Notas iniciais
Mais um capítulo. Inicialmente ele teria uma morte ocorrendo, mas decidi não colocar, pra poder dar importância a isso no capítulo seguinte. Além disso ocorre a participação de mais um personagem de "Premonição: Sem Saída".

Mia decidiu ir ao trabalho naquele dia. Imaginou todas as possíveis reações de seu chefe Nero, mas nenhuma delas era ruim o suficiente para impedi-la. Tomou banho e trocou-se com rapidez, colocando uma calça de vinil preta e uma jaqueta jeans, e amarrando os cabelos num rabo de cavalo improvisado. A reação de todos quando ela chegou na redação não poderia ser pior. Seus colegas de trabalho a olhavam com um misto de curiosidade e reprovação.

Parou diante da porta da sala de Nero e suspirou. Tomou coragem a bateu na porta, dizendo:

— Chefe?

Nero arregalou os olhos ao ver a garota. Largou o bloco de anotações que tinha em mãos e gaguejou

— M-mia?!

— Oi. — Foi a única coisa que ela conseguiu dizer.

O chefe já tinha um discurso pronto em sua cabeça, despejando-o sem qualquer cerimônia:

— Onde diabos você se meteu nesses últimos dias? Você tem ideia da quantidade de vezes que eu liguei no seu celular e na sua casa? Eu e todos aqui na redação achamos que você tinha morrido!

— Desculpa é que...

— Não quero desculpas, Mia. Eu não quero mais nada de você. — Ele disse, olhando de maneira séria para ela. — O que você fez é completamente não profissional e eu não posso tolerar um erro desses. Você está demitida, Mia. Você não imagina o quanto me dói fazer isso.

Mia abaixou a cabeça, aceitando a sentença. Sabia que tinha sido irresponsável, e sabia que, apesar dos pesares, Nero estava correto em sua decisão.

— O senhor tem toda razão, chefe. Eu só vou pegar as minhas coisas na mesa e estou de saída.

Nero assentiu com a cabeça e a garota saiu, fechando a porta com delicadeza. Apesar da expressão de tristeza e desolação estampada em seu rosto, Mia não estava completamente arrasada. Naquele momento seu emprego era o que menos importava, já que sua própria vida estava em jogo.

A garota pegou com rapidez os pertences da sua mesa, inclusive um porta-retratos em que apareciam ela e Cub. Colocou tudo em uma caixa de papelão que encontrou caída no chão e saiu. Na portaria, foi consolada pela recepcionista, que disse:

— Eu sinto muito, Mia. O Nero pediu que você volte na segunda-feira pra acertar suas contas.

Mia agradeceu a informação dada pela mulher e caminhou em direção ao seu carro. Mortos não tem muitas despesas, certo?

x-x-x-x-x

A notícia da morte de Tony chegou para Gretel como um soco no estômago. Especialmente quando soube da causa e das circunstâncias do seu falecimento. Naquele momento não conseguiu sentir nada além de nojo e repulsa pelo ex-marido. Mas quando pode pensar com clareza a respeito da situação, a depressão foi mais forte. Apesar de ser um canalha, o estilista não deixava de ser seu marido. Aquele era o homem com quem ela passara quatorze anos de sua vida. Era difícil lidar com aquilo.

— Tony... Oh, Tony... O que você fez...

A dama de ferro deitou-se na cama do casal e abraçou o travesseiro com força, procurando abafar o barulho do seu choro. As lágrimas caíam de maneira abundante, molhando a fronha branca. Gretel chorava, mas não sabia o motivo. Tristeza? Talvez. Ela já não amava o marido há muitos anos, isso era uma verdade. Mais do que isso, em muitos momentos ela o odiava. Apesar de tudo isso, não lhe dava prazer saber do destino que ele tivera. Era triste descobrir que a pessoa com quem ela compartilhara sua vida se fora assim, sem mais nem menos.

