Prelúdio da Morte
23 Prelúdio Final
– “Finalmente eu estava livre. Agora eu teria tempo para dedicar a mim mesmo e ao Donald, meu doberman que era o único que nunca me abandonava naquela vida, não sei o que faria sem ele. Aquela era pra ser uma noite tranquila, às vésperas de me mudar pra Vinhedo e viver uma vida tranquila. Depois que fui afastado, resolvi me demitir e começar uma nova vida, queria muito mesmo abrir uma sorveteria, quando me deitei naquele dia, era pra poder pensar nos planos futuros, até no nome do estabelecimento, eu estava pensando em IceVi, era um nome clichê mas soava bem, pensei um pouco e concluí que não tenho criatividade alguma para dar nomes à pessoas, objetos, animais e o que for, nem o nome dele foi bem aceito, mas eu gostava, por mais que fosse antigo para sua idade. Como eu disse, era pra ser uma noite tranquila, isso se ele não tivesse me visitado horas antes. O que Natan queria? Fiquei intrigado com aquelas perguntas, ele não estava satisfeito? Pensei que ele tivesse perdido seu amor por Raíza, mas será que as pessoas, mesmo depois de serem pisadas, espedaçadas, ainda continuam amando? Isso é tão ingênuo, mas ele deve estar sofrendo bem mais com isso, bem mais, pensei que até poderia se matar, muitos apaixonados por aí fazem isso, pra mim é coisa de gente coma cabeça fraca, mas fazer o que, cada um sabe da sua força. E a maioria da humanidade é fraca. Ninguém tem coragem pra se expor, todos ficam apenas sentados observando, só sabem observar enquanto o circo todo pega fogo ao som de gargalhadas dadas por aí de pessoas que só se preocupam consigo mesmas, não diria que isso é errado, mas machucar pessoas próximas por puro egoísmo é um ato covarde, que não merece perdão. A humanidade, nessa altura, era merecedora de algum tipo de perdão? Todos somos omissos, seres que choram e tomam remédios manipulados depois que veem seus entes serem mortos em sua frente, o filho toma uma facada na cabeça e a mãe apenas lamenta, chora para alguma emissora de tv em um programa sensacionalista, cujo os apresentadores clamam por justiça, apenas como parte do script, todos hipócritas que devem bater em suas esposas e ignorarem mendigos morrendo de pneumonia nas ruas, são todos parte do carnaval, as máscaras não são vistas mas com indiferença, porque afinal, quem não usa uma tende a ser colocado na fogueira. Então eu me pergunto, viver sem justiça é o mesmo que não viver? Sair pelas ruas sabendo que você será assaltado e fim, não acontecerá nada, o bandido ganha alguns trocos com seu celular pago em 24 vezes, a polícia registra o boletim de ocorrência e no final do turno comem rosquinhas vendo o programa do Jô ainda fardados. A farda pesa. Pesou para minha impotência. Como pude ser tão inexpressivo em anos de profissão, sem ao menos dar uma bala na cabeça de algum cretino que sairia impune pelo resto da vida. Justiça divina? Karma? Que besteira é essa? Coisas tiradas da mídia e de canais religiosos, essas solteironas que leem revistas esotéricas gostam de colocar essas coisas na mente das pessoas, como se tudo fosse ficar bem em um piscar de olhos, a natureza tem forma própria e o mundo dá voltas, todo esse blá blá lá me enoja, eles devem confundir fatores da vida real com isso, como pessoas que conseguem o melhor cargo da empresa sem fazer nada, apenas por influência. O cara que por ser bonito consegue namorar a modelo gostosa, o garoto que passa de ano na escola porque os pais pagaram aos professores. Quanta coisa justa, não? Enquanto isso, do outro lado da selva, o pobre fica sem emprego, mesmo sendo formado e tendo experiência, o aluno estudioso se ferra por conta do mal ensino praticado nas escolas públicas, o cara legal não acha namorada porque não tem a boa aparência que desejam, como conseguir acreditar no perdão da humanidade analisando todos esses pontos? Oras, são pontos ignoráveis. Quem se importa com isso? Eu quero que todos os outros se fodam, mas à partir do momento em que fatores assim, influenciam em minha vida e das pessoas que amo, eu, que já saí dos trilhos da manipulação, não poderia mais ficar parado.
