Depois de tudo que eu havia visto, certamente, eu tinha uma única certeza: Alguém daqueles jovens era mesmo o culpado. Estava evidente, e racionalmente pensando, não havia outra lógica por trás dos crimes. Natan, com aquela planta, no momento, era um dos mais suspeitos, e alguém ter o atacado indica isso. Quando fui falar com Natan no hospital, ele me contou a versão de que estava deitado em sua cama, quando alguém entrou pela sua janela, o que já achei muito estranho. Eu estava na sua casa horas antes, o portão é bem alto pra qualquer pessoa pular, e a janela do quarto de Natan fica do outro lado da casa, a pessoa teria que dar uma volta toda e se apoiar em algo pra subir até a mesma, que ficava mais ou menos dois metros do chão. Não havia nada na cena do crime que indicasse que alguém havia subido até a janela de Natan, e se alguém realmente fez isso, essa pessoa teria deixado o apoio atrás da janela, pois, supondo que ela pulou o portão, como ela levaria o apoio consigo? Ao menos que estivesse com mais uma pessoa para lhe dar suporte, o que acho improvável. Analisando esses fatos, posso chegar a conclusão de que: Ou Natan está mentindo, e ele mesmo se espancou pra não levantar suspeitas contra si, ou então, alguém entrou em sua casa deliberadamente, alguém que havia como entrar. Natan me disse que na manhã de ontem, João esteve em sua casa. João, a pessoa que, antes das suspeitas de Natan, era a que eu mais suspeitava. O rapaz disse que seu ‘amigo’ foi conversar sobre o caso, mas não ficou por muito tempo. Não sei o quanto essa visita é relevante pro caso, mas poderia alguém ter uma forma de entrar no quarto de Natan, sem ter entrado pela janela, como o garoto disse? Ele pode ter se confundido, ou então, a pessoa que entrou, pode ter se apoiado na janela, para parecer que ela entrou por lá, quando na verdade, ela entrou pela porta da frente, o que pra mim, parece impossível também, visto que a mãe do jovem disse com convicção que só eles tem a chave da casa, e ela mesma tranca o portão e a porta da frente todas as noites, às 22:30. Natan foi atacado às 3:20 da manhã. Isso pelo menos me deu uma pequena luz, se eu investigar todos os jovens, e descobrir o que cada um fez nesse horário, poderei chegar a algum lugar, ao menos que Natan esteja mentindo, ou então, que esse espancamento não teve nada a ver com as mortes da chácara, o que eu já considerava difícil. Alguém espancou Natan por algum motivo, mas qual seria? Teria essa pessoa tentado mata-lo, ou só queria assustá-lo? Enquanto refletia no banco do hospital, vi uma figura interessante. Uma garota de aproximadamente 18 anos, com um olhar melancólico e olhos triste, seus cabelos negros já me faziam imaginar quem seria, com a descrição que eu tinha em mente. Seria mesmo o destino ao meu favor, ou aquilo não era coincidência nenhuma?”

– Você é Kelly, certo? Veio visitar seu amigo? – Me aproximei da jovem sem demandas, apenas queria ser direto, era quase 8 da manhã e eu estava com fome demais, não queria enrolação.

– S-sim, sou eu. E o senhor quem seria? – A menina trazia consigo uma caixa de chocolates em suas mãos, eles pareciam caro, o que me remeteu à ideia de que ela não era uma garota ‘qualquer’, e que certamente estava ali para visitar Natan.

– Eu sou Wellington, muito prazer, sou detetive particular, estou investigando o caso da chácara e vim ver como Natan está. Você também veio certo? – Fui direto com a menina, se ela se esquivasse, era só eu ir atrás, até ela falar alguma coisa, eu podia ser bem teimoso quando queria, mas pelo olhar de alívio da mesma, parecia que teria uma conversa bem cooperativa com a jovem.

– Você é mesmo um detetive? Pode ajudar?

– É o que eu tentarei.

– Soube quem foi que bateu no Natan?

– Eu ainda não descobri, e dificilmente descobrirei até falar com todos os seus amigos que estavam na chácara. – Naquele momento, senti um olhar mais repreensivo vindo da garota que olhava para baixo, sem saber o que dizer, ou como me encarar. Depois de um breve silêncio, ela me olhou novamente e moveu seus lábios.

– Acha que foi um de nós então? Eu também acho. – Para minha surpresa, aquela resposta foi proferida.

– Acha? E tem alguma suspeita? – Eu pretendia falar com todos eles, mais cedo ou mais tarde, mas parece que estou encontrando-os antes de procurar. Eu era mesmo sortudo assim?

