Notas iniciais
Novo capítulo, gente! :D Esse capítulo está um pouquinho mais lento do que os anteriores, porque tentei desenvolver algumas tramas paralelas, mas tem ação sim! :B Espero que gostem :D E AH! Se notarem algum errinho, podem me avisar! Eu revisei o cap. 2x, mas né? Nunca se sabe...

Laura estava sentada nas últimas cadeiras do enorme auditório em que o professor George Connolly palestrava a respeito dos filmes trash relacionados a criaturas mitológicas. A garota conhecia Connolly há alguns anos, já que ele escrevera sua tese de mestrado com base em um filme que ela protagonizara quando tinha apenas dezessete anos. O maldito filme. O professor era um homem grisalho, já chegando aos cinquenta anos, porém com um corpo em forma que ficava bastante visível através de seu terno justo.

A garota estava com os cabelos amarrados em dois rabos de cavalo e usava um par de óculos de grau de armações cor de rosa. Usava uma camisa branca com uma blusa de lã rosa amarrada em seu pescoço e uma saia de pregas vermelha. Por algum motivo, aquele visual de sorority girl fora suficiente para que os outros alunos não reconhecessem a maior estrela da atualidade dos filmes que eles estavam estudando.

Várias cadeiras à frente, Phillip assistia a palestra com atenção, anotando todas as informações em seu notebook. Daniel estava de seu lado esquerdo e Big J estava de seu lado direito, ambos parecendo entediados com o que estava sendo dito. Courtney estava relativamente perto, sentada ao lado de duas amigas e anotando alguma coisa em um caderno. Só faltam o Ben e a Michelle, Laura pensou, mas ela já sabia o motivo da ausência de ambos.

Apesar de não ter chegado a conhecê-los a fundo, Laura sentia muito pela morte da roteirista e de Trevor. Eles eram jovens e tinham toda a vida pela frente. Para a atriz doía perceber que os outros teriam de continuar sem eles. Eles se formariam, teriam uma carreira, se casariam, envelheceriam e só então morreriam, quando Trevor e Michelle já teriam se tornado apenas um amontoado de ossos cobertos de verme debaixo da terra.

O professor continuava a falar, mas Laura parecia ter se desligado mentalmente da palestra. Mas então uma palavra, uma simples palavra, a trouxe de volta:

— Djinn. O gênio.

A loira ficou imediatamente incomodada com aquilo. Era a segunda vez que ela ouvia sobre o demônio em poucos dias, antes e depois da maior tragédia que presenciara em sua vida. Será que existe alguma relação entre tudo isso e... Ele? Mas foi há tanto tempo...

Quando George Connelly colocou o vídeo no telão, Laura sentiu seu coração ir para a boca.

Era o trailer de Wishmaster 5: The Devil’s Daughter. A loira não precisou de mais do que cinco segundos de vídeo para se reconhecer na tela, seis anos mais jovem. Na época ainda usava os cabelos castanhos com os quais nascera, mas todo o resto continuava igual. Na película, Laura King interpretava Lilith Alighieri, filha de um Djinn e uma humana. Fora naquela ocasião que ela tivera o seu primeiro contato com o demônio que dominaria seus pesadelos pelos seis anos seguintes.

Quando o vídeo acabou e as luzes do auditório voltaram a se acender, Connelly surpreendentemente disse:

— Talvez a senhorita King queira nos falar um pouco a respeito de sua participação nesse filme. Aliás, é um prazer revê-la Laura!

Laura arregalou os olhos. Todos os alunos do auditório lotado imediatamente viraram seus olhos para ela.

— É a Laura King! — Alguém exclamou.

Daniel olhou para Big J e os dois caíram na gargalhada. O rapaz falou:

— E ela está aqui gravando o nosso projeto final. Engulam essa, amadores!

Ao que alguém replicou:

— Cala a boca, Clark!

George Connelly revirou os olhos diante daquela cena e pediu silêncio.

— Estamos todos ansiosos por ouvir o que tem a dizer, senhorita King.

É só a porcaria de um filme, Laura pensou. O Djinn de verdade não é nem de longe tão condescendente quanto o do filme.

