Premonição Chronicles 2
12 Capítulo 11: Um Adeus Fúnebre
Notas iniciais
Luzes sempre foram fenômenos adorados por Vanessa. Seja alguma joia brilhando, a lâmpada de um lustre ou o próprio astro rei, o Sol. A ruiva se lembra que desde pequena já se interessava por objetos luminosos. Certo dia, ela e sua mãe caminhavam em uma praia, aproveitando o belo dia com o céu limpo.
Vanessa ainda era uma garotinha inocente, com seus oito anos de idade, alguns meses antes do acidente que tirou a vida de sua mãe. Ela pulava para todo o lado, com os cabelos ruivos ao vento e às vezes lançando alguns grãos de areia para o alto. Sua mãe a seguia, em passos lentos, rindo das bagunças que a filha fazia.
Elisa Magalhães era uma mulher jovem e cheia de vida. Era linda, com um rosto de traços finos. Olhos claros combinavam com os cabelos ruivos e lisos, que caíam sutilmente sobre os ombros. Corpo totalmente proporcional. Não era de mais nem de menos. E claro, ela tinha charme. Inclusive, sabia bem o poder de seu sorriso encantador.
O caminhar de Elisa era gracioso, praticamente uma herança genética da setentrional família Magalhães. Na praia, trajava apenas um vestido azul claro, que balança com as brisas, e na mão carregava uma cadeira de praia. Quem via, jamais poderia indicar que aquela era a séria colunista da Revista Mali, um anagrama feito com o sobrenome do criador da mesma. Após mais alguns passos, Vanessa pegou um baldinho e uma pá de brinquedo, começando uma escavação na areia.
– Vou achar quatro diamantes e duas pérolas aqui. Espera só… — a menina resmungou consigo mesma, enquanto jogava areia para o lado, sem se dar conta que pérolas são encontradas nas ostras.
Vendo que a filha estava marcando território, Elisa desdobrou sua cadeira de praia e sentou-se, aproveitando a bela vista do mar. Sua felicidade e seus sorrisos eram motivados pela existência de Vanessa. E somente por ela. Mais cedo, naquele mesmo dia, Elisa passou no escritório de seu marido, o grande empresário Roberto Albuquerque. A mulher resolveu fazer uma surpresa para o homem, mas ela foi a surpreendida.
Ainda tinha nojo do que havia visto. Dois corpos desnudos em cima da mesa de trabalho. Aqueles movimentos. Os gemidos. As roupas no chão. Ser o chefe devia fazer os ouvidos e olhos dos funcionários ficarem fechados. Mas os de Elisa jamais se fechariam. Já sabia o que fazer. Teve os pensamentos cortados ao sentir a pequena mão da filha, ainda suja de areia, lhe tocar o braço.
– Mãe, mãe, mãe, olha o que eu achei! — disse empolgada. Areia caiu no vestido de Elisa, mas ela não se importou, apenas sorriu olhando para a menina, que trazia um pequeno objeto nas mãos.
Era um farol feito de metal, tinha 5 centímetros, mais ou menos. Na ponta, tinha uma pequena pedra brilhante, refletindo a luz do sol, e uma argolinha.
– Nossa filha, achei lindo. Um pequeno farol. – Elisa disse examinando o objeto.
– Farol? Para o que serve?- a pequena Vanessa disse arregalando os olhos verdes para o objeto.
– Bom, muitas vezes barcos navegam na escuridão da noite, Vane… – Elisa começou a explicar, passando os dedos pelo objeto — E os comandantes podem não enxergar o lugar onde se deve parar. Também existem pedras ou outros objetos no caminho. E sempre há alguém comandando o farol, lançando um feixe de luz e guiando os barcos perdidos. Assim eles sempre sabem para onde ir.
– Ah… — a garota colocou um dedo no queixo, refletindo sobre as palavras da mãe — Então é tipo quando eu quero ir ao banheiro a noite mas estou com medo do escuro e você me leva até lá?
Elisa riu da comparação da filha e concordou. Então, tirou pequeno cordão que usava como colar. Nele estava o anel de brilhantes que ganhou de seu pai na festa de quinze anos. Prendeu a argolinha do farol na corda e pronto, agora o objeto fazia parte de um belo colar.
– Quando você se sentir triste, lembre-se que eu sempre estarei contigo, não importa onde esteja, te guiando. – Elisa disse colocando o colar no pescoço da filha — Eu amo você, Vanessa.
A mãe então abraçou a filha, dando um beijo em sua testa e logo começou a fazer cócegas na barriga da pequena, que se contorcia rindo.
***
Agora, no presente, outra coisa iluminava Vanessa, que estava sentada em um divã vermelho. Era um dos aparelhos de iluminação no estúdio do programa de televisão chamado Mais Brasil, onde acontecia todo o tipo de coisa que se possa imaginar. Uma maquiadora terminava de passar mais maquiagem na socialite, que já estava irritada por manter tanto contato físico com alguém.
– Queridinha, precisa me maquiar tanto assim? — Vanessa disse rangendo os dentes e afastando a moça com tapinhas — Vai maquiar você mesma. Ver se consegue esconder essas espinhas que te fazem parecer um Chokito branco.
A maquiadora saiu correndo, visivelmente abalada. A ruiva arrumou seu vestido rosa decotado, que ela mesma escolheu. Um figurinista tentou colocar dezenas de vestidos nela, mas Vanessa quase os colocou em um lugar um tanto quanto apertado dele, que desistiu depois de várias ameaças da ruiva.
A apresentadora do programa, chamada Kátia Fernandes, já se preparava para começar o programa. Ela era uma mulher que abusava de maquiagem, laquê nos cabelos loiros, vestidos bregas e exóticos. Além de ter um sotaque carioca forçado. Ela começou a andar pelo estúdio, decorado com objetos coloridos, animando a platéia. Um assistente de produção gritou que o programa entraria no ar em 3, 2, 1…
– Bem-vindos ao Mais Brasil! – Kátia anunciou com um sorriso no rosto, arrastando todos os S possíveis como uma cobra sibilante — Para começar bem nosso programa, vamos comigo lá na cozinha aprender a fazer um bolo de baunilha e morango com cobertura de chocolate!
Vanessa ficou sentada no divã, esperando chegar a sua parte no programa, que seria em poucos minutos. Foi convidada por vários motivos. Primeiro, porque ela era maravilhosa, de acordo consigo mesma. Segundo, porque era uma personalidade da mídia muito influente e uma das sobreviventes da ilha. Já havia passado duas semanas desde o acidente, mas a imprensa ainda não havia tido um bom depoimento.
Achava o cúmulo ter que esperar. Podiam ter deixado ela em um camarim bebendo vodka ou tequila, mas um produtor disse que o espaço dela foi dado de última hora para uma funkeira feminista. Depois de alguns minutos observando o cozinheiro sueco quase explodir o fogão por causa de um bolo, Vanessa observou Kátia sair da cozinha e olhar para uma câmera.
– Bom, depois dessa delícia feita, está na hora da entrevista especial do dia. Com vocês, nossa lindinha e ruiva… — Vanessa retirou uma mecha de cabelo e sorriu, preparada para ouvir seu nome — …Serena Rabelo!
O telão se abriu e de lá saiu Serena Rabelo, uma das repórteres do programa, trajando uma vestido preto e branco. Andou pelo estúdio, acenando para a plateia. Tinha em suas mãos vários papéis. Ela havia sido escolhida para entrevistar Vanessa porque estava na ilha justamente no dia do acidente, tentando fazer uma matéria com algum famoso e rico. Era uma profissional competente que sabia muito bem conseguir a informação que queria, mas não era reconhecida. Ainda.
– Bom dia Kátia, bom dia Brasil. Há duas semanas, uma catástrofe bateu com toda sua força na nossa cara. Famílias desamparadas, desespero ecoando e cenas horríveis foram causadas por uma erupção. – ela falou primeiramente, se encaminhando para uma poltrona perto da socialite – Como as pessoas se sentiram nesse momento de desespero? Qual foi o sentimento primordial? Medo? Terror? Sentimento de fuga? É sobre isso que iremos falar com Vanessa Érika Albuquerque Magalhães de Oliveira, a socialite que foi uma das sobreviventes. Bom dia, Vanessa.
A ruiva estava em choque. Pensou que primeiro iria falar de festa e luxo. Talvez até mesmo sobre a Festa do Branco que iria promover na noite seguinte. Mas a entrevista começava com tragédia, então logo retirou o sorriso da cara e encarnou o papel de sofrimento.
– Bom... Bom dia não pode ser a palavra certa ao usar… — Vanessa disse fazendo uma cara de melancolia – Desde aquele maldito acidente, nenhum dia será bom.
– O que você sentiu ali, naquela hora, em que viu o desastre acontecendo?-Serena perguntou, cruzando as pernas formalmente.
– Ahn… primeiro me senti aterrorizada. Não é todo dia que você vê um vulcão explodindo… Espera, erupiando? Erupiçando? Enfim, entrando em erupção. – Vanessa falou, confusa – E pensa: “nossa, nessas horas eu devia estar em uma piscina em Saint Trope, tomando meus bons drinks”.
– Você estava lá por causa da organização Animal Rescue, certo?