O baque era o pior. Gretel sentia-se sem chão, sem rumo. Acostumada a ser uma “dondoca” paparicada pelo marido, ela jamais ficara por conta própria. Quando perdeu o pai, conheceu Tony. A figura masculina ao seu lado era reconfortante, por pior que ela fosse. A dama de ferro podia parecer forte por fora, mas infelizmente necessitava de um suporte. Era emocionalmente dependente, frágil. Talvez esse fosse o laço que a ligasse a Tony, no fim das contas. Ela lhe proporcionava o suporte financeiro e ele proporcionava a ela o suporte emocional. Um acordo.

— Então aquela garota Mia realmente tinha razão... — Murmurou para si mesma.

Quando se deu conta do que aquilo significava, Gretel levantou-se e desceu as escadas num pulo. Damien.

— Damien, querido? Damien?! — Ela exclamava de maneira repetitiva.

A mulher corria pela mansão dos DuBois aos gritos em busca do garoto. A cada cômodo vazio que encontrava, seu medo aumentava. Não, isso não pode acontecer. Não com ele. Ele é tão novo e tão bom...

— Damien, cadê você? Damien!

Encontrou-o às gargalhadas com o jardineiro da família, enquanto o ajudava a cortar o caule de uma dúzia de rosas brancas. Gretel chamou o menino em tom severo e ele veio com rapidez, preocupado.

— O Tony morreu, meu querido. — Ela disse sem cerimônia

Damien deu um gritinho e colocou a mão na boca.

— Oh! Eu sinto muito, tia... — E abraçou a dama de ferro com força, envolvendo-a com seus braços pequenos.

Quando ele se afastou, Gretel abaixou-se na altura dele e olhou diretamente em seus olhos. Eu não posso mentir pra ele.

— Me escuta, meu amor. Você lembra do que a Mia disse durante o funeral do Liam?

O menino mexeu a cabeça positivamente.

— Pois então. Tudo aquilo pode ser verdade. Me desculpa, pequeno.

O garotinho ficou em silêncio por vários segundos, olhando para o horizonte. Então suspirou e disse, com uma maturidade nova em sua voz:

— O que nós vamos fazer?

x-x-x-x-x

Já passava das três da tarde quando Mia decidira ir até o restaurante onde Kaleb trabalhava para lhe fazer uma surpresa. Entrou e sentou-se na mesma mesa onde eles se conheceram, ao lado da estátua de Parvati. Quando o indiano se aproximou para atendê-la, sorriu.

— Gostaria de fazer o pedido, senhorita? — Ele disse com uma voz formal e as mãos para trás.

A loira gargalhou diante daquela cena.

— Depende... Quanto custa um Kaleb para viagem?

— Você tem certeza? — Ele disse, contendo o riso. — É um prato meio mal passado...

Os dois então riram juntos. Mia perguntou:

— Quando o seu turno acaba?

— Em meia hora. — Ele respondeu. — Me espera?

— Claro.

— Gostaria de pedir alguma coisa enquanto isso?

A jornalista então sorriu para ele, respondendo:

— Claro.

Mia folheou o menu com agilidade, sem ter muita certeza do que pedir. Sem Cub, parecia ser quase um crime comer ali. Foco, Mia. Foco. Não há nada que você possa fazer pra ele voltar. A garota então suspirou e apontou para um prato qualquer. Kaleb anotou o pedido dela e seguiu em direção à cozinha.

Voltou quinze minutos depois com o prato para ela e uma coca cola para ele. Pediu licença e então se se sentou à mesa junto com a garota. Ficou alguns segundos em silêncio, pensativo. Então disse:

— Eu gostei da surpresa, Mia, mas... Por que você veio aqui? Eu imagino que não tenha sido só uma visita despropositada.

Ele é perceptivo.

— Eu fui demitida. — Ela disse de maneira abrupta.

Kaleb pareceu surpreso com aquilo. Tocou a mão da garota em cima da mesa e disse:

— Que droga. — Mas então diante da reação de despreocupação de Mia, continuou: — Mas nós não podemos dizer que isso foi uma surpresa, né? Desde que eu te conheci te vi trabalhando um só dia...

