois martinis, os dois se encaminhavam para o quarto de Vanessa. Parece que o navio não seria tão tedioso assim.
***
O vestido cinza com detalhes pratas estava perfeitamente justo no corpo de Vanessa. Era tomara que caia, para que seus peitos ficassem apertados e aparentassem ser maiores do que eram, como se precisasse, e tinha comprimento até os joelhos. Pulseiras e brincos pratas acompanhavam o conjunto. O jantar com música ao vivo parecia agradável para ela.
Sentou-se em uma mesa no meio do grande salão, esperando o garçom chegar. Quando ele veio com o menu, Vanessa pediu um salmão com salada e o vinho mais caro que tivessem como acompanhamento. Ele anotou o pedido e entregou um biscoito chinês da sorte para ela. A ruiva apenas destruiu a massa, que tinha um gosto horrível e pegou a tira de papel. Desenrolou e tentou ler.
“Droga, biscoito da sorte chinês está em chinês!“ pensou irritada. “Ah, espera, está de ponta cabeça.“
Ela desvira o papel e lê a mensagem: “Controle seus pensamentos, que nos dias atuais estão engolindo tudo como a lava de uma erupção.“
Estava se perguntando que tipo de frase era aquela, quando viu uma moça loira entrar no palco. Vanessa cerrou os olhos. Quem era aquela ali? Um garçom estava passando com um pato ao molho de suco de laranja que quase foi ao chão quando a ruiva puxou o homem pelo braço.
–Escuta, queridinho, aquela ali é a Britney Spears?
–Não, é a...
–Christina Aguilera um pouco mais jovem e um pouco mais magra?
–Não, é a maravilhosa e espetacular Lis!-o garçom exclamou.
Vanessa cerrou os olhos novamente e fez um biquinho. Olhou do garçom para a Lis, e da Lis para o garçom.
–Está bem, viu meu amor. Pode ir.
O garçom se foi e alguns minutos depois outro chegou com o pedido. E até que aquela tal de Lis sei-lá-o-que não cantava tão mal.
***
Vanessa anotou que ligaria em casa e pediria para alguma empregada agendar um banho de sal grosso em algum SPA, porque não acreditava que estivesse com tanta má sorte nos últimos dias. No primeiro dia na ilha, cometeu o erro de passear um pouco, ver se o lugar era tão paradísiaco quanto falavam. Estava seguindo discretamente um grupo de pessoas que eram guiadas por um hippie, quando se perdeu no meio de ruínas e árvores.
–Por isso que odeio a natureza!-gritou com uma pedra.
Tentou voltar por um caminho aleatório quando esbarrou com uma moça loira. Ela era simples, porém era bonita. Após uma breve discussão civilizada e carinhosa, as duas caíram barranco abaixo. Depois de algum tempo, a ruiva acordou já no chão. Estava com mato no cabelo, salto quebrado e terra no vestido. Pensou em gritar de novo que odiava a natureza, mas não ia se passar por esquizofrênica na frente dos outros.
Conseguiu descobrir que o nome da loira era Nina. Ela parecia ser inteligente, pois começou a andar pela trilha, até encontrar uma cabana abandonada. Se não era inteligente, era completamente louca. Mas infelizmente era a única opção que Vanessa tinha, mesmo com medo que tivessem canibais morando naquela velha cabana. E se tivesse, ela estaria ferrada, pois de acordo com o que Nina disse, “as ruivas lindas e gostosas são as primeiras vítimas”. Ou algo do tipo.
A cabana era feita de madeira e Vanessa apostaria uma barra de ouro que estaria infestada de cupins e outros insetos. Ao entrar, uma sineta fez barulho, dando um pequeno susto na ruiva, que deu um pulinho. Nina já estava mais a frente, não percebeu o ocorrido. A cada passo o chão de madeira debaixo dos pés delas rangia. Por sorte, não tinha canibal nenhum ali dentro. Nem ninguém.
A socialite estava andando em direção à cozinha, quando Nina quebrou o silêncio.
– Você ainda não disse seu nome. –a loira comentou.
Vanessa se virou para dizer seu nome. Não lembrava que estava com um salto quebrado, então tropeçou para trás e esbarrou numa porta, que se abriu. Por livre espontânea pressão da gravidade, ela acabou entrando nesse cômodo. Parecia não ter nada de interessante, a não ser uma janela e um pequeno baú de madeira em cima de uma mesa velha. O objeto também tinha detalhes em metal e cobre. Por algum motivo, ficou muito curiosa e abriu o objeto.
