Prelúdio da Morte
20 Aldir Guimarães
Finalmente eu já sabia o que significava A.G. Aldir Guimarães. Um garoto que estudou no ensino médio junto de Natan e Yago em um colégio industrial. O garoto parecia sofrer de depressão e morreu em 2009, por suicídio. O jovem se enforcou no banheiro da sua casa um dia depois que voltou do colégio. Naquele momento, eu estava na casa de sua mãe, Claudia, ela pareceu surpresa com minha visita, mas depois de certo período de tempo, a mantive segura, e ela se sentiu à vontade para falar sobre seu falecido filho.
– Eu finalmente entendo...o senhor está aqui pra saber do caso da chácara, não é? – Claudia era uma senhora simpática, tinha por volta de 50 anos, uma mulher serena e melancólica, vivia com seu esposo depois de se separar do seu marido antigo, que preferiu não comentar sobre – como consequência da morte de Aldir -, Claudia o culpava, mas na verdade não via sentido nisso. Ela disse que não queria falar a respeito do ex marido, mas sobre Aldir, ela podia dizer o que quisesse, então, formulei algumas perguntas, se bem que a senhora já estava à par de minha visita.
– Exato. Natan e Yago, você os conhece?
– Se os conheço? – Claudia levantou em uma súbita raiva, parecia me encarar como alguém que estava pronta para sair por aí gritando. – Eles são os causadores da morte de Aldir! – Estremeci com aquelas palavras. Meu coração, de alguma forma, começou a palpitar, minha pele fria me fazia pensar no porquê de estar me sentindo desconfortável com tudo aquilo, fui policial por vários anos e encarei casos cruéis demais para qualquer pessoa se sentir tranquila pelo resto da vida ao ouvi-lo, então qual o problema naquelas palavras? Natan e Yago foram os causadores da morte de Aldir? Minha curiosidade só aumentava, logo, disparei algumas perguntas como uma criança procurando conhecer todas as pequenas coisas do mundo.
– Como? Eles eram amigos? Me conte exatamente o motivo que a senhora acha que foi a causa do suicídio do seu filho. – Claudia me encarou com desprezo, acho que eu não havia escolhido as palavras corretas.
– Se acho? Eu tenho certeza. Aldir era um amor, um bom garoto, pode perguntar pra todos que estudaram com ele, ninguém o odiava, todos admiravam ele por suas notas, exceto aqueles dois sujeitinhos. Sendo sincero senhor policial, quando soube da história da chácara, senti que Deus estava fazendo sua parte. – Me enojei com as palavras da mulher. Pensei que ela era mais sensata e imparcial do que isso, colocar Deus em questão naquele momento era demonstrar sua ignorância e falta de caráter, quem iria comemorar a morte de três jovens saudáveis que aparentemente nunca tinham feito nada pra ninguém? Me senti desconfortável em dialogar com ela naquele momento, desde que entrei naquela casa, senti algo estranho. Costumo julgar as pessoas por onde elas moram, e não digo isso no lugar, pode haver pessoas bem miseráveis, mas que ao entrarem em suas casas, sinto um aconchego, um local seguro, mas quando entrei ali me senti pressionado, o clima pesado me sufocou, todas aquelas imagens de santos espalhadas pela casa e aquele silêncio, tudo me deixava descontente, mas tais detalhes não podiam motivar em minha investigação. Me recompus, mesmo querendo retruca-la com toda sinceridade que jaz dentro de mim, mas me segurei ao máximo, tinha que entrar no jogo da mesma para extrair o que ela sabia, mesmo que, naquela altura, aposto que ela só iria difamar Natan e Yago.
– Eu não sou um policial, madame, mas não importa. Me diga tudo que sabe, o que esses dois fizeram pro seu filho? – Depois de ouvir por mais alguns minutos o quanto Aldir era santo, o que eu começava a duvidar e muito, ela foi direto ao ponto.
