Prelúdio da Morte
7 Caído
Aquilo já estava começando a me cansar. Como dois mortos poderiam escrever duas cartas? A teoria de que Carlos era o assassino e possuía um cúmplice, ou vice-versa, já começou a ir para o ralo quando todos confirmaram que a letra daquela segunda carta, era mesmo a de Yago, até que Amanda surgiu com uma ideia bem improvável, que me fez ficar pensativo.
– Pessoal, será mesmo que isso foi um trabalho de um de nós? – Naquele momento, ouvíamos o som da chuva diminuir, olhei para o céu e só via a cor púrpura que predominava. Deus não estava do nosso lado.
– O que quer dizer? Que foi o capeta mesmo? – Guilherme começou a rir da cara de Amanda.
– Mas não tem explicação! Como a carta pode ser do Yago, sendo que ele morreu? O mesmo foi com o Carlos, isso é impossível. – Amanda estava de certa forma, certa. Eu não imaginava duas pessoas mortas escrevendo cartas, mas nem que um demônio estivesse por lá fazendo uma carnificina.
– Eu concordo quanto às cartas, ela não pode ser dos dois, a primeira podia até ser do Carlos, mas essa não tem como ser do Yago. Você disse que achou no banheiro, certo Phelipe? Porém, antes de você sumir, alguns minutos atrás, eu estive sempre com Yago, e ele não foi ao banheiro, o último que foi ao banheiro fui eu, antes de você, e não havia nada lá, onde você a encontrou? – Perguntei à Phelipe que parecia bem confuso, seus olhos se focavam cada segundo em uma pessoa.
– Achei em cima do vaso, ela estava bem aparente, qualquer um que entrasse notaria! – Naquele momento todos olharam para mim, era óbvio que desconfiariam, afinal, acabei de confessar que fui o último a entrar no banheiro.
– O que tem a dizer, Natan? – Igor começou a me focar com estranheza.
– Eu disse que não vi nada!
– Então gente, foi o demônio, algum ser espiritual, sei lá! – Amanda continuava a frisar sua teoria maluca que ninguém colocava fé, exceto por Kelly, que também concordava.
– Eu não quero acreditar que Natan fez as cartas, a letra dele é horrível, ele não poderia imitar a do Carlos e do Yago, sendo que as viu uma vez. – Kelly parecia um pouco menos deprimida, apesar de que todos ali estavam quase sem forças.
– Olha gente, vamos se focar na lógica! Natan foi o último a entrar no banheiro, mas também o Phelipe pode estar mentindo, ele mesmo pode ter escrito as cartas e falando que achou no banheiro, tem essas duas possibilidades, e nada mais! – Igor colocou tanto a mim como Phelipe em posições de risco, no momento, éramos os únicos suspeitos por ali.
– De quarquê forma, vamos embora! Fica aqui só vai dá merda. – Gerônimo, a única pessoa aparentemente calma por ali, sem ter passado por alguns horas infernais, parecia o mais sensato. Realmente era hora de sair daquele lugar, tendo ele um demônio ou não.
– Sua casa fica longe? – Perguntou Igor tentando novamente se comunicar com outros policiais.
– Uns 20 minuto andano. Melhor do que fica aqui. – Com as palavras do senhor, todos partimos daquela chácara coberta por sangue. Ninguém podia esquecer as mortes, os corpos sem vida de nossos colegas, e ninguém também podia esquecer, que um de nós, devia ser o assassino. Na caminhada, todos pareciam inseguros, ninguém ficava do lado um do outro, exceto por Bianca e Julianna que pareciam confiar uma na outra, naquele momento, nem Igor fugia das suspeitas, todos caminhavam com medo de tomar um tiro pelas costas, por isso deixamos Igor ir na frente com Gerônimo. Caminhamos enquanto a chuva cobria nossa visão, o mato começava a ficar alto, não era bem uma trilha, entramos em um vegetação densa que nos arranhava, mas sentíamos que o alívio chegava cada vez mais que nos afastamos da chácara.
– Cara, você não acha isso estranho. – João se aproximou de mim, pela primeira vez depois de algumas horas, sussurrando.
– O que?
– A Bianca e a Julianna, elas vivem cochichando, uma não para de cutucar a outra, isso é muito suspeito. – Eu gostava das duas garotas, achava que elas tinham um bom caráter, mas a observação de João era correta, elas estavam agindo de uma forma bem estranha.
– Isso é...Mas, antes de tudo, não me vê como um suspeito?
– Por que eu veria? Você é um dos que está visivelmente tentando fazer algo. Eu acredito muito mais no Phelipe e no Guilherme, esses dois tem algo, ainda mais que eles saíram pra ‘fumar’, fumar o caralho, eles foram matar a Isabela.
– E por que você acha isso?
– Você pode não acreditar, mas quando o Guilherme voltou lá do mato, eu vi na bermuda dele uma pequena mancha de sangue. – Com aquelas palavras do João, logo levei meus olhos até a bermuda de Guilherme tentando encontrar algo, e para minha surpresa, bem no canto inferior esquerdo, havia mesmo uma mancha vermelha.
– Viu? Eu disse! Eu não quis contar isso pra ninguém porque vai que ele tem uma arma e dá cabo na gente de vez. Eu só acho que os homens aqui, com o Igor, deveríamos amarrar ele, quando ele menos espera. Ele e o Phelipe, aposto que aquele drogadinho é cúmplice, ele escreveu a carta e fugiu, ele pretendia deixar o Guilherme. – As teorias de João eram um pouco precipitadas, mas de fato aquela mancha vermelha foi notada por mim. Mesmo que pudesse ser de vinho ou outra coisa, qualquer traço que encontrássemos até então, poderia ser algo crucial para essa matança que esperava eu, ter chegado ao fim.