– Sou uma pessoa consciente...eu sei que foi alguém de nós, vi três amigos mortos, eu nunca vou me recuperar disso, tudo que eu queria, era saber quem fez isso, e porquê.

– E depois de saber, o que pretende?

– Bom...eu espero que a justiça seja feita.

– Todos esperamos que a justiça seja feita minha querida, mas nem sempre acontece.

– E é por isso que você vai ajudar, né?

– É...e depois desse ataque de hoje, eu sei que, quem fez isso, pode fazer muito mais.

– O senhor quer alguma coisa de mim? – Eu estava começando a gostar daquela menina. Ela era clara e objetiva, respondia tudo querendo ajudar, diferente da Raíza que tem um temperamento forte e orgulhoso, Kelly parecia uma jovem mais calma e com uma bondade que eu percebia no fundo de seus olhos, mas a maioria dos assassinos que já conheci por aí, também tinham esse olhar.

– Poderia me responder rápidas perguntas se não for atrapalhar? Mas claro que antes te deixarei ver o Natan.

– Eu adoraria ajudar. – Com isso, deixei a menina visitar seu amigo, e depois nos encontramos na lanchonete do hospital, um lugar nada apropriado para uma conversa, mas dadas às circunstâncias, era o que tínhamos pra hoje.

– Como foi lá? Ele pareceu melhor?

– Ele estava todo roxo, eu não imagino que alguém fez isso, será que o culpado desconfia que o Natan sabe de algo? – Kelly parecia se importar muito com seu amigo, e naquele momento, já percebi que ela não o via somente como amigo, mas não queria expor fatos que não contribuíam para a investigação.

– O Natan ajudou bastante o Igor, ele ouviu o depoimento de todos na chácara, certamente, alguém está com medo de algo que ele sabe, e que provavelmente nem ele percebeu. Mas bem, não quero ficar no ‘se’, eu quero saber de você, Kelly, como você descreveria os crimes daquele domingo? – Kelly ficou pensativa por alguns minutos, ela parecia confusa, mas logo me encarou.

– Como aconteceu?

– Sim, em sua visão.

– Acho que minha visão não é tão diferente da versão que a polícia sabe. Foi o que o Igor relatou, eu não sei de muita coisa.

– Mas eu gostaria de sua opinião, esqueça detalhes de tempo ou coisas tolas, eu quero saber de você, o que acha que aconteceu?

– Eu queria saber também...Eu sei que pareço suspeita por estar chorando perto de onde a Isa estava morta, mas se eu soubesse, jamais teria ficado por lá.

– E por que estava chorando?

– Eu sei que o que direi agora, é omissão de informação para com a polícia que me questionou o mesmo, mas de alguma forma, confio no senhor. – Fiquei feliz com a confiança da menina, mas eu meio que já sabia o que ela diria.

– Era pelo Natan. Eu sinto algo...por ele, sabe. Depois que vi todos comentando dele ficar com a Isa, eu meio que me isolei, eu não aguentei, sou uma pessoa emotiva, tive que colocar tudo pra fora, e quando ele me encontrou, eu caí na real de quanto infantil eu estava sendo. Ele sempre me viu como amigo, sou uma tola.

– E depois disso, você viu o Natan indo até o galpão e encontrando a Isabela? Onde você estava antes?

– Eu vi claramente, e quando me aproximei...vi aquilo, nem quero me lembrar. Antes de tudo eu estava com o Yago e a Amanda na churrasqueira, eu fiquei uns quinze minutos deprimida mexendo no celular, mas eu juro, eu não vi a Isabela entrando no galpão.

– Você quer dizer que ficou 15 minutos sentada de frente pro galpão e não viu a Isabela por lá?

– Exato.

– Bianca e Julianna disseram que a Isabela saiu 10 minutos antes do corpo da mesma ser encontrado, como explica?

– Eu estou falando a verdade. EU estava de frente, se eu visse alguém ali, perceberia. Ninguém entrou no galpão.

– Está dizendo que as duas mentiram?

– Sim, se não foi isso eu não sei. Elas devem ter confundido os horários, estavam bêbadas já.

– E o que me diz dos motivos?

– Motivos? – A garota me olhou sem entender, naquele momento, senti que isso era a coisa mais importante, que eu estava deixando de lado.

– Pra matarem os três, sabe.

– Eu não acredito em um motivo. Pra mim isso foi coisa de algum doente, só pode, mas o pior é que ninguém de nós, que estávamos lá, parecem psicopatas doentis, isso eu não entendo!

