Era só mais uma daquelas festas universitárias entediantes, onde as pessoas ficavam encostadas em uma parede encarando umas às outras, ouvindo músicas da moda que ninguém gostava, apenas esperando o tempo passar enquanto falavam de coisas repetidas, era um desperdício de tempo e energia, se não fosse pelo churrasco saboroso que o Yago sabia preparar. Acho que era uma das únicas motivações para estar lá no meio daquelas pessoas cuja quais só conhecia duas, me sentia um pouco desconfortável e deslocado quando Yago, Amanda e Kelly estavam longe, mas estando no segundo ano da faculdade de direito, eu acho que já conseguia lidar com aquele tipo de situação. Na maioria das vezes tentava evitar eventos desse tipo, mas especificamente, nesse dia, eu não podia deixar de vir, afinal, ela estava lá.

– Natan, por que não vai até a varanda do fundo? Acho que vai gostar o ambiente. – João Carlos Ilhani, um dos novatos do primeiro ano que só falava comigo a respeito de jogos, se aproximou com uma pseudo indireta tentando me deixar sem jeito, mas o mesmo não conseguiu, eu estava acostumado com esse jeito despojado do rapaz, ele podia parecer meio falso com esse sorriso estampado em seu rosto não importasse o local, mas no fundo, era uma boa pessoa.

– Ela está com a Julianna e a Bianca, não seria legal eu aparecer lá. O que eu diria? Ei suas vadias, caiam fora e deixe eu ficar sozinho com a Isabela pra dar uns pegas? Acho que não é uma boa opção. – Ao dizer aquilo, percebi que havia alguém atrás de mim, naquele momento, minha espinha gelou, senti um arrepio da ponta dos pés até o pescoço, se fosse a Isabela, acho que eu estaria queimado sem ao menos ser cozido.

– Vocês homens só falam nisso? – Por sorte do destino, ou o que quer que seja, era Kelly Tavares , minha amiga de infância. Com seus longos cabelos negros, pele clara e olhos arregalados, a menina vivia me ipertinando, parecia um passatempo agradável para ela, mas às vezes eu também dava o troco, ela possuía um ar de mistério que sempre chamou minha atenção, era uma garota inteligente e calma, podia até parecer fria em certos momentos, mas esse era seu charme.

– Claro que não! Falamos também de sexo anal, de bukkake e outros termos que você já deve conhecer. – João não media esforços em colocar palavras que as pessoas não queriam ouvir, quando elas menos queriam ouvir, era um rapaz alto e bem magro, tanto que me sentia um pouco inferior por estar um ano à frente do mesmo e ser uns 10 centímetros mais baixo.

– Ah claro, sei de tudo, e sabe quem me ensinou? A sua irmã. – Kelly parecia um adolescente com os hormônios em ascensão, e diante de sua resposta, Raíza, mesmo distante, ouvira sua afirmação falsa.

– Ei vadia, eu ouvi isso, depois que apanha chora. – Raíza era irmã de João, diria que os dois eram bem parecidos, tirano a aparência, Raíza era baixa e com um aspecto delicado em seu rosto, seus curtos cabelos faziam ela parecer ainda mais jovem, mas a sua personalidade não se distinguia de João, ela era até mais brincalhona.