– Puta merda, santa maria. – Enquanto ainda conversava com João, ouvi a voz grave de Gerônimo ressoando alguns palavrões, e logo olhei para frente, o que pude ver deixou todos também paralisados.
– O que significa isso? Perguntou Igor balançando a cabeça negativamente.
– A mardita ponte, ela tava intera quando passei! – A ponta que ligava a casa de Gerônimo com a região da chácara, havia sido destruída. Ela era de madeira, o que me fez pensar que daria um trabalho, derrubá-la.
– Escuta aqui cara, como assim a ponte caiu do nada? – Igor já começou a desconfiar da índole do fazendeiro.
– Eu juro por Maria! Hoje de manhã passei daqui e ela tava intera, se não eu nem tinha chegado aqui uai! – O rio cortava uma boa parte da região, até chegar ao seu fim, era uma longa caminhada, aquele era o único caminho mais próximo da casa do rapaz.
– Então quer que eu acredite que a chuva fez isso? – Igor perguntou já furioso.
– A chuva o meu cu! Foi você não foi!? Você é o assassino, você se escondeu na chácara o tempo todo, e agora vem com esse papo tentando bancar o herói, deve ser um lunático solitário, só você poderia derrubar a ponte porra. – Guilherme parecia bem exaltado, o que não afetava Gerônimo que era um homem bem ponderado.
– Menino, eu to tentando ajuda!
– Esperem, por que diz que o Gerônimo e só ele poderia derrubar a ponte? Tava chovendo pra cacete – Bianca frisou.
– Sim, mas era uma ponta firme, isso até eu cumprovo, não ia caí com uma chuva. – Dizia o senhor.
– Então você acha que alguém a derrubou mesmo? – Raíza naquele momento, olhava para Phelipe que se sentia indignado.
– De novo eu!? Puta que paril, eu fugi sim horas atrás, mas pro ou tro lado! O Igor tá de prova, eu fui pra lá, por onde entramos!
– Sim, ele tem razão, ele não teria tempo de fazer isso. Acho que nenhum de nós aqui, teria. – Naquele momento um frio súbito desceu sobre minha espinha. Olhei para Amanda que parecia bem assustada, antes de tudo, ouvi rumores de que ela era xamanista, mesmo que em sua aparência ela pareça bem patricinha, mas a ideia de uma força sobrenatural agindo sobre nós já estava me assustando.
– Talvez seja mesmo um demônio. – Disse Julianna tentando pegar área em seu celular, mas sem sucesso.
– De novo isso? Pelo amor de Deus... – Guilherme se afastava do grupo, já farto de ouvir falar em demônios. Ele era ateu e todos sabiam, eu acreditava em Deus, mas também não conseguia acreditar que havia mesmo um demônio querendo nos matar.
– Pessoal, como sou idiota! – Naquele momento, João deu quase um grito no meio de todos.
– Que foi agora? – Resmungou sua irmã.
– A casa da chácara, ela tem uma parabólica, não tem?
– E daí? – Perguntou Phelipe.
– Eu li uma vez, em uma revista, acho que na superinteressante, como usar uma antena de televisão pra aumentar o sinal do celular.
– Ah cara, prefiro ouvir dos demônios do que essa bobagem aí! – Igor não levou fé no ‘plano’ de João.
– Mas é verdade! Só precisamos de um cabo USB pra ligar no receptor, eu consigo área no celular com isso. – Todos ficaram descrentes com isso, mas no momento, era nossa única chance, teríamos que voltar de qualquer jeito.
– V-vamos...voltar? Eu não quero, eu vou embora! – Kelly ficava branca no momento em que todos pensaram em voltar para a chácara.
– Ei moça, eu to armado aqui e juro que so do bem. O seu polícia aí também parece. Ninguém vai tentar algo, sem tomar uma bala na cabeça. – Gerônimo tentava passar confiança pra todos, mas ninguém ali, acreditava em ninguém.
Todos voltaram para a chácara, cansados e cabisbaixos, e eu não parava de pensar na mancha de sangue do Guilherme, e em quem diabos podia ter derrubado a ponte. Antes que eu pudesse formular alguma teoria, estávamos de volta ao inferno. João correu para dentro tentando encontrar o USB de sua bolsa. Todos depositavam sua fé no rapaz, que não era lá um dos mais inteligentes do grupo. Porém, ao chegarmos na sala principal onde havia a tv, algo me chamou atenção, algo que estava fora do lugar.
– Gente... – Julianna também havia notado.
– O que foi? Bianca viu os olhos espantados de sua amiga e questionou-a.
– Cadê a porra do corpo do Yago? – Todos olharam para os arredores da sala. O corpo de Yago havia sumido.
– Então é ele? Ele se fingiu de morto e escreveu a carta? Só pode ser! – Raíza começou a ficar ofegante.
– Calma gente, calma! – Igor não queria ninguém em desespero.
– Ei, não é só isso, olhe lá, no canto. – Bianca notou que havia mais uma carta, jogada no canto da porta central. Igor a pegou, e ao abri-la, nos leu o seu título.
– “O Pecado que todos cometeram aqui, não pode ser esquecido. Nunca poderá.”
Fale com o autor