Por toda minha vida planejei em como ferrar com aquela pessoa, a pessoa que havia tirado a vida do meu filho, de tudo que eu tinha no mundo. Aldir era um bom garoto, eu convivia com ele e sabia disso, ele apenas foi deixado de lado pela humanidade e se jogou na escuridão. Os espinhos consumiam seu corpo, eu não podia fazer nada! Eu que era o seu pai, tinha que preservar a sociedade lá fora, fazer o meu trabalho sujo e omisso, e quando menos esperei, eu o vi pendurado em uma corda. Naquele momento, toda culpa recaiu sobre meus ombros. Eu o matei. Eu o matei. Eu o matei. Só podia chegar a essa conclusão. Se eu tivesse feito algo antes, eu estaria indo com ele para Vinhedo, nós abriríamos uma sorveteria, ele poderia até ficar no caixa, o garoto era bom de matemática, ele era a única pessoa que me compreendia no mundo. Era. Minha vida acabou quando seu caixão foi fechado. Servir à lei? Prender vagabundos? Que se foda! A sociedade explodiu, e eu havia caído no buraco sem volta. Depois de pesquisar muito o que acontecia na escola de Aldir, descobri tudo que a mídia ocultou, e eu não queria que isso fosse revelado, pois eu mesmo daria um jeito em toda essa merda. Natan, Yago e Raíza, os três que puseram Aldir naquela corda. Eu apenas a puxei, mas eles eram o fator principal. Se o maldito Natan não tivesse humilhado meu filho, ele ainda poderia estar por aí, se Yago não tivesse ajudado, e se Raíza não tivesse partido seu coração, meu mundo ainda existiria. Três pessoas, pela vida de uma. Essa balança está certa? Não, foram três pessoas, pela vida de três. Eu e minha ex esposa fomos estraçalhados, foi pior do que a morte, acabamos com nosso casamento depois que me dediquei à vingança, e a nada mais. Os três estavam sorrindo, se divertindo em seus churrasquinhos, mas não por muito tempo.
Me aproximei de Raíza, esse era o primeiro passo. Ela era uma garota extrovertida, conversamos de boa na fila da lotérica, e claro que aquilo não foi uma coincidência. Ela era a típica filha da puta sínica, e no momento em que nos despedimos, eu já havia marcado seu velório. O que me soou como obra do destino, foi saber do churrasco daquele povinho, na mesma semana em que os pais de Raíza saíram para uma viagem no Chile. O que poderia ser mais propício? Com o dinheiro que juntei dos anos até aqui, desde que Aldir morreu, consegui pagar um mercenário, ele daria conta de manter os pais da vadiazinha como reféns. Vê-los com armas apontadas em suas cabeças, prestes a morrerem, fez com que a menina fosse meu fantoche. Ela decidiu tirar 3 vidas para salvar duas. Carlos era uma vida insignificante, então, não conta, a balança foi a mesma usada quando ela tirou a vida do meu filho. Mas eu dei uma chance a ela, eu não acho que a morte resolveria, quem sabe, ela poderia ir pra um lugar bom, e jamais faria com que Aldir encontrasse com esses vermes! Não mesmo. Por isso, criei um monstro. Raíza faria Natan sofrer, tiraria a vida do Yago, melhor amigo desse canalha, e depois iria pra prisão, passar o resto da vida pensando sobre o que fez. Em troca disso, seus pais estariam livres, e caso ela ousasse confessar tudo isso, eles iriam pra uma cova bem profunda.