Mia concordou com a fala do indiano, rindo. Mas então a risada morreu quando ela viu a figura masculina entrando no restaurante.

— Aquele lá é o Theo? — Ela disse, apontando para um ponto atrás do rapaz.

Kaleb virou-se e percebeu Theo entrando e retirando os óculos escuros que utilizava. Ele vestia-se de maneira formal, com um terno cinza escuro bastante justo e uma camisa preta. Ele vinha com uma maleta em mãos, porém, algo que não era comum, já que o rapaz gostava de utilizar bolsas.

Theo olhava para todos os lados, procurando quem viera encontrar. Quando notou o casal sentado em uma das mesas, acenou, seguindo na direção deles. Kaleb terminou seu refrigerante e suspirou, esperando pelo pior.

O outro rapaz cumprimentou tanto Mia quanto Kaleb com um aperto de mão, puxando uma cadeira e sentando-se ao lado deles. Parecia eufórico, e foi logo dizendo:

— Ufa, eu encontrei você aqui. O Cub tinha mencionado que você trabalhava nesse restaurante, mas eu fiquei com receio de não encontrá-lo. — E diante da expressão de confusão do casal, continuou: — E então, como vocês estão?

O casal foi pego de surpresa pela gentileza de Theo, mas responderam-no educadamente. Kaleb emendou:

— A que devo a sua visita?

Theo sorriu com aquela frase.

— Bom, o assunto é delicado e complicado, caro Kaleb. Além disso, é longo.

— Tudo bem, pode falar. O meu turno já acabou.

— Tudo bem, então... – E Theo abriu a maleta, deixando seu conteúdo à mostra. — Não vou fazer cerimônias e nem suspense. Essa é uma cópia do testamento da Cicciliona. Nele ela diz que deixou para você esse envelope... — E o rapaz passou o envelope cor de rosa para Kaleb. — E os milhões de dólares que estão depositados na conta bancária dos Staller. Apenas a mansão da família e as ações investidas foram deixadas para os empregados, para que eles possam se manter pelo resto da vida. Todo o resto é seu.

Os olhos de Kaleb quase saltaram das órbitas. Era difícil acreditar nas palavras de Theo. Há menos de um minuto ele era um simples garçom fazendo o seu trabalho, e agora estava... Rico? Não. Tem alguma coisa errada.

— Isso é algum tipo de pegadinha? — O indiano perguntou, desconfiado. — Porque eu devo dizer que não tem graça alguma.

Theo meneou a cabeça negativamente, sorrindo de maneira cínica.

— Quem dera fosse uma pegadinha. Mas eu lhe aconselho a ler o conteúdo do envelope, ele deve explicar muita coisa. Eu não me atrevi a abri-lo, já que sou legalmente impedido disto.

A cabeça de Kaleb girava, de modo que ele só conseguiu murmurar:

— Mas essa mulher nem ao menos me conhecia antes do desastre...

Mia não aguentou aquela tensão. Retirou o papel da mão de Kaleb, ainda atônita com tudo o que fora dito. Pegou a carta que estava lá dentro e entregou o papel ao rapaz, que começou a lê-la:

Caro Kaleb,

Quando você ler esta carta, eu provavelmente já estarei morta, já que ela só existe com esse fim: o de dizer por mim o que eu deveria ter dito em vida e não tive coragem.

Há um tempo eu conheci uma garota muito bonita, com a pele escura e os olhos brilhantes. Ela sorria o tempo todo, e sua vivacidade me fascinou. Você deve conhecê-la melhor do que eu. Doce Maya...

Ela me foi apresentada por Tony, que me disse que ela era seu novo casinho, seu novo affair. Eu, tomada pela obsessão e ciúmes, tratei de tornar a vida de Maya um inferno, das piores formas possíveis.