– Você aí jogando poker com três homens, e quer falar alguma coisa? Se toca! – Pra quem não conhecesse as duas, podia pensar que um briga estava prestes a acontecer, mas Kelly conhecia Raíza muito bem, as duas sentavam do lado uma da outra, aliás, esqueci de dizer mas todas as 12 pessoas nessa festa faziam direito, uma festa de supostos futuros advogados e promotores em uma chácara abandonada com carne de segunda, acho que isso não combinava, mas duvido que a maioria ali chegaria até o fim do curso, principalmente os três rapazes que jogavam poker junto de Raíza. Carlos Jakar era um garoto vindo do Rio Grande do Sul, seus cabelos louros evidenciavam esse fato, além de sua personalidade prepotente, não querendo estereotipar as pessoas do sul, mas ele em questão se achava demais, tanto que só andava por aí com roupas de marca e sempre com seu iphone em mãos, claro, com intuito de atrair garotas com a mente pequena esbanjando futilidade. Do seu lado estava Phelipe Cardoso, um rapaz que mesmo no segundo ano, já estava com 4 dp’s, o mesmo ia um dia da semana e os outros matava aula para ir em bares ou pegar alguma vagabunda barata qualquer, ele era uma pessoa solitária, isso era evidentes, seus olhos negros e cabelos encaracolados, usando um óculos de aviador, o faziam parecer um tipo e pessoa que ele não parecia ser. O terceiro elemento era Guilherme Onore, um metaleiro de 29 anos, a pessoa mais velha ali, e isso era aparente por seu visual pesado, seus cabelos iam até sua cintura e sua barba exagerada fazia com que as pessoas o ‘temessem’, mas no fundo, era um rapaz de poucas palavras e tranquilo.

Na churrasqueira, como eu havia dito, Yago fazia com que aquele churrasco valesse a pena, o cheiro daquela costela grelhada já estava me dando fome, me aproximei do jovem que possuía um forte espírito de amizade e companheirismo, com seus 18 anos, era a segunda pessoa mais nova dali, mas com a personalidade mais experiente, Yago se dava bem com todos, apesar de ser o típico homem nerd viciado em séries e hq’s, as pessoas o admiravam por sua simpatia, mesmo sendo gordinho, ainda haviam garotas que se aproximavam dele, o que me deixava com inveja.

– Ei cara, você bem que disse, olha o tempo se fechando, se chover vamos ter que jogar banco imobiliário lá dentro hahaha. – Yago soltava o espeto que acabara de virar e olhava para o céu, onde várias nuvens negras chegavam lentamente.

– Droga Natan, você vive agourando, será que tudo que você fala acontece? Lembro daquela vez na excursão da oitava série onde você falou que o ônibus ia quebrar, e quebrou mesmo! Ficamos na estrada por mais de uma hora naquele calor infernal e você rindo de todos, se chover eu farei questão de te amarrar ali naquela árvore pra cair um raio em sua cabeça. – A garota que não parava de falar e que fazia alguns drinks na pia do quiosque era Amanda, uma amiga de infância, típica garota estressadinha e orgulhosa, mas que no fundo era só uma pessoa sensível querendo atenção, seus cabelos louros dourados e seu corpo e estatura baixa fazia com que todos os garotos a notassem, a não ser por sua voz estridente.

– Aliás, Natan, pega aquela assadeira ali e vai servir as meninas na varanda, elas devem estar com fome. – Dito isso, pensei que Yago também estava conspirando para que eu me aproximasse de Isabela, mas sabia que o rapaz não tinha más intenções, aposto que ele mal sabia que eu me interessava na garota, eu costumava ser uma pessoa fechada, apenas João que infelizmente, tinha que assumir que era um bom observador, percebeu a maneira que eu olhava e me preocupava com Isabela, afinal, ele era o melhor amigo da menina, os dois estavam na mesma classe, e ele sempre me ajudava a ficar mais íntimo dela. Eu acho que deveria trata-lo um pouco melhor às vezes, mas quando ele começou a rir e zoar da minha cara ao pegar a assadeira com carne, mudei de ideia imediatamente.

– Eu pensava em te servir, mas agora vai comer pão.- Peguei a assadeira e caminhei em direção à varanda do fundo daquela casa bem rústica, era uma chácara pequena, não havia muitos campos abertos em seus arredores, apenas uma casinha no meio do mata, a paisagem era até bonita, tinha que confessar, aquele local foi escolhido por Julianna Perenato, uma das amigas de Isabela, aquele churrasco foi marcado por conta de sua despedida, a menina iria viajar pra o exterior depois de ganhar uma bolsa, o que era motivo de comemoração dela e inveja de outros, eu particularmente ficava feliz pela menina, ela era bem inteligente e dedicada, morava sozinha e cuidava de sua avó doente, era uma pessoa bem simples e honesta, uma boa companhia para Isabela, não querendo escolher as pessoas que a menina anda.