Com Raíza em minhas mãos, tudo que restou foi agir. As cartas foram planejadas bem de antemão, eu queria que eles sentissem no fundo que tinham feito algo, quando na verdade, apenas Natan era o pecador vivo entre eles, já que Raíza estaria fadada a apodrecer na prisão, e Yago tomaria uma bala da minha própria arma. A carta de Yago foi a primeira a ser escrita, aquilo fazia parte de um jogo em que ele e João estavam fazendo, não foi planejada de início, mas Raíza se aproveitou disso para dar um acréscimo à punição, imagine só, aparecer uma carta de uma pessoa que acabara de morrer. Certamente eles iriam desviar a atenção em mim e em Raíza pra pensar em algo sobrenatural, mas eu sabia que isso não iria durar muito tempo, mas ainda assim, aquele policial aposentado que banca o detetive conseguiu achar a resposta pra isso, devo parabeniza-lo, foi muito inteligente, assim como ele descobriu que Carlos nada sabia sobre as mortes de antemão, Raíza apenas lhe contou sobre as cartas e o fez escrever uma, já sabendo que ela o mataria. Carlos se deixou levar pelo lado sedutor da garota, confesso que até eu me deixaria, Raíza é irresistível, mas algo que não posso negar é que ela cometeu os crimes de maneira perfeita. Meu medo era que ela falhasse ao matar Carlos, afinal, havia muita gente por lá, mas graças à chuva ela conseguiu uma pequena vantagem. Eu não precisei fazer nada, tudo foi planejado de forma maéstrica, todos sabiam que o pai de Julianna era policial, era óbvio que ela ligaria para ele depois da morte de Isabela, e mesmo que não ligasse para ele, eu ficaria de prontidão perto do telefone no horário em que combinei com Raíza. Gilberto quase atendeu a merda do telefone privado, ainda bem que eu estava com a atenção apurada. Depois de dizer para todos da unidade que havia saído uma briga na chácara, não foi difícil convencer de que sozinho eu daria conta, afinal, eu tinha muita experiência como policial, parar uns jovens esquentados seria fácil. A chuva foi um dos elementos necessários para que o plano ocorresse bem, por isso eu pesquisei as melhores fontes de previsão do tempo, tudo para saber que naquele dia choveria. Mas não foi sorte terem escolhido para fazer o churrasco naquele dia exato, eu aluguei com um nome falso no dia em que Julianna queria, obrigando-a a escolher essa data, pois as outras também estavam ocupadas. Um dia antes do ocorrido, já sabendo do local do churrasco, fui dar uma olhada nos arredores. Fiz um mapa do terreno a mão, depois, passando-o para uma vetorização, isso me ajudaria demais futuramente. Os pontos cegos, como onde Carlos foi morto, foram passados para Raíza, assim como Carlos e Isabela se encontrarem no galpão. Pra ser sincero, a morte de Yago não era certa, eu não havia pensado em uma maneira de matar o garoto, então pedi para que Raíza pensasse em algo, e felizmente, aquele blecaute caiu como luva, parece que realmente Deus estava do meu lado em busca de justiça. No momento do apagão, logo me toquei que não teria chance melhor. Deixei a arma em cima da mesma (pois no momento, estava segurando-a) e corri para fora na tentativa de recuperar a força que voltou segundos depois, sem eu precisar fazer nada, porém, nesse período de tempo, Raiza viu a chance para apagar Yago. Eu quis ir além de assassinatos comuns, quando Phelipe sumiu, e quando percebi que todos estavam ocupados no fundo da casa, tive a oportunidade de levar o corpo de Yago até o lago próximo da casa, aqueles idiotas nem perceberam, e o sangue que ficou em minha farda, todos viram que era de Yago quando tentei socorrê-lo, mas obviamente ele estava morto, então