– Os dois mexiam com ele todo dia! Sempre implicavam com o menino, tudo porque ele era..como vou dizer, gordinho. Na verdade ele era obeso, mas o que isso tem a ver? Sei que hoje em dia tudo é motivo pra tentar acabar com uma pessoa, se ela não entra nos padrões de beleza da sociedade, ela sofrerá. Aldir nunca ligou pra isso, sempre teve alguém o caçoando pelo seu peso desde a primeira série, mas esses dois pegavam pesado. Aldir era apaixonado por Isabela, uma garota que mal cheguei a conhecer, e pelo que sei, que também estava naquele churrasco...não vê, policial, isso é obra de Deus! Meu filho encontrou a paz agora. – Aquilo me pegou de surpresa. Isabela estava envolvida também? Ignorei a opinião pessoa e as besteiras da mulher, aquilo estava me enojando demais, mas esperei ela retornar sua narrativa. – Bom, Deus sabe o que faz. Essa menina nunca olhava pra ele, aposto que tinha nojo, assim como a maioria dessas biscatinhas por aí, Aldir era muito bonito, apesar do seu peso, ele era inteligente e tinha um bom coração, essas garotinhas vulgares de hoje em dia nunca entenderiam. Ele nunca me dizia nada, mas eu percebia, eu pegava de vez em quando ele falando no telefone com um amigo, e dizia todas essas coisas, Aldir era solitário, eu fui descobrir isso só depois de um tempo, mas até então estava tudo bem, ele tinha sua família, de quem mais precisaria? Pensei que as coisas iriam continuar como eram, até que esses dois começaram a mexer com Aldir, eles escreviam coisas em sua carteira, mandava mensagens ofensivas em seu Orkut, Aldir foi obrigado a apagar todas as suas redes sociais, pois Natan e Yago juntaram um grupo pra zombarem do meu filho. Ele começou a ser taxado de baleia rosa na escola, aos poucos as ofensas aumentavam, mais pessoas se juntavam ao exército contra ele, isso tudo por culpa desses dois, que segundo um amigo dele me falou, um dos únicos que ele tinha, foram movidos por Isabela. – Naquele momento, lembrei de uma coisa. Não tinha como ser a mesma Isabela, ela nem estava morando aqui naquela época. Certamente Claudia havia se confundido. Fiquei mais aliviado, mas, será que a moça se chamava mesmo Isabela, ou Claudia viu o nome da morta e queria que essa garota se chamasse Isabela? O nome pouco importava, até então, acreditava na história da senhora.
– Senhora, o Aldir demonstrava sinais de depressão ou que estava incomodado com o tratamento que recebia?
– Isso era raro! Aldir era um garoto muito bom, ele nunca quis preocupar os pais, ele não demonstrava quando estava triste ou com raiva, tentava ser o filho perfeito, mas eu como mãe, ah, eu sabia de tudo! Aldir se trancava em seu quarto e começava a rezar, pedindo pra Deus pra aquele inferno acabar, isso partia meu coração, eu ficava sem chão, o que poderia eu fazer pelo meu filho? Quis transferi-lo de colégio, tentei convencê-lo várias vezes, mas ele sempre recusava, e isso tudo por causa daquela garota...que jaz no colo do satanás! – Me segurei para não dizer que a tal garota em questão ainda estava viva, e que a Isabela morta nem morava por aqui antes. – Enfim... o que isso tem a ver com a investigação? Eu ainda não entendi, acha que o Natan pode ter dito algum envolvimento com as mortes? Não duvido nada, aquele garoto é a encarnação do mal, que Deus o tire logo desse mundo também, ele só trás sofrimento às pessoas, eu encontrei com ele algumas vezes, sempre tentava bancar a imagem de garoto honesto, bom, mas isso é tudo fachada! Ele só quer ser respeitado, mas por dentro é um assassino, ele matou meu filho e sabe-se lá quantas outras pessoas, meu ex-marido e eu nos divorciamos por conta desse demônio também, ele queria matá-lo a todo custo, mas o que isso nos traria? Mais dor! Eu não queria um marido preso, e depois de várias brigas ele decidiu se afastar, jurando vingança algum dia. Eu rezo para que esse garoto tenha o que merece, mas não pelas mãos de pessoas da minha família, um dia a justiça divina chegará até ele, o senhor não acredita? – Comecei a pensar que foi uma má ideia ter ido naquele lugar, a mulher, além de tudo, era uma tagarela. Meu fingimento não conseguia mais ser mantido, estava prestes a dizer uma ou duas verdades, quando voltei meu foco novamente à investigação, ao porquê de estar ali.
– As pessoas um dia, tem o que merecem senhora. Resumindo, Natan e Yago começaram a mexer com Aldir, pelo simples fato dele ser gordo, certo? – Perguntei isso à Cláudia com um Q de dúvida no ar, eu não sabia dizer como, mas não acreditava nas palavras rasas proferidas por aquela figura estereotipada em minha frente, parecia tudo maquinal, já vi muitas crentes fanáticas, aquilo não me afetava ao ponto de ficar tão nervoso (por mais que eu estivesse mesmo), e mesmo assim, eu não imagino Natan fazendo algo do tipo, até porque ele não é alguém que juntaria grupos, ele é um lobo solitário, e pelas fotos que vi e Yago, mesmo no passado, este sempre teve alguns quilinhos a mais, então eu não vejo esse o motivo para a morte de Aldir, mas também não enxergava mentira nos olhos da senhora, por mais tendenciosa que ela fosse, Aldir deve ter se matado por problemas na escola, mas não só por esse motivo, e eu sabia já como descobrir aquele suposto mal entendido.