A profundidade do baú era bem maior do que parecia. Ali dentro estava uma bagunça, cheio de coisas misturadas. Havia panos de diversas cores, bonecos de madeiras, um saquinho de pano com alguma coisa dentro, alguns livros de tamanho médio e várias pedras. Vanessa colocou a mão mais ao fundo para ver se achava algo e sentiu uma espetada.
–Ai!-soltou um gritinho.
Uma gota de sangue escorria do dedo de Vanessa, até se soltar e pingar no chão. A ruiva levou o dedo a boca. Havia espetado o dedo em uma agulha, que estava com dezenas iguais. Algumas tinham manchas avermelhadas. Provavelmente era ferrugem. Ou seria sangue?
Ao olhar novamente para a caixa, um brilho roxo chamou sua atenção. Sem pensar duas vezes, tomou a fonte do brilho em suas mãos. Era uma ametista, menor do que a palma de sua mão. Iria colocar a pedra de volta, quando ouviu a sineta da porta tocar. O dono da cabana havia chegado. Se apressou em fechar o pequeno baú, se esquecendo de guardar a pedra. Quanto menos esperava, já tinha Nina junto consigo e com sua mão tapando a boca.
As duas tremiam e estavam nervosas. A dona da cabana, que pela voz deveria ser uma senhora, já sabia que estavam ali. Nina ainda sugeriu fazer a bondade de sair pela porta como se nada tivesse acontecido, mas seria suícidio. Então tentaram fugir pela janela. Vanessa, como sempre generosa, foi a primeira a tentar passar, até que a porta se abriu, com uma velha do lado de fora.
– Aonde pensam que vão, senhoritas?
***
Andreia não sabia que tipo de droga havia consumido para ter o pensamento que a viagem com Danilo seria uma boa coisa para o relacionamento. Para começo de conversa, eles haviam combinado de embarcar na tarde de quarta feira, mas só conseguiram as passagens na noite do dia seguinte. Ela também não esperava uma primeira classe com hidromassagem, chapanhe e um globo de festa. Mas não achava que merecesse a última fileira do avião, com a poltrona quebrada, perto do banheiro que fedia a gambá e com um gordo na frente que resolveu deitar o seu assento, em cima de Andreia, e tinha a mania de soltar gases.
Danilo dormia feito um anjinho do seu lado, com fones no ouvido escutando seu MP3. O volume estava tão alto que Andreia escutava Thrift Shop de longe. Resolveu ir ao banheiro, tentar fumar um cigarro. Após fazer alguns movimentos tipo de Matrix para impedir que fosse esmagada pelo cara na sua frente, a estudante de psicologia chegou ao banheiro.
Alguém não havia assinado o contrato de bons modos, pois havia esquecido de puxar a descarga.
–Ah não, puta merda!-Andreia disse, não sabendo que era literalmente uma merda.
Abaixou a tampa do vaso sanitário, puxando a descarga e acendendo um cigarro. Estava batendo um arrependimento de embarcar nessa loucura com Danilo. Eles conseguiriam mesmo dar o golpe em alguém? Mas o namorado devia ter um bom plano. E era bom que tivesse um bom plano.
Mais algumas horas depois, chegaram no vilarejo de Santa Muerte. Realmente era uma ilha linda e merecia ser chamada de paradisíaca. A água do mar era de um azul hipnotizante. A areia era aconchegante. O Sol parecia esquentar na medida certa.
–Danilo, vamos aproveitar um dia de praia?-Ela pediu se virando para o namorado, enquanto soltava um sorriso sonso.
O jovem loiro olhou para ela e soltou uma risada.
–Por que não?
Andreia sempre quis aproveitar um dia de praia com ele, mas o casal nunca tinha tempo para isso. A jovem abraçou o namorado e lhe deu um beijo na bochecha. Jurava ter sentido um leve tremor, mas devia ser coisa da sua imaginação.
***
Vanessa se sentia encurralada naquela situação. Uma velha com roupas velhas e simples estava olhando para ela e pra Nina, com os braços na frente do corpo e uma cara nada simpática. Em vista desse momento, a ruiva resolveu apelar.
–Nossa, a senhora tem uma cabana maravilhosa, né?-Vanessa disse com um tom falso de simpatia, enquanto saía do cômodo, desviando a velha-Eu sinto um certo glamour, aposto que é vintage!
Nina ainda estava parada no cômodo, vendo a atuação de Vanessa, mas logo se apressou de ficar do lado da nova conhecida.
–Quem são vocês?-a velha perguntou virando-se para as duas, com os olhos cor de leite.
–Ah, essa é a Nina e eu sou a Vanessa. –a socialite apresentou apontando para a loira e depois esticando a mão, esperando um aperto.
Nina deu uma leve cotovelada nas costelas da ruiva.
–Ela é cega!-cochichou no seu ouvido.
–Oh, jura?-Vanessa perguntou indignada.