ninguém iria notar um pouco de sangue a mais. Confesso que aquilo foi desnecessário, mas com isso, eles ficaram presos na investigação, pensando como o corpo de Yago foi parar no rio, e como as manchas de sangue do chão sumiram. Alguns até acreditaram ser obra do além, e quando voltava, por sorte, vi Phelipe correndo para fora dali. Eu poderia deixar o garoto ir, ele era irrelevante, mas fiquei com medo que ele tivesse me visto. Interroguei o garoto perguntando se ele tinha visto algo de estranho, como indireta, e ele parecia não ter visto nada, era uma barata sonsa tentando se salvar. Naquela altura eu já podia encerrar tudo por ali, não precisava de mais nada, e de alguma forma, a polícia iria pegar Raíza. Com as pistas falsa eu dei a ela alguns dias assim como prometido. No caso da ponte, e da Amanda, foram apenas acidentes naturais que me ajudaram mais ainda, era quase impossível descobrir quem havia cometido os crimes, se não fosse aquele gordo, confesso que eu teria que agir pra ferrar com a Raíza. O que veio depois da chácara também estava tudo dentro do meu cronograma, eu mostrei um vídeo dos pais da Raíza ainda sendo mantidos como refém, eu duvido que a menina faria algo quando os soltasse, eu prometi que o mercenário os mataria se eu fosse preso, ela não iria me dedurar e viver com medo da morte dos pais, e a polícia certamente desconfiaria quando eles fossem soltos, como eu fiz ontem, ordenando o Miguel a deixa-los ir, mas isso não importava, ela só iria associar os pais à atitude da Raíza, mas nunca chegarão até mim sem uma confissão dela, eu estou mais do que protegido. O momento final da cerimônia era levar Natan pra cadeia, ele ser espancado por Phelipe não estava em meus planos também, aquele maconheiro de merda com seu amigo quase me ferraram duas vezes, ainda mais quando foram pegos com droga, a polícia poderia pensar que foram eles, mas Raíza tinha mais um ato final para realizar, e pra isso ela teria que tomar uma pequena facada. Comecei a ficar com dó dela, será que peguei pesado? Não, ela e Natan tinham que sofrer! Eu mesmo dei a facada nela e a levei para o hospital, tomei cuidado para ninguém me ver, era quase de madrugada, e pra ser sincero, Phelipe acabou me ajudando muito nisso, tanto querendo ferrar Natan com a carta que ele mesmo achou, quanto espancando Natan, pois dessa forma eu consegui colocar a faca com sangue dentro de sua bolsa. Eu era um policial, entrar em casas alheias era fácil, e a vizinhança pensaria ser normal um policial estar invadindo uma casa, poderia ser pra salvar alguém ou apreender. Felizmente ninguém me viu também naquele momento. A polícia demorou pra saber que Natan era inocente, mas nesse ponto, tanto ele como Raíza estavam acabados, os dois, apaixonados um pelo outro, se veem agora na desgraça, e Natan busca desesperadamente encontrar uma forma de salvá-la, mas é impossível. Ela confessou os crimes, no mínimo sua pena será reduzida pra 10 anos um período aceitável pelo pecado que ela cometeu, e quanto a Natan, depois que ele me visitou com aquelas perguntas estranhas, eu já sabia: Ele precisava morrer. Depois de todo sofrimento que passou, eu ainda queria vê-lo se lamentar por anos e anos, mas eu corria risco. O garoto era esperto, fiquei com medo dele ter visto algo e vindo até mim, e por isso estou aqui, na frente da casa desse canalha. A essa hora sua mãe está trabalhando, bastava uma facada no pescoço e a vida insignificante desse verme já estaria indo pro ralo. Ele e Aldir não iriam se encontrar, meu filho jamais poderia estar no inferno, local onde Natan passariam o resto da eternidade.
