Repórteres de todas as emissoras de televisão cobriam o bizarro acontecimento ao vivo pelas ruas da cidade, dramatizando ainda mais a situação dos acidentes e desaparecimentos. Uma repórter de pele clara e longos cabelos escuros presos por um laço vermelho, cobria ao vivo a agonia dos feridos em um gigantesco engavetamento, em plena marginal Tietê.

— Meu nome é Elisa Moraes, estamos ao vivo da marginal Tietê, onde pessoas esperam socorro após um gigantesco engavetamento de veículos. – A câmera dava close em vários carros parcialmente destruídos, ao som de pessoas gemendo e gritando de dor em meio às ferragens ou estiradas no chão, enquanto a doce, porem tensa voz da jornalista continuava a narrar os fatos.

– Todos os órgãos de segurança pública estão voltados para ajudarem a população, mas a grande demanda de acidentes por toda a cidade e vários bloqueios no caminho os impedem em agir com rapidez, então pedimos a todos que tenham cal... – As palavras de Elisa sumiram de sua boca no mesmo instante em que a câmera focava sua expressão.

Os olhos da jornalista estavam fundos, o espanto em seu rosto era mais transparente que uma vidraça bem polida quando ela nem ao menos falava, apenas estendia seu braço apontando para o céu em direção ao sol, no mesmo instante o câmera-man se virou, gravando para milhares de pessoas verem o sol sendo tomado por uma tonalidade avermelhada, que parecia escorrer por sua superfície o tomando por completo, emanando uma radiação avermelhada que refletia na Terra como sangue. Por alguns longos segundos o silêncio da jornalista se estendeu. Ela não sabia o que dizer as pessoas que assistiam-na ao vivo, que apenas podiam ouvir sua respiração e os gemidos dos feridos e pessoas que davam seu ultimo suspiro antes de morrerem vendo aquele sol vermelho, quando o câmera cochichou para a jornalista.

– Ei olha ali um sobrevivente saiu dentre as ferragens. – Falava o câmera chamando a atenção dela.

Um rapaz alto e claro caminhava com dificuldade arrastando a perna esquerda, parecia estar com o pé quebrado já que estava virado em um ângulo anormal. Trajava roupa social que estavam sujas de graxa, poeira da estrada e sangue, andava de cabeça baixa com o cabelo cobrindo a face, com a pele pálida.

– Vamos até ele. – Falava Elisa, já correndo em direção ao sobrevivente.

A câmera a acompanhava logo atrás, a imagem tremia a cada passo rápido que eles davam, se aproximando mais e mais do indivíduo, contudo o que eles não podiam ver era as costas do rapaz, algo havia rasgado suas costas na vertical, seus músculos estavam partidos em dois, sua carne fresca ainda pingava gotas de sangue, dava para ver os pedaços de seus ossos estraçalhados pulando para fora de sua carne.

–Ei, você está bem? – A repórter perguntara assim que se aproximou o suficiente, porém o rapaz não respondeu, apenas emitira um som como se seus pulmões arranhassem quando tentava respirar.

– senh...OH, MEU DEUS! – A repórter exclamou com pavor ao ver a face do homem.

Seu olho esquerdo estava completamente virado, as veias retinais bem dilatadas em destaque porem roxas, com um sangue frio e morto, o olho direito estava fundo e rasgado, parecia ter afundado com uma forte pancada. Elisa não conseguia se mover de medo, suas pernas tremiam e as mãos transpiravam, fechava os olhos e gritava freneticamente, a câmera registrava tudo, mas dava para reparar que o câmera-man dera alguns passos para trás. Quando aquele morto-vivo abriu sua boca, sua mandíbula estalara, abrindo mais que o normal para um humano. Alguns dentes faltavam em sua boca, que escorria uma mistura de ácido clorídrico de seu estômago e sangue arroxeado, jogava seus braços pesados e gélidos para frente, segurando sobre os ombros de Elisa que se debatia tentando se soltar, porém era inútil lutar, o homem balançava sua cabeça para trás fazendo um som horrendo e novamente a jogando para frente, cravando seus dentes na jugular arrancando em apenas uma mordida, parte do pescoço da mulher, trazendo em sua boca parte da carne vermelha e quente, o sangue espirrava na face daquele mostro que mastigavas a carne, da repórter gritava de dor já se engasgando no próprio sangue, quando outra mordida arranjava parte do seu ombro, e finalmente a soltava, deixando-a cair no chão.

