No momento em que Raíza se levantou, um sorriso pleno estampava seu rosto corado.

– Eu não nego, você não podia estar mais certo. – Ela dizia isso para Wellington, mas olhava para mim. Por que ela estava chorando? Arrependimento? Aquele sorriso, eu já o havia visto antes. Aquilo não estava certo, algo está muito errado, e isso eu sei.

Meu passado com Raíza não foi dos melhores, eu confesso, mas eu não podia imaginar que ela fosse o tipo de garota ciumenta ou vingativa, e que muito menos poderia tirar a vida de alguém, ainda mais do Yago. Ficamos juntos depois que nos conhecemos em uma biblioteca. Ambos eramos amantes de romances policiais, aquilo foi uma ironia do destino, eu estava destinado a conhecer a pessoa que mais amei na vida, em um lugar onde, isso supostamente, poderia tê-la inspirado. Começamos a ficar por algumas semanas, a cada dia que a conhecia melhor, percebia que ela não era o que os outros diziam ser. Raíza era julgada por ser diferente dos demais, era isso que acontecia com pessoas que saíam foram do círculo estabelecido pela maioria, a minoria acabaria sendo tachada, e no final, começam a inventar alguns boatos, até que essa pessoa fique no chão. Eu e Raíza, não nos importávamos com isso, acho que por esse motivo nos dávamos bem. Depois do incidente do Aldir, começamos a namorar. Eu sabia que o garoto gostava dela, mas ela o desprezava, assim como a maioria do colégio, no fundo, eu sentia pena dele, tentei ajuda-lo em vários momentos, mas sem um sentido maior, afinal, as pessoas nunca mudam, elas apenas se revelam, e Aldir já havia se revelado a muito tempo. Ele ameaçou Raíza várias e várias vezes, mantemos isso em segredo porque João é um cara bem fora do controle, eu não sabia o que ele poderia fazer. Quando Aldir se matou, pensei que aquilo tinha a ver com João, mas depois descobri que era por conta de Raíza. Ele a amava ao ponto de se quebrar por completo, o garoto sempre foi fraco, mas me ver com ela o feriu mais ainda. De alguma forma, não sinto culpa ou remorso, cada pessoa escolhe eu caminho, seu caráter define para onde cada um vai, e o rumo que ele escolheu era sem volta. Alguns começaram a culpar Raíza pela morte e Aldir, eu estava protegendo-a, tive que brigar com muitas pessoas para que ela fosse deixada em paz, mas no final, a garota não resistiu à pressão que sofria, e se mudou com seus pais para Valinhos. Naquela época, continuamos juntos, mas a distância acabou nos afastando, até que cada um seguiu seu caminho. Desde então, sempre vinha pensando nela, até quando ela voltou, repentinamente, me abalando por completo. Haviam se passado dois anos, naquele momento, eu havia conhecido Isabela. Ainda pensava nos dias que passei com Raíza, mas meu coração já estava em outro lugar, por mais que eu quisesse sentir aquilo do passado, Isabela me deixava cada dia mais balançado, e quando Raíza descobriu isso, parece que ela mudou completamente o jeito de ser. Se tornou uma garota mesquinha, até mesmo vulgar, mas eu sabia que aquilo era uma farsa. Ela nunca soube fingir, e eu me sentia o maior vilão daquela peça. Pensei que se eu conseguisse ficar com Isabela, aquilo que restava dentro de mim poderia ir embora, mas estava enganado. Eu tentei me aproximar de Raíza, mas ela sempre agia indiferente comigo, não consegui mais me manter firme, e comecei a procurar por uma luz, que sabia que não apareceria. No dia seguinte do massacre na chácara, ela me ligou e me disse uma única frase: “Eu nunca te esqueci, me desculpa Natan.” Desde então, eu já sabia que havia algo de errado com ela. Comecei a temer pelo pior, mas não imaginaria ela cometendo tais crimes. Depois de pensar por muito tempo, comecei a concluir que ela era mesmo a culpada. Ninguém mais poderia ter matado Carlos, eu me neguei a ver ela indo se encontrar com Isabela, e inventei a história em que vi ela com Carlos. Aquilo não foi antes, aquilo nunca aconteceu. Eu queria negar pra mim mesmo, mas a verdade me consumiu. Quando percebi que ela queria me culpar, tive que falar sobre Aldir. Desde o começo pensei que A.G tinha a ver com ele, mas precisava de uma prova firme. Agora tudo faz sentido, e no fundo, nada mais faz.