Abri o portão e me aproximei da porta da frente, pensei em chama-lo naturalmente, dar o golpe quando ele se visse desprevenido. Me certifiquei de que ninguém me visse, felizmente aquela era uma rua bem pacata, o que facilitou também no momento em que coloquei a faca em sua mochila, entrar em sua casa sem ser notado não seria uma tarefa difícil, mas precisava ser rápido, se ele não estivesse lá naquele momento, eu não sei se teria mais chances ou disposição, precisava sair daquela cidade. Bati três vezes contra a porta, e depois de alguns segundos, Natan, vestindo uma roupa casual, com olheiras enormes e uma expressão acabada, apareceu em minha frente, nada surpreso com minha visita. Mal sabia ele que eu era a última pessoa que ele veria em sua vida.
– Igor? Você descobriu algo? Entre, por favor, a casa tá um pouco bagunçada, então não repare. – Mas que garoto ingênuo! Pedindo logo pra entrar, ele deve confiar bem em mim, isso mostra que não há desconfiança por parte de ninguém em relação às minhas ações, acho que eu poderia ficar mais aliviado, foram noites sem dormir bem, mas finalmente estava ali, em meu ato final, dando a esse monstro o mesmo destino do meu amado filho.
– Eu fiquei pensando desde que você me visitou ontem, e acho que descobri uma coisa. – Por que eu estava enrolando? Era só matar e boa. Minha vontade era de torturar, mas isso poderia ser um contra tempo, uma facada na barriga resolveria, em qualquer caso, estava com minha arma também na cintura, mesmo deixando o ramo da justiça de lado, é claro que eu andaria por aí com um revólver, criei vários inimigos durante esse tempo na policia nessa cidade imunda, mas acho que não seria necessário disparar, isso sim iria acabar me ferrando, algum vizinho poderia ouvir o tiro e sair correndo para fora, eu precisava mesmo usar a faca que guardava rente a minha cintura no lado esquerdo, a afiei bem antes de sair, quero que ele sinta sua lâmina fria enfincada em seu bucho. Me sentei no sofá velho aquela sala com cheiro de desinfetante, eu me sentia feliz, feliz por finalmente terminar o que comecei, Aldir iria ficar em paz, sabendo que todos os seus assassinos foram punidos.
– Eu também meio que acabei descobrindo uma coisa depois que falei com você Igor. – O rapaz se sentou em minha frente, ele estava sorrindo, aquela expressão enfadonha que preenchia seu rosto cheio de cravos desapareceu quando ele fitou meus olhos cansados. Por que esse sorriso para um futuro cadáver?
– O que você descobriu? Por favor, me conte primeiro.
– Sabe, tinha muita coisa errada naquele argumento do Wellington, quando o mesmo prendeu a Raíza. De fato, ele conseguiu explicar com clareza que foi ela quem cometeu os crimes, porém, há furos que não existem em um romance policial bem bolado, tudo bem que estamos em Campinas, essa é a vida real, infelizmente, Raíza não sairá da prisão tão cedo, eu de fato me sinto culpado e jamais poderei me perdoar, mas além dos furos de Wellington, tem algo que me chamou bem mais atenção. – As palavras calmas e refinadas daquele traste estavam começando a me incomodar. O que ele poderia ter descoberto demais? Não havia como provar que fui eu que carreguei Yago até o lago, muito menos que eu falei com Raíza, ou que aluguei a chácara para os dias destinados por Julianna anteriormente, não havia como ele descobrir que eu contratei o mernenário pra fazer os pais de Raíza como reféns, não havia como, eu estava limpo! Parei de suar frio, que besteira, eu ter medo de um moleque? Bastava uma facada no dorso e ele sangraria feito um porco abatido estendido naquele chão sujo.
– Continue. – Fui seco e direto.