Os meses em que ela ficou desaparecida, ela estava comigo. Nesse tempo eu a ensinava a nunca mais mexer com o meu homem. Apesar de tudo, eu não queria o mal para Maya. Eu queria ser ela. Queria mexer com Tony do jeito que ela mexera. Eu queria ter a juventude de Maya.

Quando ela finalmente saiu de nossas vidas, assustada com as minhas ameaças, eu fiquei aliviada. Não esperava nunca mais ter contato com esse assunto. Mas qual foi a minha surpresa quando vi os mesmos olhos vivos atacando Tony no desfile do Maiden’s Garden! Era indubitável a relação de vocês. Eu reconheceria seus olhos em qualquer lugar, caro Kaleb.

Por fim, devo dizer que nunca me arrependi de nada do que fiz na vida. Errei muito, mas errei tentando acertar. Não sou uma mulher emotiva e nem pretendo ser. Então não considere isso um pedido de desculpas ou uma recompensa pelo que fiz a sua irmã. Eu vejo como se estivesse jogando toda a fortuna de minha família no lixo ao colocá-la em suas mãos. Mas é o melhor a se fazer. Não quero urubus querendo um pedaço do que os Staller lutaram tanto para conquistar. Se for para deixá-la para alguém, que seja pra você. Será meu último ato de egoísmo para com a corte de idiotas que me cercou durante toda a vida.

Sem arrependimentos,

Ilona Staller

Kaleb terminou de ler a carta sem fôlego. Então foi a Cicciliona a responsável por todo o sofrimento da Maya. Foi ela o responsável pela minha irmã ter se suicidado.

— Eu não quero esse dinheiro. – Kaleb disse de maneira decidida.

Mia e Theo olharam-no com surpresa. A garota havia lido a carta junto com ele, mas o outro rapaz não sabia do seu conteúdo, então era natural que ele questionasse o motivo da recusa.

— Kaleb. — Theo começou. — Eu não sei se você tem ideia de quanto dinheiro estamos falando. Isso... Oh, isso é o dinheiro que noventa e cinco por cento da humanidade irá batalhar por toda a vida para conseguir e jamais conseguirá. É a solução de qualquer problema que você tenha ou venha a ter. Por mais desapegado que você seja quanto a bens materiais, e eu entendo os hindus, é loucura recusá-lo. Pense com calma.

Mas o indiano parecia extremamente decidido:

— Esse dinheiro é sujo, assim como essa mulher era. — E então olhou para Mia e para Theo, repetindo: — Não, eu não quero isso.

Mia suspirou.

— Eu não tenho o direito de me meter nas suas decisões, Kaleb, mas pensa bem. Nós estamos falando do dinheiro de uma vida inteira. Mais: estamos falando do dinheiro de gerações e gerações de trabalho de uma família. Qual a melhor maneira de tornar esse dinheiro limpo do que dando ele a você? Pensa bem.

Aquela fala surpreendeu Kaleb. Ele olhou para Mia com um misto de decepção e repulsa:

— Eu jamais esperaria uma atitude dessas de você. — Disse.

Mia se ofendeu com aquilo:

— E por quê? No hinduísmo é pecado ser racional? A sua emoção e as suas reações passionais são a melhor e a pior coisa em você, Kaleb.

O indiano ficou em silêncio, atônito. Theo arriscou:

— Ela está certa, Kaleb. Eu entendo o seu orgulho, mas você precisa aceitar esse dinheiro. São milhões e milhões de dólares. Se você não os quiser, tudo bem, doe pra alguma instituição. Mas não deixe que o banco fique com toda essa fortuna. Como a Mia disse, é o dinheiro que incontáveis gerações trabalharam para conseguir.

O rapaz se pôs a pensar, olhando diretamente nos olhos doces e azuis de Mia.

— Eu posso ter um tempo para pensar?

Theo ficou paralisado durante alguns segundos, sem acreditar no que estava ouvindo. Disse:

— Claro. Fique com o meu cartão e me ligue quando tiver decidido.

