Premonição - O Início
4 Capítulo 4 - Eu Estou Atrás de Você
Sâmea e Ana olhavam chocadas para os caixões dos meninos, um ao lado do outro. Tainy abraçou as duas tentando confortá-las. No meio das pessoas no velório, as três eram as mais próximas de Evandro e Leandro. Murilo olhava de longe, incrédulo. Não conseguia acreditar que seus amigos haviam morrido.
Dois dias atrás os garotos haviam se encontrado no memorial do local do acidente, momentos depois eles haviam sido prensados por um caminhão nas ferragens do carro deles e morreram afogados. Era muito além da imaginação do garoto. Um calafrio fez os cabelos da sua nuca eriçarem. Era muito comum no último mês ele ter esses calafrios, se tornara um hábito irritante.
Murilo se reclinou para trás na cadeira que estava. Maria Júlia se sentou ao seu lado e perguntou:
− Você está bem?
Ele negou com a cabeça:
− Odeio esse lugar – começou ele – é como se...
Maria Júlia o encarou:
− Como se...
Murilo silenciou, não tinha coragem de dizer o que vinha pensando. Apenas acenou com a cabeça em direção as garotas:
− Temos que dar nosso apoio.
Maria concordou. Ambos caminharam lentamente olhando de relance para os caixões lacrados. Assim que se aproximaram Sâmea os abraçou. Ana comentou:
− É gente, quando chega a hora de morrer não adianta. Eles escaparam do acidente porque não era a hora, mas agora...
Um alarme pareceu soar dentro do garoto a ideia dentro dele parecendo fazer ainda mais sentido, mas não ousou dizer nada, apenas sorriu e concordou. Paloma chegou nesse momento colocando uma rosa branca em cada caixão.
Sâmea suspirou profundamente:
− Eu não entendo, estávamos todos juntos e então eles morreram do nada.
Tainy abraçou a irmã e tentou confortá-la.
Murilo fez sinal para Maria Júlia e em seguida puxou Paloma para fora do funeral. Ele foi direto ao ponto:
− Tem algo errado.
As duas se encararam preocupadas. Maria se abraçou como se estivesse com frio e perguntou:
− O que está errado?
Murilo fez uma pausa olhando temeroso para as amigas. Ele tinha que dizer aquilo senão ia enlouquecer, se é que já não estava louco.
− A morte dos dois, me fez pensar muito – ele começou – primeiro o Renan, depois os dois...
− Murilo pare! – Paloma o cortou – Não importa o que houve no festival. Renan morreu por descuido nosso, não foi sua culpa, além disso, acidentes como o dos meninos acontecem. Não foi sua culpa.
Murilo suspirou exasperado:
− E se naquele dia fosse mesmo nossa hora? E se aquele acidente fosse causar nossa morte e eu impedi isso?
Maria pareceu contar até dez antes de falar solícita:
− Nós escapamos, era para ser assim desde o começo.
Murilo parecia desesperado:
− Vocês não entendem. Se fôssemos morrer naquele momento ainda é a nossa hora. Não no futuro, mas agora. Apenas adiamos o dia. As músicas...
− Murilo você está passando por um estresse pós-traumático – Paloma tentou rebater – minha psicóloga pode te ajudar a...
− Me explique isso – Murilo falou mais alto do que pretendia – Minutos antes do começo de tudo ouvi Part of Me da Katy Perry no verso que falava sobre fogos de artifício, em seguida Walking on Air, então um fogo de artifício atinge um helicóptero em pleno ar.
Maria e Paloma se calaram e o garoto acrescentou:
− Há dois dias, eu estava em casa após o memorial... eu tenho evitado ouvir música desde o festival, mas naquele momento eu estava com uma sensação – ele se exasperou – eu tenho estado com essa sensação o tempo todo. Eu sinto que algo vai acontecer...
− O que houve Murilo? – Erick perguntou atrás do garoto.