– Pois bem, o que me incomoda é o fato de que, Raíza jamais cometeria um crime por amor, e eu digo isso porque fiquei com ela um bom tempo para ter certeza e conhecer seus valores. Apesar do seu gênio forte e explosivo, ela não é esse tipo de pessoa, no máximo ela iria chegar e conversar comigo, brigar, gritar, dizer que odeia a Isabela, e ela jamais machucaria alguém, sem ao menos um bom motivo, e eu não era esse bom motivo, não tinha como ser, por mais que ela me amasse, matar três pessoas não era um fator crucial para isso, eu não sou tão importante assim Igor, sou apenas um ser humano normal, então pensei, como Raíza poderia ter feito isso? O que a motivou? O que é mais importante do que eu em sua vida? Comecei a pensar em todas as coisas importantes da vida dela, e nada poderia ser mais do que seus pais. Depois do que aconteceu, no ano em que ela se mudou, as coisas entre eles ficaram bem melhores, antes, Raíza era fechada com seus pais, nunca dialogava com eles, mas depois de ter o coração partido ela se aproximou da família, quando soube que seu pai tinha câncer, ela passou a dedicar mais tempo a eles, com parte do seu salário, ela ajudava uma instituição que combatia essa doença, se ela soubesse que Isabela tinha, talvez se conteria no final, mas enfim, seus pais são a coisa mais importante da sua vida. Não sei se você lê os noticiários, mas ontem os dois foram encontrados em um prédio abandonado no Chile, depois de ficarem mais de uma semana e meia sequestrados, mantidos em um cativeiro. Eles estão voltando hoje para o país, a embaixada brasileira disse que eles não fazem ideia do que o sequestrador queria, porque ele não tomou nada deles, nem joiás, dinheiro, nada, apenas mantiveram eles presos, davam comida, água, até mesmo banho. Segundo eles, era um rapaz negro e um senhor de idade, se pensar como a maioria, isso não faz o menor sentido, ser mantidos reféns, sendo que não tiraram nada, nem exigiram nada de outros parentes. A família da Raíza é bem rica, eles poderiam pagar um resgate, mas não, nada disso. O que ocorreu foi que quando Raíza foi presa, dias depois, eles foram soltos. Coincidência? Os policiais daqui não acham, e muito menos eu. Raíza estaria envolvida no sequestro dos pais? Todos acham que sim, afinal, ela matou três jovens, três supostos amigos, por que não pedir para sequestrar os pais? Mas por que disso? Para que eles não voltassem para casa e descobrissem o plano dela? Faria sentido, mas de onde ela tiraria dinheiro para pagar os sequestradores? Ela trabalha em uma loja de calçados e não ganha muito, seus pais não dão dinheiro para ela, Raíza é orgulhosa e se banca por conta própria, ela não poderia juntar dinheiro pra pagar dois mercenários para manterem seus pais em vigia por mais de uma semana, e sem lhes tirar nada. Concluí que isso custaria muito dinheiro, então não há como ter sido Raíza, mas a possibilidade daquilo não ser coincidência era enorme, afinal coisas assim não acontecem todos os dias, e eu sou propenso a acreditar que tudo tem um significado, mesmo que distante da nossa compreensão, tudo é causa de fatores que se encadeiam à partir de certas ações, e levando em conta tudo que havia acontecido até o momento, juntei às partes do quebra-cabeça. Os pais de Raíza eram a coisa mais importante da vida dela. Ela matou três amigos, mesmo que alguém como ela, jamais pudesse fazer isso, ao menos que ela fosse ameaçada, com a vida dos seus pais em troca. Mas aí não faz mais sentido ainda, concorda? Por que dois mercenários que aparentemente não ganharam nada em troca disso tudo, fariam Raíza matar três amigos? Por minha causa? Eu não me envolvi em nenhum negócio explícito e não tenho rixa com traficantes ou mercenários, mas qual seria o outro motivo? Wellington colocou em pauta naquele dia a possibilidade do crime ter sido movido por vingança, ele descartou, porém, que tudo fosse por conta de Aldir. Era uma possibilidade, mas as coisas pendiam para o ciúmes e possessão de Raíza, ainda mais quando ela confessou isso, mas eu nunca acreditei na versão dela. Eu penso que a primeira teoria estava correta, de que aquilo tudo foi por vingança. Prendendo Raíza, fazendo ela matar três amigos, ela que havia quebrado o coração de Aldir, me deixando sem ela, sem Isabela que eu amava, e sem meu melhor amigo, além de me colocar como um dos suspeitos, matando Yago que foi uma das pessoas que acabou com as graças de Aldir no ensino médio, enfim, não faria mais sentido isso do que algo relacionado ao amor? Muitas pessoas matam por amor, mas Raíza não faria isso. Supondo que os mercenários, ou um deles, era alguém relacionado a Aldir, isso faria sentido. Mas sabe o que faria mais sentido? Se alguém que tivesse feito isso, fosse o pai de Aldir, que o amava mais do que tudo na vida, segundo sua mãe. – Naquele momento, eu coloquei a mão em minha cintura, pronto para pegar a faca. Ele não poderia ter descoberto. Não tinha como. Tudo bem que cedo ou tarde eles iriam descobrir que eu era o pai de Aldir, mas o que isso provaria? Nada, eu não tenho nada pra me incriminar, e eu não matei ninguém! Mesmo que eles descubram, eu não posso ser indiciado, os mercenários já sumiram do mapa, eles não podem provar que eu contratei eles, nada pode ser provado, eu apenas tiraria a vida desse merda e iria pescar com meu cachorro, só isso!