– Ah sim, claro! Os biólogos dessa ONG são maravilhosos… — Vanessa comentou, pensando em Nina, Greg e Lana. Mesmo que esses dois últimos não fossem biólogos – Foi lindo o que fizeram. Um belo projeto primaveril em pleno outono…
“Nós estamos no verão, sua anta!” alguém da plateia gritou, mas foi ignorado.
– … Uma lástima ter sido prejudicado pelo incidente. – a socialite finalizou.
– Sabemos que sua vida é um tanto quanto trágica, então…
– Espera, espera, espera… -Vanessa interrompeu, colocando o dedo indicador na cara de Serena – Como assim “um tanto quanto trágica”?
Serena ficou pálida. Vanessa parecia ser uma leoa flexionando as patas para um ataque.
– Ahn… Bem, o trágico acidente que aconteceu com sua mãe e…
– Oh, céus. – Vanessa interrompeu novamente – Isso aconteceu há milênios atrás. Não sei porque você resolveu desenterrar agora. Achei que fosse jornalista, não arqueóloga.
De palidez, o rosto de Serena foi para vermelho. Estava com raiva e vergonha ao mesmo tempo.
– Tudo bem, vamos mudar de assunto então... – Serena disse, procurando em seus papéis algum assunto que não envolvesse assuntos de acidentes – Bom, a empresa de seu pai sofreu um grande abalo por causa da família Del Vale. É verdade que estão entrando em falência?
– Como é que é? – Vanessa arregalou os olhos, incrédula.
“Primeiro essa jornalista havia ousado tocar na memória da minha mãe. E agora, em meu dinheiro. Que absurdo!” Vanessa pensou, levantando do divã. A desgraça estava rondando sua vida há muito tempo. Mesmo tentando disfarçar com prazeres e dinheiro, sua mente ainda estava traumatizada. O acidente com sua mãe na infância. O distúrbio alimentar na adolescência. E agora, aquele maldito acidente na ilha. Sem falar na pior noite de sua vida, junto com Nina. São momentos que não deveriam ser falados em rede nacional. E nada poderia apagá-los de sua cabeça.
– Olha, Fátima Bernardes…
– É Kátia Fernandes. – a apresentadora corrigiu caminhando até as duas.
– Tanto faz. Eu me recuso a ficar aqui com esse tipo de pessoa – ela apontou para Serena – que fica comentando sobre assuntos inapropriados!
– Você assinou um contrato dizendo que iria responder sobre qualquer assunto! – Serena respondeu – E essas são as polêmicas da sua vida atualmente!
– Meu amor, eu assino muitas coisas. Contrato, cheques, autógrafos… — Vanessa gritou andando para fora do estúdio, mas um câmera acompanhava seus passos – E ah, sobre estar falindo… Querida, eu sou rica! Eu. Sou. Rica!
– Vanessa, fica calma… — a apresentadora se intrometeu.
– Calma? Você está pedindo para eu ter calma? – Vanessa se virou, nervosa.
– Você está vendo outra Vanessa aqui? – Serena reapareceu na cena, visivelmente irritada.
– Eu não sei, minha filha! – Vanessa gritou em resposta – Esse seu cabelo pintado com água de salsicha está ofuscando toda a minha visão!
Nesse momento, a discussão saiu do controle. Vanessa e Serena queriam bater uma na outra, então o programa foi para o intervalo.
***
Matheus estava sentado em um banco de ferro do lado de fora do estúdio, esperando Vanessa sair. Preferiu não assistir o programa, então ficou analisando alguns papéis amassados. Toda vez que alguém se aproximava, ele reprimia o corpo, a fim de esconder o conteúdo da papelada. Viu a socialite sair do estúdio e ir em sua direção, com passos pesados. O barulho do salto ecoava pelo corredor e sua cara era de puro ódio.
– Ih, deu merda… — Matheus comentou baixinho enquanto dobrava os papéis e guardava no bolso.
Esperava que Vanessa parasse ao seu lado e esbravejasse toda sua ira por algum motivo, como sempre fez, mas a ruiva apenas passou reto, indo em direção do estacionamento. Sinal que queria ir embora logo. O motorista não tinha muita escolha, a não ser seguí-la.
Já dentro do carro, a socialite encostou a cabeça no banco e fechou os olhos, relaxando. Estava descalça, com os saltos jogados em qualquer canto. Matheus sentou-se no seu costumeiro banco de motorista e olhou para Vanessa através do espelho retrovisor. Ainda estava calada e com os olhos fechados. Um verdadeiro recorde ela ficar uns cinco minutos de boca fechada.
– Está tudo bem…? – ele perguntou, com receio.
– Só quero ir embora. – Vanessa respondeu sem abrir os olhos – Tomar um banho, trocar de roupa e sair.
– Quer ir ao shopping? – Matheus tinha esperança que Vanessa voltasse ao normal. Desde todos os ocorridos na ilha até agora, ela estava mudando. Conversava com pessoas que não eram da alta classe social. Saía para lugares incomuns do seu cotidiano. Até bebia Skol.
– Não. Eu preciso ir ao cemitério… — Vanessa disse abrindo os olhos. Se inclinou para frente, abraçando o banco e passando a mão carinhosa no rosto do motorista.
– Ah… Vai visitar sua mãe…? – o motorista perguntou. Era praticamente uma tradição visitar o túmulo de sua mãe toda semana, mas sempre foi um assunto delicado.
– Também. Mas vou me despedir da mãe de outra pessoa. – Vanessa respondeu, encostando as costas no banco.
***
O Sol tornava o clima agradável, porém a aura pesada do cemitério estragava tudo. Os cabelos louros de Bella balançavam no ar enquanto ela andava, de braços cruzados e passos pesados. Felipe acompanhava a namorada, com o braço em torno de sua cintura, como se protegesse a garota.
Agora Bella tinha um novo ritual, que era visitar o túmulo da cantora Lis. Era um tradicional retângulo onde estava o corpo da cantora, tendo um obelisco ao estilo egípcio de dois metros, erguendo-se no meio. Na ponta, fotos da cantora sorriam para todos os lados. Várias flores, cartas, ursinhos e outros presentes haviam sido deixados ali por fãs, como lembranças de amor e carinho.
Para sua sorte, o local estava vazio. Ela se aproximou do túmulo e olhou para todos os detalhes que conseguia captar. Tudo o que foi deixado para Lis. As fotos da cantora com fãs. Bella ainda não conseguia ouvir suas músicas sem sentir um aperto no coração e uma tristeza na alma. Havia visto show de Natal em seu computador, até ele virar um show de horrores. Aquelas imagens não se apagavam da cabeça. E jamais se apagariam.
Felipe acompanhava em silêncio. Nunca perdeu um ídolo ou algo do tipo, mas apoiaria a namorada sempre que fosse necessário. Jamais havia visto a loira tão triste por tanto tempo, desde que o pequeno coelho Luís morreu. Ouviram alguns passos e logo um rapaz estava ao lado deles, com um buquê de rosas nas mãos. Ele depositou as flores no túmulo e ficou analisando-o.
– Você é Thomas, não é? – Bella perguntou sem entusiasmo – Eu te vi algumas em fotos ao lado da... Da Lis…
– É, sou o Thomas. – ele sorriu forçadamente, tentando parecer simpático, mas tinha tristeza no olhar.
Apesar do calor daquele dia, Thomas usava uma blusa com mangas compridas, junto com um jeans, tênis e algumas pulseiras de couro. Estava com a barba muito mal feita, com várias falhas em diversos lugares e o cabelo parecia não ver uma tesoura há bons tempos, desgranhado como um ninho de ratos.
Felipe disse que iria ao banheiro, deixando Bella e Thomas sozinhos. O clima ficou mais pesado do que já estava. O túmulo de Lis, seu melhor amigo e uma de suas maiores fãs. Ambos tinham um pedaço do coração naquele túmulo, enterrado com o corpo da cantora.
– Você acha que poderia ter sido evitado? Você sabe… — Thomas perguntou. A culpa consumia o jovem aos poucos. Se ele ficasse na mansão com Lis, teria conseguido salvá-la?
– Talvez. Eu… Eu não sei. – Bella escolhia cuidadosamente as palavras para usar – Acho que a morte não pode ser evitada. Quando a nossa hora chega…
– Entendo… Minha mãe jamais deixaria eu me… Eu morrer. – Thomas disse puxando as mangas da blusa, cobrindo as mãos – Mesmo que fosse minha hora.
Thomas riu secamente e Bella se sentiu confusa. Não sabia se aquele riso era de ironia ou divertimento.
– Aposto que você é uma das fãs da Lis, não é?
– Sou sim… — Bella respondeu em tom triste.
– Veio ao enterro dela? – Thomas perguntou, encarando Bella, que corou, desviando o olhar.
– Ah, não… Eu tinha que trabalhar. Quando consegui vir, já haviam enterrado o corpo…
– Então você não ganhou a medalhinha? – Thomas perguntou, mostrando uma corrente brilhante no pescoço. Pendurado, havia uma pequena moldura com uma foto. Na do rapaz, havia Lis ao seu lado – Essa é exclusiva minha, mas os fãs ganharam algumas com fotos da Lis. Lembrança de todo seu lindo estrelismo.
– Poxa, gostaria de ter ganhado. – Bella lamentou.
– Acho que ainda tenho uma aqui… — ele disse, vasculhando em seu bolso e retirando outro objeto – Aqui.
Thomas a entregou para Bella, que não admirou muito tempo o presente, guardando no bolso da calça.