– Sim Kelly, porque eles não são. Sempre há motivos, eu estava falando isso com Natan, por mais pequeno que seja, há um motivo. O problema é que esse motivo pode não caber para as três mortes.

– O que quer dizer então?

– Que uma, ou duas mortes, foram apenas pra ‘despistar’, pra que as suspeitas caíssem em outra pessoa, ou seja, vidas humanas foram usadas como distração, como eu disse, essa pessoa não é um simples psicopata, é um monstro. – Kelly começou a respirar de maneira ofegante, ela parecia querer sair correndo.

– Isso é tão cruel... Como pode?

– Casos assim são normais, por mais insano que pareça, pessoas matam por uma bala.

– Mesmo assim, que motivos teriam?

– Primeiro precisamos descobrir: Quem era mesmo pra morrer?

– Como assim?

– Uma pessoa dos três mortos, era o alvo principal. Eu já formulei muitas coisas em mente aqui, e acho que sei quem é esse alvo.

– E quem seria?

– Me perdoe, eu não gostaria de colocar minhas ideias pra fora nesse momento, eu prefiro só dizer quando estiver totalmente certo, mas me diga você, Kelly, quem você acha que era o alvo principal? – Eu acho que havia pegado pesado demais com uma garota que era no mínimo, um tanto lerda, porém, ingênua eu sabia que não tinha nada.

– Eu diria que qualquer um. – As palavras de Kelly me fizeram esboçar um longo sorriso.

– Ah, é? E por que acha isso?

– Pelas cartas. A pessoa que fez isso parecia querer vingança, e Isabela mora nessa cidade a menos de dois anos, ela não poderia ter feito nada, não que eu ou alguém soubesse, nesse período, ela era uma garota bonita, claro, mas não se destacava muito. Yago era um cara adorado por todos, tirando Carlos, esses dois não tinham motivos pra morrer, então eles apenas foram escolhidos. – A astúcia da garota me fez pensar o quão errado eu estava. Kelly não era nada lerda, pelo contrário, devia ser a garota mais inteligente dos suspeitos.

– Entendo... Mas vingança do quê? Isso não faz sentido. Se Isabela mora a menos de dois anos, por que ele mataria ela? Digo, eu entendo que matar qualquer um pra deixar todos com medo é uma boa jogada inicial, mas, quem foram essas pessoas que pecaram? – Eu havia colocado uma questão interessante para Kelly. Até o momento, a garota não parecia com uma assassina, mas eu não poderia me apegar às aparências.

– Eu acho o contrário, Wellington, Kelly e Yago, os únicos dentre todos lá que ninguém odiava, morreram. Eu não acho que foi aleatório, essas duas pessoas morreram, justamente para atingir uma outra pessoa. – As palavras da garota reforçaram totalmente minha ideia. Isabela e Yago não tinham motivos pra morrer, eles morreram pra outra pessoa ficar abalada, afinal, matar duas pessoas que se ama é pior do que morrer. E a única pessoa que poderia ter sido atingida por isso era Natan.

– Você concorda?

– Seria fácil, se não fosse por um detalhe.

– Qual?

– Amanda.

– O que tem?

– Ora, o que tem, ela tentou ser assassinada também! Isso nos coloca na estaca zero. Suponhamos que Yago e Isabela foram mortos para atingirem alguém, Carlos morreu porque sabia de tudo, mas, e Amanda?

– Amanda? Mas ninguém tentou matá-la! – Eu começava a desconfiar que Kelly estava ficando confusa, acho que era demais pra alguém que havia passado pelo inferno.

– E o veneno no whisky? Como não tentaram matá-la?

– Não soube? Eu falei com a enfermeira dela mais cedo, descobriram que não tinha veneno nenhum no whisky! – Naquele momento, meu coração começou a bater mais rápido.

– Como não? Como ela quase morreu?

– Coma alcóolico. Amanda já passou por isso várias vezes, ela é uma alcóolatra. – Aquela informação havia me pego de surpresa. Eu não podia acreditar ainda.

– Mas isso é possível? Eu preciso falar com essa enfermeira dela, agora mesmo. – Antes que eu pudesse me dirigir até o quarto de Amanda, outra cena espetacular surgiu naquele hospital.

– Que diabos...!? – Kelly arregalou seus olhos quando viu Raíza se arrastando pelas paredes brancas do hospital enquanto sangue jorrava de suas costas. Ela se encostou na parede, sem forças, e apenas caiu no chão deixando a parede coberta de vermelho.