–Sim, eu sou cega. –a velha disse, encarando Vanessa estaticamente-O que vocês vieram fazer aqui? São compradoras de ervas? Ou procuram uma curandeira?
Vanessa e Nina se entreolharam.
–Ah, claro!-Vanessa disse-Por um acaso você tem aquela… Ahn… erva verde com…
–Olha, para falar a verdade, a gente se perdeu. –Nina confessou, tendo uma breve discussão silenciosa olhando para a ruiva-E viémos aqui procurando ajuda.
–Ah, são turistas?
–É, mais ou menos. –Nina disse-Eu estou aqui para um projeto sócio-ambiental.
Vendo que Nina conseguiu o controle da situação, Vanessa retocava seu batom em um espelho sujo na parede. Por que uma velha cega teria um espelho?
–Não manche meu espelho com esse batom barato. –a senhora disse, sem ao menos olhar para Vanessa, que abriu a boca indignada. Iria começar a discutir com a velha, mas queria sair o mais rápido possível dali.
–Então. A senhora poderia nos levar de volta à trilha?-Nina perguntou.
–Oh, não me chame de senhora. Meu nome é Abigail. –ela se apresentou, dando um sorriso sem mostrar os dentes. Não que ela tivesse muitos-E me sigam, vou levá-las de volta.
Vanessa comemorou, mandando um beijinho para Nina, que respondeu com um pequeno sorriso. Abigail foi a primeira a sair da cabana. Mesmo cega, sabia exatamente o que estava a frente.
***
Passado o susto do primeiro dia, Vanessa se sentiu relaxada. A velha Abigail havia levado Nina e ela para o caminho certo. Antes de voltar para sua cabana, cochichou alguma coisa do tipo: “Santa Muerte está acordando…”. A ruiva achou aquilo super estranho, mas devia ser delírios da velhice.
No segundo dia, haveria uma competição de surf. Esse era o motivo da briga entre Vanessa e seu pai, antes da partida dela. Roberto queria expandir seus negócios até a área dos esportes. A socialite havia dito que iria apenas para descansar e verificar o progresso da Animal Rescue, mas não tinha outro jeito.
A sorte é que a competição era na praia, então Vanessa se prestou de colocar uma bíquini branco e ir até lá. Quando chegou, o evento já havia começado. Um surfista parecia estar mandando bem nas ondas, enquanto outros estavam se preparando. Andando pela calçada, a ruiva avistou um velho conhecido. Andou até ele, com seu rebolado.
–Ora, ora, se não é o velho Miguel Del Vale. –Vanessa disse ficando de frente para o homem.
Miguel Del Vale era filho de um grande empresário espanhol, mas que havia desistido de todos os negócios para se dedicar à sua paixão: o surf. Como resultado, deserdou tudo da família e agora mora em praias, como um andarilho. Mas um andarilho com caixa dois.
Isso tudo não afetaria nada na vida de Vanessa, se esse abalo na família Del Vale não prejudicasse os lucros nos negócios de seu pai. O pai de Miguel era sócio de Roberto, e pretendia dar um grande negócio para o filho, mas com a desistência dele, o senhor Del Vale ocorreu a desistir dos acordos com Roberto para poder se reconstruir financeiramente, pois havia gasto fortunas com o projeto para Miguel. No fim, Roberto perdeu milhões em ações com Del Vale. Um dinheiro que nunca voltou.
–Vanessa. Há quanto tempo! Como vai a vida?-Miguel respondeu com um sotaque espanhol no meio da fala.
–Ah, um pouco sofrida né, meu bem. Depois do choque que você deu nos negócios financeiros, meu pai anda tão nervoso e descontando em mim toda a raiva. –Vanessa ironizou. Não era totalmente verdade o que disse. Nem totalmente mentira.
–De novo está história? Já deixei tudo isso para trás há muito tempo!-Miguel respondeu se distraindo com sua prancha. Ainda não havia vestido o macacão de surfista, então usava apenas uma sunga. Seu corpo estava molhado da água do mar, sinal que estava treinando para a competição há alguns minutos.
–Mas ninguém mais deixou isso para trás. Você sabe que meu pai vai acabar com sua família, não sabe?-Vanessa ameaçou.
Não obteve resposta de Miguel, então se virou para ir embora.
–É bem mais fácil ser pedra do que vidraça, não é?-Miguel gritou, ainda sem olhar para ela.
–Tem razão, queridinho. Mas eu sou uma pedra preciosa e se você for vidraça, é tipo aqueles cacos que pobres adoram colocar em cima do muro.
