Prelúdio das Sombras - O Inferno de Richard
4 Capítulo 03
Notas iniciais
"Cada homem possui três personalidades: A que exibe, a que tem e a que pensa que tem." (Alphonse Karr)
Quando os muros do castelo de Windheart surgiram eu já carregava o peso de 20 assassinatos nas costas. O percurso que antes não tomaria mais do que três dias e três noites me tomou uma semana inteira de cavalgada. A noite era tudo que eu possuía agora, ao amanhecer eu me escondia agarrado ao meu medo insano do sol.
A primeira coisa que notei foi que por algum motivo a segurança havia sido reforçada; o dobro de guardas do que já costumava ter, rondavam os muros portando espadas e flechas. E o dobro de tochas espantava a escuridão das redondezas. O castelo não era no meio de um lago, nem tampouco próximo de um penhasco como o castelo de minha falecida noiva, o que de certa forma o deixava mais vulnerável que os demais. Porém o gramado e as flores em volta, o deixavam e estupendo esplendor. Descendo do cavalo, usei minha nova visão noturna para apreciar a entrada. Assim que pus os pés no chão uma voz me atingiu junto do vento:
Não pode fugir do que é agora Richard, esta vida não lhe cabe mais.
Era a voz do meu criador. Senti o cheiro distinto dele e tentei ignorar, mas ele não se conteve:
Você é escravo meu e do sangue. Não pode ficar perto dos humanos, não é mais um deles, não pode sequer adentrar em sua casa sem permissão. Você sabe o que anda fazendo, sabe quantos bebeu pelo caminho. Isso é real, e não vai acabar...
— Vai embora!!!
Gritei irritado pra noite e escuridão. Alguns morcegos levantaram voo e com eles o cheiro do meu criador se foi. Não estava disposto a deixar ele estragar meu retorno.
Estava absorto em lembranças terríveis, quando ouvi o som de um passo na minha direção. Um dos guardas que vigiava o portão franziu o cenho de forma alarmada, então me dei conta de que embora eu pudesse vê-los perfeitamente de onde eu estava, para eles eu não era mais que um borrão. Segurei as rédeas do Andarilho e arrastei o cavalo pelo resto da estrada. Assim que me aproximei os olhos do guarda se abriram e uma expressão de choque assolou seu rosto. Ele cutucou o outro guarda que ao me perceber se ajoelhou no chão imediatamente.
— Alteza, Príncipe Richard! — O primeiro guarda se ajoelhou, mas continuou me fitando com o rosto pálido — O senhor está vivo! O rei e a rainha vão ficar radiantes com a notícia.
Assenti. O segundo guarda percebendo que eu não queria conversa levantou desajeitado do chão e proferiu uma ordem, logo o portão de ferro começou a subir. O outro guarda pegou a redea da minha mão e entrou com Andarilho. Me preparei para segui-lo, entretanto alguma força me impediu de seguir adiante, algo muito além de minha compreensão. Continuei esganado no lugar e toda vez que pensava em entrar sentia minha pele queimando e meu corpo paralisado.
— Não vai entrar Alteza?
— Não consigo... -Sussurrei num volume que eu considerava inaudível para humanos. — O que há de errado comigo?
..... não pode sequer adentrar sua casa sem permissão...
Suspirei de ódio e encarei o guarda, que aguardava minha resposta. Se meu criador estivesse certo, teria de pensar em algo que não soasse suspeito.
— Talvez vocês devam comunicar meu pai sobre minha presença. Eu espero aqui fora.
— Que bobagem vossa alteza, é sua casa, entre e faça uma surpresa. — O outro guarda pisou no pé dele — Quero dizer, vossa alteza não fala bobagens, mas acho mais conveniente você entrar..
Sorri cansado e com cautela e receio de morrer queimado tentei entrar, dessa vez sendo bem sucedido. Caminhei pelo jardins de rosas tentando manter minha mente longe do cheiro penetrante de sangue, mas haviam humanos demais ali. Por onde eu passava podia sentir o cheiro pungente de sangue misturado com nuances surpresa, felicidade e até desejo. Minha gargante queimava com uma dor lancinante enquanto todos do castelo estavam felizes com a minha volta.
Não estariam tão felizes se soubessem no que me tornei.
Um guarda sorriu surpreso e prontamente abriu a porta do salão do trono, e seu rangido interrompeu o banquete e chamou a atenção de todos que ali estavam. Houve um longo silêncio e constrangedor silêncio, os olhos de todos fixados em mim, até que minha mãe se levantou da mesa central gritando e tremendo. Ela ergueu seu longo vestido e correu até mim se atirando em meus braços.