– Isso faz mesmo sentido! E você sabe quem é o pai de Aldir? – Coloquei meus dedos sobre o cabo da faca.
– Acho que isso é meio óbvio não é Igor? Você o amava muito, certo? O amava tanto para que o desejo da vingança lhe consumisse. Mesmo que no fundo você saiba que seu filho era um lixo, e que ele não aguentou sua própria fraqueza e tirou sua própria vida. Sabe, dizem que os filhos são o reflexo dos seus pais, e nesse caso, entendo porque Aldir era tão fraco, com um pai fraco e repugnante, como ele poderia ser? – Eu me levantei naquele momento tirando a faca do meu bolso e partindo pra cima de Natan, a coloquei contra o seu pescoço e o prensei contra o sofá.
– Você não sabe nada! VOCÊ O MATOU! VOCÊS O MATARAM! Meu filho só queria amigos no fundo, e vocês tiraram a vida dele sem piedade, humilharam ele diante de todos, ele não é diferente de ninguém, ele não era pior que vocês, seus vermes!
– Não, ele não é, mas você com certeza é, e se eu fosse você, se afastaria agora mesmo.
– E por que eu faria isso? Você já tá morto, moleque.
– Não, ele não está. Solte essa faca, ou você vai e juntar ao seu filho, onde quer que ele esteja. – Ouvi a voz de Wellington atrás de mim. Olhei para trás e ao seu lado estava Kennedy, apontando uma arma para minhas costas. Como isso havia acontecido? Era impossível!
– Como? Não tem como! Você não poderia pensar em mim, apenas por eu ser o pai de Aldir! Foi provado que Raíza usou isso pra despistar, você mesmo disse!
– Sim, eu pensei que fosse isso, mas agora tudo faz sentido. – Wellington sorria enquanto me desprezava.
– Como sentido? Que provas tem contra mim? Eu não fiz nada! Eu apenas perdi meu filho! Eu só fui pra cima do Natan porque ele me provocou...eu não ia mata-lo, que absurdo! – Naquele momento, joguei minha faca no chão, se eu me fizesse de inocente, ainda poderia sair daquela situação. Eles não tinham provas contra mim, pobres coitados, eu havia vencido, eu sempre venço.
– Que provas temos contra você? Digamos que, isto. – Wellington estendeu na minha frente a carta que eu havia escrito, a terceira carta, cuja qual Phelipe encontrou. Eu havia escrito aquilo por um simples impulso, e também para que eles não soubessem quem a escreveu e ficarem na desconfiança, pensando em várias possibilidades. Jamais pensei que eles fossem analisar minha letra, eu havia jogado todos os documentos escritos meus fora da delegacia! Minha assinatura é totalmente diferente da forma que escrevo, não tinha como... naquele momento, me virei, fitei Natan, e percebi o que havia acontecido.
