Prelúdio da Morte
9 Amanda
Meu nome é Amanda, mas a maioria me chama de Mandy ou o que lhes derem na telha. Eu particularmente não ligo pra formalidades ou coisa do tipo, eu só fui nesse churrasco na intenção de me divertir. As pessoas me acham alguém espontânea demais, eu deveria ver isso como algo bom, mas de alguma forma me sinto um tanto ofendida quando acham que eu faço amizade com qualquer um por aí. Sei que tive um pouco de fama de rodada no ensino médio, mas sinceramente não ligo pra isso, pois tenho amigos preciosos que sei que posso confiar. Eu não diria que as pessoas mais importantes pra mim estão nessa festa, a maioria aqui são apenas conhecidos, colegas de curso. Os amigos da faculdade não são iguais os amigos do ensino médio, e alguém já havia me falado isso a algum tempo. Eu pensei que iria me divertir e até poder conhecer melhor essas pessoas, eu tinha certo preconceito com alguns deles, ainda mais o povo do primeiro ano, achava Bianca e a Julianna meio frias e mesquinhas, mas no pouco tempo que passamos juntos, vi que ali estavam pessoas boas, eu não sou lá exímia em julgar o caráter das pessoas, e sei que todos usam máscaras, algumas até inquebráveis, então não posso me colocar em uma posição para realizar julgamentos à partir de poucas conversas. Eu não queria analisar ninguém à fundo, apenas me divertir. Se eles fossem pessoas ruins ou alguém que eu iria, em um contexto diferente, me preocupar com suas respectivas personalidades, pra mim pouco me importava, se ninguém mexesse comigo ou me fizesse mal, estaria tudo bem. Eu sou uma pessoa contra conflitos, tento manter a harmonia e o ambiente agradável por onde passo, acho que não sou muito odiada também, consigo até sorrir verdadeiramente, quando alguém me agrada. Eu não exijo muito das pessoas, só o básico, sinceridade e carisma, acho que isso é essencial pra se conquistar a confiança. Estava tudo como esperado, uma festa calma, não eram muitas pessoas, mas o clima estava bom, até o momento em que Isabela foi encontrada morta. Desde então tudo tem virado um inferno, e aqui estou eu, sentada no vaso sanitário fingindo estar passando mal tentando pensar em alguma solução pra sair dessa situação. Eu sei que alguém dali era o assassino, eu sentia. Eu tentava juntar todos os fatos pra chegar em uma conclusão, mas com tudo que andava acontecendo, sem pausas e sem piedade, eu acaba me perdendo. Precisava de um tempo sozinha pra analisar tudo, analisar cada acontecimento.
Eu fingi estar passando mal a uns cinco minutos, é claro que essa farsa não poderia durar muito. Mais do que qualquer um, eu queria sair dali. Queria me libertar desse medo que me consumia, no banheiro, trancada, me sentia segura. Talvez eu devesse ficar assim até a polícia chegar, mas olhando pela pequena janela quadriculada do banheiro, via que o mal tempo não passaria, o vento gélido da chuva percorria por minhas bochechas rosadas, que droga, pensei, se ao menos, estivesse nos meus melhores dias. Pra piorar ainda estou menstruada. Eu não menti totalmente quando disse que estava passando mal, mas essas coisas de mulher são normais, eu acho que ninguém merece ouvir, e se ouvissem acho que nem ligariam. Depois que o corpo de Yago sumiu, todos estão ainda mais tensos, pensando que ele é o assassino. Qualquer um em seu senso comum pensaria, mas infelizmente eu nunca fiz parte do rebanho cego que seguia sem pensar. Sou uma garota difícil de lidar, sempre bati contra argumentos daqueles que se achavam os mais intelectuais, nunca tive medo de expor minhas próprias verdades, e na minha opinião, Yago não era assassino, nem cúmplice. Eu não podia apenas achar, odeio quando as pessoas apenas acham sem ter um bom argumento ou linha de raciocínio para defender seu ponto de vista, eu estava então, criando uma, para inocentar o pobre Yago que jaz reside nesse mundo. Todos viram o buraco no peito dele. Estava morto, não tinha como alguém forjar uma morte daquelas. Demônios? Nem pensar, eu não tinha religião e me recusava a acreditar em coisas paranormais, até porque não vi nenhuma em 21 anos de idade e não era hoje que eu veria. Então se Yago está morto, e não há bruxas, demônios ou seres celestiais, então alguém pegou o seu corpo. Mas quem? A mesma pessoa que derrubou a ponte? Vamos começar do ponto inicial, a morte de Isabela.