– Obrigada! – Bella estava visivelmente alegre – Não sei nem como agradecer…
A conversa foi interrompida quando Bella sentiu uma mão em seu ombro e viu Felipe, que voltou do banheiro.
– Lavou as mãos? – Bella perguntou com um sorriso malicioso.
– Quase que não acho um banheiro nessa droga! – Felipe comentou – Quase que mijei no pé da escada da igreja. O que seria um pecado…
O casal ficou ali mais alguns minutos, até estar no horário da jovem ir trabalhar. Se despediram de Thomas e encaminharam à saída. Como última visão do cemitério, Bella viu um grupo de luto em baixo de uma árvore, enquanto enterrava duas pessoas, provavelmente um casal. Uma moça loira chorava desesperadamente sobre os caixões.
***
Andreia estava deitada, com os olhos fechados. No seu celular, dúzias de chamadas perdidas de Danilo. A jovem ignorava seu namorado o máximo que podia desde que voltaram da ilha. Natal juntos assistindo Era do Gelo Especial de Natal? Não mesmo. Ano novo vestindo branco enquanto bebiam até cair? Jamais. A estudante de psicologia tinha passado sozinha em seu quarto, vestindo preto e fumando, enquanto ouvia My Chemical Romance.
Seu pai e o resto de sua família sempre falaram que ela tinha um parafuso a menos. Mas se auto surpreendeu com o acidente na ilha. Como confiou sua vida, que quase perdeu, para um plano maluco do namorado? Quando estava tão drogada a ponto de começar a ver doendes, recebeu a centésima quarta chamada de Danilo. Resolveu atender.
– Já falei para você me dar um tempo! – ela gritou.
– Alô para você também. – Danilo debochou do outro lado da linha – Gatinha, eu já te disse…
– Eu não quero saber do que você me disse ou não me disse! – a jovem interrompeu, brava andando pelo quarto – As suas próximas palavras podem me levar à um lugar que me mate.
– E como eu ia saber que o vulcão ia entrar em erupção?!
– O problema não é esse, Danilo! Você não enxerga? – os olhos de Andreia marejaram – Você é o tipo de cara que não vai me levar à lugar algum, que não seja o fundo do poço…
A respiração de Danilo ficou pesada. Sua voz começou a sair para uma resposta, mas Andreia interrompeu novamente.
– Não me liga mais… E também não me procura. – ela desligou.
Andreia jogou o celular na cama, que deu algumas cambalhotas até cair no chão. Começou a socar a parede, libertando toda sua ira. Amava Danilo, mesmo com as constantes brigas, porém ele era o tipo de cara que atraía confusões. Hoje poderia ser pego por seguranças ao roubar, amanhã poderia ser briga com gangues. A estudante de psicologia nunca foi do tipo que pensava na vida ou no amanhã…
… Até sofrer o acidente na ilha.
Com certeza, no futuro, acharia algum cara sedutor e que fosse melhor para ela. Danilo não era único no mundo. Um psicólogo chamado Robert Stenberg definiu uma vez que o amor era baseado em três componentes. Um deles era a intimidade, que envolvia confiança e convivência mútua. Então, se Andreia não convivesse mais com Danilo, poderia matar esse amor, afogado pela solidão. Mas esses pensamentos não impediram que ela deslizasse da parede até o chão, sentando no canto do quarto, em um choro amargo.
***
As lágrimas de Nina serpenteavam pelo caixão de madeira, enquanto estava de bruços sobre o mesmo, que continha o corpo de sua mãe. Suas unhas não estavam pintadas e algumas até mal cortadas. Seus olhos possuíam olheiras enormes, resultado das noites mal dormidas. Estava totalmente acabada e isso era visto por várias pessoas em sua volta, mas ela não ligava. Queria que tudo isso fosse um pesadelo e que acordasse em instantes, mas não acordaria. Aquele sentimento de perda voltou e a bióloga o reconhecia bem. Era a mesma dor que sentiu quando sua irmã faleceu, há alguns meses.
No pequeno grupo de pessoas, havia alguns tios que vieram do interior, colegas de trabalho e alguns amigos. Se destacavam Ícaro, Eva, Greg e Lana. A última carregava Sidney com carinho. A pequena chinchila parecia sentir a dor da dona, pois estava escolhida nos braços da mulher.
Lana deitou a cabeça no ombro de Greg, quando uma sombra a cobriu. Olhou para o lado e viu Vanessa chegar, com um pequeno guarda-chuva protegendo-a do calor. Olhava com ternura para Nina, provavelmente repassando em sua cabeça as cenas horríveis daquela noite. O cabelo ruivo estava preso, deixando o seu rosto a mostra, quase sem maquiagem. As mãos com luvas pretas feitas de seda seguravam delicadamente o guarda-chuva, como se fosse uma granada. Lana passou delicadamente o braço em torno da socialite, que aceitou o abraço.
– Soube que ela está na casa de vocês… — Vanessa comentou, enquanto tirava seu vestido da boca de Sidney, que queria roer o tecido.
– Sim. Normalmente ficaria na casa de Ícaro, mas os pais dele são um certo problema… — Lana respondeu – E você, como está com tudo isso?
– Estou melhorando. Mas na verdade, me preocupo com a Nina. – Vanessa respondeu desviando o olhar para a bióloga – Sabe, tudo o que aconteceu… E ainda perder os pais.
Não sabia se Greg e Lana já haviam sofrido por isso, mas Vanessa reconhecia o que Nina sentia. Perdeu brutalmente a mãe na infância. E não importa se é uma criança ou um adulto, a dor sempre será a mesma. O seu pai poderia não ser um dos melhores, mas era a única família que restava.
– Ela está péssima… — Lana comentou – Não consegue dormir direito, passa noites em claro. E quando consegue pregar o olho, acorda aos gritos porque teve pesadelos.
– Coisas ruins acontecem com pessoas boas… — Vanessa comentou baixinho. Quase ninguém ouviu.
O sofrimento de Nina se prolongou até o final do enterro, quando Ícaro a envolveu em um abraço protetor enquanto os caixões desciam para as covas, lado a lado. Vanessa conhecia muito bem uma música que falava sobre perda de entes queridos. Bye Bye, da Mariah Carey.
I remember when you use to tuck me in at night
Or the teddy bear you give me I held so tight
I thought you were so strong,
You make it through whatever
Its so hard to accept the fact you gone forever
A terra começou a ser jogada. Nina parecia que nunca pararia de chorar. Vanessa preferiu não ver o rosto da amiga, ou acabaria chorando também. Odiava ver as pessoas amadas sofrendo. Preferiu olhar para as pás que jogavam terra, em um momento hipnótico.
I never knew I can hurt like this
And everyday life goes on like this
I wish I can talk to you for a while
I miss you but I try not to wish
As time goes by
And I'm sure you reached a better place
And I'd still give
The world is in your face
Me right here, next to you
Em alguns minutos, os corpos dos pais de Nina já estavam totalmente enterrados, mas as lembranças ficariam para sempre no coração da bióloga. Lágrimas ainda escorregavam pelo seu rosto angelical.
But it's like your gone too soon
Now the hardest thing to do is say
Bye, bye-bye
Bye-bye
Bye-bye bye-bye bye-bye
***
Vanessa, Greg e Lana, com Sidney nos braços, se encaminhavam para a saída.
– Gostaria de poder ficar, mas tenho que ir para casa terminar de organizar a Festa do Branco de amanhã. – Vanessa disse, se virando para os amigos.
– Obrigado pelo convite. – Greg debochou – Vai ter Skol?
– Greg! – Lana censurou com um sorriso no rosto.
– Eu adoraria convidar vocês, mas não quero deixar que a Nina fique sozinha. Sabe, ela não precisa de babá, mas no estado em que está, não quero que faça alguma besteira. – Vanessa se desculpou – Mas caso consigam aparecer por lá, são mais que bem-vindos!
Sidney balançou a cauda, agitada.
– E claro, você também, Sidney. – Vanessa sorriu para o roedor. Retirou uma pequena folha da árvore e deu para o animal – Não vai contar para a Nina que estou te dando folhas fora da sua dieta! – a chinchila balançou a cabeça, como se concordasse, e pegou a folha, roendo em poucos segundos.
Vanessa iria se despedir do casal e iria embora, quando viu Nina debaixo da árvore, sozinha e olhando para ela. Resolveu ir até lá. Não havia conversado direito com a bióloga desde a terrível noite. Em parte, sentia-se culpada. Talvez se não tivesse seduzido a loira e não tirasse sua roupa, tudo poderia ter ficado bem. Ou não, quem poderá dizer.
– Oi. – Vanessa cumprimentou – Pensei em te ligar mas… resolvi deixar você descansando.
– Entendo… — Nina respondeu com a voz fraca. Havia parado de chorar, mas ainda trazia armagura no seu rosto – Soube que você pagou alguns amigos jornalistas para deixar o caso longe do olhar da mídia. Obrigada…
– Imagina… Não poderia deixar que abussasem em cima de uma tragédia. – Vanessa disse e pensou sobre a briga no programa, horas mais cedo – E provavelmente a minha imagem em outra história vai encobrir isso.
Vanessa nunca foi de controlar as palavras. Sempre dizia o que vinha a cabeça, mas naquele momento, escolhia cuidadosamente o que falaria. Não queria dizer uma bobagem – muito comum nela – e acabar magoando Nina. Então, resolveu pedir aquilo que sentia.