– SUA PUTA! Você matou a Isabela por ciúmes? Por que ela iria ficar com o Natan? – Julianna pensou em ataca-la, mas Bianca a parou.

– Não vale a pena, ela já tá ferrada.

– Mano, como assim? Você era tão gente boa! – Phelipe olhava para mim, decepcionado.

– Bom, com isso, concluímos tudo. – Disse Wellington enquanto a polícia entrava na sala. Será mesmo que tudo havia sido definido?

Aquele foi um dia bem triste, por mais que a verdade havia sido revelada. Raíza, depois de confessar tudo, foi levada para a cadeia, e eu, fui liberado, mas isso depois de muita enrolação, como acontece na maior parte das vezes no Brasil, se tratando do que quer que seja.

Chegando em minha casa, no fim da noite, fui recebido calorosamente por alguns parentes, até parece que eu estava saindo da cadeia, o que era realmente uma verdade, mas achei tudo aquilo desnecessário. Eles não sabiam do meu envolvimento com Raíza, ninguém ficou sabendo de todos os motivos contados naquela sala, exceto a polícia e Wellington, mas aposto que daqui alguns dias tudo isso se espalhará pela cidade, algo assim não poderia ficar oculto por muito tempo, e eu não seria bem visto pela maioria das pessoas que me ‘conheciam’, e já esperava isso. Eu havia motivado o assassino, a culpa em tese era minha, mesmo que no fundo, eu não me culpasse, só me arrependia do fato de não ter passado mais tempo com Raíza, depois de tudo isso, percebi que eu ainda a amava. Será que é porque Isabela está morta? Mas, Raíza está bem pior, provavelmente nunca mais a verei, e isso me fazia ter um aperto no peito, queria poder abraça-la mais uma vez, e se alguém soubesse disso, certamente seria espancado, como assim, alguém amando um assassino? O fato é que não consigo ver Raíza como assassina. Todos aceitaram muito bem aquilo, Wellington tinha muitas teorias e provas, e Raíza confessou tudo, então por que, mesmo depois de uma confissão perante a polícia, eu ainda não consigo acreditar nisso? O amor pode fazer coisas insanas com a gente, mas eu costumava ser racional, mesmo que a paixão tomasse conta do meu ser, nunca menti pra mim mesmo, por mais que mentisse para os demais. Havia algo de muito errado.

Ao me deitar na cama, naquele quarto escuro e frio, silencioso e que me fazia temer a vida, depois de falsidades vindas de parentes que não via a anos, comecei a pensar com mais clareza, deixando toda parte melancólica de lado dessa história trágica com um final supostamente feliz. Mas aquilo não estava feliz demais? Não estamos em um romance policial. Coloquei meus fones, assim ficava mais à vontade para pensar em tudo que havia acontecido. O olhar de Raíza, aquele não era o olhar de alguém com culpa, era o olhar de alguém aliviada. Por que o alívio? Ela estava indo para a cadeia! Eu queria fugir com ela, pensei nisso por um instante, não era bem algo sensato, então voltei às declarações de Wellington.

Peguei da gaveta ao lado da escrivaninha um pequeno bloco de notas e uma caneta, ascendendo o abajour que ficara ao lado da cama, comecei a anotar algumas anomalias que não tirei da cabeça o dia todo.