E então falou, sentindo o nervosismo desaparecer. Laura gostava de estar em destaque, gostava de ser vista. Não estava tímida por estar cercada de frat boys e sorority girls. Era o assunto que a incomodava. O Djinn. O que ele representava.

Quando terminou de falar e todos a aplaudiram, Laura não conseguiu deixar de pensar que talvez (e só talvez) tudo o que tinha feito para conseguir aquilo, tivesse valido a pena.

x-x-x-x-x

Anna dirigia o Impala ’74 que pegara emprestado de seu pai a uma velocidade de 83 km/h. O pai comprara aquele veículo de um colecionador, Michael Davies, que vendera o carro logo após a morte de seu filho mais velho, Bobby, alegando que o Impala possuía “memórias demais”. Já fazia quase cinco anos desde aquele fato, mas Anna não se esquecera.

Ao seu lado, Courtney mexia em seu celular, enquanto ao fundo, Phillip dormia sentado com o cinto de seguranças em seu peito. Anna suspirou diante daquela cena. Doía-lhe ver como aquele carro estava vazio.

Em outro veículo, poucos metros à frente deles, Daniel dirigia com Big J ao seu lado e Laura e Simon nos bancos de trás. Anna não fazia ideia de onde estava Ben, o que reduzia o seu grupo por três. Ele voltaria, porém. Já a Michelle e o Trevor... Pensar naquilo fez a garota sentir um nó na garganta e uma vontade incontrolável de chorar.

As tragédias eram muitas e seguidas. Aquela era a terceira vez, em menos de duas semanas, que o grupo de amigos fazia o mesmo trajeto em direção à mesma capela. A primeira vez fora na ocasião da morte do pai de Phillip, quando eles ainda estavam em nove. Então houve o velório e o enterro de Trevor, ocasião em que o grupo já estava reduzido a oito. E agora eles seguiam para se despedir de Michelle, com um saldo de sete pessoas. Anna temia que em breve ela estivesse dirigindo por aquela autoestrada com um amigo a menos. Ou, pior: que seis deles estivessem seguindo para o velório dela.

Courtney e Phillip estavam na biblioteca quando houve o acidente com Michelle no elevador. A universidade estava um caos diante do ocorrido, e todo o prédio da biblioteca e das salas de cinema fora interditado por precaução. Além dos problemas acadêmicos decorrentes disso (já que os alunos necessitavam dos materiais presentes ali), ainda existiam os problemas administrativos. Pais ameaçavam processar o campus pela insegurança e má manutenção das instalações, ao mesmo tempo em que a mídia mostrara, em horário nobre, cenas da câmera de segurança no momento em que o elevador em que Michelle estava caiu. A exploração era total e absurda.

A comoção do grupo diante de tudo era real. Eles sofriam, sobretudo por Ben. Trevor era o seu irmão, e todos sabiam que ele tinha uma queda por Michelle desde o início do curso. O inverso também era verdade, a roteirista também se interessava pelo ruivo. Anna rezava para Deus que eles tivessem ficado juntos pelo menos uma vez na vida. Não imaginava nada mais triste do que perder alguém sem saber o que poderia ter acontecido caso tivesse guardado seus sentimentos para si de maneira egoísta e covarde.

Anna não tinha ideia se a gravação do média-metragem continuaria ou não. Parecia errado e insensível insistir naquilo depois de todas as tragédias, mas, ao mesmo tempo, aquele filme significava parte de sua vida acadêmica. Uma parte grande inclusive. Era provável que o professor responsável por aquele projeto estendesse o prazo do grupo, mas no fim de tudo valia a máxima que a garota estava cansada de ouvir: “a vida continua”. Apesar de triste, aquela era a realidade.

— Anna? — Courtney disse de maneira tímida, interrompendo os pensamentos da amiga.

— Sim? — A outra respondeu sem tirar os olhos da estrada.

— Eu não sei se esse é o momento certo, mas eu preciso te contar uma coisa.

Anna estranhou aquela fala. Ficou imediatamente preocupada, erguendo o cenho, mas ainda sem tirar os olhos da estrada. Eles seguiam atrás de um enorme caminhão.

— Fala amiga.

— Você se lembra de umas duas semanas atrás, quando eu te chamei pra ir na Scandals e você disse que não podia porque tinha uma prova marcada pro dia seguinte, de manhãzinha?