– Posso te dar um abraço?
Nina soltou um pequeno sorriso simples, que se foi mais rápido do que veio. Só então Vanessa percebeu que havia soado um pouco boba, como uma criança pedindo colo.
– É claro que você pode… — Nina respondeu, abrindo os braços.
Vanessa largou seu guarda-chuva na grama e abraçou a bíologa. Encaixou sua cabeça no ombro de Nina, que fez o mesmo. Se completaram. Ambas ouviam o coração uma da outra. Depois de algum tempo, o abraço se desfez, com a chegada de Ícaro, que envolveu a namorada em um abraço.
– Olá. – ele cumprimentou secamente Vanessa.
– Oi! – a socialite respondeu, pegando seu guarda-chuva caído – Bom Nina, vou indo. Depois a gente se fala.
Nina se despediu e Vanessa saiu, acenando para o homem e dando uma piscadinha para a bíologa. A ruiva olhou uma última vez para trás, vendo o casal abraçado. Ícaro a encarava seriamente.
***
Vanessa chegou na mansão quando já estava anoitecendo. Duas empregadas estavam penduradas no telhado, tentando prender três pombas brancas em gaiolas. O mordomo estava caído na escada da entrada, derrubado por um pônei, que corria alegremente pelo jardim.
– Mas que merda…? – Vanessa saiu do carro apressadamente.
Desviou de dois cocôs de pombas e do pônei, entrando na mansão. Se dirigiu ao salão de festas, onde uma dúzia de empregadas montava a decoração para a festa, cheia de brilhos e tecidos dourados.
– Olá, rebanho de jumentas. – Vanessa gritou. Sua voz ecoou pelo salão – Alguém pode me dizer porque tem três pombas e duas vacas, vulgo colegas de vocês, no telhado? E também um pônei correndo pelo jardim?
– O entregador do zoológico deixou todos os animais que a senhora pediu, mas os cadeados das jaulas estavam mal fechados e alguns animais fugiram… — uma empregada gordinha, que estava pendurada com vários enfeites na escada que levava ao segundo andar, respondeu com medo na voz.
Vanessa iria esbravejar e mandar todas para o inferno, quando viu pela janela, alguns cisnes boiando na piscina.
– Tem cisnes na minha piscina…?
– Senhora Vanessa, a gente tentou tirar mas…
– Isso é maravilhoso! – a socialite concluiu – Tão exótico e refinado ao mesmo tempo! Se aqueles cisnes saírem da piscina, coloquem eles de volta nem que sejam empalhados!
– Sim, senhora! – todas as empregadas responderam ao mesmo tempo.
A ruiva saiu do salão, indo para a sala de estar, onde sentou-se na poltrona, largando a bolsa e o guarda-chuva na mesa de centro. Precisava retirar aquele vestido de luto do corpo. Iria subir para seu quarto, quando duas empregadas apareceram em sua frente, cada uma segurando uma pequena gaiola.
– Ai, que susto, exús da encruzilhada! – Vanessa gritou, colocando a mão no peito.
– Desculpe, senhora. – uma das serviçais respondeu – Eu e a Kethlyn achamos a cobra e o porquinho-da-índia!
– Isso mesmo. – a outra empregada, que devia ser a Kethlyn, concordou, levantando a gaiolinha que segurava, com o pequeno roedor dentro – Eu fui ao banheiro aliviar minha prisão de ventre e esse bichinho estava na privada…
– Desse a descarga! – Vanessa esbravejou. Então se aproximou da gaiola onde tinha uma serpente verde enrolada – E essa gracinha, onde estava? No banheiro também, enquanto você trocava o absorvente interno?
– Não, senhora – a outra serviçal respondeu – Ela estava na sua cama…
– Oh, que meigo… — Vanessa disse fazendo biquinho – Talvez eu até fique com você! Batman Jade vai te adorar! Já tenho até um nome: Joana Cleópatra! Agora levem eles daqui! – a ruiva começou a subir a escada para o quarto — Dê alguma comida para o porquinho-da-índia e um banho. Não de água sanitária, a propósito…
– E eu, o que faço com a cobra? – a empregada perguntou, interrompendo a subida da socialite na metade da escada.
– Enfia ela no seu… Enfia um lacinho verde nela. – Vanessa respondeu, voltando a subir para o quarto – E arrumem o meu mini zoológico no quintal dos fundos!
Chegando no cômodo, avistou Batman Jade rolando pelo tapete, com um novelo de lã colorida nas patas. O gato preto não deu atenção para a chegada da dona, continuando sua brincadeira. Vanessa fechou a porta do quarto e começou a tirar seu vestido. Não estava com sutiã, resultando em ficar apenas de calcinha.
Parou em frente a um espelho, analisando seu corpo. Anos atrás, havia sofrido com problemas de auto estima. Após a morte da mãe, o relacionamento com seu pai foi se tornando cada vez mais distante, até restar apenas uma pequena faísca. Ela queria a atenção de seu pai. Queria sua aprovação. Começou a achar que estava começando a ficar gorda, então vomitava, propositalmente. Chegou a pesar trinta quilos com treze anos. Quanto o problema chegou em seu ápice, ficou uma semana e meia internada, com soro na veia. O tratamento para se recuperar durou um longo e sofrível tempo. Hoje em dia, não lutava mais pela aprovação de seu pai. Desviava a atenção para festas, viagens e sexo. Muito sexo.
A porta se abriu rapidamente e Vanessa não se preocupou em esconder o corpo, até porque já sabia quem era: Matheus.
– Opa, cheguei na hora certa… — o motorista disse em tom malicioso olhando o corpo desnudo da ruiva.
– Chegou mesmo… — Vanessa sorriu, despretensiosa, enquanto procurava uma roupa no seu closet — …Preciso que você vá até a joalheria no centro da cidade e pegue algo que encomendei. Está no meu nome.
– E o que eu ganho por isso…?
– Acho que um bom salário já é suficiente. – Vanessa debochou, saindo do closet com um pijama de linho.
Matheus se aproximou da ruiva. As mãos deslizaram pelas coxas. As costas dela encostaram-se em seu peito. A boca dele estava ao lado do ouvido da ruiva.
– Você sabe o que eu quero… — ele sussurrou.
Vanessa se virou, empurrando-o para uma poltrona que estava perto. A socialite folgou a gravata e abriu alguns botões da camisa. Suas mãos delicadas deslizaram pelos ombros do motorista. Então sentou-se na perna dele, enquanto uma de suas mãos deslizava pela perna livre de Matheus, até chegar em seu volume provocado pelo membro duro e nada discreto.
– Sempre disse que você era rapidinho… — a ruiva cochichou em seu ouvido.
A socialite deixou sua coluna ereta, fazendo seus peitos ficarem na altura do motorista. Ele olhou para Vanessa, que sorria maliciosamente. Logo, se inclinou, dando beijos e chupões no pescoço dela, e descendo cada vez mais, até chegar em seus peitos, fazendo ela gemer baixinho.
– Matheus… — ela chamou, entre um gemido e outro.
– Fala… — ele respondeu, sem desgrudar sua boca do corpo dela e abrindo o zíper da calça.
– …vai buscar logo o que eu pedi. – ela completou a frase, saltando da perna do motorista e se encaminhando ao banheiro – Vou tomar um demorado banho de rosas. E quando voltar, quero embrulhado em cima da minha cama.
E a porta do banheiro se fechou, deixando Matheus excitado e deprimido.
***
Na foto do colar de Bella, a cantora Lis estava sentada em uma poltrona, com um microfone na mão e um copo de whisky, cheio de gelo, na outra. Enquanto isso no mercado, Bella estava sentada em um cadeira de madeira, com o celular na mão e uma garrafa de água quente na outra.
Tentava achar o perfil de Thomas no Facebook, pois sem querer ele havia deixado um anel junto com ela, quando lhe deu o colar. Na parte de dentro, estava escrito em letra de forma: Lis. Provavelmente era alguma lembrança ou algo do tipo. Não que fosse da conta de Bella.
Após meia hora de procura, achou o perfil, que estava desatualizado. A última publicação foi uma foto postada no natal. Thomas estava ao lado de Lis, ambos sorrindo espontaneamente. Pareciam felizes juntos. “E deveriam ser”, Bella pensou. Resolveu se desprender do passado e mandou uma mensagem para o rapaz: “Olá, sou a Bella. Hoje mais cedo você me deu um colar que os fãs receberam no enterro da Lis. Mas acabou me dando um anel junto, que provavelmente é seu…” e completou dando informações de sua localização e perguntou se poderia ir ainda hoje.
Tudo isso foi feito longe dos olhos da patroa de Bella, que arrancaria sua pele se a visse com um aparelho eletrônico na mão. Largou o celular no canto assim que viu uma cliente chegar em seu caixa. O movimento no estabelecimento estava fraco naquele dia, então agradeceu silenciosamente.
– Boa noite. – sorriu simpaticamente.
– Boa noite. – a mulher, que estava acompanhada de uma criança, respondeu. Tinha um rosto simpático, acompanhado por um cabelo curto e negro.
Bella começou a passar os produtos da mulher. Algumas laranjas, um salmão, tempero japonês, iogurte da marca Danone, desodorante…
– Mãe, mãe! – a garotinha com traços orientais chamou alegremente, trazendo em suas mãos uma embalagem de balas – Compra pra mim?