Ao chegar na varanda, me deparei somente com Bianca Lima, uma prima de Julianna de 16 anos, a menina parecia entretida jogando Dissidia em seu PSP, era uma garota que eu nunca havia falado, a não ser dado olá e bom dia, ela não parecia muito de papo, mas quando cheguei, imediatamente ela desligou o vídeo game e fitou a carne que eu acabara de trazer.

– Já era tempo hein, cadê os garçons do recinto quando se precisam deles? – As primeiras palavras que ouvi da menina me surpreenderam, mesmo sendo a mais nova por ali ela parecia bem ativa e familiarizada. Essas adolescentes de hoje em dia estão mais soltas do que se pode imaginar, pensei comigo mesmo.

– Os garçons se demitiram depois que souberam que a carne era feita com os cadáveres coletados ontem à noite hahaha. Deu trabalho viu, trate de comer bem. – Falei aquilo no intuito de testar a garota, queria ver se ela era tão avida como aparentava, e novamente me surpreendi.

– Não são judeus né? Acho que isso contaminaria meu sangue alemão, mas obrigado, me dá logo antes que a Ju chegue.

– Ei pirralha, você vai mesmo me desafiar assim? Confisco o seu PSP e te coloco trancada no quarto. – Naquele momento, Julianna havia chegado com bebida em mãos tendo uma conversa bem sádica com sua prima, estava curioso pra observar àquilo.

– Só porque esse é ‘seu’ churrasco não pense que é a rainha ok, e rela em meu PSP que dou na sua cara, tá se achando porque vai lá pros Estados Unidos pegar alguns riquinhos.

– Ela só está abusada assim porque tá na sua frente Natan, geralmente ela é bem bobinha. – Julianna havia pago metade do churrasco sozinha, ela convidou apenas as pessoas que mais falava no curso de direito, a maioria do segundo ano e da sua classe, o primeiro ano, que mal fora aproveitado já que a garota, em pleno mês de julho, vai trancar pra estudar em um lugar bem melhor do que Mauá. Queria ter eu essa sorte, mas acredito que até o último ano eu só vou ser chamado pra estudar em etecs de bairros afastados.

– Aliás, a Isabela não estava aqui? – Minhas palavras saíram e maneira espontânea, só depois me dei conta que havia cortado o assunto banal das duas pra falar de Isabela, mas nada daquilo me deixava mais envergonhado, pois naquele domingo, eu decidi chegar na garota, mesmo com altas chances de ser rejeitado, eu sabia que Carlos estava de olho nela, e não podia deixar ele sair na frente.

– Você sempre de olho nela hein, aposto que ficou a festa toda pensando em como se aproximar dela. Já são 16:02, é melhor parar de perder tempo hahaha.- Julianna era uma garota direta e sincera, gostava desse seu lado, apesar de alguns rumores de que ela era falsa quando menos se esperasse.

– Ela foi lá pro banheiro mas parando pra pensar, ela foi a uns 15 minutos. Não queria te dizer isso Natan, mas ela também caga, apesar daquela aparência de idol que ela tem. – Bianca havia puxado para sua prima quanto à língua afiada.

– Que absurdo! Pensei que ela era a perfeição universal, depois dessa acho que vou ir ver os marrecos lá no lago e pensar sobre a vida. – Me retirei do local deixando a assadeira de carne para as duas garotas excêntricas, e como uma desculpa qualquer, entrei dentro da casa para me encontrar sozinho com Isabela, poderia ser uma boa oportunidade. A casa possuía 6 cômodos no total, eram dois quartos, uma cozinha com corredor, uma sala bem vasta, um banheiro e um quarto de entulhos como toda casa velha tem. O local era usado bem pouco, por isso o preço barato, mas apesar disso o ar que vinha da floresta próxima dali conseguia me deixar relaxado, ao ponto de me esquecer que não gostava de festas daquele tipo.