Anna meneou a cabeça positivamente. Scandals era uma boate que ficava relativamente perto do campus, e era o principal local de entretenimento dos alunos da universidade nos finais de semana.

— Então... Nesse dia eu reencontrei o Pierre.

— O infeliz do seu ex?

Courtney meneou a cabeça positivamente, um pouco envergonhada. Anna então disse num tom de voz mais doce:

— E o que aconteceu?

A loira suspirou e então falou num rompante:

— A gente ficou. Não, mais. A gente transou.

Anna não se surpreendeu tanto com aquela fala. Conhecia Courtney e sabia como ela era emocionalmente dependente. Pierre fora o seu último namorado, e eles haviam terminado há pouco mais de um ano. O contato entre os dois, porém, continuara. A estudante de Psicologia sabia que aquilo não era saudável, mas seus conselhos para Courtney entravam por um ouvido e saiam pelo outro. Não lhe espantava que ela tivesse cedido às investidas dele.

— Estou estranhando você não ter me contado isso antes, mas... Nada de grave até aí, amiga. Você sabe o que eu acho desse traste, mas se foi bom pra você, é o que importa.

O caminhão então virou à direita, enquanto o Impala continuou seguindo reto. Anna ficou feliz por ver o enorme veículo sumindo ao seu lado.

— O problema é que... Bom... — E Courtney engoliu em seco. — Você precisa prometer que não vai me julgar e nem me dar um sermão.

— É claro. Eu sou sua amiga. Fala.

— A gente não usou camisinha. — A loira disse de imediato. Anna imediatamente fez uma expressão de aborrecimento, e logo voltou a olhar a estrada. — Eu sei, eu sei, foi estúpido e imprudente.

— Sim, foi! — Anna exclamou. — Eu não estou te julgando, você sabe, mas... Porra, amiga! Eu me preocupo com você. — E Courtney então abaixou a cabeça. A outra continuou: — Você já fez um teste de gravidez?

Courtney meneou a cabeça positivamente, virando-se e olhando Phillip no banco de trás. Ele ainda dormia tranquilamente.

— Fiz sim, ontem. O resultado foi negativo.

Anna suspirou aliviada com aquela fala.

— Que isso sirva de lição.

— Serviu amiga. Serviu. — E então continuou: — A doutora Wolper pediu que eu fizesse um exame de sangue pra garantir, porque às vezes esses exames de farmácia falham e tudo mais, mas é só por precaução. — E diante da expressão de compreensão de Anna, falou: — Obrigada, amiga. Eu precisava desabafar sobre isso contigo.

— Da próxima vez faça isso logo depois do fato, por favor. Eu sou sua amiga, estou aqui pra isso. Eu podia estar do seu lado durante todo esse processo e essa angústia. — E Anna estendeu o braço, tocando a mão da amiga.

Courtney sorriu e meneou a cabeça. Virou-se mais uma vez e percebeu que Phillip abria lentamente os olhos, esfregando-os. A loira surpreendeu-se com o timming quase perfeito dele, já que eles estavam chegando à catedral. Anna viu a mesma cena, pelo espelho do carro. O rapaz se espreguiçava, e a garota conseguiu apenas abrir um largo sorriso. Timming? Não. É mais do que isso. São as vantagens de ser um aspie.

Desde que conhecera Phillip, Anna tinha lido extensivamente a respeito da Síndrome de Asperger. Ela percebia, pela maneira como ele se relacionava com os outros e com o mundo, que o rapaz tinha feito evoluções gigantescas se comparado com outros aspies com a mesma idade dele. Phillip não era completamente inepto socialmente, e não tão frio ou rude como era de se esperar. Além disso, entendia a linguagem conotativa, conseguia identificar ironias, gírias e metáforas. Era, em suma, bastante normal. Mas as habilidades...

Era claro que o QI lógico e racional de Phillip era bastante elevado, maior que o de todos eles. Anna presenciara, em mais de uma ocasião, a facilidade com a qual o amigo decorava coisas. Sequências de números, nomes, textos inteiros. E, naquele momento dentro do carro, tempo. Phillip decorara o caminho que eles fizeram até a catedral, e decorara o tempo exato que o trajeto levava. Na terceira vez andando por aquelas ruas, o rapaz sabia exatamente o quanto demorava para eles chegarem ao seu destino final. É fascinante.