– Sim, você escreveu seu e-mail pra mim ontem Igor. Acabou pra você. – Impossível! Fechei meus punhos e comecei a suar frio, inevitavelmente. Não poderia provar nada com meu e-mail comparando com a letra em que escrevi a carta, aquilo não era nada concreto.
– O que tem a ver? Eu escrevi meu e-mail e daí? Isso prova o que? As letras podem ser parecidas, mas acham mesmo que eu fiz isso? A Raíza me usou! Aquela maldita, ela sabia que eu era o pai de Aldir, isso explica tudo, ela quer me incriminar, aquela garota não sossega até ferrar todos ao seu redor!
– Cala a boca cara, apenas assuma que você perdeu, não há mais volta. – Naquele momento pensei em jogar tudo pro alto e estrangular Natan ali, pegar a arma daquele policial velho e matar todos naquela sala, mas eu me contive, eu precisava me manter calmo, eles não tinham como provar nada, eu não matei ninguém afinal, mesmo que venham a descobrir, eu estou salvo!
– Assumir o que? Que vocês não aceitam que aquela vadia fez tudo isso? Pelo amo! Agora só porque eu fui afastado vão vir pra cima de mim?
– Raíza nos contou tudo. E não, não adianta, a polícia do Chile pegou os seus mercenários. Depois que os pais dela foram libertos, imediatamente a polícia foi atrás dos suspeitos, isso graças ao pai dela que conseguiu descrever perfeitamente a face de um deles, pois ele se descuidou em um momento e deixou seu rosto à mostra. Pode dizer que isso não seria suficiente para incriminá-lo, mas você foi o mandatório do sequestro de duas pessoas, isso confessado pelos mercenários, Juan e Ulivelton, você devia ter investido mais alto se quisera um trabalho bem feito, aqueles dois tem várias passagens pela polícia brasileira, pagar pra eles irem ao Chile foi um desperdício, e confesso que se não fosse o seu e-mail, não estaríamos aqui agora, mas você não fugiria de qualquer jeito. Iríamos chegar até você por meio dos mercenários, Igor, sei que desejava vingança, que ficou chateado, mas você fez com que uma garota de 23 anos matasse três pessoas e fosse condenada por muitos anos, destruiu a vida dos pais dos que morreram, além da de Natan e dos seus amigos, você usou todas as suas economias, pra quê? Por vingança? Isso fará Aldir se sentir bem? Isso o trará de volta? Você é um doente, uma desgraça, os pais de Raíza estão protegidos, convencemos ela a confessar depois de garantir a proteção dos dois. Você pode não passar tanto tempo na prisão quanto ela, mas acharemos mais algumas coisas pra te incriminar, eu não vou sossegar até aumentar essa pena, sua vida acabou por nada, Igor.
– Por nada? Não brinquem comigo! EU consegui seus miseráveis, eu venci! Eu eliminei todos que fizeram mal ao meu filho! Podem me prender, mas isso não muda o resultado. Por nada? Como assim por nada? Eu fiz a justiça que vocês não fazem, a polícia me dá nojo, você que os deixou sabe disso Wellington, não dá pra ficar naquele ninho de cobras, não existe justiça, apenas vaidade, policiais que não fazem nada se não pro benefício próprio, malditos, vocês não entendem minha dor, perderam algum filho? Perderam a única pessoa que vocês amam? Vocês são hipócritas! Podem falar isso, as pessoas só aprendem quando perdem, Raíza e Natan agora sabem a dor da perda, eles nunca mais farão mal a ninguém, eu estou tranquilo comigo mesmo. Foda-se vocês, foda-se toda essa sujeira. Natan, você não me venceu, você não descobriu nada, você apenas pagou por seus pecados. – Quando senti as algemas geladas apertarem meus pulsos, eu sorri na direção daqueles porcos malditos. Eu acho que a pescaria ficaria para outro dia, mas Aldir, filho, eu lhe trouxe a tranquilidade
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