– Eu creio na força do nosso senhor! Pode anotar, foi o Natan que matou os três, acho que o Yago sabia alguma coisa dele, eles eram parceiros no crime, dois canalhas, assim como Isabela, Natan quis silenciar os dois, já com Carlos, ah, isso foi consequência, o garoto é psicopata, necessita matar para se satisfazer. Por que estão demorando tanto pra prender o moleque? É tão óbvio! – Eu não conseguia mais ficar nenhum minuto mais naquela casa. Se eu falasse que Natan já estava preso, ela teria um orgasmo em minha frente. Me levantei e agradeci pelas informações da senhora, mas antes, fiz uma última pergunta:
– A senhora poderia me dizer qual o nome da escola onde seu filho estudava junto com Natan?
– O que isso tem a ver? Bom, tanto faz, se for pra prender o miserável. Era a industrial do centro, a unidade 2. Por favor senhor policial, peço com clemência que faça justiça, por mim, e por meu marido, mesmo que ele não esteja aqui mais. – Percebi que a mulher se referiu ao seu ex marido como marido, uma atitude um tanto estranha, e o mais estranho era que não vi traços do marido atual dela pela casa. Será que era um casamento informal? Nunca entenderia esses crentes fanáticos. Deixei aquele lugar horripilante e fui até a escola industrial. Lá consegui algumas informações preciosas, a primeira pessoa que entrevistei, a mais velha de lá, Selena, a inspetora que trabalhava no local a mais de 23 anos, como aquela era uma escola pequena, somente para alunos filhos de servidores públicos, pensei na possibilidade dela se lembrar de Aldir, ainda mais, pelo garoto estar morto.
– Na época foi um grande choque! Como não me lembrar? Ele era um garoto problemático, isso não nego. — A primeira resposta da senhora com seus cabelos grisalhos e enrolados não me surpreendeu, apesar de tudo.
– O que ele fazia para ser problemático? – Perguntei enquanto nós dois nos sentávamos em um pequeno banco no pátio da escola. Os alunos olhavam das janelas das classes para mim como se fosse um monstro, afinal, deviam estar pensando o que um senhor gordo trajando um sobretudo negro fazia por ali mexericando nos arredores. Voltei minha atenção à Selena enquanto a mesma respondia:
– O que? Tudo! O garoto mexia com todo mundo, era o tipo infantil, até demais, sabe. Ele nunca fazia nada nas aulas, vivia matando aula aqui, roubava o lanche dos meninos da quinta série, até que um dia ele foi ameaçado por dois alunos, e daí então, começou a parar com as graças. – Eu estava começando a entender tudo.
– Esses dois alunos, por acaso, são esses? – Tirei do meu bolso as fotos de Yago e Natan, claro que, do ano em que eles estudavam ali. Tive certo trabalho para conseguir aquelas fotos, esperava que elas desse um bom resultado.
– Olha, eu não me lembro bem... – Aponto a senhora para a foto e Natan. – Mas esse rapaz aqui, ele é familiar. Ah, lembrei! Ele era um dos que pediam para Aldir parar de mexer com os outros. Era ele mesmo! Esse outro aí, eu não consigo lembrar, mas deve ser o amigo dele. Acho que eram eles! Essa foto é recente ou daquele tempo? Porque esse menino não mudou nada se for atual, ele era muito bom aluno, mesmo com pouca idade mostrava ser sério, maduro, diferente dos outros, quando ele defendeu uma garota da sexta série na época do Aldir, ele passou a ser conhecido na escola toda, e desde então, Aldir começou a ser zombado pelas crianças. Antes disso, as pessoas tinham medo dele, por ele ser alto, forte, e ter um pai que diziam ser assustador, mas esse menino e o outro moço foram os únicos capazes de ir contra ele, e felizmente conseguiram! Depois disso Aldir se isolou, ele ficava sempre só, ninguém queria amizade dele, dizem que ele se matou depois que foi humilhado por uma menina da classe dele, mas até hoje ninguém tem coragem de afirmar nada do seu suicídio. Foi triste isso viu! Um garoto perdido, porque do jeito que era, tava claro que não tinha auxílio da família, rebelde e mal educado, caiu na depressão quando viu que tinha cavado sua própria cova. – Tudo que eu ouvia da senhora até então fazia com que eu odiasse mais ainda Cláudia. Como ela podia inventar tal história? É claro que eu estava confiando no relato de Selena, ela era do tipo de senhorinha honesta que só quer chegar em sua casa e fazer o jantar pros netos, uma pessoa agradável, eu sentia isso, diferente de Cláudia que mentia e pendia as coisas para seu lado, ok que mãe sempre vai defender o seu filho, mas mentir daquela forma... Estava começando a desconfiar que eu tinha mesmo, certo dom para detetive, depois da minha intuição estar correta.