Anna estacionou o carro ao lado do veículo do primo e abriu a porta, descendo. Courtney e Phillip vieram atrás, e então a garota trancou as portas. Daniel, Simon, Big J e Laura os esperavam, todos vestidos de maneira formal e sóbria. A atriz, em especial, usava um terno feminino preto bastante elegante, e uma tiara roxa em sua cabeça. Ela segurava uma rosa vermelha em mãos, tornando-a uma visão quase poética.

— Eu não conheço os pais da Michelle... — Big J comentou, de repente. — Vocês sabem quem são eles? Eu não quero entrar e cometer alguma gafe.

Daniel entendeu a preocupação do amigo. Respondeu:

— Na verdade a Mi foi criada pelos tios. Os nomes deles são Yvonne e Samuel. Os dois são um pouco velhos, acho que vai ser fácil de você reconhecê-los.

Anna não soube dizer o porquê, mas ouvir aquela fala do primo a fez sentir o coração um pouco mais quente. Era bonito que Daniel soubesse o nome dos tios de Michelle, coisa que ela própria, que era bastante amiga da roteirista, não sabia. O Daniel é sensível. Sensível demais para o bem dele. E suspirou.

Os sete entraram na igreja lado a lado, sentindo o peso do mundo em seus ombros.

Laura seguiu na frente deles, todos em fila indiana, na direção dos tios de Michelle. A atriz cumprimentou-os de maneira gentil, dizendo o quanto sentia pela perda da sobrinha deles. O mesmo foi feito por todos os outros. Anna, Courtney e Daniel não conseguiram conter as lágrimas.

Phillip afastou-se o mais rapidamente possível. Não gostava de ter de lidar com as emoções dos outros. O rapaz sentou-se na última fileira da catedral, ao lado de um garotinho loiro de uns quatro anos que usava um terninho minúsculo. O menino parecia entediado com tudo aquilo, e Phillip o entendia. Às vezes também se sentia assim. Entediado e forçado a demonstrar sentimentos e a realizar ações que não sentia de maneira genuína, apenas para que os outros se sentissem melhores. Não no sentido de agradá-los de maneira explícita, mas com o objetivo de não parecer rude ou insensível. Ele sabia que aquela sensação de inadequação de sentimentos fazia parte dele, do que ele era, mas tentava ao máximo se adaptar ao mundo ao seu redor. Era preciso.

Virou-se, olhando para a porta. E então viu Ben.

O ruivo usava um terno preto, mas segurava o paletó em mãos. Por cima da camisa branca havia um colete cinza, e ele usava uma gravata laranja em seu pescoço. O destaque, apesar disso, eram seus olhos.

Os olhos de Ben estavam completamente vermelhos. Ele não estava aos prantos e nem havia sinal de lágrimas ali, mas havia a vermelhidão, como se o ruivo tivesse chorado por horas. Phillip compreendeu-o de uma maneira que jamais conseguiria expressar com palavras.

Simon percebeu o amigo parado na entrada da catedral e seguiu em sua direção. Não disse nada, apenas o abraçou. O ruivo retribuiu o gesto com carinho, apertando forte o outro rapaz.

Ben chorou.

x-x-x-x-x

O silêncio no carro era quebrado apenas pela música que tocava no rádio.

Well, let me tell you 'bout the way she looked

The way she acts and the color of her hair

Her voice was soft and cool, her eyes were clear and bright

But she's not there

Anna e Big J estavam sozinhos ali. A garota dirigia com atenção, percebendo vagamente o mar do seu lado direito. O cheiro da água salgada invadia suas narinas através da janela aberta e lhe trazia alguma paz. Para Anna, o mar representava conforto e compreensão.

O restante do grupo fora todo com Daniel. A garota decidira fazer um pequeno desvio para visitar os pais, e o gigante loiro se oferecera para ir com ela. Ele conhecia os pais de Anna, então supôs que seria bacana revê-los. Além disso, não perderia a oportunidade de ficar a sós com ela.

O Impala foi estacionado no acostamento, perto das areias da praia. Anna desligou o rádio e suspirou.