A primeira delas: Era impossível para Yago ter sobrevivido àquele tiro. Só quem viu a cena poderia afirmar isso, Igor poderia afirmar isso. Ele estava morto, mesmo que ninguém houvesse verificado...espera, algo começou a vir à minha mente. O que era mesmo? Ninguém verificou o corpo de Yago? E por que não fizeram isso? Igor não deveria verificar? Mesmo assim, ele estava morto, estava com um buraco quase na barriga, a chuva não poderia ter tirado o sangue da grama, alguém o levou até o lago, mas quem fez isso? Quando tal ato ocorreu, todos estavam tentando sair pela ponte...que também não concordo que a chuva a tenha derrubado, afinal, eu já havia passado por lá, é uma ponte bem resistente, antes, já houve chuvas bem mais fortes que não a danificaram. O que aconteceu realmente? A pessoa que moveu o corpo de Yago para o lago poderia ser cúmplice de Raíza? Mas era fato de que não havia mais ninguém pelos arredores, a polícia e outros fazendeiros da região confirmaram isso, então como? Acreditei em Wellington por falta de pessoas para fazer isso, mas pensando nesse ponto, é impossível. Quando fechei meus olhos por um instante, pensei em uma possibilidade, mas para isso, precisava conversar com Igor para que ele me confirmasse.

No dia seguinte, por sorte, consegui alguns minutos com Igor, que ainda estava afastado, e já tinha planos de abrir um negócio, uma sorveteria em um bairro bem afastado do centro da cidade.

– Então, o que te fez vir atrás de um policial fracassado meu jovem? Saudades da nossa parceria? Eu fiquei sabendo de tudo ontem..eu realmente sinto muito, não sabia do seu envolvimento com Raíza, aquilo me pegou de surpresa. Mas sabe, ela sempre me pareceu suspeita, por mais que você ainda sinta algo, ela teve o que mereceu, as pessoas sempre tem o que merecem. Tirar a vida de alguém é um ato imperdoável, ainda mais por motivos fúteis, não acha? – Igor parecia muito triste naquele dia, e eu não saberia dizer porque. Estávamos em um parque perto da casa do mesmo, sentados em um banco enquanto víamos pessoas caminhando com seus cachorros em uma vida monótona e sem graça.

– Eu queria perguntar uma coisa. Quando você foi atrás do Phelipe, você realmente o achou onde nos disse? – Igor me olhou com estranheza, ele não entendia o porque daquilo, e na verdade, nem eu.

– Como assim? Claro que foi lá, por quê?

– Eu estava pensando, será mesmo que Yago foi mesmo sozinho até o lago? Pra mim isso é impossível.

– Pensa na possibilidade do Phelipe ter feito isso quando ele sumiu? Eu pensei nisso também, mas ele não teria força, isso é improvável, demoraria mais do que o tempo que tudo ocorreu.

– Sim, tem isso... Será mesmo que o Yago estava vivo quando tomou o tiro?

– As pessoas costumam ser bem resistentes. Eu mesmo já vi casos de tiros na cabeça e pessoas que conseguiram sobreviver. Yago pode ter desmaiado na hora, recobrado a consciência e ido até o lago, em busca de água, já que sabia que morreria. Eu sei que o tiro foi certeiro, mas o calibre 9mm não é tão fatal assim, pelo que a perícia constou, não acertou em nenhum órgão vital, isso pode explicar, se ele tivesse sido medicado, poderia até estar vivo. E isso de fato, acaba nos culpando mais ainda, principalmente a mim. Mas já tomei as consequências disso, não é?

– Sim, eu acho que sim... Bom, só queria confirmar isso com você mesmo, eu queria muito que o culpado não fosse a Raíza, mas eu estou viajando demais.

– Eu te entendo cara, perder as pessoas que amamos, não é fácil. Você perdeu duas ao mesmo tempo, deve estar doendo, mas isso vai passar, você é um garoto forte, confie em mim. – Depois daquela nossa conversa rápida, pedi para que Igor me passasse o e-mail dele para contato, dei a ele uma caneta e um cartão de um táxi que havia em minha carteira. Nos despedimos e voltei para casa, onde Wellington me esperava.

– Por que está tremendo meu jovem? – Wellington olhou para mim enquanto eu já havia entendido tudo, depois de pensar durante aquela caminhada.

– Eu acho que cometemos um grande erro, detetive.