Prelúdio da Morte
24 O Ultimato da Moralidade
Quando cheguei para visitar Raíza, já haviam se passado 3 meses depois da prisão de Igor. Ele havia sido incriminador por suborno, sequestro e participação nas mortes de Carlos, Isabela e Yago. Sua pena foi de 10 anos, um período curto para um ex policial doentio que planejou por tanto tempo uma vingança sem sentido. Eu nunca poderia esquecer as palavras finais, quando ele olhou diretamente em meus olhos e sorriu, eu percebi que havia mesmo perdido. Raíza passaria 30 anos de sua vida na cadeia, enquanto ele, apenas 10. Raíza era jovem, estava no começo de sua vida, Igor já tinha 40, ele havia vivido muito, o saldo era totalmente positivo para os eu lado. Quando me sentei na frente da menina, como de costume, ela não estava sorrindo. Apenas me olhando fixamente com a boca fechada. Era minha terceira visita à ela, prometi ir todos os meses, mas certamente haveria um momento em que essas visitas cessariam. Ela sabia disso.
– Ele pegou só 10 anos, né? Eu já sabia. – Raíza sorriu, pela primeira vez, desviando seus olhos do meu.
– O pessoal da polícia tá trabalhando pra aumentar essa pena, mas não tenho muita esperança. – Naquele momento, a ficha caiu para mim. Percebi que amava Raíza, e que nunca mais iria poder tê-la.
– Não está errado. A lei é essa, eu matei três pessoas, três pessoas que conviviam com a gente, você esperava que eu fosse absolvida? Pagar o que eu fiz ficando aqui? Isso é até bom demais. Eu sou bem tratada, assim como a maioria dos bandidos desse país, não tenho o que reclamar Natan, não precisa se preocupar comigo.
– Sei que você aceitou sua situação, admiro esse seu lado, mas acha certo isso mesmo?
– O que é certo e errado nesse mundo? Você pode definir? – Raíza segurou minha mão, sorrindo, mas de uma maneira triste.
– Não cabe a ninguém julgar. Você matou três para salvar seus pais. Acho que a maioria faria isso. Eles matariam seus pais se você fosse até a polícia. – Eu estava falando aquilo, mas no fundo sabia que não havia perdão para ela.
– Natan, você é inteligente. Sempre foi. Você sabe mais do que eu, que não tem dessa. Eu tive o poder da escolha, escolhi o lado mais fácil. Eu poderia ter ido a polícia e combinado algo para resgatarem meus pais, mas eu fiquei com medo, não havia tempo. Eu fiz isso, aceite, como eu aceitei.
– Aceitar o que? Que você salvou seus pais? Eu não vou te ver como culpada disso, nunca te verei.
– Mas a justiça vê. O Brasil vê. Natan, você vê por aí pessoas indo pra cadeia porque mataram bandidos que ameaçavam matar sua família, isso acontece todos os dias, no meu caso, foi até pior, eu sabia do meu fim.
– E qual o sentido nisso? Você é uma boa pessoa! Não devia estar aí!
– E quem devia? Você? Matei a garota que você amava, Natan, por que ainda está aqui? – Naquele momento, soltei a mão de Raíza. O mundo não era o mesmo, nunca haveria de ser. Quanto mais eu ouvisse sua voz, mais eu enojava todo esse sistema. Afinal, o que é correto nesse mundo? Raíza foi forçada a isso, mas foi culpada. Pessoas por aí matam para sobreviver, e são culpadas, mas assim como ela disse, ela teve o poder da escolha, o poder que cabe à todos os humanos quando se deparam com dois caminhos. O que nos difere de animais? O que nos torna superiores? Nossa força não é tão equivalente às nossas fraquezas. Olhei para os olhos de Raíza, onde lá jazia as mágoas de um futuro arruinado por um sistema quebrado.
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