Ele então entregou seu cartão à Kaleb e levantou-se da mesa, pedindo licença e saindo do restaurante.

x-x-x-x-x

Maria estava sentada no chão duro da cela com a cabeça entre os joelhos. Foi quando ela ouviu um barulho metálico, como se estivessem abrindo a cela. Ergueu a cabeça e viu seu advogado, com um terno desalinhado e aparentando estar bastante abatido. A mulher arregalou os olhos e levantou-se, se aproximando dele.

— E aí, o que aconteceu?

A expressão do homem não era das melhores. Ele suspirou e então disse:

— Está difícil, Maria. A promotoria não está comprando a sua versão de que a caneca era destinada a você. A quantidade de remédio era muito alta. Se você tivesse tomado aquele chá provavelmente teria o mesmo destino de Liam, ou no mínimo uma parada cardíaca crítica.

A latina baixou a cabeça, sentindo-se desolada.

— Eu não sei porque eu fiz isso. Eu estava muito nervosa naquele dia, acho que só fui adicionando sem perceber e...

O homem não a interrompeu, mas Maria parou de falar mesmo assim, parando sua frase na metade. O advogado, porém, parecia não ter finalizado:

— Mas tem mais. Eles estão dispostos a fazer um acordo. Você pega dois anos em regime aberto por homicídio culposo, mas desde que volte pra Colômbia. Eles querem a sua extradição, Maria.

A frase fora como um soco no estômago de Maria.

— Mas eu... Eu não posso! Eu tenho uma vida aqui, uma casa e... — E não soube como continuar. Olhava para todos os lados, em pânico. — Não da! Tem que ter uma outra maneira!

O advogado não pareceu otimista diante daquela possibilidade, dizendo:

— Eu vou fazer o possível para tentar reverter o quadro, mas é provável que essa acabe se tornando a única saída, Srta. Delgado.

A colombiana nada disse. Caminhou lentamente para o canto da cela, onde estivera outrora, e sentou-se no chão duro. As lágrimas caíram de seu rosto com facilidade, molhando o concreto e seu vestido vermelho.

x-x-x-x-x

Mia e Kaleb caminhavam lentamente pelas ruas da cidade, conversando e tendo os transeuntes e os carros como testemunhas. Cada um deles tinha um sorvete em mãos, já que o sol que fazia era escaldante. A cabeça de Mia estava cheia, mas um assunto em específico estava tirando seu sossego. Será que essa é a hora certa pra trazer isso a tona?, ela se perguntou, mas já sabia a resposta. É claro que não. Mas... Em contrapartida, eu posso não ter outra chance.

A jornalista suspirou e então disse:

— Sabe Kaleb... Eu odiaria morrer sem saber de uma coisa.

— Você não vai morrer. — Ele devolveu prontamente, olhando para frente.

— Você não pode garantir isso.

— Mas posso tentar.

— Kaleb! — Mia exclamou por fim, num misto de irritação e divertimento.

O indiano sorriu, encabulado. Rendeu-se:

— Pois pergunte.

— Adivinha. — Ela disse, indicando que a pergunta que queria fazer era óbvia.

— Minha mão?

Na mosca, ele pensou, ao olhar para a expressão facial no rosto da garota. Mia nada disse, apenas concordou com um aceno de cabeça, completando depois de alguns segundos:

— Se não quiser contar eu entendo e...

— Não, tá tudo bem. — Kaleb garantiu, sorrindo. — Você foi a que aguentou mais tempo. Todos os outros me perguntam logo que me conhecem. É meio desconcertante, mas faz parte.

A loira continuou calada, sem saber direito o que deveria dizer.

— Foi um acidente bem bizarro, na verdade. Aconteceu há dois anos. Eu estava assistindo a uma competição de skate de um amigo meu, o Skull, quando de repente, do nada, uma barraquinha de cachorro quente explodiu bem perto de onde eu estava. Os estilhaços voaram para todos os lados, foi um caos. Eu estava perto no momento e a minha mão foi atingida por um pedaço voador da estrutura de metal. Um acidente infeliz e cujo qual até hoje eu não sei a causa. Mas não vale a pena ficar pensando nisso né? Não é como se minha mão fosse voltar ou nada do tipo...