– Por que não? – a mãe sorriu, entregando a embalagem para Bella.
Bella observou o pacote, que possuía um desenho das duas princesas do filme Frozen.
– Você gosta desse filme? – Bella perguntou simpatica.
– Sim! Principalmente quando a Anna é congelada e fica parada igual uma estátua… — a garota contou.
– Pois eu prefiro finais felizes. – Bella riu, finalizando a compra.
– Ah, mas nem sempre todo mundo fica feliz… — a criança respondeu, desfazendo o sorriso.
Bella achou aquele tipo de comentário estranho e olhou para a mãe da garotinha no exato momento que ela teve uma tontura, se apoiando no carrinho de compras.
– Está tudo bem com a senhora…? – Bella se inclinou para chegar mais perto da muher.
– Estou… Foi só uma tontura, já passou. – a mulher respondeu, voltando ao seu estado normal.
A mulher parcelou a compra com seu cartão de crédito, em quatro vezes sem juros, e saiu de mãos dadas com a filha. Bella ficou olhando, quase que hipnoticamente, até a mãe e a garota sumirem de vista. Uma sensação parecia ter ficado com a loira.
Seu olhar hipnótico se desfez quando sua patroa chegou, proporcionado-lhe um susto. A senhora estava agitada e nervosa.
– Bella, você é a melhor funcionária! – ela elogiou – E precisa me ajudar!
“Me fudi!”, Bella pensou.
– Diga…
– Minha irmã está parindo nesse exato momento! Preciso ir para o hospital agora e não sei quando vou voltar. Fica com minha chave e fecha todo o mercado? Por favor…?
“É, eu me fudi mesmo!”, Bella concluiu.
– Ah… claro… — respondeu sem entusiasmo.
– Ótimo! – ela respondeu, jogando um molho de chaves para Bella e sumindo em uma velocidade impressionante.
O expediente de Bella terminaria em trinta minutos, mas o mercado só fecharia em duas e meia. E ela apoiou a cabeça nas mãos, sentindo o tédio invadir seu corpo.
***
Apesar de não ter passado das dez horas da noite, Nina já dormia. Talvez tenha sido o chá de hortelã que Lana havia feito, mas ela não queria se gabar. Deu uma última olhada na amiga, antes de encontrar Greg no quarto, mexendo na câmera.
– Vai gravar um vlog? – ela perguntou, parando na porta.
– Não… Estava pensando em gravar uma sextape. – Greg respondeu – Ou talvez um filme pornô, onde você e eu somos os protagonistas.
Lana riu.
– O que foi? Eu estou falando sério! Podemos ser Lana Banana e Greg Bengala.
– Você só esqueceu que eu não tenho uma banana…
– …Mas eu tenho uma bengala.
– Você vai dizer sobre isso no vídeo? – Lana perguntou, apontando para a câmera, que já estava montada em um tripé.
– Não mesmo. – Greg confessou com uma risada – Talvez eu filme a festa da ruiva, para mostrar o quanto somos populares e…
– Espera, Greg… A Nina não pode ir com a gente. – Lana relembrou – Não quero estragar a memória dos pais dela arrastando a pobre coitada pra uma festa.
– Isso não é estragar a memória. – Greg disse, tirando a camiseta suada e colocando outra – É impedir que a Nina afunde em um poço eterno da depressão.
Lana ia protestar, quando três bichos passaram atrás dela, correndo. Ela se virou e gritou:
– Pussy! Dick! Eu já falei que a Sidney é uma amiga de vocês, não uma bola peluda de brinquedo!
E a mulher de cabelos azuis saiu correndo do quarto, enquanto Greg ria da situação. Ele então tomou o último gole da sua cerveja e apertou o botão da câmera para iniciar a gravação.
– Eaê, galera do capiroto! – Greg sorriu para a câmera – Sim, eu sei que vocês estão com saudades do garotão aqui e que posso dar algumas explicações, mas tenho uma história muito louca para contar…
***
Anna Clara estava agradecendo que os trovões não acordaram sua filha. Anna Bella dormia como um anjo em seu quarto. As nuvens negras se aproximavam e parecia ser uma forte tempestade. Ela olhava para a janela do quarto, observando o tempo. Havia tentado dormir, mas um pesadelo a acordou. Sonhou que estava presa em uma caverna de gelo, com correntes prendendo seus pulsos e suas pernas. Gritava por ajuda, mas quanto mais tentava, mais frio o local ficava.
Preferiu passar um tempo acordada, pensando na vida. Desde que deixou a ilha, aquele velho sentimento a acompanhava. Ela sentia que algo estava errado. Não sabia dizer exatamente o que era. Era como sair de casa e esquecer o fogão ligado. Você sentia que algo estava errado mas não se lembra o que seria. Uma brisa gelada a fez arrepiar, cobrindo-se com um fino roupão por cima da camisola lilás.
– Você não vai voltar para a cama? – ouviu uma voz perguntar. Se virou e viu Shinji vestindo apenas uma samba canção.
– Só estava pensando algumas coisas aqui. Eu já vou voltar.
– Volta agora… — Shinji pediu com a voz doce, porém cheia de malícia.
– Shin…
Anna Clara não terminou a frase, pois Shinji a puxou pela cintura e lhe deu um longo beijo. As mãos dela apoiadas no peito do homem, que percorria as mãos pelas costas da mulher. Em poucos segundos, o roupão caiu no chão. O beijo terminou e eles se olharam. O japonês sorria maliciosamente.
– Não quero trazer más lembranças nem cobrar… — Shinji disse – Mas você está devendo algo que me prometeu no navio…
Dessa vez, foi Anna que avançou para outro beijo. Ela podia dar a desculpa que não estava com cabeça para isso. O que não seria mentira. Mas talvez uma ótima transa com o bom e velho Shinji tiraria aquela sensação agourenta. E com esse pensamento, a aeromoça retirou a samba canção dele, largando a peça no chão. Empurrou o homem na cama, que caiu deitado. Seu membro estava começando a ficar ereto quando ela tirou a camisola e deitou na cama.
***
Depois de tentar ouvir o quarto CD da Lis, – o seu preferido – começar a chorar, desistir e ouvir um dos CDs da Lady Gaga, finalmente o tempo passou para Bella. Todos os funcionários haviam ido embora e ela estava sozinha no mercado. Já havia ficado sozinhas algumas vezes e fechado tudo. Não haveria problemas.
Além da tempestade que estava caindo do lado de fora.
Raios cortavam o céu e a chuva caía rapidamente. Bella decidiu que iria pegar algum guarda-chuva que se vendia ali e iria para casa no meio da tempestade. Tinha certeza que nada daria errado em poucos metros do mercado até em casa. Thomas ainda não havia aparecido e ela não iria ficar esperando.
Deixou as portas quase fechadas e se dirigiu à prateleira perto do último caixa, onde estavam vários guarda-chuvas, de várias cores e tamanhos. Escolheu um cor-de-rosa com flores amarelas e encaminhou para a saída. Estava quase passando pelas portas e fechando-as, quando ouviu um barulho atrás de uma prateleira. Algo havia caído.
– Thomas? – ela perguntou. A voz ecoou pelo estabelecimento – Thomas, é você?
Bella largou o guarda-chuva e se encaminhou para onde havia ouvido o barulho. Um trovão retumbou e metade das luzes se apagou. Ela se assustou, soltando um grito. Voltou para seu caixa e pegou uma lanterna que guardava em baixo da cadeira, em caso de emergência. O feixe de luz poderia não vencer toda a escuridão no local, mas servia.
– Thomas, por favor, responde… Felipe, é você tentando me assustar? Não tem graça! – Bella gritou. Ela sabia que o namorado adorava pregar peças na garota.
A loira seguiu reto, até a parte onde ficavam as geladeiras com refrigerantes, sorvetes e sucos, entre outras bebidas. Chegando lá, descobriu o que gerou o barulho: um refri havia caído de uma geladeira aberta e estourado no chão, formando uma poça no chão liso.
– Ah, não! Qual é?! – ela reclamou em voz alta – Eu que não vou limpar isso. Vou dizer que foi culpa da chuva.
Bella deu meia volta e iria à saída, quando avistou pedaços de carne jogados em um dos balcões da parte do açougue. Poderia ignorar o refrigerante, mas se deixasse as carnes fora do frigorífico, poderiam estragar e isso seria muito ruim.
Aproximou-se do açougue. Era uma área de poucos metros quadrados, feita com azulejos brancos. Havia dois balcões, ambos com esteiras, como em um caixa. Um balcão tinha uma balança enquanto o outro, um triturador de ossos e algumas facas com lâminas retangulares. As carnes estavam jogadas na esteira perto do triturador de ossos. A porta do frigorífico estava aberta, onde poderia-se ver pedaços de carnes penduradas em ganchos, por um amplo espaço.
Bella pegou um pequeno saco plástico onde colocou os pedaços de carne. Abriu a porta do frigorífico e entrou, sem se certificar de colocar um peso para a porta não fechar. O ambiente estava frio, obviamente. Era inteiramente branco, como um quarto hospitalar. O cheiro, o que também era óbvio, fedia a carne congelada. Alguns ganchos estavam livres e outros presos a correntes, caídos no chão.