Murilo se virou confuso para encarar o amigo. Ele estava vestido com roupas pretas e ao seu lado sua namorada Brenda, também com roupas pretas, estava com os cabelos cor de mel soltos. Ela sorriu:
− Não pude deixar de escutar – então disse em tom de desculpas – Eu sou muito supersticiosa. Por favor, continue.
Erick parecia irritado de ter que ouvir, mas Brenda parecia amedrontada e querendo ouvi-lo. Paloma e Maria estavam paradas sem saber o que dizer. Ele resolveu contar a eles no fim:
− Eu estava em casa e graças à sensação ruim resolvi ligar o rádio... foi como um instinto. Estava tocando Overboard do Justin Bieber...
Erick riu alto:
− Você só pode estar brincando, Bieber? Os dois morreram afogados, não torturados.
Brenda o censurou com os olhos e falou:
− O que essa música tem de especial?
Murilo encarou a única pessoa q parecia ouvir:
− Brenda, a letra naquele momento. Foi como no festival. A música falava de alguém estar se afogando. Overboard é uma expressão para quando alguém cai de uma embarcação.
− Você acha que as músicas estão denunciando acidentes? – Brenda perguntou ansiosa.
Murilo apenas acenou com a cabeça.
− Murilo – Paloma começou lentamente – Você está querendo que a gente acredite que devíamos estar mortos?
− Nós devíamos estar mortos – Murilo sentenciou.
− O que? – Erick se exasperou – Você está se ouvindo?
− Na minha visão eu via cada um de nós morrendo – Murilo sentiu uma lágrima escorrendo – Eu não vi o acidente, eu vi nossas mortes no acidente. Não me lembro direito, mas sei o que eu vi.
Alguém varria a calçada perto deles, então começou a cantar distraidamente:
Embora você possa me esquecer,
Você ainda está na minha mente,
Olhe sobre seu ombro
Eu estou andando atrás de você
Brenda soltou um gritinho agudo. Erick pareceu ter tomado um soco. Maria e Paloma ficaram estranhamente pálidas. Murilo começou a soluçar e não resistiu:
− Senhor, que música é essa?
O senhor sorriu:
− Eu amo essa música, se chama I Walking Behind You é de muito tempo atrás, de um cantor chamado Eddie Fisher.
− Por que cantou isso?
O velhote olhou para o homem como se outro fosse louco:
− Não posso mais cantar enquanto varro?
Murilo se desculpou rapidamente com o varredor, constrangido. Ele encarou seus amigos. Todos eles pareciam assustados, mas divididos entre crer ou não.
− Eu não acredito nisso – Erick decidiu.
Brenda tentou protestar, mas Erick começou a arrastá-la para dentro do velório. Murilo encarou suas melhores amigas esperando uma resposta. Paloma falou após algum tempo:
− Vamos entrar, logo vão enterrar os corpos.
Maria e Paloma entraram deixando o garoto sozinho.
*
Mais tarde naquele dia eles estavam sentados numa lanchonete próxima ao cemitério, ninguém parecia estar a fim de falar alguma coisa. Nilton foi o último a se sentar com eles. O garoto era o que parecia mais alheio aos acontecimentos. Ele não havia ouvido as teorias do rapaz, por isso não evitou Murilo, ao contrário dos outros.
Nilton começou um papo sobre consoles de videogame. A maioria pareceu sentir certo alívio por estar falando de um assunto tão trivial. Por alguns minutos Murilo quase sentiu que tudo voltara ao normal como antes. Uma música tocava ao fundo, mas Murilo percebeu que ela não trazia qualquer diferença ao ambiente, era até mesmo agradável.
Eles conversaram, comeram algo e após alguns assuntos Erick comentou maliciosamente:
− Está tocando uma música, não acha que é um aviso da dona morte, acha?
Murilo ficou irritado e gesticulou:
− Não me amole – então acrescentou – não por enquanto.