Mia tapou a boca, em choque. Será que...?

— Por acaso esse acidente não foi naquela cidadezinha em que nós estivemos outro dia, foi?

— Foi sim. — Kaleb confirmou, confuso. — Como você sabe?

— Um dos sobreviventes do Trem 081 morreu nessa competição. — Mia respondeu de maneira solene.

Kaleb arregalou os olhos.

— É sério isso?

— Me espanta você não saber disso... — A loira confirmou.

Faz sentido, Kaleb refletiu. O indiano lembrava-se vagamente dos momentos seguintes à amputação de sua mão, já que a dor fora tanto que o deixara meio zonzo e anestesiado. Apesar disso, ele tinha consciência de que o acidente que havia acontecido fora bastante sério, e que muito provavelmente havia existido vítimas fatais.

— Eu me lembro de pessoas morrendo... — O rapaz murmurou, incerto.

A coincidência do ocorrido arrepiou Mia. É como uma teia de aranha...

x-x-x-x-x

O telefone da casa dos DuBois tocava feito louco. A governanta dava a mesma explicação para todos, a de que a senhora DuBois não estava em condições de atender telefonemas, mas agradecia os desejos de condolências. Mas foi uma visita pessoal que a fez ter outra reação. A mulher subiu as escadas em direção ao quarto de Gretel e bateu duas vezes, dizendo:

— Srta. Gretel? — Ela perguntou, ouvindo um resmungo como resposta. — Tem uma moça lá embaixo querendo vê-la. Eu não teria lhe incomodado se não fosse pela insistência dela. Ela diz que precisa muito conversar com a senhora.

A dama de ferro bufou, irritada com a inconveniência da visitante. Enxugou rapidamente os olhos vermelhos e desceu para recepcionar quem quer que estivesse ali, já pensando em alguma forma de se livrar da companhia indesejada. O que ela não imaginava, porém, era que sua impaciência e aspereza fossem ser desmanchadas ao perceber quem era a visitante.

— Alice?

A ruiva correu e abraçou Gretel sem dizer uma palavra, ficando assim durante vários segundos. Quando elas se separaram, Alice começou a analisar a expressão de Gretel, tocando seu rosto de maneira carinhosa.

— Oh, como eu sinto a sua perda, Gretel! — Ela comentou de maneira sincera, sentindo um nó na garganta. — Eu vim assim que fiquei sabendo...

— Foi gentil de sua parte, Alice. — A dama de ferro confirmou, tentando sorrir. — A maioria dos amigos da família contentou-se em apenas telefonar.

— Eu não sou a maioria, meu amor... – Alice respondeu, sem nenhuma ironia aparente em sua voz. — O Tony foi o maior responsável pelo meu sucesso profissional, e um mentor importante na minha vida. Eu jamais deixaria de comparecer em um momento tão triste.

Quando a ruiva terminou de falar, ela estava a ponto de chorar. Alice trabalhara com Tony antes e após formar-se em design de moda, e o homem tinha sido seu mentor e o responsável por todo seu conhecimento na área. Mesmo discordando de várias decisões pessoais dele, não havia como Alice não entristecer-se com a morte de alguém que significara algo tão valioso em sua vida.

Os passos descendo a escada denunciaram que as mulheres tinham companhia.

— Tia Gretel? – Damien chamou timidamente.

A dama de ferro virou-se para trás e viu o garoto parado olhando para elas de maneira estoica.

— Sim, meu amor?

— O Max caiu da prateleira e por pouco não acertou a minha cabeça! – Ele respondeu, mostrando um boneco de ação que tinha em mãos.

Gretel teve de sorrir com a ingenuidade de Damien. Tentou reconfortá-lo, dizendo:

— Não acho que um Max Steel de cinquenta gramas te machucaria, meu amor... — E então parou de falar por alguns instantes, observando o rosto inocente do menino. — Além disso, cadê a sua educação? Não cumprimenta a moça?