A loira olhou em volta no local. Nada era muito especial ou atrativo, então resolveu ir logo embora. Se virou no exato momento em que a porta começou a se fechar.
– Não! – ela gritou com desespero.
Correu em direção à saída, mas era tarde demais. A porta já estava fechada. Tentou empurrar com toda sua força, mas foi feita para abrir apenas por fora. Olhou por um pequeno pedaço de vidro que tinha na parte superior da porta. Tudo estava escuro.
– Socorro! – Bella gritou dando socos na porta – Alguém me tira daqui! Me ajuda!
Se arrependeu por não estar com uma blusa, pois o frio começava a dominá-la. Nos primeiros minutos presa no frigorífico, tentou se aquecer com a lanterna. Era muito pouco eficaz, mas era alguma coisa. Esfregava as mãos entre si e no corpo, evitando ficar parada. Mais alguns minutos depois e a lanterna começou a piscar.
– Ah não, por favor… Não, não, não… — ela choramingou, mas era tarde demais. A lantera piscou mais duas vezes e se apagou – Sabia que deveria ter trocado as pilhas!
Já estava perdendo as esperanças e preparando o testamento, quando uma ideia passou pela sua cabeça.
– Eu sou uma burra! — Bella auto se xingou ao lembrar do celular em seu bolso.
Retirou o aparelho celular e para sua decepção, estava sem sinal. Quase o jogou no chão em um momento de raiva, mas segurou o impulso. A bateria estava em 99% e a loira precisava se aquecer para não acabar morrendo congelada. Abriu o aplicativo de músicas, escolheu sua playlist favorita e o deixou parado em um canto. Seu corpo precisava de calor, então decidiu dançar.
A jovem dançava pelo lugar, enquanto a playlist tocava Katy Perry, Lady Gaga, Beyoncé e muitas outras cantoras. Até chegar em uma música da Lis. Bella parou como uma estátua, recebendo em seus ouvidos a melodia da canção. Fechou os olhos, como sempre fazia ao ouvir a voz de sua ídola. Concentrava-se para não chorar, sendo que derramava lágrimas desde a trágica noite natalina a cada nota escutada.
You froze my heart
Later, make it fall apart
Your knife hit my back
Gives me bad luck like a black cat
Ainda com os olhos fechados, Bella dançava lentamente, mexendo os quadris. Sua pele, que antes era branca como porcelana, agora estava rosada por conta da baixa temperatura. Estranhamente, o frio parecia aumentar a cada minuto. Logo, a loira estaria tremendo sem conseguir se esquentar. E com queimaduras pelo corpo devido a extrema exposição ao frio.
Iria gritar até não aguentar mais, quando acabou errando um passo na dança, pisando em falso e batendo em várias carnes congeladas. Para evitar que caísse, cravou as unhas em um grande pedaço que estava pendurado em um gancho. Mas ela não contava que o alimento estivesse mais duro do que deveria. Três unhas de uma mão se quebraram ao meio, trazendo sangue para as pontas dos seus dedos.
Cambaleou para trás, gritando com a dor e deixando uma trilha de pontinhos vermelhos feitos do sangue que pingava dos dedos. Pensava que não havia sentido tanta dor em toda sua vida, até escorregar mais uma vez e acabar pisando em um dos ganchos que estava caído no chão. Um grito de puro horror saiu de suas cordas vocais, ecoando pelo local.
Olhou para baixo e percebeu que o gancho não havia entrado exatamente no pé, e sim no seu tornozelo. O que não diminuía a dor. Abaixou o tronco, e com a mão que não estava machucada, tentou puxar o gancho para fora, mas não tinha força o bastante.
– Tem alguém aí…? – uma voz masculina e distante perguntou.
– Aqui! Eu estou aqui! – Bella gritou, mas foi abafada pelo som do celular, que agora tocava, ironicamente, Let It Go.
Em um ato desesperado, tentou andar até a porta para pedir socorro. A perna com o gancho era arrastada, pois não tinha equilibrio nem força para andar normalmente. Devia ter ficado parada, pois sua perna vacilou no piso escorregadio, fazendo-a tombar para a esquerda. Seu ombro bateu em um pedaço de carne com um discreto crec! e rebateu o corpo de Bella para o lado, onde outro gancho, dessa vez pendurado, perfurou o mesmo ombro, saindo do outro lado. O ferro que estava bem polido, agora brilhava com uma cor avermelhada.
Bella gritava com extrema dor. Estava tecnicamente pendurada, com apenas as pontas dos pés encostando no chão. Continuou gritando até não aguentar mais e desabar em choro. Lágrimas percorriam suas bochechas rosadas e pingavam no chão, misturando-se com sangue, que também pingava dos dedos, ombro ou tornozelo.
O frio intenso dava à loira uma vontade de tremer, mas a cada movimento os ganchos penetravam mais a fundo, provocando dor extrema. Seus braços estavam largados junto ao corpo e ela já estava aceitando a morte, por frio ou por hemorragia, quando ouviu um barulho metálico. A porta do frigorífico se abriu e Thomas apareceu na abertura. O estado de Bella devia ser horrível pela cara que o rapaz fez.
Thomas rapidamente se certificou de colocar um peso para a porta não se fechar e andou apressadamente até Bella, que estava quase inconsciente. Tocou em um dos braços dela e o sentiu extremamente gélido.
– Eu já chamei uma ambulância! – ele avisou – Agora preciso que seja forte para o que vou fazer…
– O que… — ela iria perguntar com a voz fraca e os olhos quase fechados.
A resposta veio logo em seguida. Segurou a perna machucada de Bella e puxou com força, mas também com cuidado, o gancho ensanguentado, recebendo um grito dela. O buraco na perna da loira não era grande, mas estava feio. Sangue escorria para todos os lados possíveis. Thomas retirou sua blusa, ficando apenas com uma camiseta preta, e rasgou uma das mangas, amarrando no tornozelo da garota.
– Tudo bem… Agora você precisa ser forte para eu te tirar aí de cima… -Thomas avisou. Não restou muitas opções para Bella a não ser concordar com a cabeça – Coloca os braços em torno do meu pescoço. Então eu vou contar até três e vou puxar.
Bella concordou, colocando os braços em torno do pescoço de Thomas.
– Lá vai… Um… Do... – e Thomas puxou Bella para si, tirando o gancho do seu ombro.
A loira achou que não conseguia gritar mais do que já tinha conseguido, mas seu urro de dor ecoou por todo o mercado. Thomas então estendeu o resto da blusa para Bella tampar o ferimento no ombro, que era quase tão feio quanto o do tornozelo.
O rapaz deixou Bella sentada em um banco perto do açouque, enquanto procurava em algumas gavetas em um dos balcões, algo que servisse melhor como atadura do que sua blusa rasgada. Sem perceber, Thomas acabou batendo com a cabeça em alguns botões que havia perto das gavetas. Logo as esteiras começaram a funcionar, assim a balança e o triturador de ossos foram ligados.
Bella, quase inconsciente, não conseguiu avisar Thomas do que ele tinha feito. O rapaz se levantou com alguns panos brancos nas mãos e tentou correr apressado para cuidar da garota, resultando em um escorregão. Caiu deitado na esteira, que o arrastou para perto do triturador de ossos. A parte de trás da corrente no pescoço dele se soltou, sendo arrastada pela esteira.
A peça de metal começou a apertar o pescoço do rapaz, que tentava se livrar da corrente. Marcas avermelhadas começavam a se formar nas regiões apertadas. Thomas tentava estourar a corrente ou seria enforcado. Assim como Lis. Finalmente, a parte da frente da corrente se soltou e ele tentou fugir desesperadamente, mas esqueceu que a esteira ainda estava ligada, arrastando-o para mais perto do triturador de ossos. A região perto da nuca rapidamente entrou em contato com as lâminas do triturador, sendo destroçada brutalmente. Sangue e pedaços de carne espalharam-se para todos os lados.
Bella levantou-se para tentar socorrê-lo, mas caiu no chão sem forças. Sua visão estava turva. O corpo de Thomas tombou para o lado. A parte de trás de seu pescoço havia sido destruída e agora podia-se ver parte de sua coluna vertebral. Em seus pulsos, a loira observou com dificuldade algumas cicatrizes de cortes.
Minha mãe jamais deixaria eu me… Eu morrer.
Antes de desmaiar, Bella avistou uma ambulância parar em frente ao mercado. Ela seria salva. E Thomas havia finalmente encontrado com Lis, onde quer que os dois estivessem.
***
Perto do vilarejo de Santa Muerte, Abigail esbravejava em sua velha cabana. Ela estava agitada, andando de um lado para outro com uma boneca loira nas mãos.
– A Inocente conseguiu escapar! – ela rosnou, apertando a boneca – Isso forma mais uma dobra no tecido do destino. Mas o mundo dá voltas e em breve ela estará na mira novamente… Não é, meu bem?
Abigail olhou para a boneca nas mãos e então jogou-a dentro de uma caixa feita de madeira, junto com ratos e teias.
***
Andreia havia passado o resto da noite fumando e delirando sobre a vida. A manhã e o começo da tarde foi um tempo tranquilo, sem muita agitação. Já estava noitecendo novamente e não havia recebido mais nenhuma ligação de Danilo. O que a deixava meio satisfeita, meio decepcionada. Seu único contato com a sociedade naquele dia foi com uma amiga, que mandou uma mensagem para ela, convidando para uma balada.