Ela era uma garota que eu achava sem sal, apesar do Natan e outros morrerem de amor, confesso que eu, por ser popular no colégio e faculdade, me sentia enciumada ao vê-la repleta de atenção de todos. Que vergonha, alguém como eu tendo um pensando raso desses. Eu fiquei mal com sua morte, e naquele momento, a única pessoa que pensei que poderia fazer isso era Natan. Mas Natan a amava tanto, todos pensariam isso, ele foi o primeiro a encontrar o corpo, apesar de ter álibis minutos antes da morte da garota. Mas quem disse que ela morreu em tal hora? Aquele policial, ele não parece ser nenhum especialista. Isabela pode ter morrido bem antes do imaginado, as últimas pessoas que viram ela foram Julianna e Bianca. Eu fui esperta ao pegar as folhas do relatório do Natan e do policial, pós interrogatório. Eu poderia ser considerada uma ladra, mas naquele momento, descobrir o culpado era o que mais importava. Eu não sou nenhuma detetive, longe disso, sou só uma mera estudante do ensino médio que ás vezes quer ser reconhecida, eu não tenho muitas habilidades especiais nem nada de único, mas eu garanto que consigo ser esforçada, ao menos era uma das melhores alunas no time de basquete do ensino médio, mas sem perder o foco, começamos pelo primeiro assassinato.
Isabela era uma garota simpática, apesar de parecer metida às vezes, ninguém a odiava ou julgava, talvez por sua beleza, assim como a maioria das pessoas julgam os outros por aí, mas isso não importa. Analisar o caráter do morto não tem tanta importância, mas analisar o caráter dos que restaram pode me fazer solucionar esse crime. Começando por mim, para não acharem que sou esquizofrênica com múltipla personalidade, igual em Janela Secreta, fiquei quase que o tempo todo preparando as coisas pra comer e alguns drinks, eu gosto de ser útil e eficaz, que reconheçam meu trabalho, talvez por isso esteja me esforçando nesse momento onde a maioria está se borrando. Dado ao suposto horário da morte, naquele momento fui levar algumas bebidas para Julianna e Bianca, ao menos, fingi que fui. Eu tenho um pequeno distúrbio que ninguém aqui conhece, só quem é bem íntimo da minha pessoa ou já frequentou festas com open bar. Eu sou quase uma alcóolatra. Eu não resisto à bebidas com álcool, seja vodka, whisky, caipirinha, cerveja, apesar desta última não me agradar tanto quanto os destilados, eu bebo até ficar mal. Já cheguei a ser internada duas vezes por conta disso, meus pais quase desistiram de mim, mas algo no fundo não me deixa parar, eu já me conforme em ser uma pessoa fraca, mas na frente de alunos do curso de direito, de pessoas que eu não conhecia muito bem, eu não podia fazer isso, foi por isso que eu fiz o que fiz, preparei algumas bebidas no intuito fictício de levar pras garotas no fundo, mas eu acabei entrando na casa e tomei tudo, de uma maneira bem rápida. Sim eu sou deprimente, mas pelo menos eu confesso meus erros deliberadamente para não haver suspeitas, já que alguém pode ter notado isso, assim como Natan citou no relatório. Eu queria apenas ser uma pessoa melhor, mas talvez a vida não queira isso.
Voltando para a morte de Isabela, ela foi apunhalada, e o golpe pelo visto não precisou ser tão forte para tirar a vida da menina — eu digo menina porque ela possuía uma aparência até angelical demais, por mais que isso não refletisse em sua aura -, sendo assim, tanto um homem como uma mulher poderia ter feito isso? Sim, de fato, tanto um homem como mulher poderiam ter sido capazes de assassinar Isabela. Isso coloca todos no quadro de suspeitos, começando pelas mulheres. Bianca é a mais nova daqui, ela não devia conhecer muito a Isabela, apesar da Julianna ser muito amiga dela. No momento do crime ela supostamente estava sozinha jogando vídeo-game nos fundos, enquanto a Julianna foi ao banheiro. Então ela não possui álibis das 15:40 às 15:55. É muito tempo, eu confesso. Ela poderia ter ido ao galpão, matado Isabela, voltado, e tudo estaria bem. Julianna foi até o banheiro 15:45, mas como tinha gente, no caso, eu, que estava bebendo escondia, ela decidiu ir pra ‘moita’, ao menos é o que ela diz. Seu único álibi é Carlos, que já foi pro saco, e disse tê-la visto perto do galpão. Raíza ficou aparentemente o tempo toda sentada conversando com Carlos, o mesmo confessou isso, mas será que ele dizia a verdade? Pelo que conhece aquele garoto era bem falso e mentiroso, porém, o próprio Natan disse ter visto os dois, mas eles eram a parte mais isolada da festa, ninguém tinha o