O garoto então teve um estalo, parecendo ter percebido Alice pela primeira. Então disse, corado:

— Oh, me desculpe! Meu nome é Damien. Muito prazer em conhecê-la!

A ruiva não conseguiu conter a sua empolgação com a apresentação formal do menino, soltando um sonoro “own”.

— Você é a coisa mais fofa que eu já vi, Damien! Eu poderia te colocar numa caixinha e levar pra casa só pra ficar apertando suas bochechas... — Alice comentou, rindo e parando quando percebeu que o garoto ficara ainda mais constrangido com a brincadeira. — Eu sou a Alice. E o prazer é todo meu!

O garoto estava prestes a sorrir em resposta, quando sentiu um arrepio, sentindo-se como se tivesse sido atingido por um raio.

— O que foi, amor? – Gretel perguntou, preocupada ao perceber a reação dele.

Damien meneou a cabeça negativamente, tentando fazer aquela sensação ir embora. Respondeu:

— Nada não, tia, é só que... Eu sinto que eu conheço a Alice de algum lugar.

Nenhuma das mulheres disse nada, e o silêncio que se formou na sala foi sepulcral. Damien então se sentou no sofá, ainda um pouco abalado. Em sua cabeça, frases e rostos iam e voltavam, mas tudo acontecia rápido demais para que ele conseguisse racionalizar o era tudo aquilo.

Nada poderia prepará-lo para o que aconteceria em seguida. Quando as palavras vieram em sua cabeça, Damien soube que deveria dizê-las:

— O Bobby vai se suicidar. Ele vai se jogar na frente de um trem! – O garoto gritou, num impulso incontrolável.

Alice sentiu seu corpo inteiro congelar. Mas Damien não tinha terminado:

— Uma placa de metal vai voar e derrubá-lo na pista de skate, fazendo a cabeça dele ser esmagada por um outro skate. Você precisa impedir que isso aconteça! — Ele soltou, tapando a boca em seguida. O quê...?

— Damien! – Gretel exclamou em reprimenda, enquanto Alice continuava em estado de choque.

— Como você...?! – A ruiva começou, mas não conseguiu continuar a frase.

O garoto mantinha os olhos arregalados, tapando a boca com fúria, como se não quisesse ter dito nenhuma daquelas coisas. Ele já estava a ponto de chorar, mas não queria fazer aquilo na frente de uma estranha. Damien então correu escada acima com a maior rapidez que conseguiu.

Na sala, as duas mulheres estavam em silêncio. Nenhuma delas sabia o que havia acontecido ali, menos ainda o que deveriam dizer.

— Me desculpe, Alice, eu não sei o que... – Gretel começou, mas não conseguiu continuar a frase, porque Alice apenas meneou a cabeça positivamente, como se concordasse com as desculpas da mulher, e virou-se, subindo as escadas sem cerimônia.

No andar superior, foi fácil para a ruiva encontrar o quarto do garoto, porque a porta dele acabara de ser fechada. Ela caminhou de maneira lenta até o local, batendo na porta com delicadeza.

— Me deixa entrar, Damien.

— Vai embora! – Ele gritou em resposta, e Alice pode perceber sua voz embargada.

— Por favor, querido... — Ela murmurou, sem saber como continuar. — Eu preciso saber como... Como você sabe disso...

Então houve alguns segundos de um silêncio ensurdecedor, enquanto Alice mantinha-se encostada na porta, esperançosa. Ela levou um susto quando a porta foi aberta pelo garoto. Ele estava parado, de olhos fechados e com lágrimas escorrendo por seu rosto.

— Eu não sei... Eu só... Eu... — Ele tentou falar, mas o choro o impediu.

Damien correu para longe da porta e deitou-se na cama, colocando o rosto no travesseiro. Alice aproximou-se dele com delicadeza, sentando-se na cama e tocando seu ombro.