Ela deitou a cabeça em meu ombro e começou a soluçar alto, embebedando o tecido da minha blusa com suas lágrimas. Enlacei meus braços ao redor de sua cintura e fechei os olhos, prendendo a respiração. Estava feliz e com medo, o cheiro dela era tão bom que o animal em mim poderia rasgá-la morde-la ali mesmo.
O Criador tinha razão, eu não pertencia mais aquele lugar. Contudo ter ela tão próxima renovava minhas esperanças de que eu pudesse controlar tudo o que estava acontecendo comigo. Então ao inves de afastá-la, me mantive forte e a apertei com cuidado junto a mim. Agarrei a melhor lembrança da minha humanidade.
— Eu sabia, sabia que você estava vivo.. — Soluçou — Sabia que iria voltar pra casa... Eu te amo tanto, Richard.
— Também te amo mãe... — Senti minha garganta arder e prendi o choro. — Desculpa não ter voltado antes.
Senti alguém se aproximando da gente e abri os olhos em estado de alerta. Meu pai tocou meu ombro e sorriu, os olhos marejados. Eu só conseguia pensar na decepção que eu era pros dois. O filho dele não só perdeu a guerra como virou um sanguessuga maldito. Afastei minha mãe gentilmente e me ajoelhei no chão prestando uma reverência formal ao Rei.
— Me perdoe Pai, perdi a guerra em que você me designou a liderança.
— Nenhuma guerra é mais importante do que ter você de volta Richard. — Gesticulou que eu levantasse do chão e me abraçou. Batendo em minhas costas se dirigiu aos súditos. — Hoje é uma noite de festa, meu filho único reviveu dos mortos, tragam-me o melhor vinho!! Vamos comemorar.
Todos na sala me cumprimentaram felizes e deram as boas vindas. Inclusive os pais de Anastácia que, assim como previ, chegaram aqui primeiro que eu. Eles pareciam abatidos, mas não comentaram nada sobre a morte dela. Cumprimentei eles da forma mais neutra que pude, mal podendo fitar seus olhos, e logo me afastei. A culpa queimando minha alma.
Um serviçal me encaminhou para meu lugar de costume enquanto os músicos arriscavam algo animador. A mesa estava incrivelmente farta, haviam desde diferentes tipos de pratos doces a salgados, frutas, saladas e excelente sobremesas. Contudo nada daquilo estava me enchendo os olhos, faltava alguma coisa, algo mais fresco. Como que a adivinhando meus pensamentos a cozinheira apareceu com uma bandeja de prata grande nas mãos e colocou bem a minha frente sorridente. Era uma senhora baixa e bondosa de longos cabelos brancos envoltos num coque e olhos azuis astutos. Ela tocou meu ombro e retirou a tampa exibindo meu prato favorito, canard à l'orange, uma especie de pato cozido com laranja e legumes. Retribui o sorriso enquanto ela me servia uma pedaço generoso.
— Parece até que eu estava adivinhando que você iria voltar, Rich.
— Obrigada Marieen, parece divino.
Eu gostava muito dela, quase como uma segunda mãe, não queria desapontá-la. Olhei pros diversos talheres posicionados em volta do meu prato e abrindo o guardanapo em meu colo, peguei o garfo do meio no lado esquerdo, o garfo reservado para carne, e acabei demorando mais tempo do que costumava. Peguei também sem vontade uma das facas a direita, sem me atentar se era a correta ou não. Sentindo os olhos de Marieen atrás de mim, cortei a carne do pato lentamente, segurando uma careta de nojo quando o cheiro de laranja me atingiu. Ergui o pedaço próximo a boca e demorei admirando-o, e ao mesmo tempo pensando num plano para jogar aquilo fora. Estava perfeitamente no ponto, se eu ainda fosse humano certamente minha boca salivaria. Mas agora não me despertava nada além de repulsa.
O Sommelier encheu minha taça de vinho e eu coloquei o garfo na boca, mastigando lentamente. O gosto, a textura, o aroma... tudo continuava o mesmo, mas de certa forma parecia totalmente errado. Engoli, e senti o pato descendo por cada centímetro da minha garganta.
— Exatamente como eu me lembrava, maravilhoso.
Assim que Marieen se distanciou meus olhos fisgaram uma carne de carneiro mal passada que estava na mesa. Senti o cheiro de cada filete de sangue nela e disfarçando cheguei o pato pro lado e peguei um enorme pedaço. Levei grande parte dele a boca e suguei todo sangue dele, estremecendo com o gosto do tempero extra. Mastiguei a carne e engoli para não levantar suspeitas. Depois sacudi a taça de vinho sentindo o aroma. Parecia aceitável, fora que a cor e aspecto avermelhado me atraia mais do que me lembrava. Tomei um longo gole, e foi como imaginei. Nada de incrível, porém agradável.