– Acredito que as pessoas um dia tem o que merecem. – Aquela frase fez a senhora se calar por alguns segundos. Eu falei algo tão maniqueísta para uma senhora que parecia vir de uma família tradicional com valores honestos, mas de alguma forma, ela sorriu, e deu dois tapas em meu ombro.
– Não se preocupe, não vou pensar mal de você. Gosto de pessoas de opinião. Claro que foi uma tristeza a morte dele, mas, se se matou, é porque era fraco, ele não aguentou as coisas ruins que fez na vida, e essa foi sua saída. Ele teve o que mereceu, e ele quem decidiu isso. Só nós mesmos decidimos o que merecemos. – Aquela frase pareceu tocar meu coração. Foi muito bom ter conversado com Selena, é raro hoje em dia achar alguém da idade dela com a mente aberta e um coração bondoso. Agora que eu já sabia da verdadeira versão sobre Aldir, só me restava falar com essa tal de Isabela, que hora foi confundida com a falecida pela fanática.
Depois de algum tempo na diretoria do colégio, e depois de argumentar muito com a diretora pra saber o sobrenome da moça, fui à procura da mesma. No momento ela era uma atendente do McDonalds. Acho que realmente as pessoas tem o que merecem. O relato de Claudia e de Selena em relação à menina era o mesmo, uma pessoa que só ligava pra coisas materiais, costumava usar os garotos para conseguir o que queria, e humilhava aqueles que ela desprezava. A frase da senhora não parou de ecoar em meu cérebro, desde então. Minha conversa com ela foi rápida, Isabela acreditou quando eu disse que era um policial, não sei porque mas temi que se não falasse isso, ela não me diria nada. A garota contou toda verdade, mesmo que envergonhada e com a voz baixa. Parecia estar triste pela morte de Yago, apesar de que, parecia-me que eles não se falavam a algum tempo. Isabela confirmou que humilhou Aldir e que ela mesma fez um grupo virtual para zombarem o rapaz. Acho que Cláudia não estava tão errada no fim, só não sabia ela que seu filho era um marginal.
A questão de tudo no momento, era: O que Aldir tem a ver com os assassinatos? A.G poderia ser mesmo de Aldir Guimarães? Aquilo não era nenhuma certeza, as possibilidades no momento eram:
A.G é sim a abreviação de Aldir Guimarães, e quem fez isso, fez com o intuito de vingar a morte do garoto, matando Yago, melhor amigo de Natan, e Isabela. Carlos foi apenas um cúmplice usado e descartado. Mas essa teoria não me agradava, pois os únicos ali que conheceram Aldir (E eu investiguei isso muito bem) eram Yago e Natan. Quem então estaria envolvido?
A segunda possibilidade, e mais plausível no momento, é a de que Natan inventou isso tudo, ele era o único vivo que sabia de Aldir, colocou às assinaturas nas cartas e marcou o pescoço de Carlos com A.G, já pensando que poderia ser preso e usar isso ao seu favor. Ele pensou na possibilidade número um, e de que isso poderia livrá-lo da culpa, mas por outro lado, poderia culpa-lo ainda mais! Se bem que isso explicaria a morte de Yago, ele com certeza escreveu uma das cartas, e quanto a Carlos... parecia que Natan e ele não se davam bem, mas e se ele e Yago eram cúmplices, e os dois foram silenciados? Mesmo assim, ainda falta a morte de Isabela, o que me faz voltar na primeira possibilidade. Tudo aquilo estava me embaralhando, foi quando percebi um detalhe que não tinha percebido antes. Aquilo foi uma luz enorme, mas será que eu estava correto? Será mesmo...
Naquela noite, resolvi fuçar as redes sociais de Aldir, a maioria havia sido excluído, mas no MySpace (quem usava aquilo ainda hoje em dia?) sua conta ainda estava ativa. Dei uma vasculhada, e realmente, haviam várias mensagens ofensivas, mesmo depois que o garoto morreu! Humanos sabiam mesmo como serem mórbidos, mas o que mais me espantou naquele momento, foi um dos amigos de Carlos na rede social. Eu entrei e ampliei a foto para ter certeza. Ficou claro que ele e aquela pessoa se conheciam. Pra mim, o caso já estava encerrado.
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