Ao procurar Isabela, não a encontrei pelos corredores da casa. Fui até o banheiro e não havia sinal da menina. Pensei que ela poderia estar no quiosque na parte de fora pegando alguma bebida, mas lembrei que ela não bebia nada com álcool. Na parte de fora da casa, haviam duas varandas, a da frente, onde tinha um quintal com uma piscina e o quiosque, e a do fundo, com uma mesa de pilhar e algumas cadeiras. Fora do portão havia um pequeno campo de futebol e um galpão abandonado, parecia um celeiro, mas bem menor. Fitei por todos os cantos do local e não vi Isabela. Será que ela havia saído com Carlos pra algum local isolado? Foi aquilo que pensei no momento, comecei a ficar mal sem nem ter certeza, foi quando olhei para a mesa onde os garotos jogavam poker e vi Carlos e Raíza cochichando, sozinhos. Ele era mesmo um mulherengo. Phelipe e Guilherme não se encontravam por lá, parece que eles haviam se dado mal no jogo. Na churrasqueira, Yago parecia passar mal, aquilo me chamou atenção na hora, ele olhava para baixo colocando a mão na cabeça, talvez tinha passado tempo demais perto do fogo. Amanda não estava mais por lá, vi ela voltando dos fundos com uma garrafa de vodka, ela só pensava em bebida. Olhei novamente para o quintal, vi João na piscina, enquanto que Guilherme e Phelipe saíram do meio do mato, na hora já pensei besteira, mas decidi não ligar, eles devia ter ido fumar maconha, afinal, faziam aquilo sempre na faculdade.

As únicas que não encontrei foram Kelly e Isabela, no momento mais um dos meus pensamentos idiota passou por minha mente. Estariam as duas se pegando? Mas se sim, onde? O galpão me veio à mente, eu sabia que aquilo era improvável, Kelly até que podia ser um pouco masculina em seu jeito, mas Isabela jamais. Ao caminhar até o local, percebi que Kelly estava sentada embaixo do gol enferrujada do campinho de futebol. Me aproximei da menina tentando entender o que se passava.

– Kelly? O que houve? – A menina parecia angustiada, eu nunca havia a visto daquele jeito, mesmo conhecendo-a bem.

– Na, você pode pegar um copo de coca pra mim por favor? Eu só não to bem... – Eu não perguntei nada, apenas fui pegar o refrigerante pra garota, mas antes, fui dar uma espiada no galpão, afinal, Isabela só podia estar lá. Mas o que ela iria fazer lá? Será que ela também fumava maconha e eu não havia notado? Eu devia mesmo parar de pensar besteira. Quando abri a porta, uma camada de poeira se impregnou em meu rosto, aquilo me fez tossir e meus olhos arderam como fogo, tudo era muito escuro, não havia porque Isabela estar ali, me senti um tremendo idiota. Antes de fechar a porta, senti um odor incomum. Não era poeira, não era a fumaça da churrasqueira, mas um cheiro de ferrugem. Olhei mais atentamente dentro do galpão, quando vi um corpo esticado no chão. Meu coração foi e 0 a 100 em 1 segundo. Comecei a suar frio, eu não queria ver, não queria ver quem era. Percebi o sangue jorrado no chão e na parede ao lado, aquilo era uma pegadinha certo? Só podia, como algo assim iria acontecer? Estava tão em choque que impulsivamente relei no cadáver, o virando rapidamente. Aquela imagem jamais sairia da minha cabeça. Foi como se eu tivesse recebido vário tiros no coração, tudo que pude fazer, foi gritar, ao ver Isabela com sua barriga aberta e uma faca gravada em seu útero. Desde então, aquela não era mais uma festa qualquer que eu odiava. Era a festa do desespero.

Notas finais
Primeira morte: Isabela.