— Pronto, paramos. Você quer conversar? — Ela perguntou.

Big J meneou a cabeça positivamente. Sem dizer nada, saiu do carro e dirigiu-se na até as areias da praia. Anna não pode fazer nada a não ser segui-lo. Do lado de fora fazia calor, e a garota retirou seu cardigan preto e deixou-o em cima do banco do carro. Usava apenas um vestido cor de caramelo com alças finas e que ia até o seu joelho. Nos pés, o salto preto a incomodava um pouco.

O gigante loiro já não estava elegante há várias horas. Assim que saíra da catedral, ele retirara a gravata e a jogara no chão do carro. O paletó havia ficado também, e a camisa azul já estava para fora da calça. Apesar de achar que ele ficava lindo vestido de maneira formal, Anna gostava do lado “desleixado” e confortável de Big J. Era uma característica que o tornava acessível, confiável.

— O mar está agitado hoje. — Ele comentou, olhando para as águas que terminavam no horizonte. O sol estava se pondo.

— Está mesmo. — Anna concordou. — Combina com o meu humor.

Big J não estranhou aquela fala. Virou-se na direção da garota e segurou em suas mãos. Perguntou:

— Você fala isso por quê? É pelo Trevor, pela Michelle, ou... Por outra coisa?

— Por tudo. — Anna falou. — Pelo Trevor, pela Michelle, pela minha visão no dia do acidente com o ônibus...

O único som audível foi o das ondas se quebrando ao fundo.

— Eu acredito em você, Anna. — O loiro disse, num rompante. — De verdade. Eu não te disse naquele dia porque não achei adequado prolongar o assunto. E nem depois, porque eu achei que você queria esquecer tudo aquilo. Mas eu acredito em você. De verdade.

Aquela fala fez o coração de Anna aquecer-se tal qual acontecera ao ver Daniel na igreja. Big J representava, de muitas formas, um conforto emocional para Anna. Vê-lo ao seu lado significava que as coisas ficariam bem.

Big J e Anna se conheciam havia quase seis anos. Os dois sempre foram próximos, e quando mais novos era comum que os amigos falassem que eles eram “namoradinhos”. Haviam ficado juntos por diversas versas durante aquela metade de década, mas nunca de maneira séria. Ela gostava dele e ele gostava dela, mas nunca deram um passo além. Os pais de Anna, em especial, sempre assumiriam que os dois ficariam juntos pra valer no futuro, mas esse dia ainda não havia chego. Apesar disso, no coração da garota havia um lugar especial guardado apenas para o gigante loiro.

— Obrigada. — Foi tudo o que ela conseguiu dizer.

De súbito a garota decidiu que deveria contar sobre Ethan.

Big J sentou-se na areia e Anna fez o mesmo, aproveitando para retirar seus saltos e colocá-los ao seu lado. Antes que o rapaz pudesse falar algo, a garota despejou tudo o que ela havia visto no dia em que eles visitaram a base de Pearl Harbor. O gigante loiro ouvia tudo de maneira atenta, sem interrompê-la.

Quando ela terminou, Big J exclamou:

— Caramba! Eu nem sei direito o que dizer de tudo isso.

— Pois é... Eu achei que tava ficando maluca, sabe? Mas esse Ethan existe!

Big J meneou a cabeça positivamente.

— Você sabe se ele está vivo ou algo assim?

Anna negou com a cabeça.

— Eu não busquei essa informação, mas acredito que não. Ele deve ser bem velho se ainda estiver vivo.

Foi então que a cabeça do loiro foi tomada por uma ideia absurda, mas que sentiu o ímpeto de falar.

— A gente podia pesquisar isso. Quem sabe, se ele estiver vivo, nós não conseguimos algum contato? Pra, sei lá, tirar isso da sua cabeça. Deve ser meio agonizante ficar pensando nos motivos de tudo isso.

A garota surpreendeu-se de maneira positiva com aquela fala. Esperava uma reação na melhor das hipóteses apática, mas, como sempre, Big J estava apoiando-a. Era definitivamente bom tê-lo por perto.

— Essa ideia é fantástica. De verdade. Eu vou pesquisar isso assim que chegar em casa. — E diante do sorriso que o rapaz abriu, terminou: — Obrigada.