Revezei entre a carne mal passada e o vinho, correndo meus olhos pelas mesas em busca do meu assassino, a pessoa de confiança que traiu meu pai que cravou uma adaga em mim da forma mais baixa possível e vem me fazendo passar por tudo isso. Queria olhar nos olhos dele e ver sua reação ao me ver ali, intacto. Queria ouvir da boca dele seus planos para acabar com nosso reino, saber com quem ele estava aliado. E então fazê-lo sofrer, como nunca antes na vida.
Por mais que eu quisesse verdadeiramente retornar ao castelo, a saudade não foi o único motivo do meu retorno. E eu já tinha um plano em mente.
— Onde está seu conselheiro Pai? Lorde Heleor Barralin.
— Barralin está em Waskar. — Meu pai bebericou seu vinho. — Depois que perdemos a guerra ele ficou no território inimigo a fim de negociar os novos parâmetros territoriais.
— E por que o senhor não foi pessoalmente?
— Eu estava procurando por você, não tinha cabeça para mais nada. De toda forma Barralin pode cuidar disso, ele já cuidou de assuntos bem mais complexos.
Trinquei os dentes com ódio. Segurei a vontade de gritar que ele não era de confiança e contar tudo que aconteceu no campo de batalha.
— Nosso reino vai diminuir um pouco, Rei Craine queria apoio do que sobrou do meu exercito como acordo de paz, mas eu não concordei.
O clima mudou drasticamente na sala, senti as pessoas ali ficarem mais tensas. O sangue deles agora cheirava a medo e me lembrei da segurança redobrada na entrada do castelo. Franzi o cenho, imaginando que diabos estava acontecendo ao ponto de assustar tantos nobres.
— Por que não concordou Pai?
— Por que...
— Donan! — Minha mãe ergueu uma sobrancelha visivelmente nervosa. — Nosso menino acabou de voltar não encha a cabeça dele com essas coisas.
— Tem razão, Kenvia... — Meu pai baixou a cabeça. — Uma outra hora.
Fitei meus pais preocupado.
— Perdoe a intromissão amigo Donan, mas eu acho que seu filho merece saber de tudo que vem acontecendo! — O pai de Anastácia pegou minha mão por cima da mesa. — Filho, eu sei que retornou hoje e que deve estar cansado, mas não há um jeito certo nem uma hora certa de se falar essas coisas... Sua noiva, minha filha Anastácia, faleceu.
Tentei com todas as forças parecer surpreso e triste, apesar de saber exatamente o que ele iria dizer e ter ensaiado esse momento diversas vezes em minha cabeça. Ouvi um soluço baixo vindo da Rainha, esposa dele.
— Ela pegou algum vírus Majestade? — perguntei.
— Não, quem dera.. Ela não morreu por meios naturais, foi assassinada. Foi uma visão horrível, tens sorte de não ter visto, haviam pedaços dela por toda parte, como se tivesse sido rasgada... — Fiz uma careta me lembrando exatamente do momento em que acordei com ela toda estraçalhada e esperei que ele prosseguisse. — Enfim, o quarto dela queimou então não conseguimos muitas pistas concretas, mas receio não ter sido obra humana.
— Um lobo então? — Pisquei fingindo estar confuso. — Um urso? lá é tão alto.
— Receio que não rapaz. Em nossa busca pelo assassino alguns guardas e um dono de estalagem morreram também estraçalhados. Procuramos por dias alguma trilha depois disso, sem resultado. O que nos leva a pensar que foi uma besta capaz de pensar e planejar.
— Uma besta? — Perguntei sem emoção.
— Há boatos de vampiros nas cidades a noite, já houveram diversas vítimas. — Minha mãe continuou — Eles nunca foram tão ousados assim, tanto que suas aparições eram tão esporádicas que se tornavam histórias e lendas...
— As histórias que você me contava quando eu era criança. — Não consegui disfarçar meu tom de deboche — Não eram histórias afinal.
— Sim meu filho, as histórias que eu te contei eram reais, mas há muitos anos eles não eram vistos, pensamos que tinham se extinguido. Só que agora os vampiros dominaram as cidades a noite. Depois do por do sol quase ninguém ousa sair de suas casas, várias vítimas já foram feitas..