porquê de nota-los. Se Raíza tinha um álibi, já não tem mais. Kelly é a mais suspeita pra mim. Por que alguém iria chorar sem parar metros do corpo morto de Isabela? Ela ainda não contou os motivos de sua tristeza repentina, ninguém a viu indo pra lá, e ela pelo visto gosta do Natan, teria um bom motivo. Phelipe e Guilherme foram pro meio do nada fumar, mas eles poderiam bem ter dado a volta pelo leste, entrado pelo galpão, matado Isabela, voltado do lado leste, e assim, ninguém desconfiaria tanto. Natan se banca de inocente, mas ele foi o primeiro a encontrar o corpo e parece uma pessoa bem ciumenta. João fez um depoimento contraditório, isso pega muito mal. O problema aqui não é a morte e Isabela, mas sim a de Carlos. A de Yago poderia ser qualquer um na sala também, mas o que me intriga, é como a pessoa sabia que o policial havia colocado a arma em cima da mesa, sendo que estava totalmente escuro? Ela estava perto da mesa? Ela clareou com o celular? Isso pareceu planejado demais! Como Natan disse, podia ser qualquer um, mas no caso do Carlos, Natan e o policial foram descartados, e a morte do mesmo é bem suspeita. Acredito eu que não tenha sido suicídio, pelo ego que ele possuía, eu diria que JAMAIS poderia ter sido suicídio. A corda foi colocada na mochila do mesmo pelo assassino, e quando ele percebeu que estava em um campo de visão que ninguém podia notar, enforcou Carlos por trás, e depois o penduroeu na árvore. Todos poderiam achar que isso só poderia ser feito por um homem, mas existem mulheres muito mais fortes que alguns homens por aí, por exemplo, eu acho que sou mais forte que o Natan, o Carlos e o João, aliás, o Carlos devia pesar uns 50 quilos, e aquela árvore era baixa. Suponhamos que a pessoa enforcou Carlos por trás, depois de morto, ela amarrou a corta bem firme em seu pescoço e amarrou no galho da árvore. Como ninguém poderia ter notado isso. Teria que ter algo que distraísse todos, nesse momento, mas o que foi? Estava chovendo e ninguém conseguia enxergar direito, mas pra ver alguém amarrando um corpo em uma árvore, eu duvido muito! Parando pra pensar, houve sim, uma distração! O momento em que João disse que havia pego sinal em seu celular, a maioria começou a correr em sua direção, mas será que todos fizeram isso? Eu não notei, éramos muitos, mas se nesse momento, que durou certa de um minuto, a pessoa tivesse colocado Carlos pendurado? Então ela não foi ou ameaçou ir até João. O fato é que quando chegamos lá, ele disse que o sinal havia sumido. Seria ele um cúmplice? Ele teria criado essa distração proposital? Quanto às cartas, isso é o que mais me intriga. A primeira foi achada no galpão depois do mesmo ter sido trancado por Natan. A segunda carta é um depoimento único do Phelipe, ele disse que a achou no banheiro, mas Natan foi lá minutos antes, e não viu nada, como isso? E a terceira achada agora pouco, dizendo que todos nós cometemos um pecado, ela não estava lá, antes de tentarmos ir pra casa do Gerônimo. Será que há alguém mais? Um elemento desconhecido? Eu me recuso a acreditar em demônios, isso tudo é obra de um ser humano. No momento em que eu raciocinava, ouvi uma gritaria lá fora, e imediatamente saí para ver o que estava acontecendo.
Ao chegar na sala, pensei que o plano de João havia funcionado, mas não, foi o Igor que conseguiu contatar outros policiais. Eles já estavam a caminho. Aparentemente, estávamos todos salvos, a expressão de alívio no rosto daquelas pessoas me fez pensar que nada tinha acabado. Um assassino estava solto, ele matou três pessoas, três amigos. Todos ainda achavam que era Yago, o mais estranho é que o corpo do mesmo sumiu e não houve rastros de sangue. Podia ser uma morte forjada mesmo? Eu não queria mais saber, também. Só queria ir pra casa, me deitar e dormir por uns dois dias. Eu queria trancar a faculdade e esquecer isso tudo. Fui até a cozinha, abri a geladeira e para comemorar, tomei um gole de whisky bem gelado, eu precisava disso.
Ao voltar para a sala, todos pareciam bem eufóricos, foi quando percebi que meus olhos começaram a se embaçar, minha cabeça começou a ficar sonsa, e isso não aconteceria com um mero copo de whisky.
– Amanda? Você tá bem? – Raíza foi a primeira a notar, mas antes que eu pudesse responder, eu caí no chão, sem reação, sem poder acordar. Antes disso, eu havia me lembrado da última pessoa que chegou até nós, quando João supostamente tinha conseguido área em seu celular.
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