Big J não disse nada, apenas virou-se e continuou olhando o por do sol. Anna então tocou seu ombro, e quando ele se virou, ela o beijou. Primeiro um delicado e demorado selinho, e então um beijo completo. Sentia o rosto liso do loiro entre suas mãos, e sentia o calor dele de encontro ao seu corpo. Os braços enormes de Big J estavam ao seu redor, e Anna sentia que ali, naquele lugar, nada poderia machucá-la.

Apesar disso, quando os dois se separaram do beijo, uma estranha sensação de alerta a invadiu, como se algo extremamente perigoso estivesse à espreita. Por algum motivo pensou em Trevor explodindo com o ônibus, e então Michelle dentro do elevador que caiu. Ainda não acabou, algo dentro dela dizia.

Nós ainda não estamos em paz. Eu ainda não estou em paz...

x-x-x-x-x

A música dentro do apartamento invadia os pensamentos de Kia.

Ela estava caída no sofá rasgado, com um cigarro apagado entre os lábios e diversas latas e garrafas de cerveja ao seu lado. Por todo o lugar havia pessoas andando de um lado para o outro ou encostadas e caídas nos cantos.

A tatuada virou-se para trás e percebeu duas garotas dançando de maneira sensual ao lado da caixa de som, insinuando um beijo. Uma delas usava uma regata com a bandeira dos Estados Unidos desenhada, enquanto a outra tinha escrito em sua camiseta a seguinte frase: “A soberba precede a ruína, e a altivez do espírito precede a queda (Provérbios 16:18)”.

But it's too late to say you're sorry

How would I know, why should I care?

Please don't bother trying to find her

She's not there

Kia sentiu sua cabeça explodindo com a música, e então se levantou. Cambaleou até a porta do apartamento e a abriu, sentindo uma corrente de ar fresco presente no corredor lhe dar nova vida. A garota viu um casal encostado na parede, e um rapaz bebendo há alguns metros, mas os ignorou. Olhou para os dois lados e decidiu subir até o terraço.

O prédio estava dominado pelos amigos de Skeelz, primo de Kia. A garota não tinha ideia dos motivos pelos quais os vizinhos ainda não tinham chamado a polícia ou algo do tipo, por já ser tarde da noite, mas preferia não saber. Se Skeelz sabia como lidar com o resto do prédio ou não, não era problema de Kia.

Nas estreitas escadas que davam até o andar superior, havia diversas latas e garrafas de cerveja espalhadas. Kia desviou de todas elas, tomando cuidado para não cair. Estava bêbada e um pouco zonza, mas tinha noção de que poderia se machucar. Encostou-se na parede do último andar e tirou seus saltos pretos. Colocou-os lado a lado em um canto meio escondido e abriu a porta.

No céu, a lua brilhava.

Kia Anderson sempre preferira a noite. Desde quando era pequena, só uma menininha negra e de cabelo volumoso correndo pelas praias de Oahu, ela gostara mais da escuridão do que da claridade. Naquela época não tinha pretensão nenhuma de conseguir as coisas que conseguiu ou de tomar as decisões que tomou.

Sentou-se no chão, abraçando as pernas, e decidiu que gostaria de voltar a ser aquela garotinha. Gostaria de ser Kia Kahananui, como nascera, e não Kia Anderson. Anderson. A porra de um nome artístico, porque minhas raízes havaianas não valem nada na porra desse lugar.

Olhando para o céu e para a lua brilhante, Kia sentia-se mais próxima da garotinha que um dia fora. Mais do que isso: sentia-se mais próxima de seus ancestrais, escravizados e maltratados, subjulgados e humilhados. Sentia-se mais próxima de... Anna?

Foi como se estivesse assistindo televisão e de repente alguém mudasse de canal de maneira abrupta. O pensamento de Kia estava voltando para o seu passado e o seu futuro, e então a imagem de Anna surgia em sua cabeça. Por quê? Não era de todo surpreendente que a atriz pensasse na garota, já que passara os dias que se seguiram à volta de Oahu teorizando a respeito de tudo o que acontecera. Ela disse que nos viu morrer. Cada um de nós. Os amigos dela. A Laura. Eu. Eu morri.