− Do que estão falando − Sâmea indagou nervosa.
Murilo fez sinal para que a garota ignorasse, mas esta imediatamente ficou alerta:
− O que está acontecendo aqui?
A coragem de Erick pareceu vacilar nesse momento e o garoto se calou. Murilo resolveu soltar então o que vinha pensando há muito tempo:
− Sâmea, nós iríamos morrer no festival e eu intervim. Era nossa hora, mas escapamos da morte. Desde o dia que saí do festival eu tenho sentido essa coisa estranha – antes que as garotas protestassem ele continuou – As músicas, elas têm sido presságios. No dia do acidente e na morte do Evandro e do Leandro também. Eu acho que isso ainda não acabou. Eu acho que ainda é a nossa hora.
Um silêncio sepulcral encheu a mesa. Ana foi a primeira a protestar:
− Cala a boca menino! Você tá maluco? – Ana parecia abalada – Nós não vamos morrer! Temos uma estrada inteira pela frente.
Murilo ficou alerta de repente e não sabia por quê. Então a música encheu o ar:
Sem sinais de “pare”, sem limites de velocidade
Ninguém vai me fazer reduzir a velocidade(...)
Eu estou na estrada para o inferno
Estrada para o inferno
− Highway to Hell – Maria Júlia falou lentamente – Ana você falou em estrada, então a música...
Murilo não fora o único dessa vez, eles haviam presenciado o sinal. Era inegável o que ele estava dizendo. Eles iam morrer.
− Foi uma coincidência – Ana sentenciou.
Brenda pareceu ter sido eletrocutada. Ela se levantou da mesa e anunciou:
− Eu vou embora.
Erick fez sinal de se levantar, mas sua amada interveio:
− Não Erick, eu preciso ficar sozinha, para pensar.
Brenda se levantou e saiu andando da lanchonete, ela pisou decidida na calçada da extensa avenida. Ela olhou para o formato em arco da mesma e suspirou. Começou andar sem olhar para trás.
− O que? – Erick desesperou – Ela não pode...
− Eu vou com ela – Ana acalmou Erick e se levantou seguindo-a.
Erick pareceu voltar toda sua fúria para Murilo. Ele avançou sobre o garoto querendo soca-lo, mas Nilton ficou entre eles. A confusão estava montada.
− Meninos, parem! – berrou Sâmea.
Uma brisa fria varreu a lanchonete fazendo Murilo parar e arfar:
− Merda! Eu não estou com uma sensação boa.
Na outra ponta um caminhão vermelho carregado de refrigerantes se aproximava rapidamente. Ana estava quase alcançando Brenda. Foi quando Murilo se lembrou da letra da música.
Ele berrou:
− Saiam daí! Esse caminhão está sem freio!
Todos da mesa se voltaram para a direção em que as garotas estavam, e obviamente elas não haviam ouvido o garoto. O caminhão estava numa velocidade muito alta. Brenda e Ana perceberam isso tarde demais. O caminhão ficou cara a cara com as garotas, bem na acentuação da curvatura da avenida, então o motorista perdeu o controle do caminhão.
As rodas do caminhão rasparam no meio-fio e com o tranco as portas da carga se abriram. Engradados com garrafas de vidro foram atirados contra as casas explodindo com a força com que eram atiradas. Um paredão de garrafas e refrigerante foi atirado contra as garotas. Ana Clara viu apenas quando estava cercada, a garota se abaixou e gritou.
Na sua frente montes de engradados atingiram Brenda em cheio esmagando-a. A rua se encheu de refrigerante amarronzado, mas o tom mais escuro formado pelo sangue da garota era indiscutível. Quando Ana encarou o acidente, viu apenas Brenda soterrada por engradados e garrafas. Ana gritou, mas de terror ao perceber que ela magicamente havia sido poupada.
Quando os outros finalmente chegaram era tarde demais. Erick começou a chorar e correu em direção ao que restara do corpo de sua namorada.
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