Vanessa se virou furiosa para ir embora, quando bateu em um homem sorridente. Ele era alto, devia ter um metro e oitenta de altura mais ou menos. Era surfista, estava sem a parte de cima do macacão, com o peitoral desnudo e molhado. O cabelo negro, também molhado, estava grudado no rosto.
–Oh, me desculpe… -ele disse sorrindo.
–Você está maluco?! Quem você pensa que é?! Você sabe quem eu sou?!-Vanessa gritou.
–Calma, foi sem querer… Eu…
–Tá, tá, tá. Cala a boca e sai daqui. –Vanessa ordenou irritada.
O surfista franziu a testa em desaprovação e estava indo embora, quando a socialite gritou.
–Hey, espera, volta aqui. Desculpa pelo ataque.
–Tudo bem, esquece isso. –ele respondeu seriamente, dando meia volta.
–Espera, quero conversar com você. –Vanessa pediu-Você que estava lá agora, não era? Parece ter ido bem, fofinho.
–Ah, obrigado. Meu nome é Eduardo. –o surfista se apresentou, simpaticamente.
–Meu nome é Vanessa. –ela sorriu-Acho que você tem grandes chances de ganhar, sabia?
–Você acha? Eu quero muito ganhar essa competição! É o meu sonho! –Eduardo estava entusiasmado com a ideia.
–E sabe… ahn, Eduardo né? Meu pai é dono de enormes empresas e negócios. Ele está em busca de um grande atleta para patrocinar. Se você ganhar a competição, te garanto que não vai se arrepender de fazer bons negócios.
Vanessa lhe entregou um pequeno cartão com seu telefone para contato. Eduardo agradeceu e saiu, indo em direção à uma garota de cabelos escuros e olhos claros, gritando que ele se saiu maravilhoso.
***
No terceiro dia, Vanessa já estava entediada e não sabia mais o que fazer. Sem opção, resolveu aceitar o convite que recebeu de Nina para uma festa no bosque. A bióloga parecia ser uma mulher muito interessante. Colocou uma camiseta de seda verde e uma calça jeans (sim, ela tem calça!). Salto alto não poderia faltar, mesmo sendo no meio do mato.
Apesar de ser enjoada e achar estranho um cara barbudo e uma garota de cabelo azul, Vanessa estava se divertindo. Nina sabia mesmo como fazer uma festa. As horas estavam passando rapidamente na cabeça da ruiva.
Uma fogueira deixava o ar abafado, mas mantinha animais e insetos afastados deles. Iam começar a fazer brincadeiras de acampamento como por exemplo, passar por baixo de uma vareta. Vanessa já ia reclamar que não participa dessas bobeiras quando tudo começou a tremer. A música parou e todos permaneceram em silêncio, até o cara barbudo, que deveria se chamar Greg, gritou:
–Todos para o jipe!
Vanessa não pensou duas vezes antes de entrar no veículo, que tremia poucos segundos depois na estrada.
–Espera! A gente tem que pegar a Abigail! –Nina gritou.
–Quem seria Abigail?-a garota de cabelo azul, a tal da Lana, perguntou.
–É a moradora da cabana no pé da montanha. Ela pode se ferir caso fique lá.-a bióloga explicou.
O jipe então fez uma curva perigosa e se encaminhou para a cabana. Ao chegar lá, Abigail estava do lado de fora, olhando o céu, como se pudesse enxergar.
–Abigail, você precisa vir com a gente. -Nina pediu saindo para fora do veículo.
–Ah, não. Está meio tarde para passeio. Aqui é o meu lugar. Quero ouvir o som da Santa Muerte acordando. -a velha responde simpaticamente.
–Você não está me entendendo. O vulcão está entrando em erupção. -Nina tentou puxá-la pelo braço, mas a senhora ficava parada.
–Vocês não vão me sequestrar! Eu vou ficar aqui!-a velha começou a gritar.
Vanessa já estava sem paciência. Saiu para fora do carro e apelou para ignorância.
–Vamos logo sua velha maldita! Ou vai, ou morre!-a ruiva gritou dando um empurrão mais forte do que queria.
Abigail acabou tropeçando e caindo de cabeça no chão, desmaiando.
–Ai, não! Eu matei a velha?-Vanessa perguntou tapando a sua boca com a mão, preocupada.
Nina se aproximou, checando a respiração e pulsação da velha.
–Não, ela está viva.
–Ótimo! Todo mundo entra. Ratinho barbudo, coloca a velha dentro do carro. -Vanessa ordenou para Greg enquanto entrava no jipe.
Alguns minutos depois, o veículo acelerava pela estrada, tentando fugir da lava, que agora escorria pela ilha. Abigail, fedendo a mato e coisa velha, estava desmaida no colo de Nina.
–Maldito biscoito chinês... -Vanessa resmungou.
Fale com o autor