— Você... Você viu as coisas que disse? Na sua cabeça? – Alice perguntou, tentando dizer aquilo da forma mais carinhosa possível.

— Não. — Ele respondeu de maneira firme, erguendo a cabeça e olhando para a ruiva com os olhos vermelhos. — Eu apenas senti um arrepio e elas vieram na minha cabeça. Mas eu também vi rostos. Uma garota loira, um rapaz de olhos claros... E você. Aconteceu logo depois que eu te cumprimentei.

Alice meneou a cabeça positivamente, pensativa.

— Eu entendo. — Ela confirmou, tentando sorrir. — Então você não tem noção das coisas que disse? Do que aconteceu?

O garoto meneou a cabeça de maneira negativa.

Alice suspirou. Disse:

— Damien... As coisas que você disse... Elas... Elas... Eu as disse há cerca de dois anos. Palavra por palavra. Você repetiu tudo como se... Como se você tivesse sido capaz de viver o que eu vivi.

O menino imediatamente tapou a boca. Ele não tinha noção do que aquilo significava, mas sabia que havia algo de muito errado consigo.

x-x-x-x-x

Gretel esperava de maneira ansiosa na sala de estar, com duas xícaras de chá diante de si. Quando Alice desceu, a dama de ferro pediu que ela se sentasse ao seu lado e dividisse a bebida. A ruiva aceitou prontamente, sentando-se e suspirando. A dama de ferro não perdeu tempo:

— O que exatamente foi isso, Alice?

Alice sabia que devia explicações para Gretel, de modo que tentou dá-las da maneira mais sucinta possível:

— Eu estou chocada. — Ela começou, segurando a xícara de maneira delicada. — As coisas que o Damien disse foram ditas por mim há dois anos.

A dama de ferro colocou a xícara em cima da mesinha de centro, tremendo violentamente.

— Como isso é possível? – Gretel perguntou. — Isso... — E não soube terminar a sentença.

— Eu tenho uma teoria. — Alice começou.

— Pois diga!

— Você já ouviu falar nas crianças Indigo?

Gretel meneou a cabeça negativamente. Alice então pôs-se a explicar:

— Bom, essa teoria afirma que existem algumas crianças que ao nascer possuem certos dons especiais. Elas teriam uma alta capacidade de socialização e uma sensibilidade maior que boa parte da humanidade. Elas seriam as crianças do futuro, os cientistas que fariam inovações, os governantes que fariam o mundo melhor. Mas também existe outro lado. Uma vertente dos que acreditam nessa teoria, diz que essas crianças teriam certos dons paranormais. Dons como dizer ou lembrar-se de coisas que não viveram.

— Paranormalidade? Francamente, Alice... — Gretel começou, mas foi interrompida pela amiga.

— Você tem razão em ser cética, Gretel. — A ruiva comentou, concordando com um aceno de cabeça. — Mas mantenha a cabeça aberta, por favor. Se o que eu digo for verdade ou fizer qualquer sentido, o Damien vai precisar da sua ajuda.

A primeira imagem que veio à Cabeça de Gretel foi Mia. A garota também tinha alguma espécie de dom, algo que a fizera prever o desastre no desfile. E agora Damien repetia frases de coisas que não tivera o menor contato. E tudo isso somado ao fato de que seu marido acabara de morrer. Era muita coisa para sua cabeça.

E por quê?

— Quem sabe se você resolvesse pesquisar a respeito, Gretel... Eu mesma... – Alice começou, mas foi interrompida pela dama de ferro, que tentou ser gentil ao respondê-la.

— Obrigada Alice, mas não. Tem muita coisa acontecendo na minha vida e na de Damien no momento, eu não quero mais coisas que possam deixar o garoto traumatizado. Você me entende né?

— Perfeitamente. — Alice concordou, resignada.

Mal sabia ela que a amiga estava vivendo algo que ela própria vivera há dois anos...

Notas finais
A teoria das criança Indigo citada nesse capítulo realmente existe. Na internet se encontram diversos artigos tratando do tema.