A estudante de psicologia precisava se distrair e conhecer pessoas novas. Sua faculdade estava parada por causa da greve dos professores, e só voltaria em seu ritmo normal na semana seguinte. Colocou um vestido preto colado no corpo e uma maquiagem escura, destacando seus belos olhos. Salto alto, que na verdade eram baixos, e uma pequena bolsa preta acompanhavam seu traje da noite.
Chamou um táxi quando o Sol começava a se pôr. Chegando no estabelecimento, luzes piscavam no vidro escuro das janelas do segundo andar, onde provavelmente era o camarote. A música alta já era ouvida do lado de fora, fazendo algumas pessoas já entrarem no ritmo, dançando enquanto ficavam na fila de entrada.
Um vulto estava parado em uma das janelas e Andreia teve a sensação de que olhava para ela. Pagou o táxista e quando saiu do veículo, o vulto já havia sumido. Se encaminhou para a fila, enquanto fumava um cigarro.
***
Vanessa terminava de colocar seu vestido branco no seu quarto. Sendo quase um milagre, não era decotado, tampando todo o seu tronco. Mas para compensar, as costas estavam a mostra. O cabelereiro particular da socialite havia acabado de sair da mansão. As madeixas ruivas estavam lisas, tendo leves curvas nas pontas. A sombra levemente prateada e o lápis de olho destavam seus olhos verdes, graciosos e ferozes como os de um felino. Depois de fechar o zíper do vestido, passou um discreto batom bege.
Pulseiras feitas de ouro puro com rubis cravados enfeitavam seus antebraços. No indicador da mão direita estava um grande anel dourado com uma pedra vermelha cintilante. Se encaminhou para perto da cômoda e pegou uma fina caixa de veludo. Lá dentro estava a encomenda da joalheria: a ametista roubada da cabana da Abigail, fazendo parte de um belo colar dourado. Colocou-o no pescoço e parou em frente ao espelho, encarando o próprio reflexo. Procurava defeitos, por mais pequenos que fossem. Uma empregada enfiou a cabeça dentro do quarto, avisando que estava na hora de abrir oficialmente a Festa do Branco.
– Vamos lá, meu bebê. – Vanessa disse pegando Batman Jade da sua caminha. O gato preto estava com um colar de esmeraldas pendurado no pescoço e brincos na orelha.
Muitas pessoas poderiam fazer festas de ano novo no dia em que se comemorava o ano novo. A tradição de Vanessa e seu pai era fazer uma festa atrasada. Assim, seriam os únicos a darem uma festa naquele dia. Revistas de fofocas e jornais estariam ali. E com toda a certeza, muitos paparazzis também.
A socialite encaminhou-se pelos corredores enfeitados com tecidos brancos e dourados até chegar ao salão de festas. Um lustre feito de ouro, pérolas e diamantes estava pendurado. Caixas de som a cada dois metros espalhavam diferentes melodias. Uma pista de dança, até então vazia, espalhava-se por metade do salão. Na outra metade, mesas circulares espalhavam-se. Nas janelas, cortinas douradas balançavam com brisas que entravam de vez em quando. Uma pequena fonte erguia-se no meio do salão, com carpas nadando. Várias socialites e empresários circulavam, vestidos elegantemente. Portas de vidro abertas ao fundo do local recepcionavam mais convidados.
Vanessa surgiu no topo da escada, com o gato nas mãos. A música, que no caso era Fancy, abaixou automaticamente, para a anfitriã falar.
– Sejam muito bem-vindos. – Vanessa disse, com a voz ecoando pelo salão – Eu, Vanessa, agradeço todos vocês por nos darem a honra de suas presenças. Roberto, meu pai, – ela apontou para o homem de terno branco, lá em baixo – nos proporciona todo começo de ano grandes emoções. E é com grande alegria que eu, Vanessa, e o querido Batman Jade, abrimos… a Festa do Branco!
Os convidados aplaudiram o discurso, ao mesmo tempo que a música aumentou o volume. Vanessa desceu lentamente a escada, sorrindo para todos os flashes e cumprimentos. Muitas socialites invejavam a beleza e bom gosto da ruiva. Alguns filhos de empresários, jovens precoces, acompanham o rebolado da moça.
Seu pai chegou perto dela, abraçando-a para algumas fotos. Sorria e seus olhos claros compartilhavam simpatia e alegria.
– Que bonito você fazendo papel de pai coruja. – Vanessa cochichou entre um sorriso e outro.
– Você que nunca aceitou minha forma de amar.
Vanessa se retirou três segundos depois. Caminhava pelo salão, cumprimentando os convidados. Uma música lenta tocava agora. Grand Piano,da Nicki Minaj.
– Aceita uma dança com esse pobre vagabundo? – uma voz sussurou em seu ouvido.
Vanessa não controlou o riso ao ver Matheus em um terno branco, com gravata de seda e tudo mais. O riso não havia sido um deboche, apenas uma surpresa agradável para ela.
– Por quê recusar? – ela disse sorrindo, já se encaminhando para a pista.
Vanessa e Matheus se encaminharam, enquanto Batman saltou dos braços da dona, sumindo de vista. Apesar de ser um simples motorista e não ter nascido em um berço de ouro, o homem tinha porte e beleza o suficiente para se passar por um empresário no meio de tantos naquele local. E conduzia lentamente o corpo de Vanessa no ritmo da música.
Am I being a fool?
Wrapped up in lies and foolish truths
What do I see in you?
Maybe I'm addicted to all the things you do
– Você está linda… — ele comentou sorrindo.
– Ah, eu faço o que posso, fofinho. – Vanessa respondeu.
– Achei injusto me deixar animado daquele jeito ontem.
– Não sabia que você queria ser a nova Drama Queen. – Vanessa respondeu rindo – Mas você sabe que aquela não foi a última que me tocou… Aliás, pretendo viajar no final do mês. E claro que você vai comigo.
Matheus sorriu como resposta.
– Falando nisso, Vanessa… — ele desviou o olhar – Eu quero… Eu gostaria de falar uma coisa para você.
– Ué, fala, não estou com tua boca.
Cuz I keep thinking you were the one who
came to take claim of this heart
Cold hearted shame you'll remain
just afraid in the dark
The people are talking
The people are saying that you have been
playing my heart like a grand piano
So play on, play on, play on
Play on, play on, play on
– É que… — o motorista vasculhou algo em seus bolsos – Eu queria te mostrar que…
– Nina! – Vanessa exclamou, olhando por cima dos ombros dele.
A socialite saiu de perto do rapaz, andando apressadamente para as portas de vidro. Greg, Lana acompanhavam a loira. A moça de cabelo azul vestia calças jeans, regata branca mostrando o sutiã e uma jaqueta de couro preta. Greg vestia uma calça jeans preta e uma camiseta cinza.
– Sério, Rato? – Vanessa perguntou olhando incrédula.
– O que foi? – Greg perguntou – Isso já foi branco um dia. Antes da Lana colocar para lavar junto com minhas cuecas.
Vanessa desviou o olhar para Nina. Não queria ofender Lana e Greg, mas Nina estava deslumbrante. Não sorria simpaticamente como sempre, por motivos óbvios. Uma leve maquiagem estava em seu rosto, tentando esconder as olheiras. O seu vestido branco tinha comprimento até os joelhos, com apenas uma alça no ombro. Os cabelos louros desciam em ondas, complementando a beleza da bióloga. Sidney estava quieta em seus braços, com um lacinho branco na cabeça.
A socialite os convidou para desfrutar de alguma bebida no mar, alegrando Greg com a notícia que encontraria Skol e cerveja preta. Lana e Nina seguiram na frente.
– Escuta, ruiva… — Greg disse – A Nina finalmente está começando a parar com os pesadelos. E eu não sei se seria uma coisa certa pra falar, mas você faz bem para ela.
Vanessa não conseguiu evitar o sorriso.
– Obrigado, Rato… — ela agradeceu – Agora vai se divertir logo, antes que os seguranças pensem que você é um mendigo invasor.
– Vou tentar… Essa festa está parada pra caralho! – Greg reclamou se encaminhando para o bar – Mas não é problema nenhum, logo eu agito tudo isso…
Vanessa andou pelo local, desviando das pessoas. Viu Matheus sentado distante de todos, mas não foi falar com ele. Estava com cara de poucos amigos. Procurava Nina. Mesmo que não falasse com a bióloga, só vê-la já acalmava sua agitação. Ela não sabia se poderia chamar isso de amor ou paixão. Seu coração nunca era dominado por ninguém. Mas a loira lhe trazia conforto.
Procurou no bar, na escada, entre as mesas e na pista. Resolveu ir ao banheiro. E não no banheiro do salão, ou teria que se misturar com as outras pessoas. Subiu as escadas para o segundo andar. No corredor havia várias portas de quartos e no final dele portas para a varanda. Entrou no amplo banheiro. Lavou o rosto e o enxugou com uma toalha branca. Olhou no espelho e fechou os olhos. Sua respiração ficou pesada, sentiu um leve aperto na garganta e uma leve tontura chegou.
– Eu teria um bom chá de ervas para tontura… — uma voz simpática disse atrás dela.
Vanessa se virou e viu Abigail, a velha da cabana, atrás dela com suas vestes velhas e empoeiradas. Os olhos leitosos a encaravam.