— Suspeitamos que Anastácia foi uma delas. — Acrescentou o pai da minha noiva morta. — Algum vampiro entrou lá e a matou. Algum que a conhecia ou que tinha fixação por ela. Eles são muito perigosos, muito inteligentes e se parecem com um humano comum, mas a sede de sangue os deixa loucos.
— Vampiros não podem entrar onde não são convidados — A voz da esposa dele soou fraca — Então se foi o caso de um vampiro ter entrado em nosso castelo, receio que era alguém conhecido. Chegamos em um ponto em que não dá mais pra saber quem é humano e quem não é.
— Hummm — Me encolhi na cadeira e pisquei transmitindo calma. — Mas qual é o papel do Rei Craine nisso?
— Rei Craine quer montar um exercito para combater os vampiros em troca de mais poder. — Meu pai socou a mesa — Aquele bastardo imbecil. Ele não sabe com o que está brincando. Vai por não só seu reino em perigo como os das redondezas.
— Eu concordo com ele, meu amigo. Ele quer trazer a segurança de volta a nossa espécie. — O pai de Anastácia tomou um gole de vinho. — Estou pensando em juntar meu exercito com o dele.
— Não pode! Perdeu sua sanidade?!?! — Meu pai se ergueu da cadeira praticamente gritando. — Esqueceu de todas as lendas sobre o rei dos Vampiros? Se voltar contra um monstro daqueles é assinar uma sentença de morte... Caçar vários deles de uma vez é suicídio, seu e da tropa! Eu concordo que você deva procurar o assassino da sua filha, mas não tão longe...
— Eu não me importo Donan, não temos muita coisa a perder. Já perdi minha única filha para esses sanguessugas.
— Não diga uma coisa dessas Julius, você pode ter perdido sua filha mas os soldados tem famílias. Não os faça lutar numa causa que não os pertence. Seu Reino é sua responsabilidade.
Ele deu de ombros, senti um forte cheiro de tristeza em seu sangue. Ele não ia escutar meu pai.
— Rei vampiro? — Arfei, fitando minha mãe. — Existe tal coisa? — Confirmou com a cabeça — Como ele se parece? Que poderes ele possui?
— Ninguém sabe, ninguém que foi falar com o rei dos vampiros retornou.
Segurei o riso. Eu era o único vampiro na mesa e não sabia que havia um rei, nem mesmo que os vampiros são ordenados. Xinguei meu criador mentalmente, esperava que ele me desse qualquer tipo de apoio ou informação, mas ele nunca me contava nada, só aparecia para zombar de mim.
Talvez esse rei vampiro pudesse desfazer isso e devolver minha humanidade.
Mas antes de pensar em voltar a ser humano, eu tinha que me vingar de Barralin. Anastácia merecia ao menos isso. E só então poderia procurar saber mais sobre os vampiros. Larguei meu copo e o pato no prato e levantei da cadeira, fazendo uma reverencia aos reis e rainhas presentes.
— Com licença a todos mas vou me retirar, estou muito cansado. — Menti.
— Eu vou com você Richard. — Minha mãe levantou prestando reverencia aos pais de Anastacia — Boa noite a todos, os criados lhe mostrarão seus aposentos.
— Richard me desculpe por todo esse assunto.
— Não se preocupe Rei Julius. Uma hora eu teria de saber, cedo ou tarde. — Fitei ele e a esposa, e uma centelha de culpa passou pela minha máscara vampírica — Meus sentimentos por Anastácia.
Minha mãe me pegou pelo braço e caminhou comigo pelos longos corredores do castelo até a parte de trás. Ela seguiu na direção do meu aposento e abriu a porta, mostrando que meu quarto exatamente do jeito que eu deixei. A Rainha foi até minha comoda e abriu uma caixa. De dentro da caixa uma coroa cravejada de rubis resplandecia diante da luz, minha coroa perdida em batalha. Eu me abaixei um pouco e permiti que ela colocasse, e durante um pequeno momento pude me sentir o principe Richard de Windheart de novo. Contudo quando ela me abraçou me fazendo sentir seu cheiro bem de perto, senti minha presas perfurando minha gengiva insistentemente. O Vampiro em mim não ia me deixar esquecê-lo.
— Não mudei nada, sabia que você voltaria meu amor.
— Obrigada mãe — Afastei ela e corri para a cama, sentindo o gosto do meu próprio sangue na boca. — Que bom que não mudou nada.
Ela suspirou e sorriu. Tire minhas botas derretidas e me ajeitei na cama, fingindo um bocejo.
— Você está cansado não é? Vou te deixar descansar agora, meu amor — Ela se aproximou da cama e beijou minha testa. — Boa noite.