Não seria a primeira vez. Kia riu ao ter aquele pensamento. Em seus filmes já fora decapitada, já tivera as tripas amarradas em um crucifixo, os olhos arrancados, já fora queimada viva, mas... Como será a minha verdadeira morte? Provavelmente chata e previsível, apodrecendo na porra da cama de um hospital após longos meses em estado quase vegetativo. Isso daqui uns cinquenta anos, no mínimo.

Ainda estava pensando em sua morte previsível quando se levantou. Caminhou alguns metros e parou diante do parapeito do terraço, ainda bastante zonza. Abaixo de si Kia tinha cinco andares e uma rua pouco movimentada. Exatamente em frente ao prédio havia um mastro com duas bandeiras, uma sendo a bandeira dos Estados Unidos, enquanto a outra era uma bandeira dos Estados Confederados. Essa, porém, estava modificada, já que havia uma enorme pichação em que se lia “Fuck the confederation”. Kia gargalhou diante daquela visão. Skeelz...

O motivo era bem simples. Durante a época da escravidão nos Estados Unidos, os Estados Confederados, sulistas, eram contra a abolição, enquanto os estados do norte eram a favor dela. Muitos anos depois, a bandeira dos Estados Confederados lembrava uma tradição racista e opressora, e Skeelz queria, com aquele gesto, mandar um grande dedo do meio para a sociedade conservadora e preconceituosa que o cercava. Kia se orgulhava do primo.

O vento era fraco ali em cima.

De repente alguém abriu a porta de metal que dava acesso ao terraço. Skeelz segurava os saltos pretos de Kia nas mãos. Viera até ali especificamente para ver se quem os tinha deixado estava no terraço. O barulho assustou a atriz, fazendo-a escorregar.

A última coisa de que Kia se lembrou foram as garotas na festa. A bandeira dos Estados Unidos. A soberba precede a ruína, e a altivez do espírito precede a queda.

A parte de cima de seu corpo foi a primeira que caiu. A garota sentiu o ar em seu rosto, e então sentiu quando algo parou sua queda, impedindo-a de voar. Olhou para a barriga e teve tempo somente de ser invadida pelo terror. O mastro da bandeira dos Estados Confederados atravessara seu abdômen, e ela pendia trespassada pela lança há uma altura de dezenas de metros. Gritou.

O enorme poste de ferro não aguentou o peso de Kia e tombou para frente, na direção da rua, onde um fusca vermelho estava estacionado. O objeto caiu com força em cima do veículo, e a atriz nem mesmo sentiu quando foi impiedosamente prensada contra o metal rubro, tendo seu corpo esmagado. O sangue respingou por todos os lados, deixando somente o corpo de Kia misturado com a lataria amassada do carro.

x-x-x-x-x

Courtney sentou-se diante de sua escrivaninha e suspirou.

À sua frente tinha duas coisas: um abajur e um envelope. A claridade da lâmpada era suficiente apenas para iluminar o papel que ela segurava de maneira trêmula. Por que tinha tanto medo, afinal? Nada de ruim vai acontecer, garota. Não existe mais angústia. Só abre esse envelope e vamos acabar com isso.

Rasgou o papel e deixou que seus olhos seguissem livremente pelo conteúdo do exame de sangue.

Os olhos passaram pelos números sem que Courtney entendesse nada do que estava escrito. Desceu até a tabela e leu:

0 a 0.89 = amostra não reagente para HIV.

0.90 a 0.99 = amostra indeterminada para HIV.

> ou = a 1 = ver etapa 2.

A loira voltou os olhos para a primeira parte do exame. Estava escrito:

Etapa 1

Metodologia 1 — Resultado: 1.

Quando seus olhos correram para a parte em que estava escrito “etapa 2”, a cabeça de Courtney girava. Ela via, incrédula, o seu destino ser decidido na sua frente, sem que ela pudesse fazer nada para evitar ou voltar atrás. Quando leu o que estava escrito no papel, as lágrimas caíram lenta e dolorosamente.

Etapa 2

Metodologia 1 – Resultado para HIV: positivo.

Notas finais
Como sempre, a trilha que utilizei: She's Not There - The Zombies: http://www.youtube.com/watch?v=f5IRI4oHKNU Próximo capítulo já foi quase todo escrito, então sai em breve :D Abração!