– Como você entrou aqui? Ou melhor, como saiu daquela ilha e está aqui? – Vanessa perguntou incrédula.
– Ligações empáticas são fáceis de se fazer. – a velha disse como se respondesse tudo – Mas eu não estou realmente aqui.
– Ah, não? – Vanessa debochou – Eu tô o que, ficando louca? Tendo visões?
– Bobagem! Você é A Prostituta, não O Oráculo. E além do mais…
– Espera. Você me chamou do que?! A Prost…
– Nada demais! Mas você sabe porque estou aqui… Você está com a minha ametista. Confesso que fica linda no seu pescoço, mas ela não é uma simples pedra… — Abigail disse – Ela carrega fortes auras. Já foi usada para magia negra, sacríficios… Não que eu vá fazer isso, mas preciso dela. Com você ela pode se tornar perigosa.
– Olha, eu não sei o que está acontecendo. Sai daqui… Da minha cabeça, sei lá onde você está, Vovó da Chapéuzinho!
Vanessa saiu do banheiro, andando para o primeiro local que viu: a varanda. Não acreditava em destino nem nada do tipo, mas achou Nina lá. Apoiada no parapeito, onde Sidney andava cuidadosamente.
– Nina… — ela chamou.
A bióloga se virou-se, sorrindo simpaticamente.
– Vanessa.
– Não está curtindo a festa? – Vanessa perguntou, colocando as mãos no parapeito.
– Ah, está tudo muito lindo! Eu só não gosto de ficar perto de muita gente junta. – Nina disse, fazendo carinhos na cabeça de Sidney.
Mesmo um pouco distante do salão de festas, a música ainda era audível. O clima fresco deixava o ambiente mergulhar em uma noite agradável. A lua estava no céu como um disco de prata e as estrelhas faziam companhia.
Oh oh, I struggle to contain
The love that's in my veins
And how it circulates
If you could take my pulse right now
It would feel just like a sledgehammer
If you could feel my heartbeat now
It would hit you like a sledgehammer
– Escuta, por quê tem duas empregadas no telhado? – Nina riu apontando para cima.
– Ah, nada demais. Elas só gostam de... Lugares exóticos. – Vanessa tentou disfarçar.
Batman Jade chegou na varanda, esfregando-se nas pernas da dona e depois saltando para o parapeito. Seus olhos verdes encaravam a bióloga.
– Nossa, esse gato é seu? – Nina perguntou – Ele é lindo.
– Aposto que ele também te acha bonita. – Vanessa riu.
Sidney chegou perto do gato, que abaixou a cabeça, cheirando a chinchila. O roedor então colocou carinhosamente a pata sobre o focinho do felino, que soltou um miado como resposta. Os dois saltaram do parapeito e começaram a correr pela varanda e corredor.
– Eles não vão se perder? – Nina perguntou preocupada.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!– Relaxa… — Vanessa respondeu olhando para o telhado – Hey, suas duas antas, descam aí de cima e vão atrás de um gato preto e de uma chinchila de lacinho. – a ruiva olhou sorrindo para a bióloga – Pronto, não vão sair de vista.
Nina a encarou, colocando sua mão sobre a da socialite.
– Você é uma ótima… companhia, Vanessa.
– Não queira me deixar corada! – Vanessa brincou – Mas você foi a melhor pessoa que conheci.
You've taken over the beat of my body
You just don't let up, don't let up
You've taken over the beat of my body
But you lift me up, lift me up
Um silêncio constrangedor se instalou. O único barulho que podia-se ouvir era a respiração das duas mulheres, enquanto um gato e uma chinchila corriam pelo jardim. A música mudou rapidamente. A melodia e a batida eram conhecidas por Nina, que sorriu para Vanessa.
– Você colocou Lady Antebellum na playlist? – Nina perguntou.
– O que foi? Sou uma princesa feita para o pop mas que gosta de country! – Vanessa disse.
Nina movia os lábios, acompanhando a letra da canção. Os olhos olhavam para o céu estrelado, apesar da poluição presente.
Never alone
Never alone
I'll be in every beat of your heart
When you face the unknown
Wherever you fly
This isn't goodbye
My love will follow you
Stay with you
Baby, you’re never alone
– A letra dessa música é muito bonita. – Vanessa comentou.
– É… Essa noite parece que estou cercada de coisas bonitas. – Nina respondeu olhando em volta para a mansão, para o céu e parando os olhos em Vanessa – Principalmente você.
Vanessa sentiu-se como se fosse a presa de uma onça. Nina não era o tipo de mulher selvagem ou que curtisse a vida em festas. Mas nada disso importava. O coração da ruiva acelerou. Ela sentia o sangue percorrendo pelas suas veias. A socialite e a bióloga tinham algumas coisas em comum. E as suas diferenças? Bem, se complementavam.
O mundo pareceu se dissolver quando os rostos se aproximaram e os lábios se tocaram. Nina passou a mão no rosto da ruiva, tirando sua franja perto do rosto. O beijo não estava selvagem. Era simples, porém doce e puro. A socialite sentia-se em outra dimensão. Os lábios se separaram, embora pedissem mais.
Vanessa passou seus dedos delicadamente no rosto de Nina. Os olhos se encontraram e houve uma conversa silenciosa. A ruiva inclinou o rosto para repetir o beijo, mas Greg apareceu interrompendo o momento.
– Vanessa… — ele chamou. Seus rosto suava frio – Acho melhor você me acompanhar.
O vlogueiro se virou, correndo. Vanessa e Nina se olharam mais uma vez antes de correrem atrás de Greg.
***
A música agitada fazia Andreia parecer uma marionete dançando aos comandos do som. Pessoas em sua volta dançavam suadas. Umas estavam bêbadas, outras drogadas e algumas bêbadas e drogadas. O corpo da estudante estava agitado com energético e algumas drogas. Havia perdido a noção do tempo e da vida.
– E aí, quer uma bala? – um rapaz ofereceu.
– Claro! – Andreia respondeu em um estado de alucinação.
O garoto estendeu a mão e lhe deu algumas pastilhas brancas. Obviamente não eram realmente balas. Andreia engoliu todas com um gole de cerveja. Sua visão estava turva mas queria dançar até cair no chão. As drogas afetavam seu cébebro.
Andreia havia levado alguns pacotes com LSD e outras drogas de casa, mas não precisou, pois a casa noturna estava cheia disso. Os canhões de luz já estavam deixando ela tonta. O último copo de bebida misturado com alguma droga foi o ápice de suas alucinações. Ela girou até ficar tonta. As batidas eletrônicas invadindo seus ouvidos.
Um enjoo forte tomou conta de todas as sensações, fazendo-a correr para o banheiro. Chegando lá, se ajoelhou na primeira cabine que achou disponível e despejou todo o vômito para fora. O chão já estava sujo com outro líquido que ela não se importava em saber qual era. Depois de vomitar tudo que conseguiu, sentou-se no chão, fitando o teto.
Sua cabeça doía. Todas as drogas absorvidas percorriam por todo seu corpo. Duas garotas de programa entraram no banheiro, olhando para Andreia sentada no chão, com a cabeça mole feito um pêndulo.
– Hey, garota, você tá legal? – uma delas perguntou.
Andreia tentou respondeu, mas a overdose chegou antes que sua voz.
***
Greg guiou as duas mulheres pela mansão, passando por vários corredores e descendo uma escada. Chegaram na entrada da casa, onde a porta estava aberta. Uma multidão podia-se ser vista.
– O que foi? O que está acontecendo? – Vanessa perguntou nervosamente.
Ninguém respondeu. Nina percebeu que Sidney corria atrás dela, então parou, esperando a chinchila pular para seus braços. Vanessa começou a dar tapas em homens e mulheres que encontrava em sua frente, tentando passar pela multidão. Após um pouco de dificuldade, viu o motivo da confusão.
O corpo estava caído no último degrau da escada. Uma pequena poça de sangue se formava na calçada, como um rio escarlate. Os olhos claros estavam abertos e incrédulos olhando para o céu. Vanessa se aproximou, tremendo com passos pequenos. Na mão do homem, uma corda enrolada com um anel de brilhantes e um pequeno farol. Perto do abdomen, um ferimento provocado por uma facada ou algo parecido. No pescoço, outro furo.
– Pai… — Vanessa falou baixinho com os olhos marejados.
A ruiva caiu de joelhos, tentando tocar o corpo, mas não tinha coragem. Lágrimas despencaram dos seus olhos, escorrendo pelo seu belo rosto. Rímel escorria. Conseguiu tocar o corpo, que estava sem nenhum sinal de vida.
– Pai, por favor, acorda… — Vanessa pediu erguendo o tronco do homem.
Vanessa abraçou o corpo, sujando seu vestido branco com sangue. Mas ela não se importava. Também não se importava com a maquiagem borrada. Seu pai se fora. Podiam viver trocando farpas e fagulhas de ódio, mas o ódio e o amor sempre andaram de mãos dadas. Nina apareceu ao seu lado, vendo o que havia acontecido. Tampou a boca com a mão, horrorizada. Greg e Lana estavam do outro lado, horrorizados. Batman Jade andou até a dona e esfregou-se nela, tentando consolá-la. O felino sentia o sofrimento.
– Não me deixa… Não, agora não… — Vanessa gritou em meio às lágrimas.
A única família de Vanessa se foi, levando um pedaço dela junto.
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