Elisa se debatia por alguns segundos lutando contra a morte, buscando ar e tentando escapar da dor, mas seu corpo adormecia, e suas pupilas pesavam, e a dor se intensificava, e a vida esvaíra-a de seu corpo. O câmera-man filmava institivamente aquela cena macabra, mas quando se deu contra do perigo, jogou a câmera de lado, que batera contra o chão, mas não parara de transmitir a imagem, agora meio turva e com chuviscos, do corpo da repórter estirado no chão com a cabeça virada para o lado oposto da filmagem. O câmera-man não conseguiu se afastar muito, outros cadáveres haviam levantado e o atacaram sem a mínima chance de defesa.

Milhares de famílias viam aquelas imagens ao vivo em prantos e desespero, quando subitamente o corpo da repórter tremia, ela se virava lentamente, se movendo com dificuldade, o cabelo antes preso agora estava solto e cobria sua face, o sangue ainda gotejava de seu ferimento e ela parecia vomitar algo esverdeado com sangue, mas a pior parte foi quando ela se virou para a câmera, sua pele estava pálida pela perda de sangue e seus olhos estavam vidrados. Ela abriu a boca soltando um berro de dor macabro, e neste momento a emissora cortou as imagens.

Enquanto a maior parte da população ficava ciente do real perigo que corriam, a primeira equipe de paramédicos do metrô já havia chegado ao local do choque entre os trens. A eletricidade dos trilhos havia sido cortada, várias pessoas estavam estendidas pelos trilhos sentadas e deitadas, alguns gemiam e outros estavam desacordados, mas ninguém havia saído sem se ferir daquele desastre, já era um milagre terem saído vivos.

- Ei garoto, pode me ouvir? – Um paramédico, que estava dentro do vagão ajudando a retirar as pessoas que achasse ainda com vida e agora esta abrindo os olhos de Lucas, disse focando uma luz em seus olhos tentando buscar uma reação do mesmo.

A iluminação incomodava as pupilas de Lucas, o trazendo de volta da inconsciência junto com a voz meio falhada do medico. Sua cabeça parecia que estouraria de enxaqueca, todos seus sentidos voltavam a funcionar lentamente e seu coração voltou a acelerar, lembrando o que havia acontecido. Ele se sentou olhando para os lados, notando que estava em cima de uma pilha de corpos. A sensação de pânico percorreu seu corpo, quando o paramédico chamou sua atenção novamente.

–Ei garoto você esta bem? Consegue andar? – Os olhos fundos de pavor mal podiam ver a face do médico em meio aquela escuridão dentro do vagão, e a luz do capacete que incomodava sua vista o fazendo virar o rosto alegavam que não, mas o respondeu com um gesto com a cabeça, indicando que sim.

– Então levante-se e saia por aquela porta, precisamos continuar o trabalho de busca por sobreviventes. – Falava, ajudando Lucas a se levantar, o colocando em direção a porta da qual havia falado.

O metrô havia tombado e todas suas vidraças haviam estourado, apenas uma das portas estava aberta e a pilha de cadáveres cobriam as portas que estavam contra o chão. Alguns corpos estavam pendurados nos ferros e entre os bancos. Lucas caminhava por aquele macabro tapete fúnebre, quase caindo às vezes por pisar em falso em alguns cadáveres, seu corpo estava totalmente dolorido como se um trator houvesse passado por cima dele, não conseguia levantar o braço direito, parecia que havia deslocado. No entanto, era estranho pensar que as portas estavam sobre sua cabeça.