— Boa noite mãe.
Soltei o ar aliviado quando ela finalmente saiu do quarto. Fiquei muito próximo de perder o controle. Lambi o sangue da minha boca e num passe de mágica a ferida cicatrizou. Estava absorvendo essa nova informação quando uma ventania entrou pela janela. Sentado na quina com as pernas esticadas, meu criador me fitava com um ar zombeteiro.
— Já enjoou de ficar próximo aos humanos? Se vingou do covarde que te matou?
— Não, ele está em outro reino. Vai me contar do rei Vampiro? Como conseguiu autorização para entrar aqui? Vampiros não precisam ser convidados?
— É fácil conseguir autorização, os humanos são demasiadamente burros. — Ele fez uma careta — Rei Vampiro?!? — Ele gargalhou. — Não tinham outro nome melhor? Ouvi vocês no jantar... Alias! Imagino que deve ter sido desesperador, não é? Olhar para todas aquelas coisas na mesa, toda aquela fartura.....desejando a única coisa que não tinha, a única coisa que você não poderia pedir.. Isso.
O criador exibiu uma garrafa verde de vidro, um brilho negro tomou conta de seus olhos azuis. O cheiro do que estava na mão dele me atingiu de forma tão arrebatadora que me deixou entorpecido. Ele abriu a rolha e virou todo o conteúdo espesso de uma vez só, lambendo os filetes de sangue que escorreram da sua boca ao fim. Num milésimo de segundo depois eu estava próximo a janela com a garrafa na mão, tentando lamber as sobras da borda da garrafa. Assim que percebi o que eu estava fazendo joguei a garrafa pela janela repleto de raiva.
Ele me encarou de forma penetrante, seus olhos se tornaram vermelhos e suas presas surgiram enquanto ele me estendia sua mão. Sua voz soou como seda quando ele clamou:
— Venha comigo Richard, terá todo sangue que quiser.
Estendi a mão de volta, querendo desesperadamente aceitar seu convite. A sede dominando minha razão. Dei um passo para frente completamente hipnotizado pelo poder do vampiro a minha frente, tão mais experiente e poderoso que eu. Por um minuto eu queria ir com ele e aprender tudo o que ele sabia e escondia de mim. Estávamos quase tocando os nosso dedos, quando sai do transe, o empurrando para longe sentindo repulsa.
— Não!!! — Rosnei — Por sua causa.... Por causa dessa maldição que me deu, quase mordi minha mãe hoje!! Vá pro inferno!
Uma centelha de raiva passou em seu semblante, mas seu rosto se tornou inexpressivo.
— Não Richard, eu vou esperar bem aqui.. Eu sou seu criador, você me pertence e você vai me obedecer. Temos a eternidade se preciso for.
O criador chamou a escuridão para si e desapareceu. Rosnei pro meu quarto e comecei a quebrar as coisas, faminto e frustado. Fiquei sem camisa buscando um pouco de alívio, meu peito todo ardendo de sede. Percebi que ficar zangado potencializava a fome e isso não era nada bom onde eu estava. O cheiro dos humanos estava em toda parte, me torturando, testando meus limites. Estava quase desistindo de fingir que ainda sou o príncipe que todos amavam, e fugindo pela janela quando ouvi passos próximos do quarto, seguidos de uma batida tímida na porta.
Foi como se tivessem tocado o sino de jantar.
Corri para a porta e a abri com um sorriso sacana no rosto. Uma moça jovem e bonita arfou ao me ver sem camisa. Ela era alta, tinha longos cabelos negros e lisos e os olhos num tom de castanho. Por trás do uniforme largo de serviçal pude notar seus seios fartos e corpo bem definido. Mas a parte mais interessante era a cor pálida de sua pele, tão alva que me proporcionava a bela visão de todas veias do seu corpo, o sangue correndo de um lado pro outro. Eu nunca havia visto tão nítido assim, e era magnífico. Imaginei ele jorrando livre pelas minhas presas e senti um entusiasmo colossal.
Aspirei o encantador aroma de sangue com nuance de desejo. Ela estava excitada em me ver, eu sabia, contudo a vi corar e recuar de vergonha. O que só deixou tudo mais divertido e apetitoso.
— B-boa noite príncipe Richard. — Prestou uma reverencia. — Que bom que retornou... — Torceu os dedos involuntariamente. — Sua mãe, a rainha, ordenou que eu arrumasse sua cama e preparasse seu banho... Posso entrar?
Senti minhas presas saltarem enquanto eu sorria maleficamente e a arrastava para dentro do quarto.
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