Dentro do vagão havia mais um paramédico, estava situado bem abaixo da porta para auxiliar as pessoas à saírem, e havia outro sobre a lateral do metrô para segurá-las enquanto subiam, e desciam depois. Nos trilhos, mais dois paramédicos avaliavam as pessoas que saiam. Lucas já estava a caminhar pelos trilhos a procura de seus amigos, a iluminação escassa dificultava o reconhecimento entre as dúzias de pessoas, quando avistou Camila que estava envolta pelos braços de seu namorado, ambos abaixados em um canto.

– Ei, Camila? – Lucas chamou, se aproximando.

A jovem virou a cabeça, olhando para a direção de onde haviam chamado seu nome, sua maquiagem estava borrada das lagrimas que derramara e seus cabelos bagunçados, tinha uma leve mancha rocha da testa devido ao impacto durante a batida. Ela não se conteve e correu na direção do amigo, abraçando-o com força.

- Caralho...não fode meu braço \'manola\'.- Reclamou ele, sentindo o braço doer enquanto ela o abraçava.

- Achei que você também tinha morrido, seu idiota. – ela retrucou, escondendo o rosto no peito do amigo.

- Como assim também?

- O Lone morreu... seu corpo está em uma pilha dos que foram retirados lá na frente. – Ela falava, tentando controlar as lagrimas. – Vem comigo, o Daniel esta ali.

Assim que deram os primeiros passos, uma brisa forte adentrou o túnel e as luzes piscaram. Aquele vento trazia um leve cheiro de carne podre e um enorme odor de enxofre. A fraca iluminação voltava a estabilizar quando a voz do paramédico soou alta dentro do vagão.

-Ei, temos um monte de gente ainda vivas se mexendo... Me ajudem aqui! – exclamou o paramédico para que seus companheiros fossem onde estava.

O homem que estava em cima da lateral do vagão desceu por sua porta, adentrando no coletivo. Um dos que atendiam nos trilhos corria para lá, subindo com dificuldade e ficando a espera quando novamente a voz de um dos paramédicos se exaltava.

– Ei senhor, não se mova seu pescoço está... – Ele engolia suas palavras como se não quisesse falar, mas acabou dizendo. – Meu deus, o pescoço deste homem está partido!

O terror envolvia todos os médicos, pois a cada movimento que o homem fazia sua cabeça balançava de um lado para o outro como um pendulo. Contudo, aquilo era só o início de seu pesadelo, o tapete fúnebre de cadáveres que pisavam começava a se mover, parecia que todos os mortos daquele vagão haviam se levantado.

Um dos paramédicos perdeu o equilíbrio com toda aquela movimentação abaixo de seus pés e caiu sobre os mortos, mas antes mesmo que pudesse tentar se levantar, mãos gélidas e pálidas o seguravam com tamanha força que ele não conseguia se soltar, quando sentiu algo morder suas costas, passando pelo grosso tecido de seu casaco e fincando os dentes em sua pele, arrancando um pedaço de sua carne. Várias outras mordidas percorriam seu corpo o devorando, e o homem se debatia dando berros de agonia que ecoavam pelo túnel. Seus companheiros tentavam ajudá-lo, mas outros daqueles mortos os agarraram mordendo seus corpos sem nenhuma misericórdia, tirando pedaços de suas carnes e mastigando enquanto o sangue quente escorria de suas bocas. Um coro de gritos de agonia. Todos os sobreviventes que estavam do lado de fora apenas escutavam, tremendo de pavor sem saber o que estava havendo. O paramédico que ainda estava sobre o vagão tentou descobrir o que estava acontecendo lá dentro, quando subitamente algo segurou sua perna e o puxou, fazendo cair e bater a cabeça ficando desacordado, enquanto seu corpo era puxado para dentro do coletivo até desaparecer.

O sentimento de inquietação percorria o corpo de todas as pessoas que assistiam aquela cena macabra, o medo se transformava em gritos e choro por toda parte, quando os corpos que haviam sido arremessados para fora do metrô começaram a se mover. O som de batidas dentro do vagão era apavorante, algo queria sair de lá e não parecia ser apenas uma coisa já que eram várias batidas.

Os três jovens já estavam reunidos. Seus corações batiam acelerados e suavam frio, seus corpos tremiam e eles sentiam suas pernas fraquejarem por um momento. A dor que antes sentiram no corpo agora não era mais nada comparada com o pavor. Nenhum dos três jovens conseguia falar, parecia que suas gargantas estavam secas, apenas olhavam para o vagão que estava à poucos metros, no entanto a atenção de Camila era voltada para outra movimentação. O corpo de um dos mortos próximo a eles se debatia, fazendo som de estalos como se alguns ossos voltassem para o lugar ou estivessem terminando de quebrar. Quando ele apoiou suas mãos no chão de concreto, arrastara seus dedos com tanta força que acabou rasgando sua própria carne, deixando um rastro de sangue por onde passava com seus dedos. Se levantou lentamente. A fraca iluminação o tornava ainda mais macabro, o lado direito de sua face tinha sido reduzido apenas a uma carne branca e com algumas partes de seu crânio a amostra, emitia um som de um grito sufocado e seu maxilar estava frouxo, com sua língua a balançar. Não demorou muito e a criatura já estava de pé, meio torta, parecia que a coluna estava quebrada também.

Os gritos das outras pessoas aumentava, Lucas e Daniel viram quando aqueles mortos vivos começaram a sair de dentro do vagão pelas janelas quebradas e a porta que estava aberta. Algumas pessoas que estavam próximas tentavam correr, mas eram atacadas pelos mortos que haviam sido retirados do metrô. Agora sim os jovens sabiam que estavam correndo perigo e Camila os chamara a atenção puxando-os pela roupa.

– Vamos sair daqui. AGORA!!! – Ela falou ofegante de medo, com lágrimas se formando em seus olhos pelo terror iminente.

Os jovens olhavam para frente vendo o zumbi que havia se levantado que Camila tanto temia. Eles se viraram correndo, pelo túnel junto com várias pessoas que aqueles monstros também corriam atrás agarrando os mais lentos e os devorando. O coração dos jovens so faltava saltar pela boca pois aqueles zumbis pareciam incansáveis, mesmo não sendo tão rápidos os que continuavam perseguindo-os não paravam, e o fôlego já começava a faltar aos três. Várias pessoas caiam ou eram alcançadas, Daniel olhava para os lados procurando desesperado uma solução, quando viu frente a um corredor,era um respiradouro do metrô para a circulação do ar dentro do túnel e tinha cerca de vinte metros de comprimento. Não era a melhor opção, mas era a única que restava.

- Ei! Por ali! – gritou para seus amigos, apontando para a passagem.

Eles pararam de correr pelo centro e subiram no pequeno caminho estreito que beirava os trilhos, no entanto Lucas demorou a subir. Sentiu dificuldade, pois seu braço doía, Camila tentava ajudar puxando-o para cima, mas o zumbi já estava perto e o alcançou no momento em que subia. Abrira sua mandíbula prestes a mordê-lo quando a sola de um pé acertou em cheio na face, o fazendo cambalear e cair pra trás. Lucas olhou para Daniel que se segurava em um cano e recolhia sua perna.

- Te devo uma cara.

- Me paga depois que agente sair desta. – falou olhando o caminho de onde haviam vindo. Ainda havia pessoas tentando correr e zumbis atacando-as, aproximando-se cada vez mais.

- Vamos logo ou eles vão realmente nos alcançar. – Falou, ajudando Lucas a se levantar.

Os três corriam pelo estreito caminho e logo entraram no corredor. Continuaram se movendo rapidamente durante três minutos até sairem em um amplo salão iluminado pela luz do sol vermelho. O teto era uma das grades que dava em uma calçada próxima a avenida Paulista. Havia uma escada que levava até uma saída trancada por um cadeado. A única saída que encontraram, agora parecia uma enrascada e logo aqueles zumbis os encontrariam e não teriam como escapar desta vez. O som do lado de fora entreva pelo salão, eram gritos, batidas e tiros, parecia que estava acontecendo algo por lá também.

- Ótimo agora realmente estamos sem saída. – Falava camila enquanto se sentava tentando respirar.

Notas finais
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